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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




Fonte: http://www.ubebr.com.br/


GILBERTO MENDONÇA TELES

 

Um dos primeiríssimos nomes da poesia de Goiás. Há tempos tento comunicar-me com ele, além das leituras de sua fértil poesia... Ambos temos residência temporária em Pirenópolis, mas a sorte ainda não nos colocou um diante do outro. Certamente já cruzamos pelas ruas empedradas da mágica cidade colonial de Goiás que nós tanto amamos...

Gilberto é um grande poeta, um grande ensaísta. Hoje começo com uns poucos de seus versos, da obra notável que é Plural de nuvens (Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1990). Em outra oportunidade, depois de um encontro que vai acontecer em algum momento, publicaremos outros poemas e a foto do autor...            Antonio Miranda

Convidado oficial da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, participa da antologia  POEMÁRIO da I BIP.

Veja também: GILBERTO MENDONÇA TELES  - EN ITALIANO     /     EN FRANÇAIS

See also: POEMS IN ENGLISH

POESIA VISUAL DE Gilberto Mendonça Teles

Veja também: O PRIMEIRO POETA GOIANO, por Gilberto Mendonça Teles

Veja também: QUERO QUE A ESTROFE SAIA SEM UM DEFEITO, por José Fernandes [sobre a poesia inicial de Gilberto Mendonça Teles]

 

Capa do convite para a cerimônia de outorga do título de DOUTOR HONORIS CAUSA
a Gilberto Mendonça Teles pela PUC- GOIÁS no dia 27\09\2014.

 

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS - TEXTOS EN ESPAÑOL

 

De
Gilberto Mendonça Teles 
Linear GPoemas 2002 – 2009
São Paulo: Hedra, 2010.  149 p.
ISBN 978-85-7715-194-3

Um novo livro de Gilberto Mendonça Telles é sempre um acontecimento literário. Com o propósito de celebrar e divulgar, nos limites estreitos de nossa lei do direito autoral (que está para ser reformada e tomara que adote o sentido do “fair use” para os efeitos da educação e da cultura, quando sem fins lucrativos), segue um dos poemas do livro:

 

PAIXÃO

— Quanto dura uma paixão?

Uma paixão não dura nada, apenas
a eternidade simples de um sorriso
que, por ser belo, e possuir antenas
capta constantemente o paraíso.

Uma paixão é sempre um peixe grande,
uma alegria que se torna amarga
quando se perde a noite e, na manhã
de sol, se perde o anzol na linha larga.

Nem adianta, aí, mudar de isca,
cevar o poço e procurar no fundo:
o peixe da paixão é sombra arisca
na melhor pescaria deste mundo.

Ela não dura muito e, por ser peixe,
não dura na emoção, não dura nada:
se se perde no fundo, é sempre um feixe
de luz
         — alguma escama nacarada,
caco de vidro, areia no sol quente
que cintila e se apaga, de repente.

***************************************************************************************

PLURAL DE NUVENS

 

Se há um plural de nuvens e se há sombras

projetadas no texto das cavernas,

por que não mergulhar, tentar nas ondas

a refração dos peixes e das pedras?

 

Há sempre alguma névoa, um lado obscuro

que atravessa o poema.  Há sempre um saldo

de formas laterais, um como escudo

que não resiste muito a teu assalto.

 

Se alguma luz na contraluz se esbate,

se há curso dos dias sole e vento,

talvez na foz do rio outra cidade

venha no teu olhar amanhecendo.

 

Importa é ler de perto a cavidade

das nuvens e espiar os seus não-ditos:

o mais são armas para teu combate,

falsos alarmes para os teus sentidos.

 

 

DECLINAÇÃO

 

O mar não me levou:

                                   o meus cuidados

(o que era ruim /o que era bom demais)

ficaram por aí, pelos cerrados,

à sombra dos paus-terras de Goiás.

 

O mar não me lavou:

                                   meu corpo todo

tem as marcas da terra – o sol, o chão,

os cheiros doces dos quintais, do lodo,

e a febre do meu T nesta sezão.

 

Eu sou quem sou. Não me mudei. Mudou-me

uma parte da vida, mas foi sem:

não me levou nem me lavou,

                                               livrou-me

da danação de todo mal, amém.

 

(Se houver louvor aqui, se alguma luva,

qualquer pessoa a pode usar por mim:

a minha história é como um guarda-chuva

que a gente esquece,

                                  quando chega ao fim.)

 

 

 

CHÁ DAS CINCO

                                para Jorge Amado

 

Chá de poejo para o teu desejo

chá de alfavaca já que a carne é fraca

chá de poaia e rabo de saia

chá de erva-cidreira se ela for solteira

chá de beldroega se ela foge ou nega

chá de panela para as coisas dela

chá de alecrim se ela for ruim

chá de losna se ela late ou rosna

chá de abacate se ela rosna ou late

chá de sabugueiro para ser ligeiro

chá funcho quando houver caruncho

chá de trepadeira para a noite inteira

chá de boldo se ela pedir soldo

chá de confrei se ela for de lei

chá de macela se não for donzela

chá de alho para um ato falho

chá de bico quando houve fuxico

chá de sumiço quando houver enguiço

chá de estrada se ela for casada

chá de marmelo quando houver duelo

chá de douradinha se ela for gordinha

chá de fedegoso pra mijar gostoso

chá de cadeira para a vez primeira

chá de jalapa quando for no tapa

chá de catuaba quando não se acaba

chá de jurema se exigir poema

chá de hortelã e até amanhã

chá de erva-doce e acabou-se

 

(pelo sim pelo não

                               chá de barbatimão)

 

 

ANÚNCIO

 

1

Troco urgentemente uma secretária

eletrônica, 22ov, bastante conservada

    (motivo mudança de amor e domicílio),

por uma secretária invisível,

dessas que fazem desaparecer

tudo de repente:

                           colóquio de alquimistas

                           congressos de bruxas

                            reuniões de catedráticos

                            e até o I simpósio

                            de mulheres jubilosas.

 

Que seja loirena e diligente,

que seja meiga, sobretudo quando visível.

Que não se esqueça dos pequenos aniversários

(uma semana disso, um mês daquilo)

e os saiba comemorar condignamente

nalgum lugar secreto:

                                   ilha ou limbo

                                   beira de mar

                                   quarto de hotel

                                   fumaça de cachimbo.

Que seja também multilíngüe

para entender-me em todos os sentidos.

E que não perca nunca o seu charme

para me seduzir ou raptar-me

nas horas mais incríveis de solidão.

 

(Cartas para esta redação.)

 

2

Preciso urgentemente encontrar

minha secretária invisível

que se perdeu sexta-feira

em reuniões e telefonemas

e me deixou a ver navios.

 

Melhor: um submarino atômico

que entrou pelo rio e bombardeou

toda a cidade, virando-a

pelo avesso, como um absurdo

e até remoto cataclismo.

 

(Gratifica-se bem quem der notícia

a esta redação. Ou à polícia.)

 

 

ELIPSE

 

Vim descobrir o que ficou de elipse

e precisão,

o que se fez sucinto e reticente,

o inacabado do cabo Não.

 

Vim recolher esta úmida sintaxe

que foi além

e não poupou a rigidez da língua

que ficou sem.

 

E vim, não para ver, deixar a meio

fala e raiz:

vim extrair de ti a própria essência

do que não fiz. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 

Antonio Miranda e Gilberto Mendonça Teles no 1° festival de Poesia de Goyaz
fotos: Juvenildo Barbosa Moreira

 

De

ARTE DE ARMAR
Rio de Janeiro: Imago Editora, 1977

 

RECEITA

 

Tome a palavra suja,

"cabeluda" e com c'aspas,

essa que tem açúcar

no sangue, e sobretaxa.

 

Tome a que, sendo escrava

da tribo e do tributo,

mostra no corpo as marcas

de lacre, logro e lucro.

 

Pode ser a de baixo

calão, a manteúda,

como opção, como cágado,

essa que se disputa

 

nas feiras, que é falada,

que é falida e que gruda,

tome a palavra chata,

tome a palavra chula

 

e bote tudo às claras

e gema e até misture

coisas de corpo e alma,

de vida e de cultura

 

e leve ao forno e passe

a forma na gordura,

depois coma e disfarce

os bigodes da gula.

 

 

ANULAÇÃO

 

Ocupar o espaço

contido na sombra,

ser o pó do espesso,

o vão da penumbra,

 

o dó sem começo,

o nó sem vislumbre,

o invisível traço

do não-ser: escombro.

 

Ser zero, ou nem isso:

 

letra morta, timbre

do vazio no osso.

 

Ser aquém do nome

— o só do soluço

de coisa nenhuma.

 

De
Gilberto Mendonça Teles
FALAVRA
Antologia poética
Seleção e Organização do Autor
Apresentação de Arnaldo Saraiva

 

FALAVRA

        
ai une maladie: jevois le langage.
             ROLAND BARTHES

I

Ainda sei da fala e dei da lavra
e sei das pedras nas palavras ásperas.
E sei que o leito da linguagem leixa
pedregulhos na letra.
                             É como o logro
da poeira na louça ou como o liso
nos baldios do livro.

 Ainda sei da língua e sei da linha
do luxo e suas luvas, amaciando
os calos e os dedais.
                            E sei da fala
e do ato de lavrá-las na falavra.

II

Divido a minha dívida nas letras
dos mais diversos câmbios de expressão.
No espaço um tanto ambíguo do meu giro
se cruzam e se ofertam capitais
dicções, contradições e perdigotos.

Há lucros e aluguéis na agiotagem
das comissões sem câmera e sem nada.
Há moras e demoras no recinto
mais amplo da linguagem.
                                      (Cada gesto
continua medroso, nomeando
os contornos das coisas que se deixam
recortar no prazer de sua essência
e miragem.)

Agora sei do timbre e sei da cãibra,
sei dos ritmos impostos, sei das taxas
e dos juros pesados de infl®ações.

Alguém rescinde agora o seu contrato
e vai amortizando a derradeira
epifania do universo.

 

TELES, Gilberto Mendonça.  Pássaro de pedra.  5ª. edição.   (Coleção Clássicos Goianos) Goiânia: Pronto Editora Gráfica, 2012.   96 p.  15x21 cm.   ilus.  ISBN 978-85-400-0677-5  “Prêmio Álvares de Azevedo da Academia Paulista de Letras”.  Col. A.M.

 

ESTRANHO

 

Em qualquer tempo,

o corpo agitava um gesto trémulo

na eventualidade das manhãs.

 

A face adivinhava o segredo do acaso

e se refletia lúcida

no espelho da tarde interminável.

 

Sem que soubesse o limite da vida

uma árvore floriu na sua eternidade

e seu olhar pousou na beleza das coisas.

 

Nos olhos

leva agora a esquiva sombra das imagens

do pássaro sem rumo.

 

Limpa de mágoa,

a noite se concentra no silêncio

e apenas uma estrela

desliza suavemente na memória.

 

 

ETERNIDADE

 

Mesmo de longe, alcanças

a sombra que percorre

o limite impreciso

onde termina o mundo

e principia o instante

das coisas inestáveis.

 

Mas sempre a estrela,

                                  branca

e longe,

               sob o céu,

o mesmo céu contínuo

e surdo, acompanhando

a agitação dos homens. 

 

TELES, Gilberto Mendonça.  Saciologia goiana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: Instituto Nacional do Livro – INL, 1982. 153 p. (Coleção Poesia Hoje, v. 53)  14x21 cm.  “ Gilberto Mendonça Telles “ Ex. bibl. Antonio Miranda “

 

LIÇÃO DE MÚSICA

Primeiro, aquele olhar de amor, os sons
se desdobrando na imaginação.
As chaves de metal abrindo mundos
no branco da paleta
e o veludo da noite modulando
a forma negro-azul da clarineta.

Depois, o sopro, o pretendido encanto,
a sensibilidade nada artística
do dente cariado
e a tristeza de ver o conteúdo
da glória de ser músico
para sempre adiado.

 

EPITÁFIO

— Ele não foi inteligente:
foi apenas muito esforçado.

— Ele não teve o senso da medida:
teve apenas oportunidades.

— Ele não teve profundidade filosófica:
teve apenas facilidades retóricas.

— Ele não teve nenhum reconhecimento:
teve apenas alguns amigos
e muita sorte.

Requescat in pace
(Requeste-o e passe).

 

TELES, Gilberto Mendonça.   Caixa de Fósforos.  Dedicatórias em versos – poemas circunstanciais 1955-1999.   São Paulo: Editora Giordano, 1999.  110 p.  12x18 cm. Col. A.M.

 

SACIOLOGIA GOIANA, 1982.

[ MÁRIO DA SILVA BRITO ]

Quem parte do minuto,
da linha do infinito
procurando o absoluto?
— Mário da Silva Brito.

Quem tem salvo-conduto
para furar o escrito
na cinza do charuto?
— Mário da Silva Brito.

Quem conhece o reduto
não da história, do mito,
e vai além do produto?
— Mário da Silva Brito.

No mais, no anacoluto
resta o breve delito
de enquadrar no estatuto
— Mário da Silva Brito.

 

[DARCY FRANÇA DENÓFRIO ]

Para Darcy e seu plural de nuvens,
para Darcy e seu cordel diário,
para Darcy no seu abril de julho,
no azul do céu do seu aniversário.

                    Rio, 21-7-90

 

TELES, Gilberto Mendonça.  Hora aberta. Poemas reunidos. 4ª. ed.   Organização Eliane Vasconcellos.  Petrópolis: Vozes, 2002.  1113 p.  14,5X21,5 cm.  capa dura.     ISBN 85-326-2755-2   Inclui poemas de livros anteriores e um inédito: “Arabiscos”.  Inclui também o estudo “A casa de vidro da linguagem”, por  Ángel Marcos de Dios, e no Apêndice estão a Cronologia do autor, Iconografia, Fortuna crítica, Bibliografia de e sobre o autor e um Índice dos títulos e primeiros versos da antologia. Col. A.M.   

 

HORA ABERTA

 

     Á LiNHA DA ViDA

 

A que, vísível, se interrompe

na palma da mão, decisiva:

a ultrapassagem do horizonte

pelo lado avesso da escrita.

 

     Á LINHA DO UNIVERSO

 

A que, invisível, se deleita

no olho sensual da fechadura:

a letra (aleph) eseupentelho

no espaco-tempo que se enruga.

 

E, anjo ou demônio, pinta o sete
mas tão relativo e medroso
que o som azul logo se perde
na linha de fundo do esboço.

 

 

ARABISCOS

 

Vai do lugar ao não-lugar

a refração que há neste afresco:

a linha indócil como o infarto

nas turvas ondas do arabesco.

 

Antes o espaço se faz hirto

no azul da concha do molusco

para o rabisco perseguir

o bruxuleio, o lusco-fusco.

 

Sol de formas a descoberto

que às vezes levamos conosco,

dele não nos resta sequer

o arranhol de um vidro fosco.

 

Nem a ocasião de um leve furo

(a malagueta no seu frasco)

disfarça o tom de calembour

na face neutra do fiasco.

 

No vário ritmo só a cor

disfarça o além do gesto arisco:

o mais é sombra, o corpo a corpo

no arabesco do arabisco.

 

 

TELES, Gilberto Mendonça.   Alvorada.  Goiânia: Asa Editora Gráfica Ltda, s.d.   109 p. 13,5x18,5 cm.  Inclui, ao final, uma “fortuna crítica”.  Edição fac-similar.  “ Gilberto Mendonça Telles “ Ex. bibl. Antonio Miranda “

 

flamboyants

 

Eu não cantei ainda os flamboyants floridos,

          Alegres, majestosos, multicores,

          Que, ao vir da primavera, embevecidos,

Policromos, sensuais, adornam-se de flores.

 

E, enfileirados, vão, floridos e felizes,

          Balouçando a ramagem espontânea,

 Como saudando, a rir, em rútilos matizes,

          As amplas avenidas de Goiânia.

 

E nas quentes manhas de setembro c. de outubro,

          Quando o vento lhes beija as franças, no alto,

Sussurram, musicais, despetalando o rubro

          Véu de flores vermelhas pelo asfalto.

 

Uma a uma, gozando os afagos eóleos,

          Oscilai e treme, e cai serenamente.

Em breve, o asfalto está como manchado de óleos,

—Atapetado aprimoradamente.

 

......................................................................

 

Mas eu vos canto agora, ó flamboyants floridos!

          Pois vejo que os meus sonhos e ilusões

          São como as flores tuas - coloridos,

Vão murchando, e caindo, ao vir das estações.

 

 

TELES, Gilberto MendonçaPlural de nuvens.  Rio de Janeiro: José Olympio Editora,  1990. V94 p.  14x21 cm.   Bibliografia de e sobre o autor.   Capa: Joatan Souza da Silva.  ISBN 85-03-00331-7   Gilberto Mendonça Teles “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

TELES, Gilberto Mendonça.  Plural de nuvens.  Porto, Portugal: Gota de água. 1984.  110 p.  14x20 cm.  Contracapa com apresentação de Tristão de Athayde, texto extraído do Jornal do Brasil, 22-6-78. “ Gilberto Mendonça Teles “ Ex. bibl. Antonio Miranda.


HISTÓRIA

Toda história tem seu texto,
tem seu pretexto e pronúncia.
Tem seu remorso, seu sexto
sentido de arte e denúncia.

Tem um sujeito que a escolhe,
que se encolhe e se confunde:
um lugar que sempre a tolhe,
qui tollis peccata mundi.

Tem sua forma em processo,
tem seu recesso e cansaço,
e tem seu topo de excesso
no ponto extremo do escasso.

Tem sua língua felpuda,
a voz aguda e afetada.
E tem a essência que muda
e permanece, calada.

Toda história tem seu preço,
tem seu começo e seu dito.
É só virar apelo avesso,
ler o que está subscrito.
 

  

TELES, Gilberto MendonçaNo escuro da pronúncia.  Goiânia, GO: Instituto Centro-Brasileiro de Cultura, 2009.  66 p.  14x21 cm.  O livro está revestido por um envelope (capa dura) contendo um CD com a gravação da voz do poeta lendo 55 poemas, feita em 2008. Patrocínio da Agência Goiana de Cultura/ Governo do Estado de Goiás. “ Gilberto Mendonça Teles “ Ex. bibl. Antonio Miranda.


A DURAÇÃO

Durar é madurar uma forma
de vida inconclusa no ventre
da fruta: é a fruta roída
por si mesma,
                     constante.

O duro somente dura
seu minério e ferrugem:
no êxito de ser se esteriliza
todo sinal de permanência.

Todo corpo se limita
no seu círculo de lendas
e toda sombra apenas resiste
à travessia da memória.

É pela duração das coisas
que o tempo mais se desvia
para dentro do nome:
só o nome se transmite
e se enlaça,
                  durante.

 

TELES, Gilberto Mendonça.  Poemas reunidos.  Prefácio de Emanuel de Moraes. Rio de Janeiro, RJ: Livraria José Olympio Editora; Brasília, DF: Instituto Nacional do Livro – INL, 1978.   307 p.  cm.   Frontispício: bico de pena de Amaury Menezes [retrato].  Capa: Eugênio Hirsch.  “ Gilberto Mendonça Teles “ Ex. bibl. Antonio Miranda  


HORA ABERTA

Sou pontual assim como quem joga
uma pedra no mar.

Assim como quem bate na janela
e espera no jardim o acontecer.

Sou pontual assim como quem lança
uma canção no rosto desdobrado
de quem chega.

No mais, sou pontual na complacência
de um deus oculto que boceja
na hora aberta a sussurros e prodígios
da vida acontecendo.
                               E que não basta.

            

O SINAL

Unidas às palavras, as coisas
nos agridem pelo seu lado neutro
e se ocultam sob formas espessas
reunidas no oco da noite.

Por impreciso, cada gesto se repete
e se adensa, concreto. Cada sopro
divulga na planície seus volumes
de nada. E cada timbre enuncia
um esmeril no lingote da fala.

Ambíguo e transparente, o sinal
emerge da raiz e se crava nos lábios,
conciso: prego nas quinas do tempo
ou refração no verde da piscina
onde a luz se distrai,
                              porosa e livre.

 

TELES, Gilberto Mendonça. & Cone de sombras.  São Paulo, SP: Massao Ohno Editor, 1995.  141 p.   cm.  Capa: Escrita, gravura de Selma Dalfre.“ Gilberto Mendonça Teles “ Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

EXERCÍCIO PARA MÃO ESQUERDA

                    Para Iva Moreinos

          Um dia descobri que a mão esquerda
          era mais emotiva e mais ausente:
          dedilhava por dentro o que era perda
          e sondava por fora o inexistente.

          E descobriu que quanto mais isento
          o acorde se tornava, e delicado,
          tanto mais se ordenava o movimento
          da música de fundo no teclado.

          E viu-se de repente entretecido
          no mais difícil, no desvão do espaço,
          quando as notas colhiam se sentido
          nas formas invisíveis do compasso.

          Sentiu-se solidário na partida
          e chorou solitário na aventura,
          como se em cada coisa a própria vida
          se lhe escapasse numa partitura.

          E foi aí que se sentiu restrito,
          que se fez de silêncio e de resvalo:
          a mão esquerda desdobrava o mito
          e dedilhava as sombras do intervalo.

 

TELES, Gilberto MendonçaNominais. Poemas.  Guarapari, ES: Nejarim, 1993.  117 p.  cm.   “ Gilberto Mendonça Teles “ Ex. bibl. Antonio Miranda

 

SINTAGMAS

 

Língua de boi

língua de vaca

língua de todos

os animais.

 

Língua de sogra

língua de sabre

língua de sobra

língua de mais.

 

Língua de menos

língua de palmo

língua de extremos

universais

 

Língua de ouro

língua de prata

língua de forças

eventuais.

 

Língua de trapos

línguas de tropos

língua de loucos

originais.

 

Língua de igreja

língua do língua

língua de trava

língua geral.

 

Língua do tempo

língua do exílio

língua do exemplo

língua da vida

 

Língua do poema

duro como íngua

que só lateja

enquanto míngua

 

na fala e lambe

a língua oca

que pende

                    langue

do céu da boca.

 

 

TELES, Gilberto MendonçaHora Aberta.          Rio de Janeiro: José Olimpio Editora; Pró-Memória-INL, 1986.   589 p.  “Gilberto Mendonça Telles “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

ENTRE O SER E O NOME

 

Não há poesia fora do nome e do ser

que o condensa e contorna silencioso.

Até o timbre de uma sílaba me excita

à sensação da trajetória interior.

 

Há memórias noturnas que comandam

a dádiva das coisas. Há sortilégios

esvoaçantes e horas que acumulam

o inteiro lusco-fusco da linguagem.

 

E aí tudo é possível. E se entrelaçam

o gesto de conter-se e o trasladar-se

para além da paisagem, no castelo

em que te faz rainha, em que te deixas

 

penetrar como um signo e seu desígnio.

sua lição de força e majestade,

ressonâncias de flautas nos cabelos,

perfume violentrando a sombra do papel.

 


TELES, Gilberto Mendonça.   Teologia de bolso.  Seleção e posfácio de José Fernandes.   2ª edição aumentada.  Goiânia, Editoral Kelps. Editora UCG, 2009.   142 p.   15x21 cm.   

 

PITORESCO

 

A Dulce

 

Pitoresco é tudo isso: 

o ribeirão Suçuapara banhando os quintais

o cheiro do São José nas macegas das várzeas

o rumor dos buritis seguindo o curso d'água

o nome da cidade escandindo os horizontes

e o alfabeto das borboletas inventando

uma escrita de amor no pé de jabuticaba.

 

Bem perto, os cavalos pastavam

alguns segundos da eternidade.

Mas os olhos azuis da prima

continuam nesta rima.

 

 

DE BICO

 

            Para Milda e Telles

 

Por sorte ou por azar

é minha vez de jogar:

 

Preparo o taco, negaceio.

e canto o jogo num segundo:

— Bola 7 na caçapa do meio.

— Bola 5 na caçapa do fundo.

 

Sou o artista que lança o verossímil

da jogada mais rara e mais difícil.

 

Mas quanto mais entusiasmado fico

mais me vejo na arapuca

de uma sinuca

de bico.

 

 

 

 

 

TUDO de e sobre Gilberto Mendonça Teles está neste volume de 811 páginas, contendo seus poemas, teses, textos críticos e também a vasta “fortuna crítica” sobre o autor. Lógico, “tudo” até 2007, celebrando os 50 anos de sua produção literária, mas ele continua ativo e sempre atualizado:


TELES, Gilberto Mendonça.  A Plumagem dos nomes: Gilberto 50 anos de literatura / Eliane Vasconcellos, org.  Goiânia: Kelps, 2007.  812 p.   ilus.  p&b  capa dura sobrecapa 
“ Gilberto Mendonça Teles “ Ex. bibl. Antonio Miranda

 

O Prof. Dr. José Fernandes, da Universidade Federal de Goiás, é autor de vários livros sobre o poeta, sendo este um dos últimos:

[ TELES, Gilberto Mendonça ] FERNANDES, José.  O Selo do poeta.  Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2005.  351 p. 
“ Gilberto Mendonça Teles “ Ex. bibl. Antonio Miranda

 

SISTEROLLI, Maria Luzia dos SantosDa Lira ao Ludus: travessia: leitura da poética de Gilberto Mendonça Teles.  São Paulo: Ammablume, 1998.  230 p.  ISBN 85-85596-98-8  10,5X18 cm.  Ex. bibl. Antonio Miranda

GILBERTO: 40 ANOS DE POESIA.  Org. Joaquim Francisco Coelho et. al.  Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 1999.  24l8 p.  14x21 cm.   Exposição e Seminário sobre a obra de Gilberto Mendonça Teles realizados pelo Centro Acadêmico do Departamento de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em dezembro de 1995.  Ex. bibl. Antonio Miranda

DENÓFRIO, Darcy França.  O Redemoinho do lírico. Estudos sobre a poesia de Gilberto Mendonça Teles.  Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2005.   ISBN 85-326.3174-6  Ex. bibl. Antonio Miranda

DENÓFRIO, Darcy França.  Poesia contemporânea – G.M.T. – o regresso às origens. Prefácio de José Fernandes.  Porto Alegre: Acadêmica, 1987.  96 p.  11x20,5 cm.  Capa: Maurício.  “ Gilberto Mendonça Teles “ Ex. bibl. Antonio Miranda

DIAS, Valdeides Cabral de Araújo.  O corpo erótico na poesia de Gilberto Mendonça Teles.  Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2009.  108 p.  14x21 cm.  ISBN 978-85-7749-058-5  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

XAVIER, Therezinha Mucci, org.  Fortuna crítica de Saciologia goiana. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2011.  168 p. (Coleção “Ensaio” volume 150   14x21 cm.  ISBN 978-85-7749-110-0   “ Gilberto Mendonça Teles “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

DIAS, Valdeides Cabral de Araújo.  O retórico silêncio. Natal, RN: EDUFRN, 2013.  132 p.  15x22 cm.    ISBN 978-85-425-0065-3  Pesquisa acadêmica (dissertação de mestrado) sobre a obra do poeta goiano Gilberto Mendonça Teles. Ex. bibl. Antonio Miranda

 

NÚBILE, Marília.  A Carnavalização da poesia (Estudo da poesia de Gilberto Mendonça Teles). São Gonçalo, RJ: Universo – Universidade Salgado de Olivieira, 1998.    140 p.  14x20 cm.  “Prêmio”José Décio Filho”, da União Brasileira de Escritores, Seção de Goiás, em 1993”.  Ex. bibl. Antonio Miranda


TEXTOS EN ESPAÑOL

 

TELES, Gilberto Mendonça.  La palabra perdida.  Selección y traducción de Gaston Figueira.  Montevideo: Barreiro y Ramos S.A., 1967.  96 p. (Colección Equinoccio)   11,5x18 cm.   N. 06 452

 

CANCIÓN DE DIFUNTOS

 

No seremos inútiles.

                                Un día

conduciremos lenguas de fuego

y por las calles yermas, en los árboles

y muros impedidos de carteles,

dejaremos grabado otro mensaje

que nunca osamos descifrar.

 

No seremos inútiles.

  Un gesto

conducirá millares de criaturas

a la tierra de nadie, prometida.

Los hombres, de rodillas, inventarán

posibles pastorales para el campo

naciendo como dádiva futura

de la mañana ahora irreverente.

 

No seremos inútiles.

                                Seremos

así como pasaran nuestros padres:

manos abiertas, a pedir, mas dando;

ojos cerrados, a llorar, mas riendo.

Y dejaremos sueños y simientes

y un canto de alegría en los diarios.

 

 

 

SONETOS DEL INCONTENTADO

 

                     I

 

No conozco tu nombre. Sé que existes

fuera de mí, en algún lugar extraño,

donde no llegan los clamores tristes

de quien perdió en el tiempo su rebano.

 

Te presiento en el ritmo de la vida,

te veo en el abismo de mi duelo.

Mas la luz del amor no fue extinguida

en el diluvio en que perdí mi anhelo.

 

Y vives en las tardes, tras los montes,

incendiando los ríos de horizontes

y ampliando frustración en frustración.

 

Sólo yo y el amor te conocemos

en esta larga angustia, en los extremos

de la espera sin viento y dirección.

 

 

 

LOS ARROZALES

 

Los arrozales gritan sus instantes

de pájaros

                    y ondulan

                                       el oro vivo de sus racimos.

 

¿Tienen alma los arrozales

o habitan en el paisaje

cual un viento bien manso,

o perro ovejero

esciente de su olfato

y ondulación?

 

¿Son plantas o son piedras en el terreno?

¿Son gestos de quien manda o provisorias

manos desprendiéndose?

 

¿Qué saben del silencio de los que mueren

y de la lengua de los huérfanos,

tan secreta y seca?

 

¿Acaso se molestan en enmohecerse

en las trojes o perderse como restos

de familias hacendadas?

 

Los arrozales son cuerpos de niño

creciendo.

                    Tienen espinas y huesos

y cabellos en el viento.

                                       Y sobre todo

tienen la belleza viva de sus racimos

y el tiempo que promete sus instantes

de pájaro.

 

TELES, Gilberto Mendonça.  Aprendizagem de um romântico inveterado. Goiânia:
Editora Kelps, Editora PUC Goiás, 2011.  “ Gilberto Mendonça Teles “ Ex. bibl. Antonio Miranda

 

EXERCÍCIO

 

Yo me acuerdo de ti cuando los vientos

moven sus alas, como el ave ai cielo,

me ensenândo con músico consuelo

a descarte en todos los momentos.

 

Y cuando, ante mis ojos sonolientos,

abre Ia soledad su blanco velo,

yo te miro lucir, alma de hielo,

entre Ias nóches de mis pensamientos.

 

Te siento junto a mi, junto a mi vida,

cantando una cancion enternecida,

hablándome de amor com tal carino,

 

que olvido mis pesares y mi pecho

transfórmase en sonrisa y, satisfecho,

juega feliz como se fuera un nino.

 

CAMPINAS, 7.4.1954.

 

 



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