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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

MARLY DE OLIVEIRA
( 1935 - 2007 )

 

  

Nascida em Cachoeiro do Itapemirim- ES, fez seus primeiros estudos em Campos dos Goytacazes - RJ. Poeta e professora de língua e literatura italianas e de literatura hispano-americana. Publicou, entre outros, os livros: Cerco da Primavera (1957), Explicação de Narciso (1960), A Suave Pantera(1962), A Vida Natural e O Sangue na Veia (1967), Contato e Invocação de Orpheu (1975), O Mar de Permeio(1998) e Uma vez, sempre (2000).

 

"Na longa fala de sua importante obra, Marly vem tecendo e consagrando os seus próprios mitos fundamentais. Desde o primeiro livro de poemas, (...) ela trabalha e retrabalha uma só iluminação central, multiplicada e projetada sobre horizontes de significados que tanto mais se alargam quanto mais nítida, precisa e despojada se torna sua peculiar dicção. Por isso, o percurso de Marly, mágico e pendular, retoma sempre o princípio de tudo ('o erro nunca está no fim: / no início é que é preciso / ir desfazendo o escuro'), anula a aridez das lembranças e conflitos pessoais ('por mais que se ande, o caminho / leva sempre para trás'), até chegar à escrita revelada de uma poesia que submete o sofrimento da perda, a amargura do engano, a frieza da aridez ao 'império da esperança' e ao chamado do amor (...)."  MÁRIO CHAMIE

 

“ A Poesia, no Brasil, de linhagem feminina já de algum tempo - com algumas grandes Poetas - se fizera poesia de linhagem poética, sem mais epítetos. Marly de Oliveira é dessa linhagem, quintessenciada.”.   ANTÔNIO HOUAISS

 

Marly construiu sua poesia vivenciando as mais elevadas virtudes de persona: extrema simplicidade e singular humildade. A iluminar essas premissas, lancemos as luzes emanadas da indiscutível Clarice Lispector: “Trata-se de um dos maiores expoentes de nossa atual geração de poetas, que é rica em poesia (...) Basta, porém, ler Marly para admirá-la, respeitá-la e, o que é tão importante, amá-la”.  DONALDO MELLO

 

RETRATO DE MARLY DE OLIVEIRA

Soneto de Bruno Tolentino


O mármore moreno, a calma estela,
o que mal se pressente e só murmúrio,
a lenta floração, a flor interna,
o sumo breve e brando e alto e uno

deram-se as mãos à flautas e à serestas
mais doces, mais recessas, mais sem rumo,
e à volta de seu corpo (ou sua pluma)
tecendo vão seu chão de coisa aérea.

É ela, a fonte alada, a asa da pedra,
o veio diamantino de diuturno,
a síntese volátil sem o mundo,

e, onde quer que a conduzam, a mesma, a eterna.
Que mais dizer que coroasse aquela
que, tão mais voz que face, é fluída? Bela?

 

 

Foto de Marli de Oliveira encontrada dentro de encontrada dentro de um dos livros da biblioteca da autora doada pela

Foto de Marli de Oliveira encontrada dentro de
um dos livros da biblioteca da autora doada pela
 família à Biblioteca Nacional de Brasília.

POEMA

 

I

 

Somos nós a verdade do que existe,

somos nós, meu amor,

A nossa vida breve ampara a vida

das coisas, que persiste.

De que valem os vértices dourados

dos montes, se os não virmos?

Águas, campos e verdes sossegados

que a fina brisa alisa?

 

 

II

 

Estes montes, que nunca vestiu neve

ampla sombra derramam pelo campo,

onde andam sossegados sobre a relva

que não existe na paisagem calma,

rebanhos silenciosos que eu só vejo,

mergulhada no sonho de existir.

Mas que sei de viver e de existir?

Uma luta entre o fogo e a fria neve,

entre aquilo que vejo e o que não vejo,

o debruçar-me sobre qualquer campo,

se a noite vem e vem com ela a calma

do que nem sei se existe sobre a relva.

A verde, frouxa e tão mais fria relva,

que cobre, sombra e sonho, esse existir

por trás do que aparenta apenas calma,

 e é lento fogo transformado em neve,

arder de estio sob o frio campo,

que só eu mesma posso ver e vejo.

E sinto com meu corpo, mais que vejo,

deitada sobre inexistente relva

de um real, silencioso e verde campo,

sobre o qual as janelas do existir

se abrem de manso como pousa a neve

sobre o alto cimo da montanha calma.

E cai de mim a mim a sombra calma

de alguma coisa que não sei se vejo

e se confunde com estoutra neve

que livre deixa o monte e a fresca relva,

e nem por isso acaba de existir

em mim que me contento olhando o campo;

que aspiro a suavidade que há no campo,

aquela paz sem fim, aquela calma

que não dói nem assusta de existir,

e afundo na umidade do que vejo,

apoiada no sonho dessa relva

que nem existe sob a fria neve.

 

 

III

 

Hoje não vou colher

nem laranjas, nem flores, nem amoras.

Vou ver crescer o dia

no redondo das frutas,

e ouvir sem pressa o canto destas aves.

Serão as mesmas de ontem?

Um dia a mais que fez de mim, que faz?

E as aves que cantavam,

se não são estas, onde

estão? O canto apenas se repete?

Aquela que ontem via

o que ora vejo} não é mais em mim?

Então eu me renovo

como as águas e as plantas?

Sou outra} ou me acrescento ao que já sou?

No entanto, é tudo igual,

embora eu saiba que só na aparência;

e meu prazer me vem

de estar sentada aqui,

detendo um tempo que se não detém.

 

 

IV

 

Na tarde sem soçobro o azul instala

sobre as coisas um líquido silêncio,

e a mim me deixa só, desapartada,

 

na observância fiel de um obsidente

solilóquio amoroso, propiciado

por tua ausência e minha infausta mente.

 

Do jugo não imposto e incerto estado

ninguém me livra, que este mal de agora

ainda é o bem em mal transfigurado

 

por obra de distância e da memória,

não do acaso ou do sonho, não da sépia

que às vezes cobre o chão de melancólicas

 

paisagens. Que noturnas, vãs, repletas

formas criadas pelo imaginar

venturoso (que nem o sonho aquieta)

 

sobem de mim a ti, crescem no ar,

sem perguntas, propósitos, certezas,

 e enrolam-se em si mesmas devagar,

 

impregnadas de límpida escureza.

Em torno a solidão não desampara,

antes fecunda a antiga natureza

 

que dorme a tanto mito entrelaçada.

 

 

v

 

      Quando flores e nuvens,

mosaicos de silêncio repentino,

      frescos vales e montes,

onde a erva cresce e o gado se apascenta,

      e o rio sua prata

oferece gentil, à móvel brisa

      de sede sossegada,

quando tudo o que tenho for lembrança;

       que será do que vejo,

se a mais fiel memória transfigura

      o que lembra? No entanto,

o mesmo milho crescerá no campo,

       repetindo o ritual

de há milênios; as mesmas-outras águas

       espelharão no dorso

de vidro movediço os mesmos ramos.

       Estas serão as árvores,

as verdadeiras, íntegras, antigas,

      que só com o pensamento

eu não alcançarei em plenitude

 

de silêncio e de vida.

Pois uma coisa é ter, outra, lembrar.

Uma coisa é viver,

viver em bruto, o sol dando na pele,

o vento levantando

cortinas de esperança e esquecimento;

outra coisa é criar.

Criar quase prescinde do que existe.

O que existe é somente

um rascunho ou um ponto de partida.

Enquanto posso, vivo

a fértil realidade destes longes.

Laboriosa construo

com este mel, para os futuros sonhos, aprazível morada.

 

 

Epigrama

 

Bom é ser árvore, vento:

sua grandeza inconsciente.

E não pensar, não temer.

Ser, apenas. Altamente.

 

Permanecer uno e sempre

só e alheio à própria sorte.

Com o mesmo rosto tranqüilo

diante da vida ou da morte.

 

 

(Poema publicado originalmente na Revista de Cultura Brasileña,vol. 36, diciembre 1973, p. 61-71)

  

 

O sangue na veia

 

XXV

 

Escrevo; logo, sinto, logo, vivo,

e tiro-lhe ao viver a indisciplina

que o espraiaria, que o dispersaria,

e dou-lhe a minha forma comedida,

a que tem o tamanho de um amor

que eu guardo, que não gasto, não disperso;

amor que se concentra em dura pérola,

não pétala, não isto que é um excesso,

pois que pode voar; o que me fica

de tudo o que acontece e não se altera,

de tudo o que acontece e me escraviza,

e do que escravizando me liberta.

Escrevo; logo, sou quem se domina,

e quem avança numa descoberta.

 

 

O sangue na veia

 

XXII 

 

Eu caio em ti como uma bruta pedra

na água, no amor não me dissolvo, o amor

não me absolve, estou (quem nos governa,

quem nos arrasta à guerra ou ao repouso)

colada a quê, um copo sobre a mesa,

menos que o copo, o fundo desse copo,

e, não obstante, para sempre presa,

pois o que basta é tudo o que não posso,

pois o que basta é tudo o que me exige

uma violentação do que, por dentro,

é o meu mundo, essa coisa indefinível

e tão concreta, mas que não conheço,

e às vezes temo que me paralise.

Viver é submeter-se, eu me submeto.

 

 

O sangue na veia

 

XXIII

 

Avançar no viver já significa

coisa mais ampla, coisa que mais vale;

assim como o embrenhar-se numa selva

nos cobre de uma súbita humildade,

humildade que leva a sua grandeza

em si como no bojo de um navio,

e como se isso fosse exterior

e simples, como não se ter sentido,

no escuro de uma selva, do que é nosso:

por efeito de amor então me alargo,

consciente de mim, do que não posso,

e da fraqueza do meu desamparo.

Embora fique em mim, não me dissolva,

e tenha a minha raiva, a minha escolha.

 

 

O sangue na veia

 

XVIII

 

A força que há na luz, não sua ausência,

pode ser a origem mais secreta

do escuro em que afundamos de repente:

por excesso de luz, eis que estou cega,

por excesso de amor, eu não entendo

- o farfalhar macio, a crua seda  -

­aquilo que nos move, e que ultrapassa

 o limite de tudo o que sabemos.

Por excesso de dor eu me humanizo,

eu me faço pequena e tão real,

nos tornamos serenos, silenciosos,

tão reais e inocentes e macios,

que essa luz que não vemos é demais.

Mesmo ser é um excesso em que caímos.

 

 

ELEGIA

 

Teu rosto é o íntimo da hora

mais solitária e perdida,

que surge como o afastar-se

de ramos, brando, na noite.

Não choro tua partida.

 

Não choro tua viagem

imprevista e sem aviso.

Mas o ter chegado tarde

para o fechar-se da flor

noturna do teu sorriso.

 

O não saber que paisagens

enchem teus olhos de agora,

e este intervalo na vida,

esta tua larga, triste,

definitiva demora

 

Poemas transcritos do livro Contato (Marly de Oliveira) e do encarte do Cd Mãos Dadas ( seleção e interpretação de Lauro Moreira)

 

 

Ver o E-Book:http://issuu.com/antoniomiranda/docs/marly_de_oliveira/1

OLIVEIRA, Marly de.  Quando um dia estiver morta. [Jaboatão, PE: Editora Guararapes EGM. 2015?]  18 p. ilus. col. Editor: Edson Guedes de Moraes.  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 



 


POEMAS EN ESPAÑOL 

 

(Poema publicado originalmente na Revista de Cultura Brasileña,vol. 36, diciembre 1973, p. 61-71)

(Obs. No incluye el nombre del traductor de los textos)

 

 

POEMA

 

 

I

 

Somos nosotros la verdad de lo que existe,

somos nosotros, mi amor;

es nuestra vida breve la que ampara la vida

de aquello que perdura.

?De qué valen Ios vértices dorados

de los montes, si no los vemos;

aguas, campos y verdes sosegados

que peina la brisa?

 

 

II

 

Estos montes que nunca ha vestido la nieve

amplia sombra derraman sobre el campo

por donde, sosegados, en Ia hierba

que no existe, pacen rebanos silenciosos

que sólo yo veo

sumergida en el sueno del vivir.

?Mas qué sé yo de vivir y de existir?

una lucha entre fuego y nieve fría,

entre 10 que veo y no veo,

asomarme a un campo cualquiera

si se acerca la noche y con ella la calma

de lo que ni sé si existe sobre la hierba,

la verde, tierna y fría hierba

que cubre, sombra y sueno, ese existir

tras de lo que aparenta, apenas, calma

y es fuego lento transformado en nieve,

arder de estío sobre el campo helado

que sólo yo alcanzo a ver y veo.

Y siento con mi cuerpo, más de lo que allí veo,

echada sobre esa hierba que no existe

de un silencioso y verde campo

sobre el cual las ventanas de la vida

se abren despacio, como al caer la nieve

sobre la calma cima de los montes.

Cae de mí, sobre mí la calma sombra

de algo que no sê si veo

y se confunde con esta otra nieve

que deja libre el monte y la fresca hierba,

y ni aun así acaba de existir

en mí, alegre de mirar el campo;

que aspiro así la suavidad del campo,

aquella paz sin fin, aquella calma

que no duele ni asusta de vivir,

y me hundo en la humedad de lo que veo,

apoyada en el sueño de esa hierba

que ni existe, tal vez, bajo la nieve.

 

 

III

 

Hoy no voy a coger ni naranjas,

ni flores, ni moras.

      Veré crecer el día en la redondez de las frutas

y escucharé, sin prisas, el canto de las aves.

      ?Son las mismas de ayer?

?Qué ha hecho de mí un día más?; ?qué hace?

      Si no son estas aves

      las que ayer cantaban, ?dónde están?

Sólo el canto es el mismo.

      ?Lo que veía ayer,

Lo que ahora veo ya no está en mí?

      ?Acaso me renuevo

      como el agua y las plantas?

?Soy otra o acreciento la que soy?

Pero todo es igual

aun cuando sé que sólo en apariencia;

      y mi ventura nace

     de estar aquí sentada

reteniendo ese tiempo que jamás se detiene.

 

 

IV

 

En la tarde, el azul instala mansamente

un líquido silencio de luz sobre las cosas

y a mí me deja sola, como aislada

 

en la observancia fiel de un obsesivo

soliloquio amoroso que propicia

tu ausencia y tu memoria desdichada.

 

Del voluntario yugo y la incerteza

nada me salva, que este mal de ahora

es sólo un bien en mal transfigurado

 

por obra del recuerdo y la distancia,

no del sueño, no del acaso ni del velo

que a veces cubre el mundo de nostálgicos

 

paisajes. !Qué nocturnas y densas y qué vanas

formas creadas por ese venturoso

imaginar, que ya ni el sueño calma,

 

suben de ti hacia a mí, se crecen en el aire

sin preguntas, ni anhelos, ni firmezas

y, despacio, se enredan en sí mismas

 

!impregnadas de limpia oscuridad!

En torno la soledad no desampara

y hace fecunda Ia naturaleza

 

que duerme, a tanto mito entrelazada.

 

 

v

 

      Cuando flores y nubes,

mosaicos de silencio repentino,

      frescos valles y montes,

donde crece la hierba y apacienta el ganado

      y donde el río ofrece

su plateado ser a la ágil brisa

      de sosegada sed;

cuando lo que ahora tengo sea recuerdos,

      ?qué habrá de lo que hoy veo

si la más fiel memoria transfigura

      lo que recuerda? Y, no obstante,

el mismo trigo crecerá en el campo

      repitiendo un ritual

de milenios; las mismas-otras aguas

      empañarán su dorso

de vidrio movedizo, con esas mismas ramas.

      Estos serán los árboles,

los verdaderos, íntegros, antiguos,

      que con el pensamiento

no alcanzo a ver en esa plenitud

      de silencio y de vida.

Que una cosa es tener; recordar, otra.

      Vivir salvajemente,

el sol sobre la piel

      y el viento levantando

cortinas de esperanzas y de olvidos.

      Y otra cosa es crear;

creación es olvidar lo que ya existe,

      pues lo que existe es sólo

un ensayo o un punto de partida.

      Y, en tanto puedo, vivo

la fértil realidad de lo lejano;

      laboriosa, construyo

con esta miel, para futuros sueños

      apacible morada.

 

 

 

 

 

 

 

TEXTO EM PORTUGUÊS – TEXT IN ENGLISH


O SANGUE NA VEIA

A carne é boa, é preciso louvá-la.
A carne é boa, não é triste ou fraca.
O que a atinge é a fraqueza que há num homem,
a tristeza, maior que um homem, mata-a.
A carne nada tem, salvo o seu sono,
barro tranquilo de harmoniosa forma,
corpo que distraídos animamos,
fonte real de toda a nossa glória.
A carne é o instrumento do princípio,
é por ela que eu vivo, que vivemos
e se revela o amor como é preciso:
o que está fora se une ao que está dentro,
alma e corpo no corpo confundidos,
e a sensação completa de estar vendo.

Mas vendo o quê? com os olhos, os sentidos.
Que visão nos permitem, salvo aquela
instantânea e fugaz, que não dirijo,
e que não suportamos de tão bela.
O ver tranquilo, sem excesso, eu quero,
como a luz delicada que há num barco,
numa folha, num bicho; um ver quieto,
que, absorvendo o real, nos deixe fartos;
um ver maior que a fome, dilatado;
um ver maior que a sede, diluído;
um ver-amor, não água, como um cacto,
mas um cacto não áspero, e sim liso,
um cacto que pudera ser domado,
e, não sendo água, ser todo bebido.

Assim o amor, o que não se dissolve,
como um cacto real, sem aspereza.
Assim o amor real é como um cacto
o que não se dilui em farta seda,
mas se amacia  em seda farta e doce,
e, não sendo água, nem sendo diluível,
é o que se toca e sente, e ver-se pode
não vendo, como aquilo que é sorvido,
e é água sem ser água e sem ser sangue,
E sem ser água tudo dessedenta,
e é quase um fogo essa água toda lenta,
água não água, essa água consistente,
a que se cristaliza numa gema,
numa gema que fosse toda quente.

Uma gema que fosse toda fria,
mas na aparência, e toda quente dentro,
e que tivesse a lisa superfície
do que se usa com grande atrevimento,
mas no íntimo; uma gema toda calma,
quase uma água esse fogo nos doendo,
um silêncio que fosse uma cascata,
mas de que o próprio fogo fosse o centro
e de que o próprio fogo fosse a água.
Assim o amor, assim o que se espalha
e não entorna, e vive do que vive,
e é móvel e capaz de ter limite;
assim o que se adentra e se dilata
como o sangue na veia, e é todo livre.

............................................................

Amor o fatalismo do que tende
a descobrir-se pela ação de um outro
ou de uma coisa; amor, o que se entende
de um cão, de uma paisagem, embora pouco?
Vem-me à tona o que eu não sabia em mim,<
vem-me à tona talvez o que sabia,
mas sem saber, sem ter à experiência
de saber e tornar-me então cativa
de mim mesma, provando-me.  Olho o cão,
uma seiva me sobe até à garganta,
uma seiva que queima em fogo brando,
em calor brando, em fogo de esperança:
isso amor, um queimar-se, um ir queimando,
queimando como casa, como planta?

Amor o fatalismo de escapar
ao difícil convívio de si mesmo,
atingir pela fuga o meu oposto,
de que me valho e a quem eu me submeto?
A quem eu me submeto com doçura,
doçura do que pesa e não tem peso,
doçura do que é bom porque está certo,
como nuvem que vejo e de que esqueço,
e nem por isso deixa de ser nuvem
— doçura do que vaga sobre as coisas —
nuvem da nuvem de quem pensa e vive
a sua fuga real, a sua afoita
maneira de ser pobre e de ser livre.

 

THE BLOOD IN THE VEIN

The flesh is good, one must praise it.
The flesh is good, it is not sad or weak.
What affects it is the weakness that is in a man,
sadness, greater than a man, kills it.
The flash has nothing save only its sleep,
tranquil clay of a harmonious form,
body which, distracted, we enspirit,
real source of all of our glory.
The flesh is the instrument of the beginning,
if it through it that live, that we live,
and love reveals itself as it must:
that which is outer unites with what is inner,
soul and body confounded in the body,
and the complete, entire sense of seeing.

But seeing what? with the eyes, the senses.
What vision is permitted us, save that
instantaneous and fugacious, which I do not direct,
and which we cannot stand, it is so beauteous.
The tranquil seeing, without excess, I want,
like the delicate light that is in a boat,
in a leaf, in an animal; a quiet seeing,
which , absorbing the real, leaves us full;
a seeing greater than hunger, expanded;
a seeing greater than thirst, diluted;
a seeing-of-love, not water, like a cactus,
but like a cactus that is not asperous,
but smooth, a cactus that can be tamed,
and which, not being water, is drunk completely.

Thus love, which does not dissolve:
like a real cactus, without harshness.
Thus real love is like a cactus,
which does not dissolve in silken threads,
but softens into a sweet rich silk,
and not being water, not dilutable,
is what it touches and feels, and can see itself
not seeing, like that which is sucked up
and is water without being water and without being blood.
And without being water, quenches all thirst
and is almost a fire this so slow water,
water not water, this palpable water,
which crystallizes itself in a bud,
in a bud which would be all warm.

A bud which would be all cold,
but in appearance, and all warm within,
and which would have the smooth surface
of that which is used with great daring,
but privately; a bud all calm,
almost water this fire which hurts us,
a silence which would be a falling of water,
but of which fire itself is the center
and of which fire itself were the water.
Thus is love, this is that which spreads out
and does not spill, and lives on that which lives,
and is movable and able to possess a limit;
thus that which turns in to itself and dilates
like the blood in the vein, and is totally free.

…………………………………………………………………..

Love the fatalism which tends
to discover itself by another´s action,
by a thing´s action; love, what do you know
of a dog, of a landscape, even though little?
I came to know what I did not know was in me,
I came to know what perhaps I knew
but did not know, without possessing the experience
of knowing and thereby becoming captive
to myself, testing me. I look at the dog,
a liquid rises to my throat,
a liquid that burns with a low flame,
with a gentle heat, with a fire of hope:
is this love, a burning oneself, a going-on that burns,
burning like a house, like a plant?

Love the fatalism of escaping
from the difficult living with oneself,
attain by flight my opposite,
who I use and to whom I submit?
To whom I submit with sweetness,
a sweetness which weighs and has not weight,
a sweetness of what is good  because it is certain,
like a cloud which I see and forget,
and does not cease to be a cloud
— a sweetness of those who wander over things —
or be sweetness — a cloud for those who live —
their real flight, their audacious
way of being poor an of being free.

 

(Published originally in: WORLD´S WORD – INTERNATIONAL EXPRESSIONS OF THE ARTES.  Volume 3, Fall/Winter 1985. Washington D.C. USA.

 

 


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