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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


OLAVO BILAC

OLAVO BILAC 
(1865-1918
)

TEXTOS EM PORTUGUÊS   /  TEXTOS EN ESPAÑOL
POEMS IN PORTUGUESE & ENGLISH

TEXTOS EN ITALIANO

Veja mais adiante, nesta página: OLAVO BILAC – SÁTIRAS

 

Ver também: POEMAS INFANTIS

Ver também: VISÃO E REVISÃO DE OLAVO BILAC, por ANTONIO MIRANDA - ENSAIOS



ÚLTIMA PÁGINA

 

Primavera. Um sorriso aberto em tudo. Os ramos

Numa palpitação de flores e de ninhos.

Doirava o sol de outubro a areia dos caminhos

(Lembras-te, Rosa?) e ao sol de outubro nos amamos.

 

Verão. (Lembras-te, Dulce?) À beira-mar, sozinhos

Tentou-nos o pecado: olhaste-me... e pecamos;

E o outono desfolhava os roseirais vizinhos,

Ó Laura, a vez primeira em que nos abraçamos...

 

Veio o inverno. Porém, sentada em meus joelhos,

Nua, presos aos meus os teus lábios vermelhos,

(Lembras-te, Branca?) ardia a tua carne em flor...

 

Carne, que queres mais? Coração, que mais queres?

Passam as estações e passam as mulheres...

E eu tenho amado tanto! e não conheço o Amor!

 

ÚLTIMA PÁGINA

 

Trad. de Jaime Tello

 

Primavera. Sonrisa abierta en todo. Ramos

Con palpitar de nidos, de flores y de trinos.

Doraba el sol de octubre la arena en los caminos.

(¿Te acuerdas, Rosa?) al sol de octubre nos amamos.

 

Estío. (¿Te acuerdas, Dulce?) Entre efluvios marinos

Tentónos el pecado: me miraste, y…pecamos;

Y otoño deshojaba los rosales vecinos,

Laura, la vez primera en que nos abrazamos.

 

¡Tu boca entre mis labios! Y ante el invierno crudo

Ardió en dorados vinos tu albo cuerpo desnudo…

(¿Te acuerdas, Branca?) ardía toda tu carne en flor…

 

¿Qué más anhelas, carne? Corazón, ¿qué más quieres?

Pasan las estaciones y pasan las mujeres,

Y yo, que he amado tanto, ¡no conocí el amor!

 

 

(Extraído de Cuatro siglos de poesía brasileña. Caracas: Centro Abreu e Lima de Estudios Brasileños/ Instituto de Altos Estúdios de América Latina/Universidad Simon Bolívar, 1983.)

 

Existem muitas edições das obras completas de Olavo Bilac, sendo que esta é considerada a 1a. edição definitiva, de 1902, da célebre casa publicadora  H. Garnier (com sede em Paris e no Rio de Janeiro) com encadernação esmerada, incluindo as obras "Panoplias", "Via Láctea",  "Sarças de Fogo", "Alma Inquieta", "As Viagens" e "O Caçador de Esmeraldas".  Reproduzimos aqui a folha de rosto e a foto do "Príncipe dos Poetas Brasileiros" que aparece no  frontispício.

 


 

          SAHARA VITAE

Lá vão eles, lá vão! O céu se arqueia

Como um teto de bronze infindo e quente,

E o sol fuzila e, fuzilando, ardent

Criva de flechas de aço o mar de areia...

 

Lá vão, com os olhos onde a sede ateia

Um fogo estranho, procurando em frente

Esse oásis do amor que, claramente,

Além, belo e falaz, se delineia.

 

Mas o simum de morte sopra: a tromba

Convulsa envolve-os, prostra-os; e aplacada

Sobre si mesma roda e exausta tomba...

 

E o sol de novo no ígneo céu fuzila...

E sobre a geração exterminada

A areia dorme plácida e tranqüila.

 

 

SAHARA VITAE

 

Trad. de Jaime Tello

 

¡Allá van! Se arque el cielo en comba plana,

Techo de bronce infinito y caliente,

Y el sol dispara y parando ardiente

Flechas de acero clava en mar de arena.

 

Allá van, la mirada de sed llena

Y un fuego extraño, oteando al frente

Ese oasis de amor que claramente

Bello y falaz promete agua serena.

 

Sopla el simún de muerte, tromba infausta

Convulsa los aplasta, y aplacada

Sobre sí misma rueda y cae exhausta.

 

Y el sol de nuevo el ámbito aniquila;

Y sobre esta raza exterminada

El área duerme plácida y tranquila.

 

 

  (Extraído de Cuatro siglos de poesía brasileña. Caracas: Centro Abreu e Lima de Estudios Brasileños/ Instituto de Altos Estúdios de América Latina/Universidad Simon Bolívar, 1983.)   

 

UM BEIJO

Foste o beijo melhor da minha vida,
Ou talvez o pior ... Glória e tormento,
Contigo à luz subi do firmamento,
Contigo fui pela infernal descida! 

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
Queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
E do teu gosto amargo me alimento,
E rolo-te na boca malferida.  

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
Batismo e extrema-unção, naquele instante
Por que, feliz, eu não morri contigo?  

Sinto-te o ardor, e o crepitar te escuto,
Beijo divino! e anseio, delirante,
Na perpétua saudade de um minuto ...  


UM BESO

 

Trad. de Jaime Tello

 

El mejor beso fuiste de mi vida

O tal vez el peor: gloria y tormento

Contigo hallé la luz del firmamento

Y hallé contigo la infernal caída.

 

Moriste y mi deseo no te olvida:

Mi sangre quemas y mi pensamiento;

De tu sabor amargo me alimento

Y te exprime mi boca malherida.

 

Beso extremo, mi premio y mi castigo,

Bautismo, extremaunción. En ese instante

¿Por qué no moriría entonces contigo?

 

Siento arder, crepitar tu acerbo fruto,

Beso divino, anhelo delirante

¡En la saudade eterna de un minuto! 

 

(Extraído de Cuatro siglos de poesía brasileña. Caracas: Centro Abreu e Lima de Estudios Brasileños/ Instituto de Altos Estúdios de América Latina/Universidad Simon Bolívar, 1983.)  

 

TERCETOS

 

I

 

Noite ainda, quando ela me pedia

Entre dois beijos que me fosse embora,

Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

 

"Espera ao menos que desponte a aurora!

Tua alcova é cheirosa como um ninho...

E olha que escuridão há lá por fora!

 

Como queres que eu vá, triste e sozinho,

Casando a treva e o frio de meu peito

Ao frio e à treva que há pelo caminho?!

 

Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!

Não me arrojes à chuva e à tempestade!

Não me exiles do vale do teu leito!

 

Morrerei de aflição e de saudade...

Espera! até que o dia resplandeça,

Aquece-me com a tua mocidade!

 

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça

Repousar, como há pouco repousava...

Espera um pouco! deixa que amanheça!"

 

— E ela abria-me os braços. E eu ficava. 

 

II

 

E, já manhã, quando ela me pedia

Que de seu claro corpo me afastasse,

Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

 

"Não pode ser! não vês que o dia nasce?

A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta...

Que diria de ti quem me encontrasse?

 

Ah! nem me digas que isso pouco importa!...

Que pensariam, vendo-me, apressado,

Tão cedo assim, saindo a tua porta,

 

Vendo-me exausto, pálido, cansado,

E todo pelo aroma de teu beijo

Escandalosamente perfumado?

 

O amor, querida, não exclui o pejo.

Espera! até que o sol desapareça,

Beija-me a boca! mata-me o desejo!

 

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça

Repousar, como há pouco repousava!

Espera um pouco! deixa que anoiteça!"

 

 

- E ela abria-me os braços. E eu ficava.

  

            TERCETOS

 
                   Trad. de Ángel Crespo


         I

         De noche aún, cuando ella me pedia
         Entre dos besos que marchar quisiera,
         Yo, con los ojos húmedos, decía:

         “¡ A que la aurora raye, un poco espera!
         Tu alcoba como un nido es de olorosa...
         ¡ Y cuán oscura está la noche fuera!

 

¿ Cómo quieres que, triste, la espantosa

Tiniebla junte y frio de mi pecho

Al frio y la tiniebla tan miedosa?!

 

¿ 0yes? ¡ El viento en temporal deshecho!

¡ No me arrojes así a la tempestad!

¡ No me exilies del valle de tu lecho!

 

Moriré de aflicción y soledad.

¡ Espera! hasta que el día resplandezca

¡ Deme calor tu hermosa mocedad!

 

En tu regazo deja que adormezca

Mi cabeza, que ha poco reposaba...

¡ Espera un poço! j deja que amanezca!»

 

—Y los brazos me abría. Y me quedaba.

 

II

 

Ya de mañana, cuando me pedía

Que de su claro cuerpo me apartase,

Yo, con los ojos húmedos, decía:

 

¡ No puede ser! ¿ No ves que el día nace?

El cielo corta, sangre y luz, la aurora...

í Que diría de tí quien me encontrase?

 

l Ah! i No me digas que no importa ahora!

¿ Que pensarían viéndome, afanado,

Saliendo de tu casa en esta hora,

 

Viéndome exhausto, pálido, cansado,

Y con todo el aroma de tu amor

Escandalosamente perfumado?

 

Quererte no me libra del rubor...

 

i Espera! hasta que el sol desaparezca.

i Besa mis lábios! ¡ Mátales su ardor!

 

¡ En tu regazo deja que adormezca

Mi cabeza, que ha poco reposaba...!

¡ Espera un poço! ¡ Deja que anochezca!»

 

—Y los brazos me abria. Y me quedaba.

 

 

 

OLAVO BILAC

Fonte da imagem: www.brasilcult.pro.br/estudos/literatura/poesia_brasil08.htm

 

VITA NUOVA

 

Se ao mesmo gozo antigo me convidas,
Com esses mesmos olhos abrasados,
Mata a recordação das horas idas,
Das horas que vivemos apartados!

Não me fales das lágrimas perdidas,
Não me fales dos beijos dissipados!
Há numa vida humana cem mil vidas,
Cabem num coração cem mil pecados!

Amo-te! A febre, que supunhas morta,
Revive. Esquece o meu passado, louca!
Que importa a vida que passou? que importa,

Se inda te amo, depois de amores tantos,
E inda tenho, nos olhos e na boca,
Novas fontes de beijos e de prantos?!

 

 

VITA NUEVA

 


                   Trad. de Ángel Crespo

 

Si al mismo gozo antiguo me convidas

Con esos mismos ojos abrasados,

Mata el recuerdo de las horas idas,

De aquellas que vivimos separados.

 

No me hables de las lágrimas perdidas,

No me hables de los besos disipados.

En cada vida humana hay cien mil vidas,

Aloja un corazón cien mil pecados.

 

Te amo. La fiebre no murió, y está

Despierta. Olvida mi pasado, loca,

? Qéê más da lo pasado, qué más da?

 

i ? Si aún te amo, después de amores tantos,

Y tengo aún en los ojos y en la boca

Nuevas fuentes de besos y de llantos?! .

 

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PÁTRIA

 

Olavo Bilac

 

Pátria, latejo em ti, no teu lenho, por onde

circulo! E sou perfume, e sombra, e sol e orvalho!

E, em seiva, ao teu clamor a minha voz responde,

e subo do teu cerne ao céu de galho em galho!

 

Dos teus liquens, dos teus cipós, da tua fronde,

do ninho que gorjeia em teu doce agasalho,

do fruto a amadurar que em teu seio se esconde,

de ti, - rebento em luz e em cânticos me espalho!

 

Vivo, choro em teu pranto; e, em teus dias felizes,

no alto, como uma flor, em ti, pompeio e exulto!

E eu, morto, - sendo tu cheia de cicatrizes,

 

tu golpeada e insultada, ­ eu tremerei sepulto:

e os meus ossos no chão, como as tuas raízes,

se estorcerão de dor, sofrendo o golpe e o insulto!

 

 

LÍNGUA PORTUGUESA

 

Olavo Bilac

 

 

Última flor do Lácio, inculta e bela,

és, a um tempo, esplendor e sepultura:

ouro nativo, que na ganga impura

a bruta mina entre os cascalhos vela...

 

amo-te assim, desconhecida e obscura,

tuba de alto clangor, lira singela

que tens o trom e o silvo da procela,

e o arrolo da saudade e da ternura!

 

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo!

Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

 

em que da voz materna ouvi: “meu filho”,

E em que Camões chorou no exílio amargo,

­o gênio sem ventura e o amor sem brilho!

 

 

 

 

OS SONETOS. AntologiaSão Paulo:  LR Editores, Banco Lar Chase, 1982.  237 p.   }
22 x 28 cm. Capa e ilustrações de Percy Deane.   Encadernado. Edição Especial Banco
Lar  CHASE.    Ex. bibl. Antonio
Miranda  

 

 

 

 

OUVIR ESTRELAS

 

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

 

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

 

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com ela? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

 

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

 

 

 

 

 

OLAVO BILAC – SÁTIRAS

 

( poesia satírica )

 

 

SIMÕES JÚNIOR, Alvaro SantosA  Sátira do Parnaso.  Estudo da Poesia satírica de Olavo Bilac publicada em periódicos de 1894 a 1904.   São Paulo: Unesp, 2007.    335 p.   ilus.  ISBN 978-85-7139-762-0  /Baseado numa tese de doutoramento, orientada por Luis Roberto Velloso Cairo./  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

"Passou ontem, na Câmara, em 2ª. Discussão, o projeto abrindo o crédito de 10.ooo$ para despesas imediatas com o serviço de limpeza do canal do Mangue", no Rio de Janeiro. A seguir o poema de Bilac publicado na Gazeta de Notícias, 9 dez. 1900, p.1:

 

         "Dez contos? Isso é dinheiro!
         Vocês, com isso, talvez
         Possam limpar um chiqueiro,
         Limpar as ruas de Fez,
         Todo o golfo de Biscaia.
         O vasto oceano sem fim,
         A ilha de Sapucaia;
         Os cortiços de Pequim...
         Porém, o canal do Mangue?
         Ora, não sejam ratões!
         Nem com coco! nem com sangue!
         Nem com quinhentos milhões.

 

"O ceticismo do poeta quanto à possibilidade de saneamento do Canal do Mangue não desapareceria nem mesmo com as reformas empreendidas por Pereira Passos, pois defendia uma solução mais radical." (p. 193)

***

"Em janeiro de 1901, mês em que a cidade enfrentou uma greve dos cocheiros, correu pela capita da República o boato de que, no dia 23, haveria um grande levante monarquista apoiado por forças de terra e ar. Dada a falsidade do alarme, Bilac aproveitou a oportunidade para zombar dos que ainda sonhavam com a restauração monárquica." (p. 195)

 

A CONSPIRAÇÃO

 

Temos a casa vazia!
Toda esta população
Saiu daqui, no outro dia,
Para uma conspiração...

Todos, um moço, outro velho,
Mas todos, sem exceção.
Uns com carta de conselho,
Outros com tocha na mão;

Estes, com eira e com beira,
Aqueles, sem um tostão,
Mas todos (que pagodeira!)
Amando a conspiração...

Malucos! voltai à casa!
Para quê tanta ilusão?
Tendes o cérebro em brasa?
Quereis uma ducha, não?

Voltai! a casa vazia
Chora tanta ingratidão...
Não nos deixeis mais um dia
Por uma conspiração!

Voltai à tranquilidade!
Aqui, na antiga mansão,
Vós matareis a saudade
De El-Rei Dom Sebastião!

 

Publicado na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 27 jan. 1901.

 

"A veia satírica do poeta manifestou-se uma única vez nas páginas d´A Cigarra, quando, em 10 de outubro de 1895, expressou seu desconsolo com o panorama teatral da cidade do Rio de Janeiro."  A Cigarra, Rio de Janeiro, n. 23, 10 out. 1895.

 

Musa! Por que inda vais ao largo do Rocio
Bocejar, de teatro em teatro vazio?
Foi-se o Frégoli! Foi-se a Tiozzo! A Fúller (Ida)
Foi-se! E, em largo tropel, aos trambolhões, fugida,
Foi-se a troupe do Frank, - cavalos e palhaços...
A que triste plateia hás de levar os passos,
Musa? Restam-te agora apóstrofes e prantos:
Ou a Emília Adelaide, ou a Ismênia dos Santos...

 

Nem sequer ouvirás Palmira n'A Cigarra;
Souza Bastos de novo ao trololó se agarra:
E, para restaurar as enchentes que tinha,
Ressuscita o Tintim e Os dias de Clarinha...

 

Musa! a noite melhor, a noite que me chama
É a do beijo, a do amor, a do sono, a da cama!"

 

Mais poemas satíricos e os comentários doutos só mesmo no livro...

 

Imagem extraída  de

DIAS-PINO, WlademirA lisa escolha do carinho (Rio de Janeiro: Edição Europa, s.d. 
20,5x20,5 cm.  33 f. ilustradas  (Coleção Enciclopédia Visual).   Inclui versos de
poetas brasileiros

HADAD, Jamil Almansur, org.   História poética do Brasil. Seleção e introdução de  Jamil Almansur Hadad.  Linóleos de Livrio Abramo, Manuel Martins e Claudio         Abramo.  São Paulo: Editorial Letras Brasileiras Ltda, 1943.  443 p. ilus. p&b  “História do Brasil narrada pelos poetas. 

HISTORIA DO BRASIS – POEMAS

 

 

SAGRES

       Acreditavam os antigos celtas, do Guadiana
espalhados até à costa, que, no templo secular do
Promontório Sacro, se reuniam à noite os deuses,
em misteriosas conversas com esse mar cheio de
enganos e tentações.”

                   Ol. Martins.  História de Portugal

Em Sagres. Ao tufão, que se desencadeia,
A água negra, em cachões, se precipita, a uivar;
Retorcem-se gemendo os zimbros sobre a areia...
E, impassível, opondo ao mar o vulto enorme,
Sob as trevas do céu, pela trevas do mar,
Berço de um mundo novo, o promontório dorme.

Só, na trágica noite e no sítio medonho,
Inquieto como o mar sentindo o coração,
Mais largo do que o mar sentindo o próprio sonho,
— Só, aferrando os pés sobre um penhasco a pique,
Sorvendo a ventania e espiando a escuridão,
Queda, como um fantasma, o infante Dom Henrique...

.......................................

 

É que o Sonho lhe traz dentro de um pensamento
A alma toda cativa. A alma de um sonhador
Guarda em si mesma a terra, o mar, o firmamento,
E, cerrada de todo à inspiração de fora,
Viver como um vulcão, cujo fogo interior,
A si mesmo imortal se nutre e se devora.

 

“Terras de Fantasia! Ilhas afortunadas,
Virgens, sob a meiguice e a limpidez do céu,
Como ninfas, à flor das águas remansadas!
— Podo o rumo das naus contra a noite horrorosa,
Quem sondara esse abismo e rompera esse vé,
Ó sonho de Platão, Atlântida formosa!

“Mar tenebroso! Aqui recebes, porventura,
A síncope da vida, a agonia da luz?...
Começa o caos aqui, na orla da praia escura?
É a mortalha do mundo, a bruma que te veste?
Mas não! Por trás da bruma, erguendo ao sol a Cruz,
Vós sorrides ao sol, Terras Cristãs do Preste!

..........................

E, torturado e só, sobre o penhasco a pique,
Com os olhos febris, furando a escuridão,
Queda como um fantasma o Infante Dom Henrique...
Entre os zimbros e a névoa, entre o vento e a salsugem,
A voz incompreendida, a voz da Tentação
Canta ao surdo bater dos macaréus que rugem:

Ao largo, ousado, o segredo
Espera, com ansiedade,
Alguém privado de medo,
E provido de vontade...

Verás destes mares largos
Dissipar-se a cerração!
Aguça os teus olhos, Argus:
Tomará corpo a visão...

Sonha, afastado da guerra,
De tudo! — em tua fraqueza,
tu, dessa ponta de terra,
Dominas a natureza!

Na escuridão que te cinge,
Édipo, com altivez,
No olhar de líquida esfinge
O olhar mergulhas, e lês...

Tu que, então, entre os teus sábios,
Murchando a flor dos teus dias,
Sobre mapas e astrolábios
Encaneces e porfias;

Tu, buscando o oceano infindo,
Tu, apartados dos teus,
(Para, dos homens fugindo,
Ficar mais perto de Deus);

Tu, no agro templo de Sagres,
Ninho de aves esbeltas,
Reproduzes os milagres
Da idade escura dos Celtas:

Vê como a noite está cheia
De vagas sombras... Aqui,
Deuses pisaram a areia,
Hoje pisada por ti.

E, como eles poderoso
Tu, mortal, tu, pequenino,
Vences o Mar Tenebroso,
Ficas senhor do Destino!

Já, enfunadas as velas,
Como asas a palpitar,
Espalham-se as caravelas
Aves tontas pelo mar...

Nessas tábuas oscilantes,
Sob essas asas abertas,
A alma dos teus navegantes
Povoa as águas desertas.

Já, do fundo mar vário,
Surgem as ilhas, assim
Como as contas de um rosário
Soltas nas água sem fim.

Já, como cestas de flores,
Que o mar de leve balança,
Abrem-se ao sol os Açores
Verdes, a cor da esperança.

Vencida a ponta encantada
Do Bojador, teus heróis
Pisam a África, abrasada
Pela inclemências dos sóis.

Não basta! Avante! Tu, morto
Em breve, tu, recolhido
Em calma, ao último porto,
— Porto da paz e do olvido,

Não verás, com o olhar em chama,
Abrir-se, no oceano azul,
O voo das  naus do Gama,
De rostros feitos ao sul...

Que importa? Vivo e ofegando
No ofego das velas soltas,
Teu sonho estará cantando
À flor das águas revoltas.

..................

 

Longa, e cálida, assim, fala a voz da Sereia...
— Longe, um roxo clarão rompe o noturno véu.
Desce agora, ameigando os zimbros sobre a areia,
Passa o vento. Sorri palidamente o dia...
E súbito, como um tabernáculo, o céu
Entre faixas de prata e púrpura irradia...

(de POESIA – Livr. Francisco Alves – 11ª. edição -1925)

 

O CAÇADOR DE ESMERALDAS

 

Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada
Do outono, quando a terra, em sede requeimada,
Bebera longamente as águas da estação,
— Que, em bandeira, buscando esmeraldas e prata,
A frente dos peões filhos da rude mata,
Fernão Dias Pais Leme entrou pelo sertão.
..........................

II
Para o norte inclinando a lombada brumosa,
Entre os naterios jaz a serra mistérios;
A azul Vupabussu beija-lhe as verdes faldas,
E águas crespas, galgando abismos e barrancos
Atulhados de prata, umedecem-lhe os flancos
Em cujos escavões dormem as esmeraldas.

Verde sonho!... é a fornada ao país da Loucura!
Quantas bandeiras já, pela mesma aventura
Levadas, em tropel, na ânsia de enriquecer!
Em cada tremedal, em cada escarpa, em cada
Brenha rude, o luar beija à noite uma ossada,
Que vêm, a uivar de fome, as onças remexer...

Que importa o desamparo em meio do deserto,
E essa vida sem lar, e esse vaguear incerto,
De terror em terror, lutando braço a braço
Com a inclemência do céu e a dureza da sorte?
Serra bruta! dar-lhe-ás, antes de dar-lhe a morte
As pedras de Cortez, que escondes no regaço!

E sete anos, de fio em fio destramando
O mistério, de passo em passo penetrando
O verde arcano, foi o bandeirante audaz...
— Marcha horrenda! Derrota implacável e calma,
Sem uma hora da mor, estrangulando na alma
Toda a recordação do que ficava atrás!

..................

Que importava? Ao clarear da manhã, a campanha
Buscava no horizonte o perfil da montanha...
Quando aparecia enfim, vergando a espalda,
Desenhada no céu entre as neblinas claras,
A grande serra, mão das esmeraldas raras,
Verde e faiscante como uma grande esmeralda?

Avante! E os aguaçais seguiam-se às florestas...
Vinham os lamarões, as leziras funestas,
De água paralisada e decomposta ao sol,
Em cuja face, como um bando de fantasmas,
Erravam dia e noite as febre e os miasmas,
Numa ronda letal sobre o podre lençol.

....................

Mas um desvão da mata, uma tarde, ao sol posto,
Pára. Um frio livor se lhe espalha no rosto...
É a febre! O Vencedor não passará dali!
Na terra que venceu há de cair vencido:
É a febre! É s morte! E o Herói, trôpego e envelhecido,
Roto e sem forças, cai junto ao Guaicui...


III

Fernão Dias Pais Leme agoniza. Um lamento
Chora longo, a rolar na longa voz do vento.
Mugem soturnamente as águas. O céu arde!
Trasmonta fulvo o sol. E a natureza assiste,
Na mesma solidão e na mesma hora triste,
À agonia do herói e à agonia da tarde.

Pìam perto, na sombra, as aves agoureiras,
Silvam as cobras. Longe, as feras carniceiras
Uivam nas lagoas. Desce a noite, como um véu.
Pálido, no palor da luz, o sertanejo,
— Fernão Dias Pais Leme agoniza, e olha o céu.

...................

E o delírio começa. A mão, que a febre agita,
Ergue-se, treme no ar, sobe, descamba, aflita,
Crispa os dedos, e sonda a terra, e escarva o chão:
Sangra as unhas, revolve as raízes, acerta,
Agarra o saco, e apalpa-o, e contra o peito o aperta,
Como para o enterrar dentro do coração.

Ah! mísero demente! O teu tesouro é falso!
Tu caminhaste em vão, por sete anos, no encalço
De uma nuvem falaz, de um sonho malfazejo!
Enganou-te a ambição! Mais pobre que um mendigo,
Agonizas, sem luz, sem amor, sem amigo,
Sem ter quem te conceda a extrema-unção de um beijo!

E foi para morrer de cansaço e fome,
Sem ter quem, murmurando em lágrimas teu nome,
Te dê uma oração e um punhado de cal,
— Que tantos corações calcaste sob os passos,
E na alma da mulher que te estendia os braços
Sem piedade lançaste um veneno mortal!

E ei-la, a morte! e ei-lo, o fim! A palidez aumenta;
Fernão Dias se esvai, numa síncope lenta...


 


E essa face cavada e magra, que tortura
Da fome e as privações maceraram — fulgura,
Como se a asa ideal de um arcanjo roçasse.

IV
Adoça-se-lhe o olhar, num fulgor indeciso;
Leve, na boca aflante, esvoaça-lhe um sorriso...
— E adelgaça-se o véu das sombras. O luar
Abre no horror da noite uma verde clareira
Como para abraçar a natureza inteira,
Fernão Dias Pais Leme estra os braços no ar!

Verdes, os astros no alto abrem-se em verdes chamas,
Verdes, na verde mata, embalam-se as ramas;
E flores verdes no ar brandamente se movem:
Chispam verdes fuzis riscando o céu sombrio;
Em esmeraldas flui a água verde do rio,
E do céu, todo verde, as esmeraldas chovem...

E é uma ressurreição! O corpo se levanta:
Nos olhos, já sem luz, a vida exsurge e canta!
E esse destroço humano, esse pouco de pó
Contra a destruição se aferra à vida, e luta,
E treme, e cresce, e brilha, e afia o ouvido, e escuta
A voz, que na solidão só ele escuta, — só:

“Morre! Morrem-te às mãos as pedras desejadas,
“Desfeitas como um sonho, e em lodo desmanchadas...
“Que importa? Dorme em paz, que o teu labor é findo!
“Nos campos, no pendor das montanhas fragosas,
“Como um grande colar de esmeraldas gloriosas,
“As tuas povoações se estenderão fulgindo!

 

“Quando do acampamento o bando peregrino
“Saia, ante-manhã, ao sabor do destino,
“Em busca, ao norte e ao sul, de jazida melhor,
“—No cômoro da terra, em que teu pé poisara
“Os colmados de palha aprumavam-se, e clara
“A luz de uma clareira espancava o arredor.

“Nesse louco vagar, nessa marcha perdida,
“Tu foste, como o sol, uma fonte de vida:
“Cada passada tua era um caminho aberto!
“Cada pouso mudado, uma nova conquista!
“E enquanto ias, sonhando o teu sonho de egoísta,
“Teu pé, como o de um deus, fecundava o deserto!

“Morre! tu viverás nas estradas que abriste!
“Teu nome rolará no largo choro triste
“Das águas do Guaicuí... Morre, Conquistador!
“Viverás quando, feito em seiva o sangue, aos ares
“Subires, e,  nutrindo uma árvores, cantares
“Numa ramada verde entre um ninho e uma flor!

“Morre! Germinarão as sagradas sementes
“Das gotas de suor, das lágrimas ardentes!
“Hão de frutificar as fomes e as vigílias!
“E um dia, povoada a terra em que te deitas,
“Quando aos beijos do sol, sobrarem as colheitas,
“Quando, aos beijos do amor, crescerem as famílias,

“Tu cantarás na voz dos sinos, nas charruas,
“No esto da multidão, no tumultuar das ruas,
“No clamor do trabalho e nos hinos da paz!
“E, subjugando o olvido, através das idades,
“Violador de sertões, plantador de cidades,
“Dentro do coração da pátria viveráss!

 

.......................

Cala-se a estranha voz. Dorme de novo tudo.
Agora, a deslizar pelo arvoredo mudo,
Como um choro de prata algente o luar escorre.
E sereno, feliz, sob a paz estrelada do espaço,
Fernão Dias Pais Leme nos olhos cerra. E morre.

(POESIAS – Livraria Francisco Alves, 19ª. ed. 1942)



7 – REVOLTA DA ARMADA

 

Foi há quatro anos... O sol nascia....
Eu com os meus sinos.— iluminada,
Branca e formosa — saudava o dia,
Saudava a pompa da madrugada
Foi há quatro anos... o sol nascia.

Sobre estas casa — vassalas minhas —
Aberto em risos o sol bailava.
Voavam em grupo as andorinhas...
E eu soberana, me levantava
Sobre estas casas, vassalas minhas.

Mas de repente, que estrondo horrível!
Sobre meu corpo virgem e branco,
Uma granada caiu terrível.
Que fumarada! Que dor no flanco!
Que dor no flanco! Que estrondo horrível!

Era uma bala do Riachuelo
Era uma bala túrgida de ódio.
Essa granada que tinha o selo
E a assinatura de Dom Custódio
Era um bala do Riachuelo.

Torre da Lapa dos Mercadores!
Também mais tarde foste ferida...
E ainda te vejo, cheia de dores,
Esburacada, toda partida
Torre da Lapa dos Mercadores.

Ó torres brancas e fulgurantes
Por que essa raiva? Por que essa guerra?’      
Que mal fizeste aos almirantes?
Quando há revoltas, ei-vos por terra
Ó torres brancas e fulgurantes!...

Foi há quatro anos... O sol nascia...
E com os meus sinos. — iluminada,
Branca e formosa — saudava o dia,
Saudava a pompa da madrugada,
Foi há quatro anos... O sol nascia.

 

        (In – Olavo Bilac – BOM HUMOR -
editora Casa Mandarino).

 

Página ampliada e republicada em agosto de 2008; página ampliada em novembro de 2017. página ampliada em junho de 2018; ampliada em setembro de 2020

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