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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




FLORIANO MARTINS 
(Fortaleza, 1957).

Poeta, editor, ensaísta e tradutor. Tem se dedicado, em particular, ao estudo da literatura hispano-americana, sobretudo no que diz respeito à poesia.. Foi editor do jornal Resto do Mundo (1988/89) e da revista Xilo (1999). Em janeiro de 2001, a convite de Soares Feitosa, criou o projeto Banda Hispânica , banco de dados permanente sobre poesia de língua espanhola, de circulação virtual, integrado ao Jornal de Poesia. (Currículo completo ao final, depois dos poemas).


TEXTO EN ESPAÑOL y/e TEXTO EM PORTUGUÊS

Veja também: TEXTS IN ENGLISH

 

Veja também: FLORIANO MARTINS & MANUEL IRIS – parceria em livro

 

Veja também:  FLORIANO MARTINS & VIVIANE DE SANTANA PAULO – parceria em livro.

 

 

MARTINS, FlorianoA Vida inesperada  1991-2015.  Fortaleza, CE: ARC Edições; Agulha Revista de Cultura, 2015.  581 p.  13,5x21 cm.  “ Floriano Martins “ Ex. bibl. Antonio Miranda

 

“Vejo o convulsivo na poesia de Floriano Martins dentro daquilo que no Surrealismo se define como belo, vejo o encontro de elementos, sensações e temas no ponto em que deixam de ser opostos. Isso é o que considero convulsivo nele. Vejo elementos do feminino que ele contempla se juntarem aos elementos do masculino que ele expressa. E juntarem-se ao ponto de ser um.”  SUSANA WALD

 

l. SALAS DE RECONHECIMENTO

 

1.

Sou eu: o nome, as letras

em que te arrastas, as perguntas que iniciam

a travessia de tua dor.

 

Noite inquieta sob escombros.

Delicado tambor das tormentas. Tua sombra vem vindo

ao ninho de minhas sílabas errantes.

 

Tua sombra erguida. Intimidade de cinzas

onde a dor o lábio toca. Formas ressurgidas do caos.

Prolongas teu ser em tudo o que me falta.

 

Noite submersa em tremores.

Esplendor de infernos devassados. Pousa tua mão

na esfera crepitante de meus sentidos.

 

Uma prova: o livro que conduz

ao templo. Missal de cinzas. Teu corpo soprado mil vezes,

a queimar mais e mais longe de ti.

 

2.

 

Sou eu: a morte, as ruínas

de tua história, lugar onde ninguém mais te escuta,

onde as pedras de fogo são polidas.

 

Tua sombra erguida, oculto fósforo

no desmaio dos sentidos. Os delicados jogos da morte.

Assim escavas sob os pilares do tempo.

 

A treva em ti atingirá

a fonte de outra queda. Tumulto que eleva

tua vida acima de toda ruína.

 

Noite cerimonial do abismo.

Tuas ruínas respiram em meu canto. Mil nomes segreda
o ar, ao cruzar as entradas invisíveis.

 

Aqui andei, entre as criaturas

dementes do mundo. Peregrino dentro de um quadro.

Escrituras folheando o vento.

 

3.

 

Sou eu: o livro, as vozes

de tua memória agitando os segredos do silêncio,

tuas carnes devoradas pelo tempo.

 

Ressurges em mim. Ávida sentença de meus

dias nas trevas. Alma inacabada a sorrir das formas

que engendro como portas ao absoluto.

 

Uma prova: as últimas chamas

evocadas. Braseiro confirmando a pele de teus dias,

a suportar as figuras do vazio.

 

Noite nascendo em outra noite.

Por trás das colunas circulares, o fogo abriga o livro

do invisível pranto de suas cinzas.

 

Aqui andei. Fomos um e todos.

Mascar o tempo é rito de alucinados. Os episódios

virão dar todos nesta escura sala.

 

MARTINS, Floriano.  O Sol e as sombras.  São Paulo, SP: Pantemporâneo, 2014.  71 p.  Gravuras em metal: Valdir Rocha.  14X21 cm.  “ Floriano Martins “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

AMBÍGUOS

 

O verbo é um cocar, um ídolo disfarçado,

um medo de sangrar até o esquecimento.

O verbo não quer ser investigado por ira,

tramóia, farpas, milagres ou confidências.

Não há verbo no céu ou deus na terra.

Todas as formas são dissidentes, sombras

que um dia planejam ser a mais soberana

de todas as feridas, um cardume silenciado,

o busto ambíguo de um deus finito, carranca

com que me anuncias a partição do reino.

Rebentamos a vida creditando valores

ao horizonte e à geografia dos devaneios.

Nada nos impede de consultar a dissidência.

Por vezes o verbo não faz sentido algum.

 

 

ALICIADOR

 

Quatro vezes dei constância aos ofícios

de que não teremos jamais que regressar.

Os semelhantes não disseram quantos,

simplesmente se foram, desapareceram.

À míngua não morreremos, sem espelho

ou cinzas que testemunhem nossa dinastia.

Sobraram tribos por contar, e cultos

que não sabemos se hostis ou vulgares.

Os filhos estão em quartos propícios

à redoma para que lhes suture os sofrimentos.

Quantas vezes dei constância aos sacrifícios

para que se dissipem antes de toda colheita?

Não convém fazer cópias do mesmo templo.

As formas devem desaparecer dentro de nós

como o acidente imperativo da permanência.

 

 

MARTINS, FlorianoLembrança de homens que não existiam. Fortaleza, CE: ARC Edições, 2013.  104 p. ilus. 14x21 cm.  Desenhos: Valdir Rocha.  Projeto gráfico Nelson Itiro Mitshashi. Tiragem: 300 exs.  “ Floriano Martins “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

XXI

 

Este é o selo da jornada dos castigos descarnados.

Esta é a rosa do infortúnio e sua estrada extinta.

Este é o deserto de círculos incendiários.

Esta é a nuvem que se esconde em um armário invisível.

 

Os meus assuntos são impiedosos e não sabes onde lhes
          alimento.

As tuas quimeras são feras em cativeiro.

Aprendeste a amar a tudo o que te confunde e emporcalha.

Eu jamais te revelaria o peso de minhas palavras.

 

Esta é a mordida voraz que eu reservo a teu coração.

Este é o ninho de tijolos de tua queda e o tumulto da dor.

Esta é a ilha onde inutilmente aprendes a não falhar.

Este é o ferro onde moldas o rosto das vítimas que encarnas.

 

Os teus segredos estropiados batem à porta de novas ruínas.

As minhas fúrias espalham cidades por onde passam.

Eu jamais pude esperar que o sol refizesse o atalho.

Tanto moeste o teu espírito que as sombras te perderam.

 

Este que vês refletido em mim és tu.

Esta que nos olha de soslaio é a ilusão.

Não passou um só instante desde que chegamos aqui.

 

 

 

MARTINS, Floriano. Autobiografia de um truque.  Florianópolis: Eddições Nephelibata, 2010.  112 p.  Exemplar n. 19 de uma edição de 60 exs.  .   “ Floriano Martins “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

O ILUSIONISTA

 

Despeço-me da natureza humana. Confundem-se corpo e alma em seus últimos espasmos. Mesclam-se as raízes do que fomos e de todo um mundo impossível. Quando me tocas já não estou. Em um vislumbre, escapas de meu ser. Um jorro de abismos se expõe em minha nudez. Tenho a pele supliciada. Uma ribanceira de êxtase ampliada em sítios ermos. Para que me cobices onde nem mesmo a memória alcance. E para que argumentes que eu te moldei como uma vítima secreta. Agora já sabes como pude mover-me de um extremo a outro de tua ilusão. A paisagem pressentida sempre esteve ali, como uma visão despida de toda crença. 

 

 

 

 

MARTINS, Floriano.  Duas mentiras.  São Paulo: Dulcinéia Catador, 2007.  s.p.        16x22 cm.  Capa de papelão pintada a mão.  Contato:  
      
http://dulcineiacatadora.blogspot.com.br/

      Os dois primeiros poemas do livro (os demais devem ser lidos no livro):

 

l.

 

Minha nudez de bruços espalhada pelo sofá
dava boa acolhida aos afagos de sua mão.
Talvez se espantasse ao tocar-me entre as coxas,
pois aqueles dedos esboçavam alguma surpresa
antes de mergulharem em minha umidade.
Depois me abria toda, com as duas mãos,
como se viesse do olhar sua fome melhor.
E ali, admirando-me, mal arriscava um beijo,
até que lhe mandasse enterrar-se em num de vez.
Com suportável violência então me atendia,
suando todo o peso de seu corpo sobre o meu.
Parecia rasgar-me, mas ninguém jamais o fizera
tão bem quanto aquele garoto. Não há dúvida;
havê-lo morto deixou-me um pouco sem mim.

 

2.

 

À noite eu lhe disse que seria sua menina,
evocaria as forças que fariam dele um maestro
a afinar-me toda em cada toque. Foi delicado
ao me atar enquanto repetia o que lhe era
por mim sussurrado. Meus mamilos queimavam.
Ele os mordia cozendo-me em salivas como
se fosse óleo. Eu lhe pedia que não deixasse
um santo descoberto. Suguei-lhe tudo quanto
coube em minha boca. Bem sabia o que fazer
enquanto atiçava meus lábios, incitando-me
a mordê-lo. E o fiz, até que sangrasse um pouco.
Porém naquela noite algo lhe espantou o gozo.
Deixou-me presa ao chão e se foi. Jamais o pude
entender, ou a quem quer que ali tenha estado.

 

 


 

MARTINS, Floriano.  Tumultúmulos.  Capa & vinhetas: collages de Floriano Martins.  Rio de Janeiro: Mundo Manual, 1994.  50 p.  Edição de 300 exs. rubricados.   Diretor-editorial Sérgio Campos.  Composição e impressão> ZAS Gráfica e Editora., em Juiz de Fora, MG. 

 

De
Floriano Martins
TUMULTÚMULOS
Capa & vinheta:collages de Floriano Martins
Rio de Janeiro: Mundo Manual Edições, 1993
50 p.   Edição de 300 exemplares rubricadas

 

 

I  Salas de reconhecimento

Sou eu o nome as letras
em que te arrastas As perguntas que iniciam
a travessia de tua dor

Noite inquieta sob escombros
Delicado tambor das tormentas  Tua sombra vem vindo
ao ninho de minhas sílabas errantes

Tua sombra erguida  Intimidade de cinzas
onde a dor o lábio toca  Formas ressurgidas do caos
Prolongas teu ser em tudo o que me falta

Noite submersa em tremores
Esplendor de infernos  devassados  Pousa tua mão
na esfera crepitante de meus sentidos

Uma prova o livro que conduz
ao templo  Missal de cinzas  Teu corpo soprado mil vezes
a queimar mais e mais longe de ti

 

 

Sou eu morte as ruínas
de tua história  Lugar onde ninguém mais te escuta
Onde as pedras de fogo são polidas

Tua sombra erguida  Oculto fósforo
no desmaio dos sentidos  Os delicados jogos da morte
Assim escavas sob os pilares do tempo

A treva em ti atingirá
a fonte de outra queda  Tumulto que eleva
tua vida acima de toda ruína

Sou eu o livro  As vozes
de tua memória agitando os segredos do silêncio
Tuas carnes devoradas pelo tempo

Noite cerimonial do abismo
Tuas ruínas respiram em meu canto  Mil nomes segreda
o ar ao cruzar as entradas invisíveis

 

 

Aqui andei  Entre as criaturas
dementes do mundo  Peregrino dentro de um quadro
Escrituras folheando o vento

Ressurges em mim  Ávida sentença de meus
dias nas trevas  Alma inacabada a sorrir das formas
que engendro como portas ao absoluto

Uma prova as últimas chamas
evocadas  Braseiro confirmando a pele de teus dias
e suportar  as figuras do vazio

Noite nascendo em outra noite
Por trás das colunas circulares o fogo abriga o livro
do invisível pranto de suas cinzas

Aqui andei  Fomos um e todos
Mascar o tempo é rito de alucinados  Os episódios
virão dar todos nesta escura sala

 

 

 

************



10 POEMAS

   

1. AULA PRÁTICA 

Escavar por toda a arte. Em busca das vítimas da prestidigitação e do acaso. Dilatar a paisagem dos corpos até que se tenha a medida mais imprópria dos desastres. Quantas são as mortes que se repetem em cada túmulo violado? Objetos devorados pela ausência de sombras, desfeitos em si mesmos sem reparo. Vozes encalhadas nas vísceras do tempo, sangrando sinais que lidos por engano resultam em uma retórica de dilemas. Se o mundo caminha a largos passos descuidados, cuidar então para que lhe falte terra sob os pés. Afrontar o orgulho tosco do vazio e dizer-lhe no olho o quanto a dispersão o está matando com apenas uma jarra de gritos mal escritos. Buscar um sentido no outro, nos demais. Planejes ou não, todo o teu ser se arrasta dentro de ti. Evoluímos por galicismo. 

 

AULA PRÁCTICA

(Traducción por Benjamín Valdivia)  

Excavar por todo el arte. En busca de las víctimas de la prestidigitación y del acaso. Dilatar el paisaje de los cuerpos hasta que se tenga la medida más impropia de los desastres. ¿Cuántas son las muertes que se repiten en cada túmulo violado? Objetos devorados por la ausencia de sombras, deshechos en sí mismos sin reparo. Voces encalladas en las vísceras del tiempo, sangrando señales que leídos por engaño se resuelven en una retórica de dilemas. Si el mundo camina a largos pasos descuidados, cuidar entonces para que le falte tierra bajo los pies. Afrontar el orgullo tosco del vacío y decirle en el ojo cuánto la dispersión lo está matando con apenas un jarrón de gritos mal escritos. Buscar un sentido en lo otro, en los demás. Lo planees o no, todo tu ser se arrastra dentro de ti. Evolucionamos por galicismo.  

 

 


2. CULTIVO DE FARSAS
 

O crítico acena com sua vigilância embaraçosa. Abomina o que chama de pequenos ruídos da existência, mas se deixa embalar por um silêncio ensurdecedor. Considera impróprio o instinto e o adverte que não acatará suas impurezas. Não se fez crítico para proteger improvisos. Tudo nele está acima do instante, e movimenta-se garboso e único pelo curral de sua petrificada realidade. O crítico apascenta a rigidez de toda arte que a ele se submete. Rega o ossuário das vanguardas, lustrando seus feitos inesquecíveis, matraqueando entre comuns, enfeitiçado, acreditando-se igualmente irrepetível. Depois se desgarra de si e sai a dar cursos de leviandade, defendendo a arte ligeira que pode controlar com sua maçante vigilância.

   

CULTIVO DE FARSAS

(Traducción por Benjamín Valdivia)

 

El crítico gesticula con su vigilancia embarazosa. Abomina lo que llama pequeños ruidos de la existencia, pero se deja arrullar por un silencio ensordecedor. Considera impropio el instinto y le advierte que no acatará sus impurezas. No se hace crítico para proteger improvisados. Todo en él está encima del instante, y se mueve garboso y único por el corral de su petrificada realidad. El crítico apacienta la rigidez de todo arte que a él se somete. Riega el osario de las vanguardias, lustrando sus hechos inolvidables, haciendo ruido entre los comunes, hechizado, creyéndose igualmente irrepetible. Luego se desgarra de sí y sale a dar cursos de liviandad, defendiendo el arte ligero que puede controlar con su tediosa vigilancia.

 



3. ESTAÇÕES DO ACASO
 

Soletro os dias em cada coisa que me olha

quando me sinto a vê-la. É tudo.

E não há desculpas para o que faço.

 

Rosa Alice Branco

 

 

A cender o fogo pela sombra da chama.

Atear luz no olhar do tempo esquecido.

Assim um corpo (dela) diz como deseja

ser escrito pelo outro (dele) que o visita.

Ensinar ao corpo como sair de si.

Traçar eqüidistâncias entre as quedas.

Os pormenores do fogo (ela afiança)

são o melhor regaço dentro do olhar.

E o fixa com tanto esmero que as dobras

do corpo se despem ante o ruído dos passos

(dela) que são vestígios da sumição

das roupas (dele). Por onde o enigma

apura suas harmonias? Por onde um corpo

aprende a soletrar o outro? (ela não diz)

Esvaziar a noite de vícios que a definam.

Deixá-la sem chance de reconhecer-se.

Estar a esboçar um tratado de trevas

requer a cegueira precisa em cada afeição.

Quem plagiaria o suicídio ou a ruína?

Os dons são mecânicos, uma fábula gasta?

Na balbúrdia dos corpos descobrindo-se

um soletra o dia, o outro deslinda a noite.

Qual risco a língua desenha ao passar

de uma boca a outra? Não há exatidão,

exceto no desejo. Um corpo (ela o tenta),

ao cair no outro, é em si que repercute.

O amor tateia entre nódulos (ele matuta).

Uma atração sublime pelas dissonâncias

parece iludir a queda dos corpos amorosos.

O que tens no ventre (diz ele) é o abismo

de que me sirvo para um dia alcançar-me.

Apenas o acaso resguarda tais planos (ela).

Os corpos sondam o pendor pelo extremo.

Atear luz no olhar do tempo esquecido.

Acender o fogo pela sombra da chama.  

 

ESTACIONES DEL ACASO
Traducción: Trina Quiñones y Gonzalo Prieto.

Deletreo los días en cada cosa que me mira
cuando me siento a verla. Es todo.
Y no hay disculpas para lo que hago.

                                Rosa Alice Branco


Encender el fuego con la sombra de la llama.
Atizar luz en la mirada del tiempo olvidado.
Así un cuerpo (el de ella) dice cómo desea
ser escrito por el otro (el de él) que lo visita.
Enseñar al cuerpo cómo salir de sí.
Trazar equidistancias entre las caídas.
Los pormenores del fuego (ella permite)
son el mejor regazo dentro de la mirada.
Y lo fija con tanto esmero que los pliegues
del cuerpo se desnudan ante el ruido de los pasos

(de ella) que son vestigios de la desaparición
de las ropas (de él). ¿Por dónde el enigma
escoge sus armonías? ¿Por dónde un cuerpo
aprende a deletrear al otro? (ella no dice).
Vaciar la noche de vicios que la definan.
Dejarla sin la oportunidad de reconocerse.
Hacer el esbozo de un tratado de tinieblas
requiere la ceguera precisa en cada afecto.
¿Quién plagiaría el suicidio o la ruina?
¿Los dones son mecánicos, una fábula gastada?
¿En la bulla de los cuerpos descubriéndose
cuál trazo la lengua diseña al pasar
de una boca a la otra? No hay exactitud,
excepto en el deseo. Un cuerpo (ella lo tienta),
al caer en el otro, es en sí que repercute.
El amor palpa entre nódulos (él reflexiona).
Una atracción sublime por las disonancias
parece burlar la caída de los cuerpos amorosos.
Lo que tienes en el vientre (dice él) es el abismo
de que me sirvo para un día alcanzarme.
Apenas el acaso resguarda tales planos (ella).

Los cuerpos exploran la pendiente por el extremo.
Atizar luz en la mirada del tiempo olvidado.
Encender el fuego con la sombra de la llama.


 

 

4. PEQUENOS DIABOS RIDÍCULOS BAILANDO NA SOLEIRA DO ABISMO

Oh presas efêmeras de minhas visões

Olho os teus olhos de planta

Olhos de peixe à deriva de tudo

Olhos de estrelas náuticas ancoradas no acaso

Olhos dos sete círculos que as mãos de Beatriz me trazem um pouco antes do fim

Olhos de Heráclito

Olhos que me levam e já não tenho para onde voltar & o mar com seu grande hímen que inflama o arco do desejo

Olhos de garotos que se enforcam em pirâmides imaginárias & a esfinge submersa em galpões de espigas de ócio

Olhos de relâmpagos banidos das entranhas de mil virgens com hóstias fincadas na garganta

Olhos de âncoras das prostituas em fogo bebendo o licor que acumularam nos joelhos os suicidas

Olhos de bêbados que esfaqueiam o vento & os meninos artistas amordaçados pela secretíssima ordem das limitações

Olhos de totem atrás daquela montanha onde a nave mãe deposita seus ovos

TV ATÔMICA

& nossa voz com seus decibéis esfaqueados

Olhos cúmplices dos garotos selvagens que degolam a noite de nossos mitos largados no vagão da eternidade

 

Oh cicatriz sinistra

 

- pleno assalto das visões -

 

é a hora impreterível de mastigarmos a vida com tesão

 

Arranco de mim o meu sexo

e com ele

mato

a tua fome  

 

PEQUEÑOS DIABLOS RIDÍCULOS BAILANDO EN EL UMBRAL DEL ABISMO

(Traducción por Carlos Osório)

 

Oh presas efímeras de mis visiones

veo tus ojos de planta

Ojos de pez a la deriva de todo

Ojos de estrellas náuticas ancladas en el azar

Ojos de los siete círculos que las manos de Beatriz me traen un poco

antes del fin

Ojos de Heráclito

Ojos que me llevan y ya no tengo a dónde volver & el mar con

su gran himen que inflama el arco del deseo

Ojos de muchachos que se ahorcan en pirámides imaginarias & la

esfinge sumergida en galpones de espiga de ocio

Ojos de relámpagos desterrados de las entrañas de mil vírgenes con

hostias hincadas en la garganta

Ojos de refugios de las prostitutas en fuego bebiendo el licor que

acumularon en las rodillas los suicidas

Ojos de borrachos que acuchillean el viento & los niños artistas

amordazados por la secretísima orden de las limitaciones

Ojos de tótem detrás de aquella montaña donde la nave madre deposita sus huevos

 

TV ATÓMICA

& nuestra voz con sus decibeles apuñaleados

Ojos cómplices de los muchachos salvajes que degüellan la noche de

nuestros mitos tirados en el vagón de la eternidad

 

Oh cicatriz siniestra

- pleno asalto de las visiones –

 

es la hora inaplazable de que mastiquemos la vida con tesón

 

Arranco de mí mi sexo

y con él

mato

tu hambre

 



5. EXTRAVIO DE NOITES, 9

 

O corpo está tomado de véus

que são cortes profundos na pele

e são taças de um desastre

no bosque de teus sonhos:

o corpo folheado com seus recortes de gozo

e estamparias laminadas que são rabiscos

na pedra esboçada em teu ventre

e pentelhos de fogo como árvores que se exibem

ante um derrame de vozes:

o corpo onde estavas quando a noite

entoava ventanias e um olho a descoberto

engolia toda a paisagem imaginada:

o corpo em ruínas que se estreitam

a recompor vertigens que são nomes inscritos

em aves rochosas que se chamam coxas

e um tropel de vultos ao passar de páginas de teu corpo:

por noites te chamo mascando nomes

como um dilema febril a confundir imagens

como credenciais a evocar rasgos

que anunciam a tormenta da restauração:

o corpo se refazendo a cada anúncio do fim.

 

EXTRAVÍO DE NOCHES, 9

(Traducción por Carlos Osório)

 

El cuerpo está tomado por velos

que son cortes profundos en la piel

y son tazas de un desastre

en el bosque de tus sueños:

el cuerpo hojaldrado con sus recortes de gozo

y estampados laminados que son garabatos

en la piedra esbozada en tu vientre

y peinados de fuego como árboles que se exhiben

ante un derrame de voces:

el cuerpo donde estabas cuando la noche

entonaba ventoleras y un ojo al descubierto

engullía todo el paisaje imaginado:

el cuerpo en ruinas que se aprietan

para recomponer vértigos que son nombres inscritos

en aves rocosas que se llaman muslos

y un tropel de siluetas al pasar las páginas de tu cuerpo:

durante noches te llamo mascando nombres

como un dilema febril confundiendo imágenes

como credenciales evocando rasgos

que anuncian la tormenta de la restauración:

el cuerpo rehaciéndose a cada anuncio del fin.

 



6. NOS BOLSOS DA SONÂMBULA

 

A solidão está na esperança,

no triunfo, no riso e na dança.

 

Luiz Cardoza y Aragón

 

A solidão estava por toda a casa, enquanto caminhava ausente de si. Por vezes dançava e ria, no triunfo de uma quase debilidade. O corpo movendo-se entre o espasmo e a heresia. Dança de esvoaçante nado. O garoto a via no mergulho em um engodo ancestral, debatendo-se pelas ramagens da própria queda. Havia um cheiro que levaria consigo até a essência de seus escritos. A mulher ali à frente ritmava-lhe a infância. Ele, o insone; ela, a sonâmbula.

Nada disso. Intuía ser outra a razão da presença/ausência de ambos. Nada lhe era de todo invisível. Vendo-a insinuar-se no desenho rítmico de seus acolhimentos, um mundo começava a abrir-lhe parênteses, recebia recados do acaso, anotava sigilosas imagens. Vê-la caminhar pelas dobras de um abismo interior era uma fortuna inigualável. Decerto deixaria que toda a infância fosse tomada pelo espectro indomável daquela mulher recebendo distintas entidades. Mas não. O tempo com ela não se deteve o suficiente. Logo se foi sem tambores.

Os tambores ele próprio desenhou. A sonâmbula trazia muitas vozes nos bolsos de sua pele. Antes dela a mãe tremia ao descrever assombrações que lhe assaltavam as noites. O convulsivo dança enquanto dura a projeção do abismo. Aqueles tambores todos sondavam-lhe o baile ulterior. Acompanhara o roçado secreto daquela mulher, manifestações com chumaço ou praga, guizalhados, bufos, zumbidos, martelares, guinchos, cacarejos. Tambores.

Amara aquela mulher, mais do que duas primas que sorrateiras enfarinharam de encantos alguns momentos guardados de memória. A idéia do perdido se construía com delineada firmeza. Um tufo de alegorias, uma untura de espantos, o isqueiro do cognoscível. A memória dançava. Corpo segurado por outro, agitando-se em círculos incansáveis. Mares de fibra cobrindo e descobrindo a cena. Um teatro do encoberto. Terra de outros ares sendo ela mesma a própria terra e sua impossibilidade.

O corpo nu lhe atraía, tanto quanto a astúcia e o menoscabo do riso dos tambores. Porém nada como a inocência daquele olhar quando retornava a si e lhe indagava o que se passara. A solidão voltava de uma longa viagem. Mil vezes a mesma tarde, o mesmo longo trajeto, insondável sempre. Um precário destino com os bolsos esburacados por planos que jamais compartilhariam realidade alguma.

   

EN LOS BOLSILLOS DE LA SONAMBULA

(Traducción por Jorge Ariel Madrazo)

 

La soledad está en la esperanza,

en el triunfo, en la risa y la danza.

 

Luis Cardoza y Aragón

 

La soledad estaba por toda la casa, mientras caminaba ausente de sí. Por momentos danzaba y reía, en el triunfo de una casi debilidad. El cuerpo, moviéndose entre el espasmo y la herejía. Danza como natación revoloteante. El muchacho la veía en la zambullida dentro de un anzuelo ancestral, debatiéndose en los ramajes de la propia caída. Había un olor que se llevaría consigo hasta la esencia de sus escritos. La mujer, allí frente a él, le ritmaba la infancia. El, insomne; ella, la sonámbula.

Nada de eso. Intuía que era otra la razón de la presencia/ausencia de ambos. Nada le era por completo invisible. Viniendo a insinuarse en el diseño rítmico de su acogida, un mundo comenzaba a abrirle paréntesis, recibía recados del azar, anotaba imágenes sigilosas. Verla caminar por los pliegues de un abismo interior era una fortuna inigualable. Ciertamente, dejaría que toda la infancia fuese tomada por el espectro indomable de aquella mujer, que habría de recibir distintas entidades. Pero no. El tiempo con ella no duró lo suficiente. Se fue luego, sin tambores.

Los tambores, él mismo los diseñó. La sonámbula traía muchas voces en los bolsillos de su piel. Antes de ella, la madre temblaba al describir ciertas visiones que asaltaban sus noches. El convulsivo danza en tanto dure la proyección del abismo. Todos aquellos tambores le sondeaban el baile ulterior. Acompañaría al acariciado secreto de esa mujer, manifestaciones con manojos o plagas, tintineos, burlas, zumbidos, martillazos, chillidos, cacareos. Tambores.

Amaría a aquella mujer, más que dos primas que, escondidas, enharinaron de encantos algunos momentos atesorados en la memoria. La idea de lo perdido se construía con delineada firmeza. Un hartazgo de alegorías, untura de espantos, el mechero de lo cognocible. La memoria danzaba. Cuerpo sostenido por otro, agitándose en círculos incansables. Mares de fibra cubriendo y descubriendo la escena. Un teatro de lo encubierto. Tierra de otros aires y, a la vez, ella misma su propia tierra y su imposibilidad.

El cuerpo desnudo lo atraía, tanto como la astucia y el menoscabo en la risa de los tambores. Sin embargo, nada como la inocencia de aquella mirada, cuando vuelta a sí misma lo interrogaba por lo que acontecía. La soledad regresaba de un largo viaje. Mil veces la misma tarde, el mismo largo trayecto, insondable siempre. Un precario destino, con los bolsillos agujereados por planes que jamás compartirían realidad alguna.

 


7. O JOGO DAS FORMAS

 

A loucura terá seus anúncios? O colecionador de pentelhos em caixas de fósforo, a caluniosa simpática que fazia-se coxa quando lhe descobriam a tramóia, o trêmulo a rabiscar paredes com os dedos sangrados. Loucos em banheiras planejando golpes de estado, renúncias de cargo algum, assuntos evitados. Em quantos vasos percorre o mundo a loucura? Haverá mesmo uma?

Ao visitar a tia, nenhum diálogo se completava. O argucioso é tudo menos louco. E o garoto logo perceberia viver em um nicho de evasivas. A avó desconversava quando vinha com suas inquietudes acerca de Deus. Aos 13 anos a visita de um parente bispo coroara o assunto. Deus era um grande equívoco e a loucura não passava de um blefe. Toda prova é circunstancial, mas pode ser usada para fins distintos. O silêncio arremeda autismo e dissidência. Para onde me mova, estou em tuas mãos.

Quedas são transcritas por exímios copistas. Estados de pânico, angústias banais, violências súbitas. A tia escorregava em um lodoso silêncio, sempre que ele falava em sua mãe. Acendia um cigarro e logo o largava. Procurava algo nos bolsos. E retomava o que bom que você veio me ver . Não retornou mais ali.

Também sentia-se só. Os sonhos se dispersaram. Já não era mais garoto. As casas foram vendidas. Uma delas demolida. Não tinha consigo um único daqueles milhares de livros. Os parentes todos morreram. Apenas a tia ainda vivia, uma irônica relação entre ser e tempo. Qual a medida da loucura naquilo tudo? Qual a medida de nossa presença em tudo o que fazemos? A loucura é o que deixamos escapar, o que não conseguimos ser?

O menino levava consigo uma pequena caixa de madeira. Dentro havia duas lâminas de vidro, uma tesoura minúscula cuja forma era a do encontro de suas cobras, e um raro acervo de figuras as mais insólitas. As imagens se repetiam ao excesso – janelas, molduras, livros abertos, corpos humanos, fogueiras – e pareciam não ter fim. Ao buscar o livro que seria as asas de um lagarto planejando a fuga diante de uma janela aberta, retirou da caixa milhares de recortes, amontoados ao redor. Descontente afirmara que o infinito tem seus próprios dilemas e então recortou as abas de dois livros e com elas o lagarto se foi. Todos aqueles papelotes retornaram a um ninho de dimensões impossíveis de contê-los.  

 

EL JUEGO DE LAS FORMAS

(Traducción por Jorge Ariel Madrazo)

 

¿La locura tendrá sus anuncios? El coleccionador de vellos púbicos en cajas de fósforos, la simpática calumniosa que fingía ser coja cuando le descubrían la tramoya, el ávido por garabatear paredes con los dedos sangrados. Locos en bañeras planeando golpes de estado, renuncias a ningún cargo, asuntos evitados. ¿En cuántos recipientes recorre el mundo la locura? ¿Habrá acaso solo una?

Al visitar a la tía, ningún diálogo podía completarse. El hábil en argucias es todo, menos loco. Y el muchachito se sentía viviendo en un nicho de evasivas. El abuelo cambiaba de tema cuando saltaba con sus inquietudes acerca de Dios. A los 13 años, la visita de un pariente obispo ponía al asunto un broche de oro. Dios era un enorme equívoco, y la locura no pasaba de un bluff. Toda prueba es circunstancial pero puede ser usada para distintos fines. El silencio imita autismo y disidencia. Para donde me mueva, estoy en tus manos.

Las caídas son transcriptas por copistas eximios. Estados de pánico, angustias banales, violencias súbitas. La tía se deslizaba por un silencio enlodado cada vez que él hablaba de su madre. Encendía un cigarro y luego lo abandonaba. Buscaba algo en los bolsillos. Y retomaba aquello de: Qué bueno que has venido a verme. No volvió más allí.

Se sentía solo, también. Los sueños se dispersaron. Ya no era un muchacho. Las casas, vendidas. Una de ellas: demolida. No tenía consigo ninguno de aquellos miles de libros. Todos los parientes murieron. Apenas la tía vivía aún, una irónica relación entre ser y tiempo. ¿Cuál es la medida de la locura en todo aquello? ¿Cuál es la medida de nuestra presencia en cuanto hacemos? ¿La locura es lo que dejamos escapar, o lo que no logramos ser?

El niño llevaba con él una pequeña caja de madera. Dentro había dos láminas de vidrio, una tijera minúscula cuya forma semejaba el encuentro de sus culebras y un raro acervo de figuras, en su mayor parte insólitas. Las imágenes se repetían hasta el exceso -ventanas, molduras, libros abiertos, cuerpos humanos, hogueras- y parecían no tener fin. Al buscar el libro que sería las alas de un lagarto planeando la fuga ante una ventana abierta, retiró de la caja millares de recortes amontonados alrededor. Descontento, afirmaría que el infinito tiene sus propios dilemas, y entonces recortó los faldones de dos libros, y con ello el lagarto se fue. Todos aquellos papeles retornaron a un nido cuyas dimensiones hacían imposible contenerlos.

 



9. VESTES
 

Os panos nus.

Nenhuma imagem sangrando na pele

de tecidos prontos para o afago.

Recito essa nudez com um par de asas.

Um demônio agachado,

colando os lábios nos meus.

De onde me vês serei um córrego de ossos,

calcinado deleite de tuas almas,

umas poucas, as que não souberam

preservar o horror que as antecipa

e compreende.

Rostos engordurados em cerimônias…

E como te postas, demônio,

mordendo-me os seios, como te postas?

Um olhar a escolher ossos.

Carvões astutos e conhecedores da fábula.

Vê bem o que trago comigo,

este corpo minguado em débeis luas.

Preparas uma pele para mim?

Dá-me tuas facas, esporões, chifres,

a ponta imperfeita de teu falo.

Vês como me faço em mil coxas,

viscosas como iscas, e todas soletram

a queda que anuncias.

Os panos

sobre o vazio, nus.

Equilíbrio voltado para o chão,

rostos desfeitos de vítimas que não alcançam mais ofertório, o pé de um deus encontrado em escavações, por onde me sagras,

puto demônio,

por onde

me despedaças desejosa de tua saúde.

Meu corpo em lascas, santuário decrépito

de tua perversão,

cascos me arranhando o tecido da memória, sim,

uma mínima dor palmilha insuspeitas procedências,

e sabes o quanto me dói tua abundância,

o pote que indicas e ansiosa ponho-me a buscar ali a resposta para o aflito cultivo

de dores

por todo meu corpo.

Carrego comigo todas as formas

com que me atacas.

Quais máscaras perpetuamos, as minhas, as tuas?

Meus lábios te queimam a pele.

Óleos acesos enquanto nos desfazemos.

Os panos como papiros, inscrições invisíveis que ensinam a manter quente a cabeça de um deus morto.

Nus.

Com a medida do inferno de cada dobra

do tecido de que somos feitos.  

 

VESTIMENTAS

(Traducción por Jorge Ariel Madrazo)

 

Paños desnudos.

Ninguna imagen sangrando en la piel

de tejidos listos para la caricia.

Recito esa desnudez con un par de alas.

Un demonio agachado

pegando sus labios a los míos.

De donde tú me ves, yo sería un arroyo de huesos,

calcinado deleite de tus almas:

unas pocas, las que no supieron

preservar el horror que las anticipa

y comprende.

Rostros engordados en ceremonias...

¿Y cómo te ubicas, demonio,

mordiéndome los senos, cómo te ubicas?

Un mirar para escoger huesos.

Carbones astutos y conocedores de la fábula.

Mira bien lo que traigo conmigo:

este cuerpo menguado en débiles lunas.

¿Preparas una piel para mi?

Dame tus cuchillos, espolones, cuernos,

la punta imperfecta de tu falo.

Ves cómo me hago en mil muslos,

viscosos como cebos, y todos deletrean

la caída que anuncias.

Los paños

sobre el vacío, desnudos.

Equilibrio derrumbado hacia el suelo,

rostros deshechos de víctimas que ya no alcanzan el ofertorio, el pie de un dios hallado en excavaciones por donde me consagras,

puto demonio,

por donde

me despedazas deseosa de tu salud.

Mi cuerpo en astillas, santuario decrépito

de tu perversión,

cascos arañándome el tejido de la memoria, sí,

un mínimo dolor recorre procedencias insospechadas,

y sabes cuánto me dolía tu abundancia,

el pote que indicas y, ansiosa, me lanzo a buscar allí la respuesta para el afligido cultivo

de dolores

por todo mi cuerpo.

Cargo conmigo todas las formas

con que me atacas.

¿Qué máscaras perpetuamos: las mías, las tuyas?

Mis labios te queman la piel.

Aceites encendidos mientras nos deshacemos.

Paños como papiros, inscripciones invisibles que enseñan a mantener caliente la cabeza de un dios muerto.

Desnudos.

Con la medida del infierno en cada pliegue

del tejido de que estamos hechos.

 



REINO DE VERTIGENS

 

Teu corpo e o meu caindo sobre o mundo:

noite saqueada por uma caravana de relâmpagos.

Despojos do tempo foragido de sua fonte,

minando abismos à deriva, perdas flutuantes.

O rosto deformado da beleza que as ruínas cultuam,

linguagem extraviada ao querer entrar em si.

Teu corpo e o meu em sua queda mais secreta.

Um labirinto que fosse um deserto e um deus

ciente que dali não há retorno. Fuga de trevas.

Os disfarces fatais da memória ante o infinito.

Indetíveis sombras caindo sobre o mundo.

Teu corpo e o meu: o que resta de um no outro.

 

 

REINO DE VÉRTIGOS

 

 Traducción de Benjamín Valdivia

 

 Tu cuerpo y el mío cayendo sobre el mundo:

noche saqueada por una caravana de relámpagos.

Despojos del tiempo fugitivo de su fuente,

minando abismos a la deriva, pérdidas fluctuantes.

El deformado rostro de la belleza que las ruinas cultivan,

lenguaje extraviado al querer entrar en sí.

Tu cuerpo y el mío en su caída más secreta.

Un laberinto que fuese un desierto y un dios

sabedor que de allí no hay retorno. Fuga de tinieblas.

Los disfraces fatales de la memoria ante el infinito.

Indetenibles sombras cayendo sobre el mundo.

Tu cuerpo y el mío: lo que resta de uno en el otro.

FUEGO EM LAS CARTAS

 

De

Floriano Martins
FUEGO EM LAS CARTAS
FOGO NAS CARTAS

Traducción: Blanca Luz Pulido
Punta Umbría, Huelva: Ayuntamiento de Punta Umbría, 2009

155p. (Colección Palabra Ibérica)

 

 

 

ALGURES UM MAPA              

 

 

Quantas serão as migalhas do espírito,

quando este mal soletra seus extravios?

Um bocado de nada, quanto lhe custa?

 

Quantas vezes suportará  o desatino de ser

tão excessivamente nada entre escombros?

Qual preço em cada agulha que o desfia?

 

Uma vez que empalidece o mapa da ilusão,

já não reconhece um vestígio próprio.

De tanto olhar para si, quantos vê ainda?

 

Será deste modo que se esvai, tão líquido?

Quem quer que encontre durante a queda,

com nenhum contará que o defenda de si.

 

Estará sempre em débito com os espelhos,

as imagens se despedaçando a cada lustre.

Que importa quantas eram um minuto antes?

 

Ao levar as mãos aos olhos quanto repinta

do que até então nem presume haver perdido?

Saberia se desfazer do que ainda não teve?

 

Quanto escavará a lembrança e a ambição,

sem distinguir a qual cova mais se dedique?

Ao roer as vozes que o cercam, apenas cinzas.

 

Formas arrastadas para o limite do ilegível.

Onde pouso a mão sem que me escapes, diz.

E já quase nada mais dizia, limitado à queda.

 

Planejaria tornar a cada espelho submerso,

para refazer-se da imagem mal vislumbrada?

Quanto lhe custaria em naufrágios, interessa?

 

 

 

EN ALGÚN SITIO, UN  MAPA

 

 

¿Cuántas  serán las migajas del espíritu,

cuándo este mal deletrea sus extravíos?

Un poco de nada, ¿cuándo cuesta?

 

¿Cuántas veces soportará el desatino de ser

tan excesivamente nada entre escombros?

¿Qué precio en cada aguja que lo desenreda?

 

Una vez que palidece el mapa de la ilusión,

ya no reconoce ni un vestigio propio.

De tanto mirar hacia sí mismo, ¿ cuántos ve todavía?

 

¿Será de este modo que se desvanece, tan líquido?

No importa a quién encuentre durante la caída,

no tendrá a nadie que lo defienda de sí mismo.

 

Estará siempre en deuda con los espejos,

las imágenes se despedazarán en cada brillo.

¿Qué importa cuántas eran hace un minuto?

 

Al llevarse las manos a los ojos, ¿ cuánto recupera

de lo que no pensaba haber perdido?

¿Sabría deshacerse de lo que nunca tuvo?

 

¿Qué tanto buscará el recuerdo y la ambición,

sin saber a qué tumba consagrarse más?

Al roer las voces que lo cercan, sólo cenizas.

 

Formas llevadas hasta el límite de lo ilegible.

Dime dónde puedo poner la mano para que no te  

                                                        escapes.

y no decía casi nada más, solo caía.

 

¿Planearía volver a cada espejo sumergido,

para rehacerse de la imagen mal vislumbrada?

¿Cuánto le costaría en naufragios, acaso  importa?

 

 

 

Corpos da ilusão imersos em água salgada,

como rios atormentados por um ritual.

Quantas vezes não somos senão o que fomos?

 

Algures um deus, um menino travesso, luz

queimada em plena ilustração do espírito.

Quanto custa percorrer a dor inteira?

 

O que mis revira o ser que seu reverso?

Uma grande língua que vare toda a vida,

e que nos fale o que temos de mais íntimo.

 

Cair na traquinagem do tempo ou do espaço,

eis como ceder à arte de matar o espírito.

Quanto de mim deposito na conta do viver?

 

 Em comum, os escrúpulos da inocência

e as suspeitas de crime, o que têm?

Decaído o espírito flerta com vagos perfis.

 

Quem sabe o peso do vazio e seu destino,

calcule a tarifa da postagem e lamba

o selo como o espinhaço do infortúnio.

 

o que subscrevo quando me livro de mim?

Para onde vou se observo o mar caindo

por toda parte e tudo é rio desmoronado?

 

Esticar o limite do fim até que rebente.

Que a ilusão não tenha sossego e se rompa,

como a esperança arruinada por capricho.

 

Quantas as migalhas vagando pelo bosque,

desencontradas do que já tem fantasiam,

o espírito encalhado em conjecturas?

 

Um rosário de quedas, a que preço?

Qual transparência suporta uma noite

de sono bem acomodada em si mesma

 

 

 

Cuerpos de la ilusión inmersos en agua salada,

como ríos atormentados por um ritual.

¿Cuántas veces no somos sino lo que fuimos?

 

En alguna parte un dios, un niño travieso, luz

quemada en plena ilustración del espíritu.

¿Cuánto cuesta recorrer el dolor entero?

 

¿Qué revuelve más al ser que su reverso?

Una inmensa lengua que traspase toda la vida,

y que nos hable a lo más íntímo que tenemos.

 

Caer en el juego del tiempo o del espacio

es como ceder al arte de matar el espíritu.

¿Cuánto de mí dejo en la cuenta de la vida?

 

¿Qué tienen en común los escrúpulos

de la inocencia y las sospechas del crimen?

El espíritu decaído coquetea con vagos perfiles.

 

Quien sepa ele pelo del vacío y su destino,

calcule el precio del envio y lama

el timbre como el espinazo del infortunio.

 

¿Qué afirmo cuando me libro de mí?

¿Hacia dónde voy si observo el mar cayendo

por todas partes y todo es un río deshecho?

 

Estirar el límite del fin hasta que reviente.

Que la ilusión no tenga sosiego y se rompa,

como la esperanza arruinada por capricho.

 

¿Cuántas migajas vagando por el bosque,

olvidadas hasta de lo que ya ni imaginan,

el espíritu encallado en conjeturas?

 

¿Un rosario de caídas, a qué precio?

¿Qué transparencia soporta una noche

de sueño bien hallada en sí misma?

 



As imagens se retorcem, feito uma chama

dentro do fogo. Um pássaro diz-se outro

ao desfazer-se de suas asas carbonizadas.

 

Como reter a escrita de um espírito findo?

Por onde cai salpica labirintos e ressurge

e, ósseo, volta a morrer por toda parte.

 

Desfazer-se da neblina, da areia, dos golpes

do desejo lavrados na pele da prudência.

custa mais caro que a insônia, quem banca?

 

Quanto se pede pelo enredo da semelhança?

Dívida assim não se paga em vida. Deus

algum cobraria tão pouco por seus mortos.

 

A vida é excessivamente nula do que somos,

e revela-se na dor que desferimos contra

         o espelho, quebra, guarda, nenhum desconto

 

 

 

Las imágenes se retuercen, como una llama

dentro del fuego. Un pájaro parece outro

al deshacerse de sus alas carbonizadas.

 

¿Cómo contener la escritura de un espíritu liquidado?

Donde cae salpica laberintos y resurge

y, óseo, vuelve a morir en todas partes.

 

Librarse de la neblina, de la arena, de los golpes

del deseo labrados en la piel de la prudencia,

¿cuesta más caro que el insomnio, quién paga?

 

¿Cuánto se pide por la confusión de la semejanza?

Una deuda así no se paga en vida. Ningún

dios cobraria tan poco por sus muertos.

 

La vida está excesivamente vacía de lo que somos,

y se muestra en el dolor que ocasionamos

al espejo –rompe, vigila, sin descuento

 

 

 

POR ONDE CAI A LINGUAGEM

 

 

1.

Em nada meu morto parece

com outros homens que tive

bem posto dentro de mim.

 

Talvez matá-lo seja um abuso.

Naquele apuro de máscaras,

sempre a confundir-me,

 

não separo o morto do vivo.

Ponho-me em seu lugar

a conhecer por onde andou.

 

O corpo cercado por curiosos

em muitos casos citado,

porém o morto em outra parte.

 

Ainda me excita esse homem

como um espelho a refazer-se.

Eu o mataria mil vezes.

 

Talvez o que falte à vida

seja o desejo de tê-la,

dela fazendo parte a morte.

 

Ouço-lhe o chamamento:

meu morto me quer assim,

a matá-lo sempre.

 

2.

Difícil recuperar o morto

após uma noite de ausência

do enunciado do crime.

 

 

 

POR DONDE CAE EL LENGUAJE

 

 

1.

Mi muerto no se parece en nada

a otros hombres que tuve

bien puestos dentro de mí.

 

Tal vez matarlo sea un exceso.

En ese enredo de máscaras,

que siempre me confunde,

 

no separo al muerto del vivo.

Me pongo en su lugar

para saber por dónde anduvo.

 

El cuerpo cercado por curiosos

se cita en muchos casos,

pero el muerto en otra parte.

 

Aún me exaspera ese hombre

como un espejo que se recompone.

yo lo mataria mil veces.

 

Quizá lo que le falte a la vida

sea el deseo de tenerla,

haciéndola parte de la muerte.

 

Oigo lo que me pide:

mi muerto me quiere así,

matándolo siempre.

 

 

2.

Es difícil recuperar al muerto

después de una noche de ausencia

del enunciado del crimen.

 

 

 

Melhor não deixá-lo a sós,

a ruminar seus motivos,

quem sabe ocultando pistas.

 

Há mortos que não se querem

lembrados ou explicados.

Corpos cúmplices da morte,

 

aos poucos se acumulam

como um legado da dúvida,

o que leva o ser a deixar-se.

 

E mortos assim escondem

detalhes preciosos da vida

chegam a se passar por outros.

 

A quem deles cuida cabe

não tirar o olho um momento,

pois se disfarçam em tudo.

 

Já vi mortos se unindo

em uma sucessão de crimes

quando não passava de um só.

 

 

3.

Não quis jamais sabê-lo

dentro de quantas outras.

Em mim o tinha bem quente,

 

Não me doía além do prazer.

Que me viesse com muitas,

recebia a todas como sendo ele.

 

Quanto mais dentro metia-se

mas o sabia onde vertê-lo.

Não era só um crime sem regra.

 

 

 

Mejor no dejarlo solo,

rumiando sus motivos,

tal vez ocultando pistas.

 

Hay muertos que no quieren ser

recordados ni explicados.

Cuerpos cómplices de la muerte,

 

poco a poco se acumulan

como una herancia de la duda,

lo que lleva al ser a abandonarse.

 

Y muertos así esconden

detalles preciosos de la vida.

Hasta se hacen pasar  por otros.

 

Quien los cuida debe

estar siempre atento de ellos,

pues se ocultan en todo.

 

He visto muertos uniéndose

en una sucesión de crímenes

que eran uno solamente.

 

 

3.

No quise nunca saberlo

dentro de tantas otras.

En mí estaba caliente,

 

no me dolía más Allá del placer.

Que me viera con muchas,

a todas las recibía como si él fueran.

 

Mientras más dentro se metía

más sabía dónde verterlo.

No era sólo un crimen sin regla.

 

 

 

Quando o matei, bem lembro:

jamais havia gozado tanto.

Devia estar com todas em mim,

 

o olhar delas queimando a pele.

Ele me pegava como se várias,

sendo meu homem em tantas.

 

E sabia que podia tê-las em mim,

descarnando-me com volúpia,

mesmo enquanto o esfaqueava.

 

Um homem assim não se perde.

Se nos quer a muitas, nos reunimos

a celebrar o que sempre sonhou.

 

 

Recuerdo bien cuando lo maté:

nunca había disfrutado tanto.

Debía estar con todas en mí,

 

la mirada de ellas quemando la piel.

Él se me adhería como si fuera muchas,

Y era mi hombre en tantas

 

Y sabía que podía tenerlas en mi,

descarnándome con lujuria,

incluso mientras lo apuñalaba.

 

Un hombre así no se pierde.

Si nos quiere a muchas, nos reunimos

a celebrar lo que siempre sueño.

 

 

 

MARTINS, Floriano.  Extravio de noites. Extravío de noches.  Caxias do Sul, RS: Maneco Livraria & Editora, 2001.  28 p. (Poetas e Orpheu, n. 3). 12,5x15 cm.  ISBN 85-86610-35-6  Direção da coleção: Angela Pieruccini Boff. Capa: Lorenzo Pelegrin.   “ Floriano Martins “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 


Como te moves dentro de mim?

Me arrasto em tua direção e danças

e te desdobras em sombras

que são a própria noite coberta pelo desejo.

Todos nos deixamos embaraçar

por um atrito de vozes dentro delas,

uma arte de tocaia, ouro de enigmas.

Qual o argumento de tua volúpia?

O que me escreves no corpo

acaso não exagera tua figura?

Onde estará o centro dessa orgia

que levamos a público todas as noites?

O que importa? Danço com tuas sombras

e entrego-me a elas diferente de mim

 

 

¿Cómo te mueves dentro de mi?

Me arrastro en tu dirección y danzas

y te desdoblas en sombras

que son la propia noche cubierta por el deseo.

Todos nos dejamos embarazar

por una lucha de voces dentro de ella,

un arte de acecho, oro de enigmas.

¿Cuál el argumento de tu voluptuosidad?

¿Lo que me escribes en el cuerpo

acaso no exagera tu figura?

¿Dónde estará el centro de esa orgía

que hacemos publica todas las noches?

¿Qué importa? Bailo con tus sombras

y me entrego a ellas diferente de mi 

 

 

MARTINS, Floriano.  Teatro imposible.  Traducción de Marta Spagnuolo.  Caracas: Fundación Ediorial El Perro y la Rana, 2007.  220 p. (Colección Poesia del Mundo. Serie Contemporáneos)  14x20 cm.  Tiragem: 3000 exs. “ Floriano Martins “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

Campos quemados

 

21.

 

Este es un viejo libro que escribe el llanto. Todo hombre quiere saber en qué se distingue del padre. Presiente las pisadas del passado, las inundaciones del alma, las decadencias sutiles de la memoria, el lento desfigurarse de las imágenes. Un libro se divide em cruzar los canales del olvido. Um libro prolonga los temblores de la plenitud. Somos los sombrios escribas. Los que buscan reencontrar em el vació um instante de cariño con la carne de sus
mortales. Todo esto estará dispuesto en libro, em sangrenta descendencia de presagios.  La palabra es el único médio de tocar el espíritu, cuando la llaga se instala em nuestras entrañas. Éste es un viejo libro escrito muchas veces. El dolor dissimula su llanto, no su conjuro.

.

 

 

MARTINS, Floriano.  Tres estudios para un amor loco. Trad. Marta Spagnuolo.   México,  DF: Alforja, 2006.  125 p.   13x20 cm.  “ Floriano Martins “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

Primeras voces

 

Donde crece el árbol de nuestro amor

esfera sembrada de sol y viento y mar

sus brazos tiemblan como versos del aire

respiración del fuego entre las ramas

donde crece el amor sobre el mundo

toda la edad perdida queda en tus ojos

la mujer acariciada por el olvido

                                         cuyo

cuerpo se acuesta sobre el dolor del tiempo

y nudos de espejos silenciosamente caen

de sus sombras en el secreto del paisaje

 

Yo tengo un sueño oculto en mi pasado

en las ruinas de la memoria reconozco

las señales del amor, los sudores de mi ser

mientras desconoce el tiempo por qué sangran

los dolores que crecen en tu piel

                                  el misterio

de nalgas danzando en la expresión invisible

de unas tristezas huyendo de tu risa y unas

sonrisas volando camino de tu tristeza

 

Donde muere la noche flota una canción

el nombre de la puerta frondosa que se abre

en el centro de cenizas de nuestro sueño

tu fulgurante tronco de senos y presencia labrada

los elementos viejos de la realidad

                                           el coro

quemante de tus deseos y sus llamas invisibles —

palabra que inventa los nuevos asuntos

y una secreta aventura de besos por toda la noche

— es el tributo del temblor y es la sed del universo

 

La música de tu carne oh amor las rocas de tu ser

que me hablan de la imagen desnuda del abismo

esta cadencia de caídas que descalza la memoria

las manos abiertas de la oscuridad en sus vientos mojados

resbalan los sueños oh amor en el compás redondo

de la agonía — un agua espantada — rota corriente

— la misma música que crece dentro del tiempo

                                                              y vuela

dispersa entre nuestros sudores de tierra y espejos

es tu nuevo misterio el dolor que vamos a buscar

 

 

 

 

PAULO, Viviane de Santana;  MARTINS, Floriano.  Abismanto.   Natal, RN: Sol Negro Editora, 2012.  112 p.    13x19,5 cm.   Imagem da capa: A sombra avulsa, fotografia digital de Floriano Martins. Tiragem: 60 exs. numerados. Editor: Márcio Simões. Col. A.M.  (EA)

 

 

debaixo das unhas do dia há restos do ontem  no

   bolso direito da camisa guardo o ruído das

   maçanetas das portas se abrindo

faz bem ao coração  um xale de hamádrias ajuda

   as flores a se sentirem sagradas e o esconderijo

   da cesta cheia de maçãs mordidas pelo pecado

   encontra-se no fundo de um armário de madeira

   maciça na casa de uma desconhecida

ao lado do vidro de aplausos em conserva  trazidos

   de uma antiga peça teatral  foi abri-lo e um

   corpo de baile invadir a sala derramando-se pelas

   prateleiras  cada um dos corpos como que

   saídos de uma árvore
um bosque sendo montado a partir de seus

   fragmentos  membros saltitantes  silhuetas

   encorpadas   a perfeição austera dos sexos

o meu desejo contagiado pelos murmúrios que

   dialogavam entre si

abismados com a realidade repentina diante dos

   olhos ainda se entregando à dramaturgia das

   mudanças

no chão as peles descascadas são as farsas caídas

   que se refazem a cada papel ensaiado  e nas

   letras dos títulos o ingresso à verossimilhança

   libélulas brilhantes sobrevoando os cabelos fartos

   do enredo

como as manhãs dípteras que rondam a fruteira e os

   insetos coloridos dançantes debaixo das axilas das

   dafnes  um coro de ninfas esvoaçando os ramos

   de teu mistério  o capinzal guarda uma tigela de

   incontáveis vertentes

renomeio os temperos para que o milagre não se

   perca enquanto vestes uma nudez que soletra

   todos os voos  eu me aproximo sorrateiro de

   sombras que são túnicas de um espanto que se

   renova a cada movimento de tuas ancas




 



Floriano Martins
(Fortaleza, 1957). Poeta, editor, ensaísta e tradutor. Tem se dedicado, em particular, ao estudo da literatura hispano-americana, sobretudo no que diz respeito à poesia. Foi editor do jornal Resto do Mundo (1988/89) e da revista Xilo (1999). Em janeiro de 2001, a convite de Soares Feitosa, criou o projeto Banda Hispânica , banco de dados permanente sobre poesia de língua espanhola, de circulação virtual, integrado ao Jornal de Poesia .

Críticas sobre sua obra, assim como entrevistas com o poeta, já foram publicadas no Brasil e no exterior, a exemplo de jornais como El Universal (Panamá), El Comércio (Peru), El Universal (México), El País (Uruguai), El País (Colômbia), O Estado de S. Paulo , Jornal da Tarde , Folha de S. Paulo , Correio Brasiliense , O Povo , Diário do Nordeste , Estado de Minas , O Globo , O Estado do Tapajós , e revistas como Prisma (Colômbia), Común Presencia (Colômbia), Paréntesis (México), Storm Magazine (Portugal), Alforja (México), Mapocho (Chile), TriploV (Portugal) e Voces (Estados Unidos) - material crítico assinado por nomes como Sérgio Campos, Carlos Felipe Moisés, Wilson Martins, José Paulo Paes, Maria Esther Maciel, Rolando Toro, Jorge Rodríguez Padrón, Ivan Junqueira, José Castello, Rodrigo Petronio, Eleuda de Carvalho, Carlos Germán Belli, Miguel Gomes, Alfredo Fressia, Maria Estela Guedes, Nicodemos Sena.

Com larga trajetória de colaboração à imprensa, tem escrito artigos sobre música, artes plásticas e literatura, incluídos nas publicações citadas e também em outras, como Comércio do Porto (Portugal), Letras & Letras (Portugal), International Graphitti (Costa Rica), El Artefacto Literario (Suécia), Exégesis (Porto Rico), Crítica (México), Blanco Móvil (México), Casa del Tiempo (México), e brasileiras como Rascunho , Alô Música e Poesia Sempre . Organizou para as revistas mexicanas Blanco Móvil e Alforja duas edições especiais dedicadas à literatura brasileira, respectivamente "Narradores y poetas de Brasil" (1998) e "La poesía brasileña bajo el espejo de la contemporaneidad" (2001), bem como as edições especiais "Poetas y narradores portugueses" ( Blanco Móvil , México, 2003) e "Surrealismo" ( Atalaia Intermundos , Lisboa, 2003), respectivamente em parceria com Maria João Cantinho e Maria Estela Guedes. Como artista plástico participou de exposições como "O surrealismo" (Núcleo de Arte Contemporânea, Escritório de Arte Renato Magalhães Gouvêa, São Paulo, 1992), "Lateinamerika und der Surrealismus" (Museu Bochum, Köln, 1993) e "Collage - A revelação da imagem" (Homenagem ao centenário de André Breton 1896-1996, Espaço expositivo Maria Antônia/USP, São Paulo, 1996). Em maio de 2000 realizou o espetáculo Altares do Caos (leitura dramática acompanhada de música e dança), no Museu de Arte Contemporânea do Panamá. Um ano antes também havia realizado uma leitura dramática de William Burroughs: a montagem ( collage de textos com música incidental), na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo.

Dentre algumas conferências que tem proferido, destacam-se "América Latina e Identidade Cultural" (Centro de Humanidades, Universidade de Brasília, Brasília, 1998), "Linguagens contemporâneas e identidade nacional: literatura" (SESC Pompéia, São Paulo, 1999), "Algunos poetas brasileños (Ivan Junqueira, Dora Ferreira da Silva, José Santiago Naud, Sérgio Campos, Claudio Willer, Ruy Espinheira Filho, Adriano Espínola e Donizete Galvão)" (Faculdad de Humanidades de la Universidad de Panamá, 2000), "Sobre a condição editorial de algumas revistas de cultura na América Latina" (Instituto Goethe, São Paulo, 2001), "Surrealismo & Brasil" (Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 2003) e “La modernidad de la poesía hispanoamericana” (Centro de Estudios Latinoamericanos Rómulo Gallegos, Caracas, Venezuela, 2004).

Participou dos seguintes volumes coletivos: Camorra (volume monográfico sobre Harold Alvarado Tenorio, Ediciones La Rosa Roja , Bogotá, 1990), Focus on Ludwig Zeller, poet and artist (Mosaic Press, Oakville-New York-London, 1991), Adios al siglo XX (Edição dedicada à poesia de Eugenio Montejo, Separata da revista Palimpsesto , Sevilla, 1992), O olho reverso. 7 poemas e um falso hai-kai (Edição comemorativa dos 41 anos de poesia de José Santiago Naud, Thesaurus Editora, Brasília, 1993), Tempo e antítese. A poesia de Pedro Henrique Saraiva Leão (Editora Oficina, Fortaleza, 1997), Surrealismo e Novo Mundo (Ensaios sobre Surrealismo na América Latina, org. Robert Ponge, Editora da Universidade UFRS, Porto Alegre, 1999), Festival Mundial de Poesía Venezuela 2004 (Antologia poética, org. Andrés Mejía, Monte Ávila Editores, Caracas, 2004), El Bacalao - Diatribas antinerudianas y otros textos (Ensaios, org. Leonardo Sanhueza, Ediciones B, Santiago, Chile, 2004), e Escolas literárias no Brasil (Conferências, org. Ivan Junqueira, Ed. da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 2004). 

Livros publicados

Cinzas do sol (poesia). Mundo Manual Edições. Rio de Janeiro. 1991.

Sábias areias (poesia). Mundo Manual Edições. Rio de Janeiro. 1991.

El corazón del infinito. Trés poetas brasileños (traducción de Jesus Cobo)

entrevistas). Cuadernos de Calandrajas. Toledo, Espanha. 1993.

Tumultúmulos (poesia). Mundo Manual Edições. Rio de Janeiro. 1994.

Ashes of the sun (translated by Margaret Jull Costa) (poesia). Incluído em The myth of the world (The Dedalus Book of Surrealism 2) . Dedalus Ltd. London . 1994.

Escritura conquistada (Diálogos com poetas latino-americanos) (entrevistas). Letra & Música. Fortaleza. 1998.

O começo da busca (Escrituras surrealistas na América Hispânica) (ensaio). Coleção Memo. Fundação Memorial da América Latina. São Paulo. 1998.

Poemas de amor (antologia poética) , de Federico García Lorca. Ediouro Publicações. Rio de Janeiro. 1998. [tradução e prólogo]

Delito por bailar o chá-chá-chá (contos), de Guillermo Cabrera Infante. Ediouro Publicações. Rio de Janeiro. 1998. [tradução]

Alma em chamas (poesia). Letra e Música. Fortaleza. 1998.

Dois poetas cubanos (ensaios), de Jorge Rodríguez Padrón. Coleção Memo. Fundação Memorial da América Latina. São Paulo. 1999. [tradução]

Três entradas para Porto Rico (ensaios), de José Luis Vega. Coleção Memo. Fundação Memorial da América Latina. São Paulo. 2000. [tradução]

Alberto Nepomuceno (biografia). Edições FDR. Fortaleza. 2000.

A nona geração (contos), de Alfonso Peña. Edições Resto do Mundo. Fortaleza. 2000. [tradução e prólogo]

Cenizas del sol (poemas y esculturas) . [com o escultor Edgar Zúñiga]. Ediciones Andrómeda. San José, Costa Rica. Setembro de 2001.

Extravio de noites (poesia). Ed. Poetas de Orpheu. Caxias do Sul. 2001.

O começo da busca - O surrealismo na poesia da América Latina (ensaio e antologia poética). Escrituras Editora. São Paulo. 2001.

Nós/Nudos (25 poemas sobre 25 obras de Paula Rego) , de Ana Marques Gastão. Editora Gótica. Lisboa, Portugal. 2004. [tradução]

Un nuevo continente (Antología del Surrealismo en la Poesía de nuestra América) . Ediciones Andrómeda. San José, Costa Rica. 2004.

Estudos de pele (poesia) . Editora Lamparina. Rio de Janeiro. 2004.

 

 

 

 
 
 
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