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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Cartão postal antigo; bilhete postal – old postcard – tarjeta postalantigua –
Editor/publisher M. OROZCO, Rio de Janeiro circa 1904)


GONÇALVES DIAS

(1823-1864)

 

Antônio Gonçalves Dias, poeta maranhense.

 

 

CANÇÃO DO EXÍLIO


Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o sabiá;

As aves que aqui gorgeiam,

Não gorgeiam como lá.

 

Nosso céu tem mais estrellas,

Nossas vazeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.

 

Em scismar, sozinho, á noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o sabiá.

 

 

(Obs. Conservamos a ortografia original, tal como aparece no cartão).

 

Este exemplar  faz parte de uma coleção de 16 “bilhetes postais” da coleção particular de Antonio Miranda registrada no texto Poesia em Cartão Postal Antigo.

 

Veja também: GONÇALVES DIAS EM EM PORTUGUÊS E ESPAÑOL -

 

ENGLISH

 

ITALIANO

 

Veja também: A SEMIÓTICA POÉTICA EM GONÇALVES DIAS por ANTONIO ROBERVAL MIKETEN

 

Veja também: BORGES E GONÇALVES DIAS – por M. Paulo Nunes – ENSAIOS

 

 

 

Imagem extraída  de

DIAS-PINO, WlademirA lisa escolha do carinho (Rio de Janeiro: Edição Europa, s.d. 
20,5x20,5 cm.  33 f. ilustradas  (Coleção Enciclopédia Visual).   Inclui versos de
poetas brasileiros

 

HADAD, Jamil Almansur, org.   História poética do Brasil. Seleção e introdução de  Jamil Almansur Hadad.  Linóleos de Livrio Abramo, Manuel Martins e Claudio         Abramo.  São Paulo: Editorial Letras Brasileiras Ltda, 1943.  443 p. ilus. p&b  “História do Brasil narrada pelos poetas. 

HISTORIA DO BRASIL – POEMAS

 

A INDEPENDÊCIA E O IMPÉRIO

 


Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias (Porto da Estrela, 25 de agosto de 1803 – Valença, 7 de maio de 1880), apelidado de "O Pacificador" e "O Duque de Ferro", foi um militar, político e monarquista brasileiro. Caxias seguiu uma carreira militar, assim como seu pai e tios.

 

 

A  DESORDEM DE CAXIAS

              1839

 — Le crime est immortel!  —
— Ainsi que le remords!
                                 A. Barbier

II

Como, quando o vulcão prepara a lava
Nas entranhas da terra, e à noite lança,
Pela sangrenta, rúbida cratera,
Mais viva chama em turbilhão de fumo,
Ensandece-se o ar, cala-se a terra,
Nem gira a brisa, ou só tufão de vento
Com hórrido fragor sacode os troncos;
Assim também, quando abafadas rosnam
Sanhas do povo, antes que fúrias rompam,
Propaga-se confuso borborinho,
Cresce a agitação naquele e neste,
E um que de febre lhes transforma o siso.
Trêmulos todos, homens e mulheres,
Infantes e anciãos — de mãos travadas,
Turvado o rosto, os olhos lacrimosos,
Lá vão terras do exílio demandando.

Um passo apenas dão que os alumia
Do vulcão popular a lava ardente.
Sob os trépidos pés soluça a terra,
Sobre as cabeças pávidas volteia
Ou rocha em brasa, ou condensada nuvem
De pó desfeito, que resseca os ares,
E d´entre aquele fumo e aquelas chamas,
Naquele horror e medo, estátuas vivas,
Sinistro lampejar de armas descobrem:
Descobrem longe os tetos abrasados,
A pouco e pouco esmorecendo em cinzas;
Escutam gritos de uma voz querida,
De um ser que expira, e que em socorro os chama!
E ali pregados no terreno ingrato
Nem da morte impiedosa fugir sabem,
Nem força têm que lhes escude a vida.
São ali sem ação, sem voz, sem força,
Como que má sezão lhes tolhe os membros,
Ou os sufoca horrível pesadelo.
Mudos, fracos, sem luta, os colhe a morte;
E nus, sangrentos, insepultos jazem!



III

Turbida reina a bacanal de sangue!
E rei do atroz festim, brinco do vulgo,
Um só campeia! um só, que mal se achega
À lauta mesa, onde enfrasca o vulgo
De carniça e ralé, tocando apenas
O sangue e o vinho, que alimenta o bródio;
Derruba-o logo a popular vindita,
E folga ultriz em torno aos vis despojos,
Que nem de amigas lágrimas se molham,
Nem de talhadas lápidas se cobrem;
Malditos sejais vós! malditos sempre
Na terra, inferno e céus! — No altar de Cristo
Outra vez a paixões sacrificado.
Ímpios sem crença, e precisando tê-la,
Assentastes um ídolo doirado
Em pedestal de movediça areia;
Uma estátua incensastes — culto infame!  —
De política, sórdida manceba
Que aos vestidos, outrora reluzentes,}
Os andrajos cerziu de vil miséria!
No antropófago altar, mádido, impuro
Em holocausto correu de hóstia inocente
Humano sangue, fumegante e rubro..
Insensível à dor, ao pranto, às preces,
Insensível à cãs, à verde infância,
Tudo sorveu a rábida quadrilha!
A treda mente maquinou suplícios,
Torpe vingança! Meditou cruenta
Nos requintes da dor ébria fartar-se,
E lascívia imoral dos lábios deles
Em frontes virginais cuspiu veneno,
Afrontas caiam sobre tanta infâmia!
E se a vergonha vos não tinge o rosto,
Tinja o rosto do ancião, do infante
Que em qualquer parte vos roçar fugindo.
Da consciência a voz dentro vos punja,
Timorato pavor vos encha o peito,
E farpado punhal a cada instante
Sinais no coração fundo morder-vos.
Dos que matastes se vos mostre em sonhos
A chusma triste, suplicante, inerme...
Sereis clemente... mas que a mão rebelde
Brandindo mil punhais lhes corte a vida:
E que então vossos lábios confrangidos
Se descerrem sorrindo — cru sorriso
Entre dor e prazer, — qu´então vos prendam
A poste vergonhoso, e que a mentira
O vosso instante derradeiro infame!
Bradem: Não fomos nós! — e no seu poste
De vaias e baldões cobertos morram.

...................................................

            (POESIAS —  H. Garnier – Rio, 1910)

 

ROMANTISMO / seleção e prefácio Antonio Carlos Secchin.  São Paulo: Global, 2007.  (Coleção roteiro da poesia brasileira. Direção: Edla van Steen.)                           Ex. bibl. Salomão Sousa

 

LEITO DE FOLHAS VERDES

Por que tardas, que tanto a custo
À voz do meu amor moves teus passos?
Da noite a viração, movendo as folhas,
Já nos cimos do bosque rumoreja.

Eu sob a copa da mangueira altiva
Nosso leito gentil cobri zelosa
Com mimoso tapiz de folhas brandas,
Onde o frouxo luar brinca entre flores.

Do tamarindo a flor abriu-se há pouco,
Já solta o bogari mais doce aroma!
Como prece de amor, como estas preces,
No silêncio da noite o bosque exala.

Brilha a lua no céu, brilham estrelas,
Correm perfumes no correr da brisa,
A cujo influxo mágico respira-se
Um quebranto de amor, melhor que a vida!

A flor que desabrocha ao romper d´alva
Um só giro do sol, não mais, vegeta:
Eu sou aquela flor que espero ainda
Doce raio do sol que me dê vida.

Sejam vales ou montes, lago ou terra,
Onde quer que tu vás, ou dia ou noite,
Vai seguindo após ti meu pensamento;
Outro amor nunca tive,; és meu, sou tua!

Meus olhos outros olhos nunca viram,
Não sentiram meus lábios outros lábios,
Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas
A arasóia na cinta me apertaram.

Do tamarindo a flor jaz entreaberta,
Já solta a bogari mais doce aroma;
Também meu coração, como estas flores,
Melhor perfume ao pé da noite exala!

Não me escutes, Jatir! nem tardo acodes
À voz do meu amor, que em vão te chama!
Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil
A brisa da manhã sacuda as folhas!

Últimos cantos (1851)

 

I-JUCA-PIRAMA

 

No meio das tabas de amenos verdores,

Cercadas de troncos - cobertos de flores,

Alteiam-se os tetos d'altiva nação;

São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,

Temíveis na guerra, que em densas coortes

Assombram das matas a imensa extensão.

São rudos, severos, sedentos de glória,

Já prélios incitam, já cantam vitória,

Já meigos atendem à voz do cantor:

São todos Timbiras, guerreiros valentes!

Seu nome lá voa na boca das gentes,

Condão de prodígios, de glória e terror!

As tribos vizinhas, sem forças, sem brio,

As armas quebrando, lançando-as ao rio,

O incenso aspiraram dos seus maracás:

Medrosos das guerras que os fortes acendem,

Custosos tributos ignavos lá rendem,

Aos duros guerreiros sujeitos na paz.

No centro da taba se estende um terreiro,

Onde ora se aduna o concílio guerreiro

Da tribo senhora, das tribos servis:

Os velhos sentados praticam d'outrora,

E os moços inquietos, que a festa enamora,

Derramam-se em torno dum índio infeliz.

Quem é? - ninguém sabe: seu nome é ignoto,

Sua tribo não diz: - de um povo remoto

Descende por certo - dum povo gentil;

Assim lá na Grécia ao escravo insulano

Tornavam distinto do vil muçulmano

As linhas corretas do nobre perfil.

Por casos de guerra caiu prisioneiro

Nas mãos dos Timbiras: - no extenso terreiro

Assola-se o teto, que o teve em prisão;

Convidam-se as tribos dos seus arredores,

Cuidosos se incubem do vaso das cores,

Dos vários aprestos da honrosa função.

Acerva-se a lenha da vasta fogueira

Entesa-se a corda da embira ligeira,

Adorna-se a maça com penas gentis:

A custo, entre as vagas do povo da aldeia

Caminha o Timbira, que a turba rodeia,

Garboso nas plumas de vário matiz.

Em tanto as mulheres com leda trigança,

Afeitas ao rito da bárbara usança,

índio já querem cativo acabar:

A coma lhe cortam, os membros lhe tingem,

Brilhante enduape no corpo lhe cingem,

Sombreia-lhe a fronte gentil canitar,

 

II

Em fundos vasos d'alvacenta argila

Ferve o cauim;

Enchem-se as copas, o prazer começa,

Reina o festim.

O prisioneiro, cuja morte anseiam,

Sentado está,

O prisioneiro, que outro sol no ocaso

Jamais verá!

A dura corda, que lhe enlaça o colo,

Mostra-lhe o fim

Da vida escura, que será mais breve

Do que o festim!

Contudo os olhos d'ignóbil pranto

Secos estão;

Mudos os lábios não descerram queixas

Do coração.

Mas um martírio , que encobrir não pode,

Em rugas faz

A mentirosa placidez do rosto

Na fronte audaz!

Que tens, guerreiro? Que temor te assalta

No passo horrendo?

Honra das tabas que nascer te viram,

Folga morrendo.

Folga morrendo; porque além dos Andes

Revive o forte,

Que soube ufano contrastar os medos

Da fria morte.

Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva,

Lá murcha e pende:

Somente ao tronco, que devassa os ares,

O raio ofende!

Que foi? Tupã mandou que ele caísse,

Como viveu;

E o caçador que o avistou prostrado

Esmoreceu!

Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes

Revive o forte,

Que soube ufano contrastar os medos

Da fria morte.

 

III

Em larga roda de novéis guerreiros

Ledo caminha o festival Timbira,

A quem do sacrifício cabe as honras,

Na fronte o canitar sacode em ondas,

O enduape na cinta se embalança,

Na destra mão sopesa a iverapeme,

Orgulhoso e pujante. - Ao menor passo

Colar d'alvo marfim, insígnia d'honra,

Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme,

Como que por feitiço não sabido

Encantadas ali as almas grandes

Dos vencidos Tapuias, inda chorem

Serem glória e brasão d'imigos feros.

"Eis-me aqui", diz ao índio prisioneiro;

"Pois que fraco, e sem tribo, e sem família,

"As nossas matas devassaste ousado,

"Morrerás morte vil da mão de um forte."

Vem a terreiro o mísero contrário;

Do colo à cinta a muçurana desce:

"Dize-nos quem és, teus feitos canta,

"Ou se mais te apraz, defende-te." Começa

O índio, que ao redor derrama os olhos,

Com triste voz que os ânimos comove.

 

IV

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi:

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci;

Guerreiros, descendo

Da tribo tupi.

Da tribo pujante,

Que agora anda errante

Por fado inconstante,

Guerreiros, nasci;

Sou bravo, sou forte,

Sou filho do Norte;

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi.

Já vi cruas brigas,

De tribos imigas,

E as duras fadigas

Da guerra provei;

Nas ondas mendaces

Senti pelas faces

Os silvos fugaces

Dos ventos que amei.

Andei longes terras

Lidei cruas guerras,

Vaguei pelas serras

Dos vis Aimoréis;

Vi lutas de bravos,

Vi fortes - escravos!

De estranhos ignavos

Calcados aos pés.

E os campos talados,

E os arcos quebrados,

E os piagas coitados

Já sem maracás;

E os meigos cantores,

Servindo a senhores,

Que vinham traidores,

Com mostras de paz.

Aos golpes do imigo,

Meu último amigo,

Sem lar, sem abrigo

Caiu junto a mi!

Com plácido rosto,

Sereno e composto,

O acerbo desgosto

Comigo sofri.

Meu pai a meu lado

Já cego e quebrado,

De penas ralado,

Firmava-se em mi:

Nós ambos, mesquinhos,

Por ínvios caminhos,

Cobertos d'espinhos

Chegamos aqui!

O velho no entanto

Sofrendo já tanto

De fome e quebranto,

Só qu'ria morrer!

Não mais me contenho,

Nas matas me embrenho,

Das frechas que tenho

Me quero valer.

Então, forasteiro,

Caí prisioneiro

De um troço guerreiro

Com que me encontrei:

O cru dessossêgo

Do pai fraco e cego,

Enquanto não chego

Qual seja, - dizei!

Eu era o seu guia

Na noite sombria,

A só alegria

Que Deus lhe deixou:

Em mim se apoiava,

Em mim se firmava,

Em mim descansava,

Que filho lhe sou.

Ao velho coitado

De penas ralado,

Já cego e quebrado,

Que resta? - Morrer.

Enquanto descreve

O giro tão breve

Da vida que teve,

Deixai-me viver!

Não vil, não ignavo,

Mas forte, mas bravo,

Serei vosso escravo:

Aqui virei ter.

Guerreiros, não coro

Do pranto que choro:

Se a vida deploro,

Também sei morrer.

 

V

Soltai-o! - diz o chefe. Pasma a turba;

Os guerreiros murmuram: mal ouviram,

Nem pode nunca um chefe dar tal ordem!

Brada segunda vez com voz mais alta,

Afrouxam-se as prisões, a embira cede,

A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.

Timbira, diz o índio enternecido,

Solto apenas dos nós que o seguravam:

És um guerreiro ilustre, um grande chefe,

Tu que assim do meu mal te comoveste,

Nem sofres que, transposta a natureza,

Com olhos onde a luz já não cintila,

Chore a morte do filho o pai cansado,

Que somente por seu na voz conhece.

- És livre; parte.

- E voltarei.

- Debalde.

- Sim, voltarei, morto meu pai.

- Não voltes!

É bem feliz, se existe, em que não veja,

Que filho tem, qual chora: és livre; parte!

- Acaso tu supões que me acobardo,

Que receio morrer!

- És livre; parte!

- Ora não partirei; quero provar-te

Que um filho dos Tupis vive com honra,

E com honra maior, se acaso o vencem,

Da morte o passo glorioso afronta.

- Mentiste, que um Tupi não chora nunca,

E tu choraste!... parte; não queremos

Com carne vil enfraquecer os fortes.

Sobresteve o Tupi: - arfando em ondas

O rebater do coração se ouvia

Precípite. - Do rosto afogueado

Gélidas bagas de suor corriam:

Talvez que o assaltava um pensamento...

Já não... que na enlutada fantasia,

Um pesar, um martírio ao mesmo tempo,

Do velho pai a moribunda imagem

Quase bradar-lhe ouvia: - Ingrato! Ingrato!

Curvado o colo, taciturno e frio.

Espectro d'homem, penetrou no bosque!

 

VI

- Filho meu, onde estás?

- Ao vosso lado;

Aqui vos trago provisões; tomai-as,

As vossas forças restaurai perdidas,

E a caminho, e já!

- Tardaste muito!

Não era nado o sol, quando partiste,

E frouxo o seu calor já sinto agora!

- Sim demorei-me a divagar sem rumo,

Perdi-me nestas matas intrincadas,

Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;

Convém partir, e já!

- Que novos males

Nos resta de sofrer? - que novas dores,

Que outro fado pior Tupã nos guarda?

- As setas da aflição já se esgotaram,

Nem para novo golpe espaço intacto

Em nossos corpos resta.

- Mas tu tremes!

- Talvez do afã da caça....

- Oh filho caro!

Um quê misterioso aqui me fala,

Aqui no coração; piedosa fraude

Será por certo, que não mentes nunca!

Não conheces temor, e agora temes?

Vejo e sei: é Tupã que nos aflige,

E contra o seu querer não valem brios.

Partamos!... -

E com mão trêmula, incerta

Procura o filho, tacteando as trevas

Da sua noite lúgubre e medonha.

Sentindo o acre odor das frescas tintas,

Uma idéia fatal ocorreu-lhe à mente...

Do filho os membros gélidos apalpa,

E a dolorosa maciez das plumas

Conhece estremecendo: - foge, volta,

Encontra sob as mãos o duro crânio,

Despido então do natural ornato!...

Recua aflito e pávido, cobrindo

Às mãos ambas os olhos fulminados,

Como que teme ainda o triste velho

De ver, não mais cruel, porém mais clara,

Daquele exício grande a imagem viva

Ante os olhos do corpo afigurada.

Não era que a verdade conhecesse

Inteira e tão cruel qual tinha sido;

Mas que funesto azar correra o filho,

Ele o via; ele o tinha ali presente;

E era de repetir-se a cada instante.

A dor passada, a previsão futura

E o presente tão negro, ali os tinha;

Ali no coração se concentrava,

Era num ponto só, mas era a morte!

- Tu prisioneiro, tu?

- Vós o dissestes.

- Dos índios?

- Sim.

- De que nação?

- Timbiras.

- E a muçurana funeral rompeste,

Dos falsos manitôs quebrastes maça...

- Nada fiz... aqui estou.

- Nada! -

Emudecem;

Curto instante depois prossegue o velho:

- Tu és valente, bem o sei; confessa,

Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo!

- Nada fiz; mas souberam da existência

De um pobre velho, que em mim só vivia....

- E depois?...

- Eis-me aqui.

- Fica essa taba?

- Na direção do sol, quando transmonta.

- Longe?

- Não muito.

- Tens razão: partamos.

- E quereis ir?...

- Na direção do acaso.

VII

"Por amor de um triste velho,

Que ao termo fatal já chega,

Vós, guerreiros, concedestes

A vida a um prisioneiro.

Ação tão nobre vos honra,

Nem tão alta cortesia

Vi eu jamais praticada

Entre os Tupis, - e mas foram

Senhores em gentileza.

"Eu porém nunca vencido,

Nem nos combates por armas,

Nem por nobreza nos atos;

Aqui venho, e o filho trago.

Vós o dizeis prisioneiro,

Seja assim como dizeis;

Mandai vir a lenha, o fogo,

A maça do sacrifício

E a muçurana ligeira:

Em tudo o rito se cumpra!

E quando eu for só na terra,

Certo acharei entre os vossos,

Que tão gentis se revelam,

Alguém que meus passos guie;

Alguém, que vendo o meu peito

Coberto de cicatrizes,

Tomando a vez de meu filho,

De haver-me por se ufane!"

Mas o chefe dos Timbiras,

Os sobrolhos encrespando,

Ao velho Tupi guerreiro

Responde com tôrvo acento:

- Nada farei do que dizes:

É teu filho imbele e fraco!

Aviltaria o triunfo

Da mais guerreira das tribos

Derramar seu ignóbil sangue:

Ele chorou de cobarde;

Nós outros, fortes Timbiras,

Só de heróis fazemos pasto. -

Do velho Tupi guerreiro

A surda voz na garganta

Faz ouvir uns sons confusos,

Como os rugidos de um tigre,

Que pouco a pouco se assanha!

 

VIII

"Tu choraste em presença da morte?

Na presença de estranhos choraste?

Não descende o cobarde do forte;

Pois choraste, meu filho não és!

Possas tu, descendente maldito

De uma tribo de nobres guerreiros,

Implorando cruéis forasteiros,

Seres presa de via Aimorés.

"Possas tu, isolado na terra,

Sem arrimo e sem pátria vagando,

Rejeitado da morte na guerra,

Rejeitado dos homens na paz,

Ser das gentes o espectro execrado;

Não encontres amor nas mulheres,

Teus amigos, se amigos tiveres,

Tenham alma inconstante e falaz!

"Não encontres doçura no dia,

Nem as cores da aurora te ameiguem,

E entre as larvas da noite sombria

Nunca possas descanso gozar:

Não encontres um tronco, uma pedra,

Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,

Padecendo os maiores tormentos,

Onde possas a fronte pousar.

"Que a teus passos a relva se torre;

Murchem prados, a flor desfaleça,

E o regato que límpido corre,

Mais te acenda o vesano furor;

Suas águas depressa se tornem,

Ao contacto dos lábios sedentos,

Lago impuro de vermes nojentos,

Donde fujas com asco e terror!

"Sempre o céu, como um teto incendido,

Creste e punja teus membros malditos

E oceano de pó denegrido

Seja a terra ao ignavo tupi!

Miserável, faminto, sedento,

Manitôs lhe não falem nos sonhos,

E do horror os espectros medonhos

Traga sempre o cobarde após si.

"Um amigo não tenhas piedoso

Que o teu corpo na terra embalsame,

Pondo em vaso d'argila cuidoso

Arco e frecha e tacape a teus pés!

Sê maldito, e sozinho na terra;

Pois que a tanta vileza chegaste,

Que em presença da morte choraste,

Tu, cobarde, meu filho não és."

 

IX

Isto dizendo, o miserando velho

A quem Tupã tamanha dor, tal fado

Já nos confins da vida reservada,

Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias

Da sua noite escura as densas trevas

Palpando. - Alarma! alarma! - O velho pára!

O grito que escutou é voz do filho,

Voz de guerra que ouviu já tantas vezes

Noutra quadra melhor. - Alarma! alarma!

- Esse momento só vale a pagar-lhe

Os tão compridos trances, as angústias,

Que o frio coração lhe atormentaram

De guerreiro e de pai: - vale, e de sobra.

Ele que em tanta dor se contivera,

Tomado pelo súbito contraste,

Desfaz-se agora em pranto copioso,

Que o exaurido coração remoça.

A taba se alborota, os golpes descem,

Gritos, imprecações profundas soam,

Emaranhada a multidão braveja,

Revolve-se, enovela-se confusa,

E mais revolta em mor furor se acende.

E os sons dos golpes que incessantes fervem,

Vozes, gemidos, estertor de morte

Vão longe pelas ermas serranias

Da humana tempestade propagando

Quantas vagas de povo enfurecido

Contra um rochedo vivo se quebravam.

Era ele, o Tupi; nem fora justo

Que a fama dos Tupis - o nome, a glória,

Aturado labor de tantos anos,

Derradeiro brasão da raça extinta,

De um jacto e por um só se aniquilasse.

- Basta! Clama o chefe dos Timbiras,

- Basta, guerreiro ilustre! Assaz lutaste,

E para o sacrifício é mister forças. -

O guerreiro parou, caiu nos braços

Do velho pai, que o cinge contra o peito,

Com lágrimas de júbilo bradando:

"Este, sim, que é meu filho muito amado!

"E pois que o acho enfim, qual sempre o tive,

"Corram livres as lágrimas que choro,

"Estas lágrimas, sim, que não desonram."

 

X

Um velho Timbira, coberto de glória,

Guardou a memória

Do moço guerreiro, do velho Tupi!

E à noite, nas tabas, se alguém duvidava

Do que ele contava,

Dizia prudente: - "Meninos, eu vi!

"Eu vi o brioso no largo terreiro

Cantar prisioneiro

Seu canto de morte, que nunca esqueci:

Valente, como era, chorou sem ter pejo;

Parece que o vejo,

Que o tenho nest'hora diante de mi.

"Eu disse comigo: Que infâmia d'escravo!

Pois não, era um bravo;

Valente e brioso, como ele, não vi!

E à fé que vos digo: parece-me encanto

Que quem chorou tanto,

Tivesse a coragem que tinha o Tupi!"

Assim o Timbira, coberto de glória,

Guardava a memória

Do moço guerreiro, do velho Tupi.

E à noite nas tabas, se alguém duvidava

Do que ele contava,

Tornava prudente: "Meninos, eu vi!".

 

 

*

 

Página ampliada e republicada em maio de 2022

*

Página ampliada em outubro de 2021

          

 

 

Ampliada e republicada em dezembro de 2017. ampliada e republicada em junho 2018.

 



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