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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



MYRIAM FRAGA 

(1937-2016)

Escritora, poeta, jornalista e biógrafa. Tem 20 livros publicados, entre poesia e prosa. Pertence à Academia de Letras da Bahia e ao Conselho de Cultura do Estado. Participou de várias Antologias no Brasil e exterior, tendo poemas traduzidos para o inglês, francês e alemão. Entre suas recentes publicações: Sesmaria e Femina (poesia), Jorge Amado, Castro Alves, Luis Gama e Carybé (literatura infantil), Leonídia – a musa infeliz do poeta Castro Alves (biografia). É diretora da Casa de Jorge Amado, em Salvador, Bahia, Brasil.

“A poesia de Myriam Fraga insere-se nesta vertente que não apela para o tom confessional do sujeito que canta. Poesia de grande força expressiva, épica e dramática, configura um que se coloca em constante estado de alerta para colher e acolher os resíduos de acontecimentos que constituem a história coletiva através d de seus personagens e seus mitos. “ (...) “E, nesta perspectiva, o tempo e a memória constituem importantes vertentes da poesia desta autora, transformando-se em uma temática que perpassa os vários poemas: Guardo a memória / Do mundo / E amadureço / Intemporal e etérea /No que teço.” EVELINA HOISEL

TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL

Veja também>>> POÈMES EN FRANÇAIS

POEMS IN PORTUGUESE AND ENGLISH

 

De
Myriam Fraga
OS DEUSES LARES
Monotipias de Calasans Neto.
Salvador: Edições Macunaíma / Artes Gráficas, 1991.
formato 29x21 cm. Não informa sobre o número de exemplares da tiragem,
nem dá outras informações sobre a edição.

 

2

De que serve a memória
— fuso e roca —
farta de prodígios,
tinjo e lavo
o fio das meadas,
o fio desta vida

lavo com água e
mornos sais
                 o corpo
e enquanto afagas
tua remota cicatriz
tuas
chagas enigmáticas,
heroicos feitos, falos
eu refaço
            as feridas
minhas — doces talhos
de incruentas batalhas.      

 

FRAGA, Myrian.  Femina. Salvador, Bahia: Fundação Casa de Jorge Amado; COPENE, 1996.  140 p.  (Casa de Palavras Série Poesia, 5)   15x21 cm.  ISBN 85-7278-010-6   Capa: Carybé.  Os espelhos.. Óleo sobre tela.  Col. Bibl. Antonio Miranda

 

Cão de caça

 

Da primitiva pureza

Me despojam,

Da fúria inocente

E natural

 

E me fabricam de cólera

E arremesso,

Como um punhal,

Ou nítida azagaia.

 

E me fabricam de olfato

E de inclemência,

Uma garra no tempo,

Um ríctus no selvagem

Mundo feroz

Onde rastejo e salto,

 

Assim me ensinam e faço.

 

Lição de estraçalhar

Num claro mapa,

Repito este traçado

E risco o espaço

Entre o instinto e o ato.

 

Pedagogia de súbitas cruezas

Onde a morte é didática

Racional.

 

 

Solário

 

Neste verão um doce

Revolver de feridas,

Um dedo passeando,

Aligeirado, nas chagas.

 

Neste verão de luz

E cor

Um travo amargo,

 

Como se todos os verões

Doessem

Subitamente na carne.

 

 

 

Poemas extraídos de O ESCRITOR – Revista da UBE – União Brasileira de Escritores, n. 116, agosto de 2007, cujo editor é o poeta Izacyl Guimarães Ferreira.

 

 

CARNIVALE

 

Porque a carne

É a carne

E tudo mais é fraco

A vida se renova

A cada novo acaso.

 

Será mesmo a alegria

O gole mais amargo

De um Pierrot que a si mesmo

Reconhece palhaço?

 

Ó espelho. Ó espelho,

Cada dias mais baço,

Que alvo contorno é este,

Que disfarce

Afasta deste rosto

O ríctus de cansaço?

 

Nas se é apenas um rito,

Se é apenas passagem,

Um frenesi, um espasmo,

Um galope de cascos,

Rutilantes, no asfalto.

 

E ao estridente soar

Das guitarras em pânico,

O tempo se desdobra

Em mil estilhaços

Fragmentos de nada...

 

Ó Deusa Carnivale,

Embala nos teus braços

A alegria dos tristes,

Este embaraço

Do sorriso que se perde

Em carmim e alvaiade.

 

No rescaldo da festa

Recolhe os pedaços

Deste deus que é delírio

Mas que é também fracasso

 

Breve

Todo ardor será cinza

Somente a enigmática

Face nos espelhos

Recompondo o disfarce.

 

 CHUVA 

Reminiscências

A inquietar

Como a chuva nos vidros.

 

Sol que avança,

Inexorável,

O tempo, com suas marcas,

 

Sua umidade em rios,

Dissolvendo a paisagem,

 

Seu mofo, sua

Insidiosa presença

Escorrendo da tarde.

 

Um gotejar sinistro,

O salitre

Infiltra-se nas frestas

Reacendendo feridas.

 

Ó coração,

Não te atormentes,

Não te levantes contra mim,

Esquece.

 

 

Fêmina.  Salvador: FCJSA; Copene, 1996. p. 109)

 

 

VIAGEM A MARROCOS

 

         Para Zélia e Jorge Amado

 

Na cara o vento sul

— Ou será o simum?

O balançar ondeado

Dos camelos.

 

Fez, Rabat e Casablanca,

Terracota sutil de Marrakesh,

A cristalina fonte

Em meio à pedra.

 

Azilah, tuas sílabas

Adejam como aves,

Como asas roçando

Em minha face.

 

O meu deus é ninguém,

Morreu menino e é doce

Como um fruto,

Como as águas de Oxum

Lavando-me as feridas.

 

Guarda para mim,

Azilah,

Tuas tâmaras mais doces,

Mais secretas...

 

Um minarete escreve

Linhas tortas

No canto que se enrola

Pela tarde.

 

Como um risco de giz

Meu caminho é um círculo,

As caravanas passam...

 

No regaço

O cão, morto, não ladra.

 

 

Fêmina.  Salvador: FCJSA; Copene, 1996. p. 121-122)


De
POESIA REUNIDA
Salvador: Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, 2008. 496 p.
ISBN 978-85-7196-088-6

Ressaca

A ressaca é como vinho
Passada a embriaguês
Resta um co(r)po vazio

 

Corpo

O corpo,
Esta ilusáo, 

A transparência
Onde o tempo se inscreve, 

A esculpida
Relembrança
— o não vivido. 

O corpo,
Este completo desfrutar-se,
Onda, peixe, sereia,
De barbatanas selvagens
Como facas. 

Corpo — o corpo,
Território do nunca,
Inigualável
País do meu espanto. 

De todos os espantos.
(des)encontros, naufrágios,
Precipícios. 

Pássaro-fêmea, carne
Colada em moldura,
Pele, poro.

 

De
Myriam Fraga
Sete poemas, de amor e desespero,
de Maria de Póvoas, também chamada
Maria dos Povos, à partida do poeta
Gregório de Mattos para o degredo em Angola.
Salvador: Edições Macunaima, 1995.  Formato 30x11 cm

 

 

 

III

 

Maria de Póvoas,

Maria dos Povos,

Maria, alma ardente

E as mãos tão vazias...

 

Que vida enganosa

A tua, Maria,

Tecendo as esperas,

Somando as partilhas,

O sexo em chamas

E a fala macia.

 

Maria... a cinza na testa,

A oração na madrugada,

Maria, um lobo na espreita,

Um verso como cilada,

O amor é como veneno,

Como sombra na calçada,

 

Assombração que faz medo,

Maria, é só um poeta

Caminhando pela estrada

E a noite esconde o segredo

De tua pele alvoroçada,

De tua língua, de seus dedos.

 

Somente um poeta

E a chama

Que te confunde e reclama

 

O ontem já tão distante...

Tantos dias, longos anos,

Maria, tanto abandono,

Somente o vento nas folhas

E no peito... desenganos.

 

===============================================

SESMARIA

De

MYRIAM FRAGA
SESMARIA
Gravuras de Calazans Neto
Salvador:  Edições Macunaima, 2000

 

O SOCORRO

O vento trouxe a notícia
Na corcova.

Dromedário do silêncio,
O vento,
Mensageiro de inventos.

O cristal da mensagem
É um búzio oco
Onde assenta o milagre.

Flauta que se desdobra
Ao ansioso sopro
Da espera.

A fúria explode em velas
Do outro lado
Do deserto-oceano.
Rompe o muro,
Meridiano azul que nos separa
Do sibilante recado.

O vento,
Tração de animal louco
Pelo mar,
Trouxe a esperança
Nos cascos,

Trouxe o grito
De guerra
E o pressentido sinal.

Coagulado nos poros
Do vazio, o alarme,
Súbitas letras de sal
Na tarde.

 

De
Myriam Fraga
A LENDA DO PÁSSARO
QUE ROUBOU O FOGO

Ilustrações: Calasans Neto
Salvador: Edições Macunaíma, 1983. s.p.

Formato  xxx  A edição, de 2000 exs, inclui
um disco LP em separado, com poemas de
Myriam Fraga musicalizados por Carlos Pita..


UMA ESTÓRIA SEM NOME

Esta estória não tem nome,
Esta estória não tem jeito,
É só um risco no escuro
É só o traço do açoite.

Este canto é como o sangue
Navegando nos meus longes,
Sou eu o Pássaro, o alcance
Do gesto além do horizonte.

Busco o fogo, busco a chama
Para além do meu cansaço

O que busco é só o começo
Sua imagem,
Sua exata partitura,
E o salto além da voragem.

Onde vou vai o meu pássaro.

 

O FEITICEIRO CEGO

O feiticeiro cego, o xamã,
O sábio decifrador do búzios,
O pajé, o agoureiro
Adivinho das vísceras,
O que sabe o segredo das ervas,
O relicário
Dos últimos venenos.

Este.  O que move a roda escura
Dos dias.  Dos teus dias.

Este. O do vinho. O profundo
Silente.  O que te deu a asa
E o poderoso destino de subir
Aos mais altos sendeiros.

O que te deu o poder
Do fero bico adunco
E à leveza das asas.
E as garras.  As garras.

O que te deu o voo
E o destino de pássaro.

 

FRAGA, Myriam. As purificações ou O sinal de Talião. Poesia.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Brasília: Instituto Nacional do Livro – INL, 1981. 91 p.  (Coleção Poesia Hoje, v. 44)   14x21cm. Capa:  Eduardo Francisco Alves.  Col.. A.M. 

 

DESALENTO

 

Pelo girar das estrelas

Pelos

Astrolábios que crescem

No jardim,

 

Pelas agulhas cruéis,

Rodopiantes,

Sei que não há norte

Nem princípio.

 

Este navio existe

Mas o porto

É uma pedra no fundo

Do impossível.

 

Velas turvas do acaso,

Que intranquilo

É este mar que devoro

E não tem fim.

 

 

LINHAGEM

 

O passado é um rio

Onde naufraga

A barca escura

Dos homens.

 

Tenho a chave do tempo

E os pilares da ponte,

Sou meu guia.

 

Anfiarau e Tirésias

Me adivinho

E entre sombras caminho.

 

Guardo a memória

Do mundo

E amadureço,

 

Intemporal e eterna

No que teço.

 

FRAGA, Myriam.  O risco da pele.  Poesia.  Rio de Janeiro: Civilização      Brasileira; Brasília: Instituto Nacional do Livro – INL, 1979. 91 p.  (Coleção Poesia  Hoje, v. 27)   14x21cm  155 p.   Capa: Eugenio Hirsch sobre pintura de Amedeo Modigliani.  “Orelha” por Mário da Silva Brito.  Col.. A.M.

 

Cão de Caça

 

Da primitiva pureza

Me despojam,

Da fúria inocente

E natural

 

E me fabricam de cólera

E arremesso,

Como um punhal,

Ou nítida azagaia.

 

E me fabricam de olfato

E de inclemência,

Uma garra no tempo,

Um ríctus no selvagem

Mundo feroz

Onde rastejo e salto,

 

Assim me ensinam e faço.

 

Lição de estraçalhar

Num claro mapa,

Repito este traçado

E risco o espaço

Entre o instinto e o ato.

 

Pedagogia de súbitas cruezas,

Onde a morte é didática

Racional

 

Salvador, 1964.

 

FRAGA, Myriam.  Sesmaria.  Poemas.   Salvador: Imprensa Oficial da Bahia, 1969.   119 p.  16x23 cm  Capa: Floriano Teixeira.  Col. A.M. 

 

NOTURNO

 

Da balaustrada da noite

Se debruça

Pantera na tocaia do imprevisto.

 

Estende com vagar

As suas patas,

Na felina postura

Sobre as rotas do, mar

E a salgada colheita.

 

Volta o úmido focinho

E a corcova simétrica

Aos ventos do sul

Que lhe arrefecem o pelo

 

Os olhos corroídos

De sombras e naufrágios.

 

FRAGA, Myriam.  Rainha Vashti. Ilustrações Olga Gómez.   Salvador, BA: A Roda Teatro de Bonecos Edições, 2015.  144 p. ilus.  ISBN 978-85-63597-02-1   “ Myriam Fraga “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

Sala do palácio real do rei Ashuero. Escravos amontoam riquezas em grandes caixas de ferro. Decoram a sala com
plantas raras, frutos, animais. No centro, e no alto,
o trono vazio. Colunas com capitéis encimados por figuras de touros ajoelhados. De um lado e do outro do trono um coro de sátrapas, figuras mascaradas e perfeitamente iguais, como
num friso. Figuras humanas pintadas de branco, de preto e de dourado, completam a decoração, como estátuas vivas.

 

CORIFEU

 Uma história que se conta
É como um livro sem data,
Escrita que se adelgaça

Nos longes do entendimento.

Esquecimento e lembrança
Unidos na mesma festa,
Perdidos na mesma dança.

Um reino que se esfumaça,
É só um ponto no mapa,
Somente um sonho, mais nada.

Como uma nuvem que passa,
Como chama que se apaga,
Os moinhos da memória
Giram no rumo do vento,

E as areias do silêncio
Encobrem o rumo traçado
Nos escondidos do tempo.

 

 

CORO DOS SÁTRAPAS

Palavras ... Palavras ... Palavras ...
São grades de cristal, são arabescos,

Palavras são marcas desenhadas,
Nas paredes da sala

São aranhas famintas, com suas patas,
Tecendo nas trevas do palácio
As tentações do esplendor que se desata.

Celebremos a púrpura e seu destino
No malefício das noites consteladas
De sois extintos e estrelas apagadas.

Que volteiem os bailarinos nessa hora,
Rasguem-se os véus, desatem-se as volúpias,
Que o sangue lave a mesa do banquete
E nas entranhas decifre-se: morte e vida.

 

================================================================

Extraídos de
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. y traducción de Xosé Lois García
Santiago de Compostela: Edición Loiovento, 2001.

 

ELEGIA N. 8

PENÉLOPE

Hoje desfiz o último ponto,
A trama do bordado.

No palácio deserto ladra
o cão.

Um sibilo de flechas
devolve-me o passado.

Com os olhos da memória
Vejo o arco
Que se encurva,
A força que o distende.

Reconheço no silêncio
A paz que me faltava,
(No mármore da entrada
Agonizam os pretendentes).

O ciclo está completo
a espera acabada.

Quando Ulisses chegar
A sopa estará fria.

 

ABRIL

Escrevo de memória.
A infância é um bolo
Na garganta
E a dor de dividir-se
Nos espelhos.

Que foi feito de mim,
Daquela estória
Que eu me contei um dia
E que perdi?

Escrevo sempre à noite;
Pela manhã apago
E recomeço.

É tão difícil viver,
É tão de açoite
O vento nas vidraças!

É abril e chove
E a terra morta
Onde o lilás floresce
É minha pátria agora,
Meu destino. Insula.

 

DEZEMBRO

Na mesa do Natal
Duas velas acesas,
Fina luz verberando
O amarelo dos pêssegos.

Era contada sempre
A mesma estória,
Na sombra verde sombra
Dos pinheiros.

Uma estrela de papel,
Entre tâmaras e purpurina,
Apontava o caminho
Aos magos tutelares.

No pátio um leão vermelho
Quebrava nozes com as patas.

 

ESFINGE

Revesti-me de mistério
Por ser frágil,
Pois bem sei que decifrar-me
É destruir-me.

No fundo não me importa
O enigma que proponho.

Por ser mulher e pássaro
E leoa,
Tendo forjado em aço
Minhas garras,
É que se espantam
E se apavoram.

Não me exalto.
Sei que virá o dia das respostas
E profetizo-me clara e desarmada.

E por saber que a morte
É a última chave,
Adivinho-me nas vítimas
Que estraçalho.

 

ESTÁTUA

Tudo são memórias,
Tatugens
         Na carne.

Que fina erosão
Esculpe
Meus sentidos?

E em cada poro
Desenha
O peso exato
Da mão no meu vestido?

===================================================

TEXTOS EN ESPAÑOL

Extraídos de
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. y traducción de Xosé Lois García
Santiago de Compostela: Edición Loiovento, 2001.
                           

 

PENELOPE

Hoy deshice el último punto,
La trama del bordado.

En el palacio desierto ladra
El perro.

Um silbido de flechas
Me devuelve el pasado.

Con los ojos de la memoria
Veo el arco
Que se curva,
La fuerza que lo extiende.

Reconozco en el silencio
La paz que me faltaba,
(En el mármol de la entrada
Agonizan los pretendientes).

El ciclo está completo
La espera finalizada.

Cuando Ulisis llegue
La sopa estará fria.

         Fémina, 1996

 

ABRIL

Escribo de memoria.
La infância es un pastel
En la garganta
Y el dolor de dividirse
En los espejos.

¿Qué fue de mí,
De aquella historia
Que yo me conte un día
Y que perdí?

Escribo siempre por la noche;
Por la mañana apago
Y recomienzo.

ίEs tan difícil vivir,
azota tanto
el viento en las vidrieras!

Es abril y llueve
Y la tierra muerta
Donde las lilás florecen
Es mi patria ahora,
Mi destino. Isla.

 

DICIEMBRE

En la mesa de Navidad
Dos velas encendidas,
Fina luz reverberando
El amarillo de los melocotones.

Siempre se contaba
La misma historia,
En la sombra verde sombra
De los pinos.

Una estrella de papel,
Entre dátiles y purpurina,
Indicaba el camino
A los magos tutelares.

En el pátio un león rojo
Rompía nueces con las patas.

 

LA ESFINGE

Me revesté de misterio
Por ser frágil,
Pues bien se que decifrarme
Es destruirme.

En el fondo no me importa
El enigma que propongo.

Por ser mujer y pájaro
Y leona,
Habiendo forjado en acero
Mis garras
Se espantan
Y se aterran.

No me exalto.
Se que vendrá el día de las respuestas.
Y me profetizo clara y desarmada.

Y por saber que la muerte
Es la última llave,
Me adivino en las víctimas
Que despedazo.

 

ESTATUA

Todo son memorias
Tatuajes
         En la carne.

¿Qué fina erosión
Esculpe
Mis sentidos?

¿Y en cada poro
Dibuja
El peso exacto
De la mano em mi vestido?

         Fémina, 1996

 

AUTORES BAIANOS: UM PANORAMA; BAHIANISCHE AUOTEREN: EIN PANORAMA; BAHIAN AUTHORS: A PANORAMA; AUTORES BAHIANOS: UN PANOROMA.  Organização Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB).  Salvador, Bahia: P55 Edições, 2013.  471 p + 10 p. s/ com as biografias dos autores nas quatro línguas.        18x25 cm.  Inclui textos dos poetas Antonio Risério, Daniela Galdino, Florisvaldo Mattos, Karina Rabinovitz, Kátia Borges, Luis Antonio Cajazeira Ramos, Myriam Fraga, Roberval Pereyr e Ruy Espinheira Filho e traduções ao alemão, inglês e espanhol.  Col. A.M.

 

 

CABALA 

          ("As purificações ou O sinal de taliao", 1981)

 

Tal vez para mí
Baste la suerte,
Basten dados de arrojar, 


Baste el corte de baraja
En la carta del ahorcado. 

Tal vez para mí
Baste el hilo en la madeja,
Las tres sentadas en corro
En torno a la misma rueca. 

La vida es algo torcido
Escrito en líneas derechas, 

La misma línea secreta
Que adivino en mi palma. 

 

CAUDAL 

          ("A lenda do pássaro que roubou o fogo", 1983) 

Tengo mi infancia y un eco sordo de
tambores en lo oscuro. 

Tengo también el aullido del silencio, tesoros que destruyo. Viejos trastes estallan sus secretos y hay un sabor de sal y lágrimas y destierro.

 

Tengo un arco y la flecha de los luceros del cielo.
Tengo la luz del sol, ojo duro de espiga. }
Y
cuanto más siembro, más destruyo, mieses de lo imprevisto.

Este dios es preciso, este dios, necesario como
un cisne. Un dios como una lluvia de oro,
como un toro coronado de hojas, frutos y raíces.

 

El resto yo misma me lo invento. Este viaje, esteinfinito delirio. Esta clave de llamas. Y este
pájaro destructor y bruto en las entrañas.

  

LÍMITE 

          ("A lenda do pássaro que roubou o fogo", 1983)

Mi destino es el país del oscuro horizonte.La patria de los proscritos.
El erial de los náufragos.

El reducto final de los suicidas. 

Me detengo en el umbral del silencio absoluto,
al borde del precipicio donde alacranes alucinados acechan
mi caída. 

Yo, que bebí la sangre imantada de la tierra, el vino dulceamargo de lágrimas y de rocío.

Yo, el elegido, el ungido, el señalado; el que
guarda en la piel la caricia de la tinta en el dibujo sutil de la pintura ritual. 

Ayer mismo, en el lago, flotaba mi rostro y
la belleza era un halo coronándome la frente.
Ayer era el viaje, el delirio, el vértigo.

¡Oh, dolor! Ingratitud de los hombres, hoy por mí se turbaron los espejos, y mi rostro de sombray horror y cicatrices es como el rescoldo ardientede hogueras muriendo.

 ¡Oh, trágico destino de vencer y ser vencido!Castigo de soñar más allá, de rebasar el sueño y,como el viento, alucinado y profetice, destruirse.

 De mí quedará la marca, el recuerdo, el sello;
la sílaba tal vez de una gesta imprecisa. Rastro de plumas, ceniza, sobre la faz del Sol. 

Como un cíclope enfermo, me arrodillo y entrego,en un canasto, mi cabeza a los chacales. 

Salpicado de estrellas y moras silvestres cierro lajaula de los pájaros absurdos y me encierro parasiempre, ave invisible y abstracta, con la gargantade aurora palpitando inclemencia.

Y reinvento la primavera de este canto como cencerros, como campanas de agua.

 En el aire, un penetrante aroma de amarilis.

 

ARS POÉTICA 

          ("Femina", 1996) 

La poesía es cosa
De mujeres.
Un trabajo usual,
Reencender de fuegos. 

En las esquinas de la muerte,
Enterré la gorda
Placenta enjundiosa
Y caminé serena
Sobre las brasas
Hasta el otro lado
Donde el demonio habita. 

La poesía es siempre así:
Una alquimia de fetos,
Un lento destilar
De venenos bajo la piel. 

La poesía es el arte
De la rapiña.
No la caza, propiamente,
Sino siempre en las manos
Un destello de sangre. 

En vano
Busco mi destino:
En el pájaro descuartizado
La escritura de las visceras. 

La poesía como antojos
Como un vientre creciendo,
La piel estirada
De úteros crepitando. 

La poesía es esta pasión
Delicada y perversa,
Esta humedad perlada
Que chorrea de mi cuerpo, 

Que me empapa la ropa
Como un agua de fiebre.

  

POSESIÓN

           ("Femina", 1996)

 El poema me tocó
Con su gracia,
Con sus patas de pluma,
Con su aliento
De brisa perfumada. 

El poema hizo de mí
Su caballo;
Un encresparse del dorso,
Escalofrío,
Una danza de espejos
Y de espadas. 

De repente, sin aviso,
El poema como un rayo
—Eíegbá pombajira!—
Me estremeció con su gracia,
Ardiente como chicote,
Certero como pedrada. 

 

 

Página ampliada e republicada em janeiro de 2008. Ampliada e republicada em outubro de 2015

 

 

 

 



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