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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

SALOMÃO SOUSA

(1952-    )

 

 

Nasceu em Silvânia (GO). Na década de 70, participou parcialmente do movimento Poesia Marginal. Organizou as antologias Em canto cerrado (de poesia) e Conto candango, com escritores de Brasília. É um dos 47 poetas incluídos no número que a revista portuguesa Anto dedicou em 1998 à literatura brasileira em comemoração aos 500 anos da descoberta do Brasil. Está inserido na Antologia da nova poesia brasileira (1992), de Olga Savary; e na A poesia goiana do século XX, de Assis Brasil.
 

Bibliografia: A moenda dos dias, l979, Ed. Coordenada, Brasília, DF; A moenda dos dias/O susto de viver, 1980, Ed. Civilização Brasileira, em Co-edição com o INL; Falo, 1986, Ed. Thesaurus, Brasília, DF; Criação de lodo, 1993, edição do autor, Brasília, DF; e Caderno de desapontamentos, 1994, edição do autor, Brasília, DF; Estoque de relâmpagos, 2002, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal. Para esse ano, está organizando a antologia Safra Quebrada, em comemoração dos 25 anos de edição de A Moenda dos Dias (1979), que reunirá uma seleção dos poemas dos livros publicados e um livro inédito (Gleba dos Excluídos).
Blog do autor: www.safraquebrada.blogspot.com

 

DESTE PLANALTO CENTRAL Poetas de Brasília. org. Salomão Sousa Inclui prefácio do autor. 

POETAS DE BRASÍLIA, org. Salomão Souza. SP: Dulcinéia Catadora, 2008

Ver também o texto: IMAGEM NO VIDRO – crítica de José Fernandes obre o livro “Vagem de vidro” de Salomão Sousa

 

VEJA TAMBÉM E-BOOK  “DELIRIUM TREMENS” de Salomão Sousa, Antonio Miranda e Zenilton Gayoso

http://issuu.com/antoniomiranda/docs/delirium_tremens_e70b670d069397



Salomão Sousa apresentando uma antologia binacional Brasil-Argentina durante a Pré-Bienal Internacional de Brasília,
auditório da Biblioteca Nacional de Brasília, 14 e 15 de outubro de 2010. Foto: Ivan Malta

 

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS     /    TEXTOS EN ESPAÑOL

 

 

“NÃO ESCALO AS MONTANHAS”, poema de SALOMÃO SOUSA, em E-BOOK, e comentário crítico. Vejam:

SOUSA, SalomãoNão escalo as montanhas,  de  Ruínas ao sol.  Jaboatão, PE: Editora Guararapes, 2015.  30 p. ilus.   20x13 cm. Editor: Edson Guedes de Morais.  “Salomão Sousa “ Ex. bibl. Antonio Miranda . http://issuu.com/antoniomiranda/docs/salom__o_sousa

 

 

 

SOUSA, Salomão.   Descolagem.   Goiânia, GO: Editora Kelps, 2016.  90 p.  13,5x19 cm.   Foto da capa: Zenilton Gayoso. “ Salomão Sousa “Ex. bibl. Antonio Miranda


 

 

D E S C O L A G E N S

 

               1

 

          O navio numa lâmina estática que tremula
          por insistência de ser visto de um ponto degradado
          Ser inútil como um navio nesta estática
          sem nada para entregar no ponto de chegada
          se não se abarrotou no ponto de partida

 

          2

 

          Universo dos enganos
          O lado bruto na cornucópia
          a malva florida
          e não passa de um anteparo
          antes da queda
          A delação dirá
          que a flor é do ingazeiro
          que espera enquanto
          não se descola em outra
          rápida queda
          pelo instintto de existir

 

          3

 

          Talvez estejamos assim como a flor de ingazeiro
          disfarçada de flor de malva / fortuita
          depois de descolar-se por impossibilidade de fruto
          sem um talo que nos uma ao tronco
          pronta para apodrecer

 

          4

 

          Navio ancorado num porto
          vazio / para que saiam iludidos
          os que aguardam descarregadores

 

 

 

 

Arte gráfica: Edson Guedes de Moraes
– Editora Guararapes – PE - 2016

 

 

 

SOUSA, Salomão.  Vagem de vidro.  Brasília: Thesaurus, 2013.   104 p.   11X20 cm.  ISBN 978-85-S409-0167-4    

 

 

Aqui jaz o poema

que não se quis

Insistiu avaros nadas

horas turvas horas turvas

Implorou sessões de prazer

com crostas secas

ruibarbos de febre

Arrancou do poeta

o escudo da legião dos 300

Foi inútil insistir

com coroas, pés quebrados

meias de fina lã

Aqui jaz o poema

que não se quis

 

 

Em meio ao espelhamento das escolhas

acontecerá o excesso de luz a ressecar as ervas,

ideias que se ligam ao soco, às intrigas,

o cervo a assistir a velocidade dos bêbados.

 

Depois de o armamento transbordar do bornal,

utensílios dão para descarnar as faces,

cobrar nivelamento de nervuras.

O tratado rasgado, a volúpia dos relatos.

A renegada palavra que se precipita,

a reabilitada confiança de volta ao conflito.

 

No momento que temos a satisfação do pássaro,

do estrangeiro na sacada a traquinar feliz. Feliz.

Caem, não só nesses momentos, também de Dante,

os nossos crestados pés, o odor do filho,

o volume das polpas no branco, no brim dos seios,

caem as pálpebras de nossa mãe, o pó de nossas vigas.

Com o movimento dos remos, os comandantes.

A esquadra perfilada no porto dos encalhes.

 

Ah! a luz que resseca as ervas não perdoa o corvo;

invade os limites, danifica as trevas!

]

 

 

Deixa um retrato

um pedaço de angústia

o desejo

a cola rachada da lombada

 

Deixa uma fresta

das janelas do corpo

um pedaço da paisagem

onde fixaste um foco

 

Deixa uma fatia

de limão sobre a ferida

uma brecha de meu corpo

a rasgar-se em tua boca

 

Deixa uma marca seca

na minha roupa

um vazio

na minha imaginação

 

 

Veja também: A IMAGEM NO VIDRO, resenha crítica de José Fernandes sobre o livro Vagem de Vidro de Salomão Sousa.

 

COMENTÁRIO DE NILTO MACIEL sobre o livro de Salomão Sousa

 

Poeta moderníssimo, Salomão tem adotado todos os procedimentos do verso em suas modalidades mais novas, desde o livro inaugural de sua trajetória, A moenda dos dias, que é de 1979. No entanto, não copia ninguém e não se repete. Conhece os múltiplos caminhos da poesia (e da prosa também, seja ela ficcional, filosófica ou estrambótica).

 

Neste novo empreendimento verbal – Vagem de vidro –, o menestrel de Silvânia/Brasília apresenta cantos sem título (uns divididos em estrofes). E dá o pontapé inicial assim, com força, vigor ou garra: “Todo preâmbulo inaugura o medo”. Porque Salomão vem de antes, do tempo de Homero, de gregos e troianos, dos vates latinos, dos descobridores da Grécia (a Hélade e seus mitos), dos rapsodos modernos aos mais recentes. Vem pleno de poesia, de metapoesia, metalinguagem, em metapoemas de diversos feitios, vem inflado de enigmas, mistérios, ambiguidades, metáforas e parábolas. Vem entranhado de intertextualidade. Com citações e referências à melhor literatura nacional e estrangeira. Essa percepção advém de inúmeras e ricas leituras. Sem qualquer vassalagem a esta ou aquela tendência literária ou autor, por mais admiração que nutra por certos ícones da arte da escrita. Não, Salomão tem um léxico próprio, ou intertextualizado. E assim o dizemos, sem medo de ofendê-lo; pelo contrário, pois só quem lê muito, quem tem clara noção do mundo e suas profundezas, dos seres, seus comportamentos e suas expressões, é capaz de cultivar a paráfrase, ou de se envolver no processo de recriação da linguagem.

 

Essas incursões ao passado histórico ou literário não significam, no entanto, regressões, mas construções de pontes para o presente (seu e da sociedade): “E se houvesse entendimento ou / a extinção da linha do tempo, / quem iria recolher o sal, / construir a alvura ou / estrear o lençol e a luz?” (p. 13). O passado ele o traz para o seu (o nosso) presente (mundo, realidade), as agruras, as misérias, as iniquidades do homem moderno: “O edema, o sequestro relâmpago. É a ausência do fluir. / Se não há herói para ir a Ítaca, à Esplanada, / os homens a enrijecer-se” (p. 21); “a balconista que surgirá / ensanguentada no noticiário nacional” (p. 26); “a bala perdida / na mãe de uma criança ao colo” (p. 34).

 

 

 




 

SAFRA QUEBRADA

 

O livro reúne a produção de Salomão Sousa nos últimos 30 anos e mais dois livros inéditos. Edição da Dupligráfica, com apoio do FAC/DF 2007, incluindo fotos de Robson Corrêa de Araújo. Aqui publicamos um dos poemas do livro:

 

 

Não a virada da esquina, do barco

a água a arrancar os caibros, as janelas

a ferrugem a apodrecer os cercos do tédio

Falta-nos a emboscada

a borduna nas têmporas

as esporas nas vísceras da vontade

Falta-nos alguma derrota

o descomedimento, a rota das Índias

a que apontar a boca da espingarda

e não há a caça, e se não há poldro

a beldroega entre as leiras

Passam alimárias e não montamos

Passam as asas e passam as viagens

E nenhuma ranhura no casco!

E ficamos em nenhuma borda de abismo

Só esse lodo, essa lesma

as futricas, os processos renumerados

exames refeitos, glicose, colesterol

Resta invejar quem contratou

quem vai dar o próximo passo

quem irá gastar o resto de pólvora

derramar a tina do desejo

Nem a desventura de estar em campo

perder o jogo, e sair na vaia

 

Não há cordoalha para puxar

Lodo para afundar até os olhos

Não há Tróia

para impedir de ser ateada em fogo

 

-------------------------------------------------------------------------------------------------


A obra tem uma unidade construtiva, é um livro-poema. Começa com um tom híbrido de épico e lírico — "Depois das derrotas, dos desterros, das ruínas" — e se fecha com o emblemático "Agora vou falar das ilhas de Cetim".

Não é um leitura fácil, muito menos óbvia, por causa da linguagem densa e das desavisadas associações de imagens e de ideias, da ausência de pontuação, do automatismo verbal que vai anunciando mas não necessariamente enunciando, numa espécie de neobarroco consciente.  Em tempo: recebeu um prêmio no Festival de Poesia de Goyaz 2006. ANTONIO MIRANDA

 

FUI SÓ ERRAR EM DESTERROS

só ao mar me soçobrar

de rastro entre espinhos na margaça

as partes podres dos sobros

hordas de amantes aos bagaços

Dizimei-me nos fogos de acreditar

seriam exatas as respostas

nas tormentas inúteis as barcaças

também não retirei as grades

não lancei raios nos escuros

nem flexíveis fiz as ferragens

ossos esses remos sem braços

não deixei o centro o oco todo

não parti para apalpar as luas

e acreditar nos sonhos sem desgraças

ir à caravana dos convidados

aos milagres das certas graças

 

Desembarquei-me das incertezas?

não fui o varrido, a parte irada?

mas não ser no cerne a certa traça

mas não ser a mão que traça a retirada

 

 

AÍ ACOLHES O SOL

as hastes das chuvas

a sanha dos pássaros

os ninhos férteis das aranhas

 

bem fazes tu

— montanha de Natividade

que não deixas lugar

para nenhuma dúvida

em tuas entranhas!

 

 

A TEMPESTADE ESPRAIA CORPOS EM DESMAIO

acende as prontas palhas

ouro sólido escorre pelas calhas

e ergue-se o desengano em outras praias

pensa campos e nuvens e oásis

e deixa falhas frestas faias

e vai anoitecer em outras florestas

em baías sem ancoradouro às cascas às naus

e depois de alegrar poças com outras luas

de brilhar espantalhos em outras touças

a tempestade retorna aos desertos

ameaça minhas tortas tralhas

e volta sem os corais do repouso

em meus dias de trapaças lodaçais

não varre o alcatrão de meus beirais

espalha o amor onde o sol trabalha

 

 

E ESTE DARDO DA DÚVIDA

e esta lâmina da dor

e esta noite sem lírio

 

lanham minhas nádegas

desequilibram minha astúcia

e os poços das ausências

 

estou perdido das constelações

e perseguido pelo deserto

dos famintos cascavéis

 

só uma lua sem a flor das águas

arrancará do frio as minhas raízes

derramará mares nos meus vazios

 

só uma lua fora de estação

fora de órbita de todo planeta

vai me arrancar dos dentes do martírio

 

 

VOLTARÁS INTEIRA DAS NAVEGAÇÕES

e dos cortes da madeira

Terás de lutar

e terás de vencer

Não irás ver

aquele que vem sem armas

mais pobre que a mula

sem pastagens

 

E nada te impedirá a passagem

As flechas cairão sobre os mortos

Passarás sobre os trêmulos troncos

e não te arrojarão

em nenhum rio ilegítimo

Se houver quedas

serão de jacintos secos

e em terrenos desgastados

serão espraiamentos

 

Não ficarás doente

Pela cegueira

não ficarás cercada

Ainda que te estoquem

a angústia e o prazer

vais te sentir absolta

 

Trarás outras madeiras

para os cercos do tédio

Voltarás com desconfortos

Quem vem das vitórias

volta pisando em mortos

 

 

SOUSA, Salomão.  Caderno de desapontamento. Brasília: Edições Falo, 1994.  64 p.  10,5x20 cm.  Capa: gravura de Guida.  “ Salomão Sousa “  Ex. bibl. Antonio Miranda.

 

Sem fibras de ferro

para impor o peso

Só a trança de erros

para espalhar a semente

Do galho que flora

despenca a dormência

O desejo mais forte

esqueceu-se na indolência

À vontade de nascer

o céu apresentou morte

 

Castrado todo ar

Castrado todo ir

Não há como fug

resp    ou cusp

 

 

SOUSA, Salomão. Falo.  Brasília: Thesaurus, 1986. 84 p. (Coleção Itiquira)  10,5x21 cm.   “ Salomão Sousa “  Ex. bibl. Antonio Miranda.

 

ÁSPERA VERTENTE

 

No que não é um só

enrola embrulha unha

no que é rolo dando nó

                                   cano

acabando por ser nenhum

 

Uma áspera vertente

para a víbora se alegrar

Uma ponta de desconfiança

para se deixar demente

 

Esqueci como o homem é

se perdeu a cabeça

ou simplesmente

lhe faltam os passos nos pés

 

 

 

SOUSA, Salomão.  A moenda dos dias.  Brasília: Coordenada, 1979.  68 p.   12x19,3 cm.  Capa de Manu.  “ Salomão Sousa “  Ex. bibl. Antonio Miranda.

 

ESCOLHA

 

Nunca pude escolher

quem eu quis.

Eu não sabia

e disso foram

aproveitando.

 

Não escolhi o pai,

o santo, o país.

O que bem ingeri

foi de quem eu nasci.

Daí foi o abandono

entre as árvores,

tanto o proveito.

 

Caso o fruto

não desfrute

a escolha

que não quis

tem a árvore

decepada.

Uma selva,

a desigualdade.

 

Uma pessoa

que eu escolhesse

como soaria?

Seu desacerto

assumiria?

Suas rugas

indicariam

sulcos de arado

semeados?

Agridiria

em sorrir,

a pessoa

que eu escolhesse?

 

Se a escolha

desatasse a corda

— concordar

fosse possível,

sofrer não seria

trazer o fardo.

 

Sob sol

inclemente

desnudo.

Contudo,

sem concordar.

 

 

SOUSA, Salomão. Criação de lodo.  Brasília: edição do autor, 1993.  74 p. 15,5x22 cm.  Capa: Cely Luz, usando imagem Terra no açude de Quichabã  em Paranamirim,  PE, foto Antonio Gaudério.  “ Salomão Sousa “  Ex. bibl. Antonio Miranda.

 

 

Esta a Pátria, Herondes

das raposas velhas

das raposas natas

aplicando os golpes baixos

arrancando os altos ais

 

Personagens de Dante

fazendo do paraíso inferno

Se as crianças morrem nas ovas

esta a Pátria, Herondes

sem esperança de inverno

 

Esta a Pátria, Herondes

sem fartura nas eiras

Poleiro para banqueiros

usineiros infratores

Uma Pátria sem glória

nos pactos

 

Esta a Pátria em que nascemos

Uns com vida de conde

e a maioria

na periferia

à revelia

sem ter por donde

 

 

 

SOUSA, Salomão.Estoque de relâmpagos.  Brasília: Secretaria de Estado da Cultura, Governo do Distrito Federal, 2002.  153 p. 13,5 x 21 cm.  “ Salomão Sousa “ Ex. bibl. Antonio Miranda.

 

 

NUNCA IRÃO BUSCAR SUA MACEDÔNIA

Tatelam seus tentáculos

achando inútil toda fertilidade

Os incapazes nunca sabem

de onde arrancar o broto

e muito menos o segredo

de desfazer as peias

que travam as horas do encontro

Não invadem as estradas

e a Macedônia pode continuar

nos meandros da perdida rota

Nunca os ataca a insônia

e aos percevejos

nunca chegam a agradar

Estão em paz com os brotos

e com as rotas

dos mares navegados

Os capazes adivinham

a chuva antes do relâmpago

 

 

 

Poema publicado em:


BRITO, Elizabeth Caldeira, orgSublimes linguagens.  Goiânia, GO: Kelps, 2015.   244 p.  21,5x32 cm.  Capa e sobrecapa. Projeto gráfico e capa: Victor Marques.  ISBN 978-85-400-1248-6  (p. 122-123)






 


Poemas inéditos 

 

FALA UM ASTRO A NÓS

Corveta flava

de mil nós

desfaço a âncora

de não sermos sós

 

Caminho em teus contornos

os prados todos

pistilos estames

sem que possa haver lodo

 

Use a gaita

em que te danço

Uso o fruto

com que me adornas

 

Nascerá jaspe nascerá húmus

na tocata de cada dedo

Será mina será morno

em cada apelo

 

Sou a fúria a baía

a que te amarras

Meu infinito

em que astro caio

 

 

Deixo para os dias de esquecer

os pés quebrados os acertos do inimigo

Deixo as intrigas fora da cartilha

os galhos podres o saco de formigas

 

Busco para os dias de encontrar

os saltos do touro o sangue da ferida

quem entende de desarmar as traças

e de fazer viagens nas minhas superfícies

 

São lombadas, treliças e feitiços

Se for água basta os pés da leveza

Se for o fogo ainda deixar as naus de cortiça 

Se tem de ser o futuro seja mais que abstrair

 

Não embarcar o domínio das nódoas

Só as ramagens dos touros nas pastagens

as caras dos remos nas superfícies

Já amacio os braços de consentir

 

Ainda que não venha nenhum barco

e bruma alguma traga a carga de lenha

Ainda que o barqueiro venha louco

e todo o aço da certeza afundará

Ainda que o vento atormente com fúria

e vá a madeira polida afundar-se

Ainda que a carga seja a lâmina

com o colo certo de degolar

Ainda que na porta anunciem

que a florada do dia irá murchar-se

Ainda que seja um vasto mar

e a alma em deleite vá secar-se

Ainda que o mar seja uma rocha

e no deserto o coração vá navegar

 

Ainda assim o faroleiro acenderá

 

 

SAFRAS

 

No primeiro ano de casado,

a roça deu maravilhas.

Deu o que plantou

e o que não plantou.

O arroz, a taioba, o joá na queimada.

 

E assim nos próximos cinco anos

até que o quinto filho nasceu.

Daí a roça se afastou

para os matos de mais longe.

 

Quando os cambitos dos filhos

deram para afinar

e ficar descobertos,

o mato de dar de comer

acabou.

Teve que repetir na terra de antes.

 

A plantação para o nono filho

não vingou.

Agora, no décimo filho,

nem mesmo plantou.

 

 

(Poemas inéditos, publicados em 3/2/2006)

 

 

●•

Muitas coisas paralelas
e eu uma delas
Talvez eu fosse o canário
a janela
e tanto não me abro
e tanto não me amarelo

 

 

●•

Acende as prontas palhas

ouro sólido escorre pelas calhas

e ergue-se o desengano em outras praias

pensa campos e nuvens e oásis

e deixa falhas frestas faias

e vai anoitecer em outras florestas

em baías sem ancoradouro às cascas às naus

e depois de alegrar poças com outras luas

de brilhar espantalhos em outras touças

a tempestade retorna aos desertos

ameaça minhas tortas tralhas

e volta sem os corais do repouso

em meus dias de trapaças lodaçais

não varre o alcatrão de meus beirais

espalha o amor onde o sol trabalha.

 

 

 

●•

Esqueceu o vértice de uns ombros,

da prata de uns umbrais. 

Da possível palmatória na hora do crime,

das algas já em águas claras.

 

Não se lembrou do instante de inclinar

a palavra — a palavra que liberta o escravo.

Esqueceu de enfiar outra saliva

na travessia de uns umbrais.

 

Abandonou o sopro

se achou florida a calêndula.

Diante do que dizer,

deixou-se escrava nas escarpas.

 

Fiquem incompletas a fendas da fala.  

 

 

●•

 

Viajei. Vi homens no luxo
Vi crianças no lixo
e no lixo tropecei
Roupas lavadas próximas aos meus passos
e o que encobria úmida
podia ser relva, pedra ou trevo
Nas seis manhãs
as roupas estendidas nas calçadas

Viajei. Vi casais que quase se abraçavam
As sete pontes, algumas de ferro recortado
no estrangeiro
Vi mulheres a sós com os filhos
se sentindo alienígenas
Não pude ver os ausentes companheiros
Não pude ver as freiras recolhidas
e a zabumba a ensaiar o próximo frevo

Viajei. Senti este cheiro de homem
Fezes. Este cheiro ejaculado.
Vestido de passado
comi as minhas sete refeições
bebi os meus sete cálices
Não estive próximo à arma do tiro
Ao morto não levei luto nem mortalha

Viajei. Vi e apalpei
E se acreditei foi pela flor agreste
Foi pelo tremeluzir das luzes sobre as fezes

 

●•

E se todos decidíssemos pela ausência?
Ficássemos quietos sem nenhum verso
os peixes secos
esquecidos na travessa

 

Ficássemos com as nádegas mofadas
capim assim torrando
sem que viessem os bafos das bocas

terras férteis sem chuva que as amoleçam

 

Fôssemos as histórias perdidas

se não vêm quem as ouça
e outro que nunca soube
do encontro que trouxemos tão perto

 

Estivéssemos onde nenhum herói aparece
nas esquinas onde os homens
não sabem qual será a conversa
Sermos a lua dispersa

o sol que não está mais no universo

 

Trava que se quebra
e nenhum rosto avança na fresta
Fôssemos o que ria
entre os olhos que padecem
quando fossem as quedas dos planetas
dos rubis adversos

 

 

 




Arte gráfica: Edson Guedes de Moraes
– Editora Guararapes – PE - 2016

 


SALOMÃO SOUSA, POETA GOIANO - ENTREVISTA com ANTONIO MIRANDA - Brasilia, 2010
fala sobre poesia contemporânea - poesia neobarroca - poesia de invenção - Videomaker: Nildo Barbosa Moreira


POETAS EM SILVÂNIA


Os poetas Salomão Sousa e Antonio Miranda em um beco antigo de Silvânia, Goiás, terra natal de Salomão. Foto de Robson Corrêa de Araújo, julho 2007

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL

Veja o E-BOOK:

 

[ SOUSA, Salomão ]  SOSA, Salomón. Despegues y ressonancias. Lima, Peru: Maribelina, Casa del Poeta Peruano, 2016.  25 p.   Poemas traducidos por Silvia Long-ohni, Tzintia Montaño, Arturo Ramírez Hernández,Arturo Ramírez Hernández, Kori Bolivia.  Editor José Guillermo Vargas, para el evento internacional de Poetas “José Lopez Coronado”, Chota, Perú, del 13 al 16 de julio de 2016. 

https://issuu.com/antoniomiranda/docs/salomao_sousa/1

 

VI FESTIVAL DE POESIA “LAS LENGUAS DE AMÉRICA CARLOS MONTEMAYOR”.  Jueves 9 de octubre de 2014. Sala Nezahaulcóyotl, Centro Cultural Universitario.  Ciudad de México: Universidad Atónoma de México, 2014.  Incluy programa, biografias e poemas dos participantes, incluindo o brasileiro Salomão Sousa. s.p.  ilus. col. 


 

SOUSA, Salomão. [ sem título ] Jaboatão, PE: Editora Guararapes. s.d.  Editor:

Edson Guedes de Morais.  Inclui 17 poemas impressos (com impressora

caseira) em formato de convite 10,5x15 cm, ilus. col., com os seguintes

poemas:  “ela espera com as verbenas”, “e este dardo da dúvida”, “a

tempestade espraia corpos em desmaio”, “viajei...”, “ser um deus num céu

de terra”, “vamos fazer uma tempestade”, “mede o universo verde”,

 “pudesse surgir...”, “e se todos decidíssemos”, “para quando será a

entrega?”, “aí acolhes o sol”, “grito maior não há”, “a lua vigia a viagem”,

 “imagem dentro da ampulheta”, “ame com as forças e os frouxames”,     

 “acende as prontas palhas”, “fui só erras em desterros”.  Edição limitada.

 “ Salomão Sousa “  Ex. bibl. Antonio Miranda

Um dos poemas do livro:



 

 


 

 



SALOMÃO SOUSA

Tradução de Silvia Long-ohni

 

●•

Muitas coisas paralelas
e eu uma delas
Talvez eu fosse o canário
a janela
e tanto não me abro
e tanto não me amarelo

 

●•

Muchas cosas paralelas

y yo una de ellas

Tal vez fuese el canario

la mirilla

y en tanto no me abro

y en tanto no me amarillo

 

●•

Acende as prontas palhas

ouro sólido escorre pelas calhas

e ergue-se o desengano em outras praias

pensa campos e nuvens e oásis

e deixa falhas frestas faias

e vai anoitecer em outras florestas

em baías sem ancoradouro às cascas às naus

e depois de alegrar poças com outras luas

de brilhar espantalhos em outras touças

a tempestade retorna aos desertos

ameaça minhas tortas tralhas

e volta sem os corais do repouso

em meus dias de trapaças lodaçais

não varre o alcatrão de meus beirais

espalha o amor onde o sol trabalha.

 

 

●•

Enciende las listas pajas   

oro sólido se escurre por las tejas

y se yergue el desengaño en otras playas

imagina campos y nubes y oasis

y deja fallas grietas faias 

y vete a anochecer en otras florestas

en bahías sin ancladero  a los cascos  a  las naves 

y después de alegrar charcas con otras lunas

de lucir espantajos en otras tocas 

la tempestad retoma los desiertos

amenaza mis torcidas baratijas         

y vuelve sin los corales del reposo 

en mis días de traperos lodazales 

no barre el alquitrán de mis orillas

despaja el amor donde el sol trabaja

 

 

 

●•

Esqueceu o vértice de uns ombros,

da prata de uns umbrais. 

Da possível palmatória na hora do crime,

das algas já em águas claras.

 

Não se lembrou do instante de inclinar

a palavra — a palavra que liberta o escravo.

Esqueceu de enfiar outra saliva

na travessia de uns umbrais.

 

Abandonou o sopro

se achou florida a calêndula.

Diante do que dizer,

deixou-se escrava nas escarpas.

 

Fiquem incompletas a fendas da fala.

 

 

●•

Se olvidó del vértice de unos hombros,      

de la plata de unos umbrales,

de la posible palmatoria en la hora del crimen,

de las algas ya en aguas claras.

 

No se acordó del instante de inclinar

la palabra – la palabra que libera al esclavo.

Se olvidó de lanzar otra escupida

en la travesía de unos umbrales.

 

Abandonó el soplo

encontró florida la caléndula.

Frente al qué decir                     

se dejó esclava en las escarpas.

 

Queden incompletas las fisuras del habla.

 

 

 ●•

Viajei. Vi homens no luxo
Vi crianças no lixo
e no lixo tropecei
Roupas lavadas próximas aos meus passos
e o que encobria úmida
podia ser relva, pedra ou trevo
Nas seis manhãs
as roupas estendidas nas calçadas

Viajei. Vi casais que quase se abraçavam
As sete pontes, algumas de ferro recortado
no estrangeiro
Vi mulheres a sós com os filhos
se sentindo alienígenas
Não pude ver os ausentes companheiros
Não pude ver as freiras recolhidas
e a zabumba a ensaiar o próximo frevo

Viajei. Senti este cheiro de homem
Fezes. Este cheiro ejaculado.
Vestido de passado
comi as minhas sete refeições
bebi os meus sete cálices
Não estive próximo à arma do tiro
Ao morto não levei luto nem mortalha

Viajei. Vi e apalpei
E se acreditei foi pela flor agreste
Foi pelo tremeluzir das luzes sobre as fezes

 

 

●•

Viajé. Vi hombres en el lujo.

Vi niños en la lija

y en la lija tropecé.

Ropas lavadas cercanas a mis pasos

y lo que encubría húmeda

podía ser pasto, piedra o trébol.

En las seis mañanas

las ropas extendidas en las calzadas.

 

Viajé. Vi parejas que casi se abrazaban.

Los siete puentesalgunos de hierro forjado  

en el extranjero.

Vi mujeres a solas con los hijos

sintiéndose alienígenas.

No pude ver a los ausentes compañeros.

No pude ver las monjas recogidas

y el tambor para ensayar el próximo frevo* 

 

Viajé. Sentí este olor a hombre.

Heces. Este olor eyaculado.

Vestido de pasado

me comí mis siete colaciones

bebí mis siete cálices.

No estuve próximo al arma de tiro.

Al muerto no llevé luto ni mortaja.

 

Viajé. Vi y palpé.

Y si creí fue por la flor agreste.

Fue por el temblucir de las luces sobre las heces.  

 

 

●•

E se todos decidíssemos pela ausência?
Ficássemos quietos sem nenhum verso
os peixes secos
esquecidos na travessa

 

Ficássemos com as nádegas mofadas
capim assim torrando
sem que viessem os bafos das bocas

terras férteis sem chuva que as amoleçam

 

Fôssemos as histórias perdidas

se não vêm quem as ouça
e outro que nunca soube
do encontro que trouxemos tão perto

 

Estivéssemos onde nenhum herói aparece
nas esquinas onde os homens
não sabem qual será a conversa
Sermos a lua dispersa

o sol que não está mais no universo

 

Trava que se quebra
e nenhum rosto avança na fresta
Fôssemos o que ria
entre os olhos que padecem
quando fossem as quedas dos planetas
dos rubis adversos

 

 

●•

¿Y si todos nos decidiésemos por la ausencia?

Si quedásemos quietos sin ningún verso

los peces secos

olvidados en la bandeja.

 

Si quedásemos con las nalgas enmohecidas

hierba así tostando

sin que viesen los alientos de las bocas

tierras fértiles sin lluvia que las aflojen.

 

Si fuésemos las historias perdidas

si no viene quien las oiga

y otro que nunca supo 

del encuentro que acarreamos tan cerca. 

 

Si estuviésemos donde ningún héroe aparece

en las esquinas donde los hombres

no saben cual será la conversación.

Seremos la luna dispersa

el sol que no está más en el universo.

 

Traba que se quiebra

y ningún rostro avanza en la grieta.

Si fuésemos lo que ríe

entre los ojos que padecen

cuando fuesen las caídas de los planetas  

de los rubíes adversos. 

 

 

SAFRAS

 

No primeiro ano de casado,

a roça deu maravilhas.

Deu o que plantou

e o que não plantou.

O arroz, a taioba, o joá na queimada.

 

E assim nos próximos cinco anos

até que o quinto filho nasceu.

Daí a roça se afastou

para os matos de mais longe.

 

Quando os cambitos dos filhos

deram para afinar

e ficar descobertos,

o mato de dar de comer

acabou.

Teve que repetir na terra de antes.

 

A plantação para o nono filho

não vingou.

 

 

ZAFRAS

 

En el primer año de casado

La roza dio maravillas

Dio lo que se plantó 

y lo que no se plantó.

El arroz, la taioba, el joá en la rozada.

 

Y así en los siguientes cinco años

hasta que el quinto hijo nació.

De ahí la roza se alejó                  

hacia los matos más extensos.

 

Cuando las piernas canilludas de los hijos 

enflaquecieron

y quedaron al descubierto,

el mato que da de comer

acabó.

Se tuvo que reiterar en la tierra de antes.

 

La plantación para el noveno hijo

no prosperó.

 

Salomão Sousa, Maria Abadia Silva e Antonio Miranda juntos no primeiro dia de 2013.

 

 


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