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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Foto: Pedro Stephan, 2006

 

HORÁCIO COSTA

 

 

 

Nascido em São Paulo em 1954. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela USP (1978). M.A. pela New York University (83); PhD pela Yale University (94). Professor Titular da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) até 2001. Desde então, Professor-Doutor na FFLCH-USP.

 

Seus livros de poesia são: 28 poemas 6 Contos (1981); Satori (1989); O Livro dos Fracta (90); O Menino e o Travesseiro (1993 e 2003) The Very Short Stories (1991); Quadragésimo (1996); Fracta - Antologia Poética (2004); 28 Poemas 6 Contos 25 anos (2006) e posteriores, arrolados mais abaixo. Quase todos eles foram ou estão sendo publicados em espanhol. Também foi traduzido ao inglês, francês, catalão, búlgaro, romeno e macedônio. Tem mais de 60 artigos publicados em revistas acadêmicas e suas principais obras críticas são José Saramago, o período formativo e Mar Abierto: ensayos de literatura brasileña, portuguesa e hispanoamericana. Traduziu ao português a poesia de Elizabeth Bishop, Octavio Paz, José Gorostiza, Xavier Villaurrutia e Blanca Varela.

 

Organizou dois eventos internacionais de poesia em São Paulo e foi parte do júri de prêmio internacionais no México e na Venezuela. Presidiu a ABEh (Associação Brasileira de Estudos da Homocultura) de 2006 a 2008.

TEXTOS EM PORTUGUÊS  /  TEXTOS EM ESPAÑOL 

See also: TEXTS IN ENGLISH

 

Veja também:   HORACIO COSTA EM ALEMÃO – DEUTSCH

 

 

 

 

COSTA, Horácio.  Viaje a México.  Ilustraciones de Liz Mevill.  Sl.l,: s.e., 2014? 64 p.   Edição bilíngue Português – Español.       11x16 cm.   “Horácio Costa”   Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

DEPOIS DO VAZIO

 

O cenário esvaziado de drama.
O cenário esvaziado de pathos.
Os atores foram cada qual para o seu lado.

 

Houve quem comemorasse
Esse descenso do cenário à irrelevância,
À suas esquálida beleza de coadjuvante de cartão postal.
Houve quem protestasse contra essa fatalidade retórica.
Então como se chamaria?

La vida não é ela, toda,
Uma sucessão de momentos retóricos?
Não será assim para os cães,
Que tiveram o seu papel bem apreciado
Naquele cenário cuja montagem
Levou tanto tempo, exigiu tantos suores.

 

Para os cães, que morreram
Na idade canina de morrer,
A vida não foi
“uma sucessão de momentos retóricos”.
A vida era o que era
E foi o que foi. Portanto,
Eximâmo-os do poema
Que trato do descenso,
Este sim bem retórico,
Do cenário do drama
À trivialidade inconspurcável
Da pura beleza postal.

A virgem catalã de maiólica,
Encontrada por um dos produtores
Em um bric-à-brac em Barcelona,
Foi devidamente esquecida
No desmonte.


Continuava engastada na memória,
Na memória do viver dramático,
Como uma testemunha apenas solene
E que vaticinasse sobre o lixo.
Por isso foi esquecida.

Não entra, ou melhor:
À estética do bonitinho,
De tudo transformado em uma espécie
de Waterloo selon Fabrizio Del Dongo,
De tudo puído de seu sentido original,
Como uma fruta cujas sementes são cuspidas
Enquanto deliciam, digo:
Que são cuspidas enquanto
Os dentes do tempo esmigalham
A carne da uva ou da maçã:
Uma a uma, lá se vão
As sementes, direitinhas
Ao montão de lixo.

Pois. Essa virgem catalã,
A que vaticinava sobre o dito cujo,
O montão de lixo, continua ereta
Embora recostada em seu assento
E com o Menino Jesus no colo,
Relembrando o hierático do românico
E mesmo o hierático da arte bizantina.

 

Seus calçados remontam aos de Teodora
Naquela igreja de Ravena,
Como se chamava mesmo?
Como se chamava mesmo?
(coço a cabeça):
Sant’Apollinare in Classe.

 

 

 

DESPUÉS DEL VACÍO

 

El escenario vaciado del drama.
El escenario vaciado del pathos.
Los actores se fueron cada uno por su lado.

 

Hubo quien comerorase
Esta bajada de la irrelevancia,
A sua escuálida beleza de co-figurante de tarjeta postal.
Hubo quien protestasse contra esa fatalidad retórica”.
Entonces,  ¿como se llamaría?

¿No es la vida, toda,
una sucesión de momentos retóricos?
No lo será para los perros,
Que sí tuvieron un rol bien apreciado
En aquel escenario cuyo montaje
Llevó tanto tempo, exigió tantos sudores.

 

Para los perros, que murieron
En la edad canina de morirse,
La vida no fue
“una sucesión de momentos retóricos”.
La vida era lo que era
Y fu elo que fue. Por tanto,
Eximámoslos del poema
Que trata del descenso,
Este sí bien retórico,
Del escenario del drama
A la trivialidad incontaminable
De la pura belleza postal.

La virgen catalana de mayólica,
Encontrada por uno de los produtores
En un bric-à-brac en Barcelona,
Fue debidamente olvidada
En el desmonte.


Continuaba engastada en la memoria,
En la memoria del vivir dramático,
Como un testigo apenas solemne
Y que vaticinase sobre la basura.
Por eso fue olvidada.

No entra, o mejor:
No le cupo esta adaptación
A la estética de lo lindito,
De todo transformado en una espécie
De Waterloo selon Fabrizio del Dongo,
Como uma fruta cuyas semillas son escupidas
De todo deshilachado de su sentido original,
Mientras deleitan. Digo:
Que son escupidas mientras
Los dientes del tempo desmigajan
La carne de la uva o de la manzana:
Una tras outra, allá van
Las semillas, muy derechitas
Al montón de basura.

Pues. Esa virgen catalana,
La que vaticinaba sobre el susodicho,
El montón de basura, sigue erecta
Aunque recostada en su asiento
Y com el Niño Jesús sobre sus muslos,
Recordando lo hierático de lo románico
Y mismo lo hierático del arte bizantino.

 

Su calzado remonta al de Teodora
En aquella iglesia en Ravena,
¿Cómo, cómo se llamaba?
(me rasco la cabeza):
Sant’Apollinare in Classe.

 

         Ciudad de México, 8/9 IX 2014


 

 

COSTA, HorácioViaje a México   S.l,: s.e., 2013?72 p. Edição bilíngue Portugués –          Español.  11,3x16,7 cm.  “ Horácio Costa “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

         LLEGADA A MÉXICO

 

        O Imperador Amarelo
         é a origem
         de tudo

         Dizem as antigas
         Lendas Chinesas

         Ramsés se
         Ascendentes Solares
   

        Depois o
        Imperador Amarelo
        se instalou

        Em um canteiro de
        plantas misteriosas

        Que voavam

        Na vida real
        os maias previram

        O fim dos tempos
        para 2112 ou 2012

        Etc.

        Adorei comer
        chilaquiles em
        salsa verde

        Como jade

        E a pedra desta
        mesa parece-se à do
        Vale do Nilo

        Pequenas e grandes
        estrias rosas

        Talvez como uma
        visão planetária

        Das linhas de
        Tiahuanaco

        O sol aqui é
        poderosíssimo
        e engole o vale

        Lá em cima está
        Santa Fé

        Com os seus
        shoppings

        Que confusão
        de divindades!

        Mal carregamos
        entre elas

        As nossas cascas
        de caracóis

 

 

 

        CHEGADA AO MÉXICO

 

        El Emperador
         Amarillo es origen
         de todo

         Dicen las Antiguas
         Leyendas Chinas

         Ramses se
         anida entre sus
         Ascendientes Solares

         Después el
         Emperador Amarillo
         se instaló

         En un cantero de
         plantas misteriosas

         Que volaban

         En la vida real los
         mayas previeron

         El fin de los tempos
         para 2112 ó 2012

         Etc.

         Adoré comer
         chilaquiles en
         salsa verde

         Como jade

         Y la piedra de esta
         mesa se parece a la
         del Valle del Nilo

         Pequeñas y grandes
         estrías rosadas

         Tal vez como una
         visión planetaria  
         De las líneas de
         Tiahuanaco
         El sol acá es
         poderosísimo
         y engulle el valle

         Allá arriba
         está Santa Fé

         Con sus
         shoppings

         Que confusión
         de divinidades!

         Mal cargamos
         entre ellas

         Nuestras cascas
         de caracoles

  `     Nuestras casas
         individuales

         Nuestras vidas

         Ah, imprecisas

         Nuestras memorias

 


                   Ciudad de México, 16 XI 2013

 

 

COSTA, Horácio.  A Hora e a vez de Candy Darling.  (Poemas 2013-2014)   Goiânia, GO: martelo, 2016.   76 p. (Coleção cabeça de poeta 1 – série contemporânea)  14,5x23  cm.  ISBN 978-85-68693-08-7   “Horácio Costa “ Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

         O bom gosto é apenas uma das facetas
         do poliedro do objeto.
         O design não o estabiliza.
         Fá-lo falar. E o que diz
         é situacional.
         Há a história do material
         e o tempo desse histórico.
         Não, não é a mesma coisa:
         o tempo engloba a história,
         sujeita-a, como a aliança
         ao anular.  Nunca te disse
         o quanto te queria, e mesmo assim
         mandaste gravar a data do nosso
         primeiro encontro.
         Na face interna do aro de ouro.
         O bom gosto não previa
         tais gesto demasiados.
         C’était comme une affaire russe:
        
enorme com a Sibéria, e sem
         cartografias possíveis, como
         a existência de ignotos, multiplicados
         Machu-Picchus não em alguma
         cordilheira dos Andes:
         melhor dito, na prateleira
         de livros de técnicas culinárias,
         na cozinha.
         Pois, o bom gosto é desafiado,
         es-ti-lha-ça-do em tais alturas
         e torna-se não Rei Sol e
         compromisso:
         devém opção, uma entre tantas,
         preferência pelo mais feio,
         pelo mais absconso,
         por palavras de semântica
         instável, por tardes chuvosas
         e usar chapéu coco,
         etc.
         Teria sido bom resultar
         de um único paradigma?
         digo, de um sentido mão única?
         Ser assim, como aquele ser
         de real estirpe, o de nariz dinástico,
         tão feio que é uma trademark,
         como o dos Bourbons
         e o de Dame Edith Sitwell?
         Ou é melhor ter na ponta do nariz
         uma bolota,
         uma bolota como uma jaboticaba?
         Como eu tenho,
         Creio que tenho
         uma jabuticaba
         na ponta do nariz.
         E será agônica?
         Como Medeia, Clitemnestra?
         Os atores da Comédie
         nunca se apresentaram de perfil
         quando falam as suas falas:
         só de três-quartos, como se
         os ouvisse ainda Luís O Décimo Quarto.
         Ora, não se fica de perfil para o sentido.
         Esta jabuticaba-nariz
         este nariz-jabuticaba
         não caberia no palco
         em postura de três-quartos
         frente a um logos tão
         bombástico.

         Oh deus, oh deus dos biombos,
         protegei o meu nariz da derrisão
         neste teatro de sombras.    
        
        
                    

 

 

COSTA, Horácio. 11 — 12 Onze duodécimos.  São Paulo: Lumme Editor, 2014.  120 p.  14x21 cm.  ISBN 978-85-8234-045-5  Projeto gráfico/ editor do livro: Francisco dos Santos.  “Poemas 2011-2012”. “ Horácio Costa “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

PINA, A ABELHA E O VIDRO

 

assisti Pina antes de dormir

uma abelha veio assistir ao enunciado

do lado de fora do vidro

do tempo

 

là estava Pina ao lado da piscina

do hotel em Guanajuato    cidade

onde réside la momia más pequeña del mundo

no originalíssimo museu de múmias

 

eu não posso ver uma piscina e

já quero logo entrar - lhe perguntei

vc não entra - won't you come in?

os dançarinos de Wuppertal chapinhavam

 

Pina Bausch tinha aquele olhar

de gancho do Capitão Gancho

mesmo quando sorria    insisti &

insisti como um zângão

 

está bom disse e voltou com um maillot

veio chapinhar com todo mundo

nunca esquecerei desse acontecimento

na vida das minhas retinas tão fatigadas

 

Pina Bausch morreu há alguns anos,3,4

certo, fumava muito      a Shirley

também fumava muito     morreu em 2003

o Manuel, quem também estava na piscina

 

morreu há 11     eu tenho uma vista estupenda

deste 21° andar     hoje à distância o Jaraguá

está coberto de nuvens nuvens    e a abelha desistiu de

entrar

 

as múmias de Guanajuato estão hoje longe longe

 

quem é o próximo na linha?

a abelha que assistiu ao enunciado

do lado de fora do vidro ou

?

 

 

Osasco, 14IX2012

 

 

COSTA, Horácio.  Bernini. Poemas 2008-2010.  São Paulo: V. de Mora Mendonça – Livros, 2013.   142 p.  (Selo Demônio Negro)  16x23,6 cm.  Capa e desenho gráfico: Vanderley Mendonça.   ISBN  978-85-66423-07- 3  “Prêmio Jabuti 2014 Poesia”  Tiragem limitada de 100 exemplares, capa dura revista de tecido. Ex. bibl. Antonio Miranda

 

Escolhemos os mais metapoéticos do livro:

 

 

 

         POESIA É ARGAMASSA

                   Para Virna Teixeira

 

         Mais do que sintaxe ou
         Sentido,
         Enunciado esse jamais possível
         Na boca do auto-
         Pormôter ou do clurêitor
         De si & amigos ou do
         Fabulador de suas
         Iras, que não colidem
         Com a de poderosos em turno,
         Porque pensa primeiro
         No prêmio & na bolsa & no relise,
         Depois da ira.

         Poesia é argamassa
         E com ela constrói-se o muro
         De silêncio da posteridade,
         Para vedar o território do
         Poema a
         Promôteres
         Curêitores
         Narradores
         Etc.
         Sequiosos de ribalta.

 

 

         UM MINUTO SIM

 

         Todo verso de forma perpétua
         Versa sobre a indignação.
         Ao infinito com ela conversa
         Um minuto sim, outro não.

         Assim o poema tergiversa
         Seu fado de falar a língua
         Que é de todos e ninguém:
         Um minuto sim, outro não.

         Haver não houve perfeição
         No dizer desdizer do poema:
         Dissolve-se no ar o intento.

         Se a poesia é descomedimento
         Sobe a escarpada Tio Sísifo:
         Um minuto sim, outro não.

 

 

         SAMOVAR

 

         Ontem li Bernini pela primeira vez
         Há poetas que sabem os seus versos de cor
         Eu nem leio os meus
         Só de vez em quando
         Mais exatamente depois que intuo
         Que um manuscrito está prestes

         Mas se vc quer saber
         Assim que escrevo trabalho os meus poemas
         E os monto como um relojoeiro
         Depois, esqueço
         Até a hora da presteza

         O que é que presta em um livro de poemas?
         Uma xícara de chá se esvazia em sorvos
         -há que debique, há quem se engasgue
         com o líquido quente-
         E nenhum samovar
         Por mais cinzelado em prata siberiana que seja
         Pode transformar uma erva de segunda
         Em cocção boa para as longas noites invernais

         Porque o inverno sim existe, leitor
         Ora, pois:
                            Falamos então da Sibéria,
         Aquela parcela de tundra depois dos Urais?
         Falamos de quê, então? Das suaves
         Inclinações do Assam, dos mercadores
         Ingleses, da Twinings?

                                                        Falamos
         De como isto devém daquilo,
         Do pendor direcional
         (bonito, isso) que formula
         Uma contracorrente na língua
         Portuguesa
                                      De Garrett até este
         Bernini?
                                      Ou falamos do cinzelador
         Ou cinzeladores do objeto em questão?
         -Ou deste poema-relógio, for that matter?

         Não sei exatamente:
         É melhor não sabe-lo, talvez,.
         Que a poeticidade
         Cabe mal em contêineres
        

         Assim sejam rebrilhantes
         & estupendos
         samovares.

 

                            [SP 3 VI 010]

 

 

De
COSTA, Horácio. Ciclópico olho. São Paulo: Annablume, 2011. 120 p. (Selo Demônio Negro) Desenho gráfico e capa dura, revestida de tecido: Vanderley Mendonça. formato 16x23,5 cm. ISBN 978-85-63198-19-8 autografado Reúne poemas escritos (com uma única exceção) de 1996 a 2004); período de restabelecimento no Brasil. O livro Ravenalas (2008) é posterior. Col. A.M. (EE)

 

 

A FRONTEIRA DO DIZER

 

            a Haroldo de Campos, in memoríam

 

- Conecta com isso.

E é uma pedra.

- Conecta com isso.

É terra.

- Conecta com isso.

É nuvem. Tem forma de dragão.

- Conecta com isso.

É onda. Tem forma de onda.

- Conecta com isso.

É chip. Parece Shangri-lah.

 

Não é sílica. Nem silêncio. Nem palavra.

Conecta com isso.

 

                    STRUGA, MACEDÔNIA, 27 VIII 03

 

 

 

TIRE TUDO DA PAISAGEM

 

a Milos Sovak, in memoriam

 

Tire tudo da paisagem,

o serpenteante rio de águas cristalinas,

a neve ocasional, os rebanhos

de branquíssimas ovelhas

que se escondem detrás

das bétulas e das coníferas,

tire as porteiras que dividem

os campos de aveia e de centeio,

tire as velhas casas de pedra

da paisagem,

tire os bulbos de narciso,

os bulbos de lírio, de íris,

os telhados, as chaminés, os pedregulhos,

pouco a pouco tire tudo da paisagem:

a irritante torre medieval,

a capela tardo-gótica,

os retábulos de têmpera sobre madeira,

as rimas, as baladas líricas,

a cozinha típica, os sapatos:

descalce a paisagem,

veja-a sem subterfúgios,

nua, reduzida, descalça.

Ainda assim, nota bem,

algo permanece

entre aquela paisagem

e a de agora:

o pio dos corvos,

o agouro dos corvos,

aquele martelar de gritos negros,

sobrevive, voa entre

a paisagem de ontem

e a que lês, queridíssimo

leitor. Não há como

tirar os corvos

deste poema.

 

SAN DIEGO, LA CRECENTA:  7 VII 98

 

 

 

 

Horácio Costa 

De
Horácio Costa 
Ravenalas: poemas 2004-2008.   2a. ed.  
São Paulo: Selo Demônio Negro, 2009.  
145 p.  capa dura    ISBN  978-85-9039339-9


 

ORFISMO

 

Não sei se não é melhor

Ficar assim

Tudo tão imaginário

Com um único CD tocando

E depois o silêncio

 

Não sei não é assim

O melhor

 

A palmeira respondeu à

Voz

Tornou-se ereta

Quando debulhei a ária

 

 

                                                        SP 25 VII 05

 

 

SOL

 

É como se eu tivesse laborado

A vida inteira para ter direito

A esta manhã; nenhuma igual

A ela, ninguém igual a mim.

 

 

                                                        SP  6  VIII  05

 



HORÁCIO COSTA

 

ANIVERSÁRIOS

 

Vinte Anos Depois é um romance de Alexandre Dumas

duas décadas não são nada

é a média de vida do homem primitivo  do escravo romano

é a idade de um cão muito muito velho

é a média de glória de um artista maior

o tempo sem celulite de uma cortesã

o lapso de procriação depois do casamento

quatro ou cinco mandatos políticos   o auge de um Império

vinte anos levou a Constantino reformar Bizâncio

vinte anos fizeram a fortuna de Frick Morgan e Du Pont

vinte anos entre a apresentação no Templo e a crucificação

vinte anos é a matéria dos memorialistas

vinte anos e o povo se cansa da Revolução

vinte anos depois Odette está casada e Mareei morto

a roda o computador pessoal a moda das perucas brancas se

popularizam em não mais de vinte anos

Quéfren e Miquerinos construíram suas pirâmides em vinte

curtos anos

vinte anos depois o cadáver está frio olvidadíssimo

vinte anos de exercício e o êxtase desce ao asceta

nada nada são duas décadas vinte vezes nada

a ponte nova entre aqui e ali está congestionada hoje

a então chamada ponte do futuro já não serve mais

agora quando estás nela também estás aqui

tinhas o cabelo solto tinhas a rédea solta

soltas tinhas as palavras

há vinte anos

entre aqui e ali

 

 

            (Poema introdutório de QUADRAGÉSIMO. São Paulo: Ateliê Editorial, 1999.  A primeira edição do livro saiu no México, em 1996, pela Editorial Aldus).

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CAIXA DE ÁGUA AZUL

 

Entre a ramagem da árvore desconhecida,

Caducifólia, nem de Jessé ou genealógica,

Um volume azul sobre uma laje, caixa de água

De polietileno ou poliuretano.

Notação distante na paisagem urbana,

Obsedante recordação no agora-agora,

Calle Río Poo 108, Colonia Cuauhtémoc,

Suites Parioli, México, Capital.

 

O mar, não. O mar, não. O mar, não. O mar, não.

Um exagero de zéfiros, então: o expresso

Descia a serra em Simcas-Chambord tangerina,

Rumo à baía divisada entre montanhas:

Ao longe, o porto e as torres, guindastes e praias;

Ao pé a pantanosa terra, como espaguete, úmida.

O talento da oitava real quereríamos,

O seu sempre imarcessível horizonte.

 

Nele seguia a senhora duas vezes por ano,

Qual a ordem das vogais, dos ritos identitários,

às vilegiaturas; se lhe encolhera

o mundo à mínima possível transumância.

Para lá da paisagem, a sós uiva o engenho,

Aquilo que em linguagem transforma a língua.

A árvore que se agita em eterno lenho

Enraíza no presente o espectro que mingua.

 

Ia a senhora, olhos de pomba, um único anel

De coral; cruzou-se a morte entre ela e o poema.

O mar, não. Caixa de água azul entre prédios alheios.

Este o horizonte, marchetado em fragmentos,

Reduzido a um puzzle no qual o montador

A si se vê como uma das peças faltantes.

O agora não sabe o que diz: memoria vincitrix.

Desce uma vez mais o expresso a estrada de Santos. 

                                                                  MexCy9/10IX00 

NA MESA DE CABECEIRA

                  

Para Maria Aparecida Santilli

 

Na mesa de cabeceira,

Um exemplar da edição d’Os  Lusíadas

Daquele velho professor secundário do Porto,

Remember, abundantemente comentada,

E um guia do Estado de Chiapas

Elaborado depois do EZLN, portanto

Tão preocupado em descrever as fachadas barrocas

De San Cristóbal de Las Casas como

Em falar das tribos coloridas &

Perseguidas.

Que mundos se juntam em quarenta centímetros quadrados,

O velho Camões  sofrendo talvez pela vizinhança

Insuspeitada –mais distante hoje Chiapas de Calecute

Que há quinhentos anos.

Mas quem junta os objetos  sou eu,

Quem lê estes livros simultaneamente

É este nômade dado

À teatralização do mínimo.

Talvez deste encontro fora do acaso

Não possa originar-se boa poesia.

Nas estantes convivem em ordem alfabética

O Mein Kampf e o Manifesto,

Um tratado sobre botânica com um sobre os  amigos,

A loucura de Aliosha e as práticas de Santa Teresinha de Lisieux:

A contigüidade bibliográfica

Prevê terremotos para quem pára e reflete

Ao ler a lombada dos livros.

 

Mas neste hotel não há estantes:

Há uma espécie de mesa de cabeceira

Que testemunha como se babelizam e se lambuzam –

Haverá bacanal mais surpreendente a esta hora da noite?-

 

Os protegidos de Las Casas e o bardo lusitano

2x1 (“n˜ua mão a pena e noutra a lança”).

No caracol do ouvido distingo

O ritmo que executam

Em sua vital promiscuidade –

Dançando não sobre a cabeça de um alfinete de prata

Mas sobre um criado mudo.

                                               MexCy 17IX00

 

 

AUTO-RETRATO NUM ESPELHO DE HOTEL

 

Nu, toalha nenhuma amarrada estrategicamente

Na cintura, a barba enrolada em cachinhos não

Mas desenhada como a de Prince, primeiro

Role-model,

Incide a luz como tem que ser: da direita inferior

E difunde-se para quem me vê como uma aparição

Poderosa, um Andrea Doria overweighted

Pintado por Bronzino não

Mas visto através da lente

De uma Diane Arbus

Compassiva.

“Ventripotent”, aprendi quando não tinha pança,

Na Aliança Francesa; logo depois os burgueses

De Hals me ensinaram que pode-se parecer bêbado

E próspero. Mas a minha cor

Raramente transparece a rosácea

Que floresce na derme holandesa:

Sou da tez, da consistência

Do Bacchino malato de Caravaggio,

Da dúbia cor dos romanos

Do Sodoma.

Um corpo que fora bem torneado

Pensa-se Tritão, ostras e mariscos

Pendurando-se pelo torso, por ti

Surpreendido face ao espelho.

Pensa-se Tritão, vê-se Netuno:

Nada melhor do que a tênue

Asa da mitologia

Para encobrir

A cor, o tempo, a pança.

 

                                   (escrito no Sanborn’s Del Ángel, MexCy 19IX00)

 

A RÃ

 

Sim, naquele volet gauche

Da visão terrível do El Bosco

Lá nas Janelas Verdes,

Bem sobre o Mar da Palha

Sim, em Lisboa,

Ulissipona, Lixbona,

Lá vive extirpada do Paraíso

(No volet droit)

E num delírio de deslugar

Sem topografia nem imaginário

Mas com epistemé epistemé,

Lá, enfim, vestida de batráquio,

De meio ostra também

Ou pró-dinossáuria

Só que com as asas arrancadas

E inda por cima com pelezinha

Cor-de-rosa e clorofila,

As penas rasuradas

Por um profissional da imagem,

Com a boca que vc conhece,

Baconiana sim,

Bem baconiana,

Sem cérebro,

Estricnina,

A-que-volta-sempre,

A-mais-presente-que-aspirina,

A-pós-impoluta,

A-da-abadia,

A-do-puteiro,

A-que-diz-que-disse,

A linguaruda,

Densa de glossolalia,

Deusa da glossolalia,

A Rão.

Também vive na equação comum,

Fractal.

 

Às vezes me visita.

De tamancos. Sempre de tamancos.

Depois de comer muito alho,

Muito alho sempre.

E bafeja:

Às vezes retenho caligrama,

Se não os esqueço

Ou sublimo.

 

A Rão não me quer

E nem a ti

                   Nem a si

Nem ninguém.

                   Quando visita

Esqueço o linóleo abacate,

Os pés da menininha,

O formulário.

                   E desisto

Da água.

                   Creio que

Isto lhe faz gosto:

 

Mantém-me com a boca seca

E sem beber

E quando lhe lambo

Os flancos orvalhados

A Rão retorce-se de gozo.

(no Hospital Universitário; SP 6 VIII 02)

 

 

MANJAR BRANCO

 

Escrevo um poema depois

De ter escrito um poema sobre

Uma paisagem. Isto é mais manjado

Do que manjar branco, ou que o era

Nos idos não de março, nenhum

Júlio César que não o toxicômano

Semi-suicida filho do marceneiro,

Nenhum cônsul procônsul princeps

De Roma nenhuma, nos idos não de março

Mas de março de 1964, ano da morte de meu pai

E da Redentora.

 

Auto-ungida, veio redimir-nos de nós mesmos,

Os ingovernáveis de memória curta

Ou de longa memória, os ingovernáveis

Que sempre nos paralisamos diante

De uma sobremesa tremulantemente

Branca, com ameixas em conservas

Como calda, ou diante de conclaves

Que tais, que pizza imitam

Fi-gu-ra-ti-va-men-te.

Conto as sílabas, os anos que se passaram

Daquele revolucionário manjar, e eis-me

En-ve-lhe-cen-do diante de tais culinárias

Grandezas.

Oferecem-me “dobrada à moda”,

À moda tripeira, como ao Álvaro de Campos:

Numa civilização na qual tem tal predominância

O trato intestinal, que há-de

Esperar-se?

Ouvi o teu fado, José Dirceu,

Bem ouvi-o.

E houve na oitiva a memória de um

Jovem explorado (eu)

De boa índole (eu)

Quase “desaparecido” (eu)

Devido às tuas veleidades e de Ana Corbisier,

De terroristas que com identidades falsas

Abusaram da nossa hospitalidade,

Minha e da Sônia, lá por 1975:

De salva-pátrias glutão

E grande consumidor:

Indicam-no as tuas gordas bochechas

Cevadas por manjares brancos

E muitas, muitas caldas de ameixas.

 

Não havia os que te saciassem, certo?

Nenhum açúcar mais potente

Do que o poder que experimentaste.

E que, previsivelmente para mim, feriste de morte.

Deixa-nos com gosto amargo na boca

E azia no trato.

 

E lambo os meus beiços no poema.

                                                                   Rio de Janeiro, 24 VI 05

HORÁCIO COSTA

De
SATORI
(Poemas)

São Paulo: Iluminuras, 1989

 


DA LEITURA

O luxo do esquecimento e a necessidade da memória lutam,
se anulam, amam-se gerações afora. Vem o teu corpo,
penetra-me, logo me abandona. Vejo tornar-me
alternadamente eu e outro, apenas eu, apenas outro, o outro e
eu. Neste trânsito nos igualamos os dois, sempre famintos e
súbito satisfeitos a cada minuto, ou cada movimento. Não há
memória que não preveja esquecimento. Nele, sólidos,
carregam-se os fatos que medram no Tempo.  Teus olhos
percorrem-me e me interrompem.  Parte, inconcluso,
permeado deste meu moto, significando moinhos de vento.
Pois que a leitura não se completa nunca, deixo agora de
estar aqui.  Assobia-me meu começo, que já reside em ti.

                                      Nova Iorque, 1981

 

ESCRITO ÀS SEIS DA MANHÃ

entre vegetação e céu
às seis da manhã em ponto
dão voltas sobre si mesmos
os quatro vasos de avenca
suspensos sobre um abismo

planetas desconhecidos
flutuam no além-momento
herdeiros de Assurbanipal
herdeiros do Führer louco
um fio os ata à árvore

amantes da gravidade
são como a História inteira
são vida em estado puro
dão voltas, cai um império
dão voltas, o mundo é pouco

às seis da manhã em ponto
suspensos sobre um abismo
(um fio os ata à árvore)
dão voltas sobre si mesmos
os quatro vasos de avenca

 


EXCRITO NA AULA DE JACQUES DERRIDA


Vamos.
Conversemos com a eternidade
deste espaço em branco.
Nenhum Mallarmé rompe a linha
da língua da página
que flui como uma norma.
Deixemos pro futuro um ambiente
no papel fechado:
janelas neogóticas, alunos novoingleses,
um “mot” neolatino que habita
novas traduções em expansão.
O filósofo disserta infindavelmente
proliferando intenções.  O som da voz
bate e reverbera nos cristais
e encontra seu limite nos bordes deste
plano.  Coscruza o branco.
Lá fora uma cidade quase dorme depois
da chuva.  A alteridade é percebê-la
em stillness, enquanto avança a noite
e se corrompem as palavras.

 

 

 

                               POEMA

 

                                         para Eduardo Milán

 

meus olhos estão secos como o verão

minha sede água nenhuma amortece

 

um caminho sem retorno ou horizontes

dá sobre si voltas

                            e desaparece

 

a terra fabrica sombras sem ar

mineraliza o ar desertos sem pressa

 

a areia que o vento subtrai da rocha

multiplica o tempo de essência leve

 

rodamoinho

                    forma da eternidade

moldeia meu corpo entre as escarpas

 

sou como o vaso atravessado pelo sol

em mãos do ceramista

                                      se me sustentas

 

sou pedra em suspensão

                                      se me desejas

de instante prenhe entre céu e gravidade

 

pedra me torno lavada desde adentro

iluminada em torno ao eixo em rotação

 

eu sou planeta explodido em si mesmo

cal e zero    vida e nada                  ser total

 

se me revelas

                      forma expandida

mesmeriza minha voz em movimento

 

pó de escritura

                             dança helicoidal

tenho presente a imagen da imagem

                                               [breve

 

um caminho sem retorno ou horizontes

dá sobre si voltas

                          e desaparece

 

 

 

 

COSTA, Horácio.  Paulistanas / Homoeróticas. São Paulo: Lumme Editorial, 2007. (Série caixa preta. Poesia.) 12x19 cm.  Caixa de papelão contendo 3 folhetos. 


 

 

A TERCEIRA FACE DE JANO

 

não olha ao futuro

nem mede o passado

a terceira face de Jano

mora em São Paulo

olha para o lado

                                       tenta

virar o rosto

                                       não pode:

aí estão as siamesmas

         faces irmãs

a do futuro

cega como Borges

a do passado

rouca como Proust

e nenhuma que veja

a Marginal do Pinheiros

 

sobrou para ti

                              terceira imobilizada

face perplexa

          estar face

a face

          com o

presente

 

 

São Paulo, 16.V.06

 

 

 

OS DEDOS CEGOS

 

Os dedos cegos perseguem a carne,

Tocam-na, sedentos; irreflexivos

Sobem do pene ao peito até a barba

Que os surpreende, cega: talvez branca

 

Grisalha ou negra sobre pele jovem.

Os dedos cegos sopesam a carne,

Trilham-na, nela meditam todo um

Deambular: que prever para além

 

Dela, afora a terrível noite escura

 

Que desse corpo em transe foge sempre

 

Rumo à cidade e suas feerias?

 

Os dedos cegos exploram a carne

E sempre famintos a consomem

Na lei expressa de seu tentear—

 

Lei mais velha que o ser e que o expressa.

 

 

SP, 15.XI.05

 

 

COSTA, Horácio.  The Very Short Stories.  São Paulo: Iluminuras, 1991.75 p.

11x21 cm.  ISBN 85-85219-38-6   “ Horacio Costa “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

The Rosy Crucifixion

 

, nonchalant camisaberta. Estamos atacados de

textualidade. Também observaste os mamilos de

quem cruzou nosso caminho. Duros como beija-

flores, drops de alegria: morena azálea em flor o

corpo.

 

How unruly. Persigamo-lo ao Parnaso: que ne-

nhuma palavra escape de sua boca. Perseu. And

down we went! ("Ezra, wbere are your scissors?")

Que fazer depois destes band-aids de tempo em

que tudo esteve al fresco?

"Agora Não."

 

— Oh, como podes ser tão insensível?

Outro dia passou. Hoje vamos comer despreocu-

padamente na casa do Poeta: engata uma segun-

da, que lá vem barra pesada: à minha direita esta-

rá empoleirado o corvo de Boileau.

Sobre minha cabeça persiste um discreto rufar de

asas abertas. Kyrie Elleison... Kyrie... Kyrie... Se-

guirei imaginando que a Pomba-Gira me protege.


 

 

COSTA, HorácioO Menino e o Travesseiro.  Prólogo de José Saramago.  Ilustrações de José Hernández.  2ª. edição.  São Paulo: Geração Editorial, 2003.  43 p.  16x23 cm. Capa dura.   ISBN 85-86028-09-6   “ Horácio Costa “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

Extraído de:

 

 

COSTA,Horácio, org.  A Palavra poética na América Latina. Avaliação de uma geração.  São Paulo: Memorial da América Latina, 1992.   272 p. (Cadernos de Cultura)  14x21 cm  Capa: Mario Cafiero. ISBN 85-85373-04-0   Col. A.M.

 

 

 

Roda das ideias fixas

 

para João Alexandre Barbosa

 

Outros — no tempo —

compõem emblemas

com que me persigo

 

presenças perpetuadas

pela mais tenaz repetição

a engendrar a suprema

surpresa geométrica

de um labirinto interno

a uma linha reta

 

a mesma coisa concreta

cercada até sua abstração

ou afirmada ainda

pelo apego avesso

da via negativa

 

como a metáfora implícita

em liquidar com as metáforas

e aquela busca da hora

— impontual —

que é o fim de todas as horas

 

 

De: Crescente, 1990.

 

 

 

COSTA, Horácio.  O Livro dos Fracta.  São Paulo: Iluminuras, 1990.  70 p.  15x20,5 cm.  ISBN 85-85219-28-9  Imagem da capa: Binary decomposition on the unit disk in C.  “ Horácio Costa “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

 

III

 

Drummondiana

 

A amava B que amava C que não amava

ninguém. Em dispersão termina a volição:

 

pirâmides/pó enquadram o passeio dos amantes.

 

 

 

XVI

La Storia

 

Um alvéolo sonha a árvore;

o ponto-que-desliza, o aleph.

A identidade é imitação.

 

 

 

COSTA, Horácio.  Paisagem II.   São Paulo: 2009.  18 p.  12,5x19 cm.  (Selo Demonio Negro)  Tiragem: 98 exs.  Capa em papel de fibra de sisal artesanal.  Ex. 033 na bibl. Antonio Miranda  “ Horácio Costa “

 

PAISAGEM II

                              À Ana Hatherly

 

Sentado nesta bergère de courvin
sinto o poema chegar com ainda
menos urgência do que parece
condensarem-se as nuvens sobre a paisagem
que se descortina deste hospital
debruçado sobre a mais insípida
autopista ou avenida de fundo de vale
— que cada cidade tenha as suas
características é mais do que natural
e Dubai e Oslo só se encontram
por terem topónimos bissílabos —
e tais artérias são o próprio desta
na qual por bem nasci e na qual
se me for dado imprimir sobre
o meu devir bizarro a vontade
minha, hei de morrer e talvez
em algum espaço medical como este
e sempre na observação de plúmbeas
vastas nuvens, que obrigam recordar
a proximidade da serra e sua
exsudação e abaixo o sujo mar
per elas responsável, pai
esquecidiço e insolidário quem
nos filia a cada estação e quem
nos manda carícias sob forma de
sazonais monções.
Mudo

de posição como em Apipucos

Freyre o faria em outra bergère

mas não diviso sequer mentalmente

nenhum engenho de nome Noruega

na noite que se acende e sim

apenas o estertor de uma cidade

nem libertina nem libertária

nem escarrapachada em indolentes redes

mas que no supino anonimato garante

o quociente de cada habitante seu

à liberdade de escolha, dentro

dos limites xadrezes entre prédios

e vales e parcos parques e não mais.

                                                      Que

não se confunda tal simples solaz

ao exercício contumaz da fantasia:

aqui não cortam os ares de Batman

a capa nem Quasímodo horrendo

se esconde em nossa Sé e nem Rachel

Watson ou Esmeralda belas apeiam-se

dos incessantes vagões na Liberdade.

Há dias sinto emergir este poema

e serão tais nuvens baixas quem

o traz e de onde aportará que não

da sensação experimentada dia a dia

do perviver este espaço dia com dia

no fluxo de um rio ao inverso?

A hibridez do texto corresponde-lhe

e a mim, e ao desejo de plasmar-me

nele e nela e repetir e repetir

que a cidade que tudo isto origina

será o meu espelho colinado

e meus nervos e meu sangue

estas luzes que diviso mental e real-

mente, agora que a sobrevoo não

em rés búdico, que bem o quisera,

mas para começar a terminar

este registro que inda tarda.

As raízes do fícus, gigantescas,

entre as pistas da auto-bahn

esperam quem nelas se aninhe

e ao pé da copa frondosíssima,

como Buda, se ilumine; as encostas

lá embaixo, sulcadas entre bairros

de espigões, talvez possam sugerir

semi-aconcáguas aos do montanhismo

entusiastas, que por aqui transitem

e aos médicos, o vislumbre da

distante cúpula da Catedral, cujos

bronzes estão cobertos por cinábrio,

o bimbalar mouco de sinos em toque

fúnebre, que lhes imprima o significado

da vida de cada um de seus pacientes:

velhos imigrantes portugueses, mães

nordestinas deixadas por seus machos,

nisseis que se expressam por sorrisos

e o significado da minha vida em

particular, quase um gondoleiro age

neste Rialto em pane, vestido

com esta improvável camiseta

listrada de azul e branco e por hora

sentado a escrever este poema

nesta bergère de courvin

impessoalíssima e com os seus olhos

rasos d'água, como deve ser, enquanto

reflito sobre São Paulo e sua gente

neste pavilhão de funcionalidade

hospitalar, edificado num barranco

íngreme não: cânion sobre uma artéria

aberta no fundo de um vale coberto

por nuvens nuvens nuvens.

 

 

 

                                       

 

 

 

HORÁCIO COSTA


 

José Horácio de Almeida Nascimento Costa nació en São Paulo en 1954. Estudió arquitectura y urbanismo. Vivió muchos años en Estados Unidos y México, desempeñándose como profesor universitário. Publicó 28 poemas/6 contos (1981), o livro dos fracta (1990; también editado en castellano en México, 1990), El niño y la almohada  (bilíngüe, 1994) y Quadragésimo (México, 1996; Brasil, 1999). [Traducciones de R.J., revisadas por H.C.J]

 

 

TEXTOS EM ESPAÑOL

 

CAJA DE AGUA AZUL 

Entre el ramaje del árbol desconocido,

Caducifolio, ni de Jessé ni genealógico,

Un volumen azul sobre una losa, caja de água

De polietileno o poliuretano.

Notación distante en el paisaje urbano,

Obsedante recordación en el ahora-ahora,

Calle Río Poo 108, Colonia Cuauhtémoc,

Suites Parioli, México, Capital.

 

El mar, no. El mar, no. El mar, no. El mar, no.

Un exagero de zéfiros, entonces: el expreso

Bajaba la Sierra en Simcas-Chambord tangerina,

Rumbo a la bahía divisada entre montañas:

A lo lejos, el puerto y las torres, grúas y playas;

Al pie la pantanosa tierra, como espaguete húmeda.

El talento de la octava real quisiéramos,

Su siempre inmarcesible horizonte.

 

En el seguía la señora dos veces por año,

Cual el orden de las vocales, de los ritos identitarios,

A las vilegiaturas; se le había encogido

El mundo a la mínima posible trashumación.

Más allá del paisaje, a solas aúlla el ingenio,

Aquello que en lenguaje transforma la lengua.

El árbol que se agita en eterno leño

Arraiga en el presente el espectro que mengua.

 

Iba la señora, ojos de paloma, un único anillo

De coral: se cruzó la muerte entre ella y el poema.

El mar, no. Caja de agua azul entre predios ajenos.

Este el horizonte, marchetado en fragmentos,

Reducido a un puzzle en el que el montador

A si se ve como una de las piezas que faltan.

El ahora no sabe qué dice: memoria vincitrix.

Baja una vez más el expreso la carretera de Santos. 

 

EN LA MESILLA DE NOCHE

                   A Maria Aparecida Santilli

 

En la mesilla de noche,

Un ejemplar de la edición de Os Lusíadas

De aquel viejo profesor secundario de Oporto,

Remember, abundantemente comentada

Y un guía del estado de Chiapas

Elaborado después del EZLN, por tanto

Tan preocupado en describir las fachadas barrocas

De San Cristóbal de Las Casas como

En hablar de las tribus coloridas &

Perseguidas.

Que mundos se juntan en cuarenta centímetros cuadrados,

El viejo Camões sufriendo quizá por la vecindad

Insospechada (Chiapas

No es Melinde ni Calecut).

Pero quien junta a los objetos soy yo,

Quien lee estos libros simultáneamente

Es este nómada dado

A la teatralización de lo mínimo.

Tal vez de este encuentro fuera del azar

No pueda surgir buena poesía.

En las estanterías conviven en orden alfabético

El Mein Kampf  y el Manifiesto,

Un tratado sobre botánica y uno sobre la amistad,

La locura de Aliosha y el êxtasis de Santa Teresa de Lisieux:

La contigüedad bibliográfica

Prevee terremotos para quien se detiene y reflexiona

Mirando el lomo de los libros.

 

Pero en este hotel no hay estantes:

Hay una especie de mesilla de noche

Que atestigua cómo se babelizan y se relamen –

¿Habrá bacanal más sorprendente?-

Los protegidos de Las  Casas y el bardo lusitano

2x1 (“n˜ua mão a pena e noutra a lança”).

En el caracol del oído distinguo

El ritmo que ejecutan

En su vital promiscuidad –

Bailando no sobre la cabeza de un alfiler de plata

Mas sobre una mesilla de noche.

 

 

AUTORRETRATO EN UN ESPEJO DE HOTEL

 

Desnudo, toalla ninguna amarrada estratégicamente

En la cintura, la barba enrollada en caracolitos no

Sino dibujada como la de Prince, primer

Role-model,

Incide la luz como tiene que ser: de la derecha inferior

Y se difunde para quien me ve como una aparición

Poderosa, un Andrea Doria overweighted

Pintado por Bronzino no

Mas visto a través de los lentes

De una Diana Arbus

Compasiva.

“Ventripotent”, aprendi cuando no tenía panza

En la Alianza Francesa; luego después los burgueses

De Hals me enseñaron que se puede parecer borracho

Y próspero. Pero mi color

Raramente transparece la rosácea

Que florece en la derme holandesa:

Soy de la tez, de la consistencia

Del Bacchino Malato de Caravaggio,

Del dudoso color de los romanos

Del Sodoma.

Un cuerpo que fuera bien torneado

Se piensa Tritón, ostras y mariscos

Congándosele por el torso, por ti

Sorprendido frente al espejo.

Se piensa Tritón, se ve Neptuno:

Nada mejor que la ténue

Ala de la mitología

Para encubrir

El color, el tiempo, la panza.

 

 

LA RANO

 

Sí, en aquel volet gauche

De la visión terrible del Bosco

Allá en las Janelas Verdes,

Sobre el Mar de Paja,

Sí, en Lisboa,

Ulisipona, Lixbona,

Allá vive sustraída del paraíso

(En el volet droit)

Y en un delirio de deslugar

Sin topografía ni imaginario

Mas con epistemé epistemé,

Allá, en fin, vestida de batracio,

También de medio ostra

O pro-dinosauria,

Sólo que con las alas arrancadas

Y más aún con pielecita

Color de rosa y clorofila,

Las plumas rasuradas

Por un profesional de la imagen,

Con la boca que Ud. conoce,

Baconiana sí,

Bien baconiana,

Sin cerebro,

Estricnina,

La-que-regresa-siempre,

La-más-presente-que-la-aspirina,

La-post-impoluta,

La-de-la-abadía,

La-del-burdel,

La-que-dijo-que-dice,

La lenguaraz,

Densa de glosolalia,

Diosa de la glosolalia,

La Rano.

También vive en la ecuación común,

Fractal.

 

A veces me visita.

En zuecos. Siempre en zuecos.

Después de comer mucho ajo,

Mucho ajo siempre.

Y exhala:

A veces me quedan caligramas,

Si no los olvido

O los sublimo.

 

La Rano no me quiere

Ni a tí

         Ni a sí

Ni a nadie.

         Cuando me visita

Se me borra el mosaico aguacate,

Los pies de la niñita,

El formulario.

                   Y desisto

Del agua.

         Creo que

Eso le da gusto:

Me mantiene con la boca reseca

Y sin beber

Y cuando le lamo

Sus flancos rociados

La rano se retuerce de gozo.

 

 

 

 

 

COSTA, Horácio.  El libro de los Fracta.  México, DF: Verdehalago/ Consejo Nacional para  la Cultura y las Artes, 2002.  70 p. (Colección  La Centena / Poesía.) 11,3x16,7 cm.  ISBN 970-18-8339-X    Tiragem: 5000 exs.

 

Red Shift

 

Arrastra tu falda, chiquita. Desaparecer en llamas,
color de tus encajes. Del otro lado de la Avenida 
observamos tu colisión. Sunset grand couturier.

 

 

 

Blue Shift

Atento al ritmo, negro. Tú vienes en nuestra dirección,

somos tu banquete, dervijes inanes que propician

allahs.

Tú vienes. Not with a bang but a whimper.

 

 

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Extraído de la revista

tsé=tsé
7/8 otoño 200
Buenos Aires, Argentina

 

 


POEMA       

 

 

mis ojos están secos como el verano

mi sed agua ninguna amortigua

 

un camino sin retorno u horizontes

da vueltas sobre sí

                            y desaparece

 

la tierra fabrica sombras sina ire

mineraliza el aire desiertos sin prisa

 

la arena que el viento sustrae de la roca

multiplica ele tiempo  de esencia leve

 

remolino

                forma de la eternidad

moldea mi cuerpo entre las escarpas

 

soy como el vaso atravesado por el sol

en manos del ceramista

                                   si me sustentas

 

soy piedra en suspensión

                                      si me deseas

de instante preñado entre cielo y gravedad

 

piedra me torno lavada desde adentro

iluminada en torno al aje en rotación

 

yo soy planeta estallado en sí mismo

cal y cero    vida y nada      ser total

si me revelas

                   forma expandida

mesmeriza mi voz en movimiento

 

 

polvo de escritura

                            danza helicoidal

tendo presente la imagen de la imagen

                                               [breve

 

un camino si retorno u horizontes

da vueltas sobre si

                            y desaparece



 

BESTIARIO INMEDIATO –Muestra de poesía mexicana contemporânea. Prólogo y compilación: César Arístides. Ilustraciones : Juan Manuel Ramos López.   México, DF: Ediciones Coyoacán, 2000.  133 p.  13x21 cm.     ISBN 970-632-171-9  Col. A.M.

 

 

EN EL JARDÍN

I

Sorprendida entre el follaje
genuflexiones inauditas hace

la lagartija

frente a una piedra cualquiera.

 

¿Qué religión, la suya?

¿qué fuerza la mantendrá paralizada

jadeante

entre hiedra y jazmín?

 

no losé. En el jardín se esconde

un dios, visible tan^sólo

para

 

II

Cronos, el perro, comió demasiado

en la cena.

A media noche la puerta de la azotea

tuve que abrirle.                 

 

Por la mañana viene la lagartija

y perfunctoria

(¿será la misma?)

 

se detiene maravillada

frente a la endurecida masa

que el perro hubo legado

entre las macetas.

 

Por el lado del revés hay alguien

que escribe derecho.

COSTA, Horácio. Ravenalas y otros poemas.  Traducción: Cristian de Nápoli.  Buenos Aires: Ediciones Gog & Magog, 2013.  253 p.  14x20 cmm.   Fotografia de tapa: Curro Palacios Taberner.  ISBN 978-950-9704-56-5   Edição bilíngue Português – Español.  Obra publicada con el apoyo del Ministerio de Cutlura de Brasil, Fundação Biblioteca Nacional.  “Horácio Costa” Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

 

        FEBRA

 

         E existirá um deus
         Que viva na borda
         Da seda desfiada?

         Um deus próprio
         Para o tecido
         Que se desfia?

         Um deus para a febra
         Precisa,
         Desfiada?

         E isto quer dizer:
         Um deus do desfiar
         Do desfazer do tecido
         Do deslizar

         Daquela febra
         Insubstituível?
         E inimputável?

         Existirá um deus
         Para a parte do tecido
         que foi-se?

         Como febra que se desfia
         Como seda que se desfaz

         Um deus do ir-se
         Um deus que-se-vai:

         Da despedida.

                            SP 5 V 04

        

 

                  FIBRA

 

                   ¿Y existirá un dios
                   que viva en el borde
                   de la seda deshilachada?

                   ¿Un dios propio
                   para la tela
                   que se deshilacha?

                   ¿Un dios para la fibra
                   precisa,
                   deshilachada?

                   Y esto quiere decir:
                   ¿un dios del deshilachar
                   del deshacerse de la tela
                   del deslizar
                   de aquella fibra
                   insustituible?
                   ¿E inimputable?

                   ¿Existirá un dios
                   para la parte de la tela
                   que se fue?

                   como fibra que se deshilacha
                   como seda que se deshace

                   Un dios del irse
                   un dios que se va:

                   de la despedida.

                                               SP 5 V 04
                    

 

Página ampliada e republicada em janeiro de 2009. Ampliada e republicada em nov. 2013. Ampliada e republicada em julho de 2014; ampliada e republicada em agosto de 2014. Ampliada em agosto de 2016.




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