Home
Sobre Antonio Miranda
Currículo Lattes
Grupo Renovación
Cuatro Tablas
Terra Brasilis
Em Destaque
Textos en Español
Xulio Formoso
Livro de Visitas
Colaboradores
Links Temáticos
Indique esta página
Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



(Cartão postal antigo; bilhete postal – old postcard – tarjeta postalantigua –
Editor/publisher M. OROZCO, Rio de Janeiro circa 1904)

 

 

ALBERTO DE OLIVEIRA

(1857-1937)

 

 

Alberto de Oliveira (Antônio Mariano Alberto de Oliveira), farmacêutico, professor e poeta, nasceu em Palmital de Saquarema, RJ, em 28 de abril de 1857, e faleceu em Niterói, RJ, em 19 de janeiro de 1937.

 

Era filho de José Mariano de Oliveira e de Ana Mariano de Oliveira. Fez os estudos primários em escola pública na vila de N. S. de Nazaré de Saquarema. Depois cursou humanidades em Niterói. Diplomou-se em Farmácia, em 1884, e cursou a Faculdade de Medicina até o terceiro ano, onde foi colega de Olavo Bilac, com quem, desde logo, estabeleceu as melhores relações pessoais e literárias. Bilac seguiu para São Paulo, matriculando-se na Faculdade de Direito, e Alberto foi exercer a profissão de farmacêutico. Deu o nome a várias farmácias alheias. Uma delas, e por muitos anos, era uma das filiais do estabelecimento do velho Granado, industrial português. Casou-se em 1889, em Petrópolis, com a viúva Maria da Glória Rebelo Moreira, de quem teve um filho, Artur de Oliveira.

 

Em 1892, foi oficial de gabinete do presidente do Estado, Dr. José Tomás da Porciúncula. De 1893 a 1898, exerceu o cargo de diretor geral da Instrução Pública do Rio de Janeiro. No Distrito Federal, foi professor da Escola Normal e da Escola Dramática.

 

Com dezesseis irmãos, sendo nove homens e sete moças, todos com inclinações literárias, destacou-se Alberto de Oliveira como a mais completa personalidade artística entre eles. Ficou famosa a casa da Engenhoca, arrabalde de Niterói, onde residia, com os filhos, o casal Oliveira, e que era frequentada, na década de 1880, pelos mais ilustres escritores brasileiros, entre os quais Olavo Bilac, Raul Pompeia, Raimundo Correia, Aluísio e Artur Azevedo, Afonso Celso, Guimarães Passos, Luís Delfino, Filinto de Almeida, Rodrigo Otávio, Lúcio de Mendonça, Pardal Mallet e Valentim Magalhães. Nessas reuniões, só se conversava sobre arte e literatura. Sucediam-se os recitativos. Eram versos próprios dos presentes ou alheios. Heredia, Leconte, Coppée, France eram os nomes tutelares, quando o Parnasianismo francês estava no auge.

 

Em seu livro de estreia, em 1877, as Canções românticas, Alberto de Oliveira mostrava-se ainda preso aos cânones românticos. Mas sua posição de transição não escapou ao crítico Machado de Assis num famoso ensaio, de 1879, em que assinala os sintomas da “nova geração”. O anti-Romantismo vinha da França, a partir de uma plêiade de poetas reunidos no Parnasse Contemporain, Leconte de Lisle, Banville, Gautier. Nas Meridionais (1884) está o seu momento mais alto no que concerne à ortodoxia parnasiana. Concretiza-se o forte pendor pelo objetivismo e pelas cenas exteriores, o amor da natureza, o culto da forma, a pintura da paisagem, a linguagem castiça e a versificação rica. Essas qualidades se acentuam nas obras posteriores. Com os Sonetos e poemas, os Versos e rimas e, sobretudo, com as coletâneas das quatro séries de Poesias, que se sucederam nos anos de 1900, 1905, 1913 e 1928, é que ele patenteou todo o seu talento de poeta, a sua arte, a sua perfeita mestria. Foi um dos grandes cultores do soneto em língua portuguesa. Com Raimundo Correia e Olavo Bilac, constituiu a trindade parnasiana no Brasil. O movimento, inaugurado com os Sonetos e rimas (1880) de Luís Guimarães, teria a sua fase criadora encerrada em 1893 com os Broquéis de Cruz e Sousa, que abriram o movimento simbolista. Mas a influência do Parnasianismo, sobretudo pelas figuras de Alberto e Bilac, se faria sentir muito além do término como escola, estendendo-se até a irrupção do Modernismo (1922).

 

Tendo envelhecido tranquilamente, Alberto de Oliveira pôde assistir, através de uma longa existência, ao fim da sua escola poética. Mas o fez com a mesma grandeza, serenidade e fino senso estético que foram os traços característicos da sua vida e da obra. O soneto que abre a 4ª. série das Poesias (1928), “Agora é tarde para novo rumo/ dar ao sequioso espírito;...” sintetiza bem a sua consciência de poeta e o elevado conceito em que punha a sua arte.

 

Durante toda a carreira literária, colaborou também em jornais cariocas: Gazetinha, A Semana, Diário do Rio de Janeiro, Mequetrefe, Combate, Gazeta da Noite, Tribuna de Petrópolis, Revista Brasileira, Correio da Manhã, Revista do Brasil, Revista de Portugal, Revista de Língua Portuguesa. Era um apaixonado bibliófilo, e chegou a possuir uma das bibliotecas mais escolhidas e valiosas de clássicos brasileiros e portugueses, que doou à Academia Brasileira de Letras.

 

Recebeu o Acadêmico Goulart de Andrade.

 

Fonte: Academia Brasileira de Letras.

 

 

vt. TEXTOS EN ESPAÑOL

 

TEXTOS EN ITALIANO

 

POÈMES EN FRANÇAIS

 

 

Veja também:

 

"MERIDIONAIS", por ALBERTO DE OLIVEIRA – prefácio de Machado de Assis

 

 

DOLORA

 

Dizia-me a razão, antes de vel-a:

—“Não vás lá, se não queres ser sujeito

Ao seu olhar que é como o olhar da estrella...”

Fui. E agora a razão me diz: — Bem feito!”

 

E ardo e choro. E, ebriado de ventura,

Na propria pena que o lacera e rala,

O coração applaude-me a loucura:

— “Fizeste bem!” o coração me fala. 

 

 

(Obs. Conservamos a ortografia original, tal como aparece no cartão).

 

Este exemplar  faz parte de uma coleção de 16 “bilhetes postais” da coleção particular de Antonio Miranda registrada no texto Poesia em Cartão Postal Antigo.

 

====================================================

 

 

FONTE OCULTA

 

Entre umas pedras metida,

Rolando clara e modesta,

No coração da floresta

Vive uma fonte escondida.

 

Receosa de ser ouvida,

Talvez abafando um ai,

Quase sem queixa ou murmúrio

Fluindo vai;

 

E de ser vista receosa,

O vivo fio adelgaça;

E assim ignorada passa,

Passa ligeira e medrosa.

 

Tal em alma desditosa

Que já não ama nem crê,

Se escoa um fio de lagrimas

Que ninguém vê...

 

 

ACORDANDO

 

Quero-te, vem! se acaso da neblina

Do sonho as formas desatar te é dado,

Se não és sonho tu, se ora acordado,

Posso tocar-te, sombra peregrina!

 

Com o mesmo rosto pálido e magoado,

Triste o sorriso a boca purpurina,

Com o todo, enfim, de aparição divina,

Rompe da névoa, meigo vulto amado!

 

Encarna-te! aparece! exurge! acode!

E em minha fronte a coma ondeante e escura,

Cheia de orvalhos, úmida, sacode;

 

Mas se te dói pisar este medonho

Chão de abrolhos que eu piso, imagem pura,

Torna outra vez a aparecer-me em sonho.

 

 

FETICHISMO

 

Homem, da vida as sombras inclementes

Interrogas em vão: — Que céus habita

Deus? Onde essa região de luz bendita,

Paraíso dos justos e dos crentes?...

 

Em vão tateiam tuas mãos trementes

As entranhas da noite erma, infinita,

Onde a dúvida atroz blasfema e grita,

E onde há só queixas e ranger de dentes...

 

A essa abóbada escura, em vão elevas

Os braços para o Deus sonhado, e lutas

Por abarcá-lo; é tudo em torno trevas...

 

Somente o vácuo estreitas em teus braços;

E apenas, pávido, um ruído escutas

Que é o ruído dos teus próprios passos!...

 

 

 

A vingança da porta

 

Era um hábito antigo que ele tinha:
entrar dando com a porta nos batentes
— "Que te fez esta porta?" a mulher vinha
e interrogava... Ele, cerrando os dentes:

— "Nada! Traze o jantar." — Mas à noitinha
calmava-se; feliz, os inocentes
olhos revê da filha e a cabecinha
lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes.

Uma vez, ao tornar à casa, quando
erguia a aldrava, o coração lhe fala
— "Entra mais devagar..." Pára, hesitando...

Nisso nos gonzos range a velha porta,
ri-se, escancara-se. E ele vê na sala
a mulher como doida e a filha morta.

 

 

 

OLIVEIRA, Alberto dePoesias escolhidas.  Colligidas e prefaciadas por Jorge Jobim.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira Editora, 1933.  324 p.   13x19 cm.  Col. A.M.

 

 

Sob um salgueiro


Dorme uma flor aqui, — flor que se abria,

Que mal se abria, cândida e medrosa,

Rosa a desabrochar, botão de rosa

Cuja existência não passou de um dia.

 

Deixae-a em paz! A vida fugidia

Como uma sombra, a vida procellosa

Como uma vaga, a vida tormentosa,

A nossa vida não a merecia.

 

Em paz! em paz! A essência delicada

Do anjo gentil que este sepulcro encerra,

E' hoje orvalho... cântico... alvorada...

 

Sopro, aragem do céo, talvez, que o pranto

Anda a enxugar a uns olhos cá na terra,

Doces olhos de mãe, que o amavam tanto.

 

 

 

--------------------------------------------

 

 

 

ALBERTO DE OLIVEIRA, um dos maiores poetas do Brasil, quase não dedicou atenção aos temas cômicos. Todavia, se o quisesse, teria enriquecido as nossas letras com admiráveis sátiras, como esta, que fez na sua adolescência:

 

 

 

Extraído de:

 

TIGRE, Bastos; SOLDON, Renato.  Musa gaiata (Antologia da Poesia Cômica Brasileira). Edição completa.  Rio de Janeiro: Editorial Unidade Limitada, 1949.            130 p   [CONSERVANDO A ORTOGRAFIA ORIGINAL]

 

 [poesia cômica – poesia humorística – poesia satírica ] 

 

 

 

                                               NOVA CARTA...

 

_Entra-lhe em casa quando quer,

e é uma flôr sempre, um m'mo novo

                        para a mulher;

saca do bolso uns versos, lê.

para ela ouvir. Murmura o povo,

            e êle não vê...

 

À mesa ajeita-se a ficar
juntinho dela. E é todo dia

o mesmo olhar ...

Olham-se apenas? Ninguém crê,
que os viriam j
á (e éle lo vio,

pois nada vê).

 

Bôcas unidas, no jardim,

em beijo que os desvaira e inflama...

                        Só falta, em fim,

um belo dia surpreender

juntos os três, na mesma cama...

                        E êle sem vêr...

 

 

 

Extraído de

 

POESIA SEMPRE. Revista semestral de poesia. Ano 8   Numero 13  Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional. Ministério da Cultura, Departamento Nacional do Livro,  2000. Editor executivo: Ivan Junqueira.

 

 

De Alma em flor

 

III

 

         Cajás! Não é que lembra à Laura um dia
         (Que dia claro! Esplende o mato e cheira!)
         Chamar-me para em sua companhia
         Saboreá-los sob a cajazeira!

 

         — “Vamos sós? perguntei-lhe. E a feiticeira:
         — “Então! Tens medo de ir comigo?”! E ria:
         Compões as tranças, salta-me liegeira
         Ao braço, o braço no meu ombro enfia.

 

         — “Uma carreira!” — “Uma carreira!”! — “Aposto!”
         A um sinal breve dado de partida,
         Corremos. Zune o vento em nosso rosto.

 

         Mas eu me deixo atrás ficar, correndo,
         Pois mais vale que a aposta da corrida
         Ver-lhe as saias a voar, como vou vendo.

 

                             (Poesias, 2ª. edição)

 

 

 

REZENDE, Edgar.  O Brasil que os poetas cantam.  2ª ed. revista e comentada.  Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos, 1958.  460 p.  15 x 23 cm. Capa dura.   Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

O PARAÍBA

 

        A Carlos Magalhães de Azeredo

 

Notável rio... Tão abundante de águas como prolongado em curso.

JABOATÃO — Novo Orbe Seráfico.

E aquilo vinha surdamente troando, troando. E uivavam alto a tempestade e as ondas em tOrno da casa.

BURGER.

 

I

 

Da serra da Bocaina até São João da Barra,
Onde o Atlântico o sorve, onde o rumor bravio
Se lhe abafa da voz — monstro a levar na garra
Troncos, pedras, o que acha em seu percurso — o rio.

Margens de argila ou gnaisse às suas águas dando,
Em chão de grés ou saibro, em plano, almarge ou gruta,
Longo se estende, ao sol, com cem vagas cantando
O hino que o céu azul, sobre ele arqueado, escuta.

Traz dos sertões que andou, cânticos e perfumes,
Um ninho, um fruto, um ramo, um leque de palmeira,
E a alma errante e imortal das cousas, em queixumes, Debruçada a chorar-lhe em cada ribanceira;

 

Traz dos rotos grotões, cuja abóbada agita,
Retumbando-lhe dentro em ímpetos violentos,
A revoada ululante, a sucessiva grita
Dos ecos que lá sopra a buzina dos ventos.

No amplo manto talar que undívago sofralda
E que descose e rasga entre os penhascos duros,
Traz das serras do Sul, tão verdes! a esmeralda,
E o ouro dos milheirais a apendoar maduros;

Traz o limo e água-pés em balsas que suspende,
E os nelumbos a abrir as corolas redondas,
Das terras baixas, onde em plano igual se estende
E onde põe a pastar o seu rebanho de ondas.

 

Aí lhe acorrem, voando, a vê-lo, das charnecas,
E em confuso alarido, às asas dando, gritam
A garça, o frango-d'água e a aluvião de marrecas,
Mergulhões e irerês que o chão palustre habitam.

 

Aí, talvez, a sanha e o irado aspecto esconde
E é todo amor.  Aí crês ouvir-lhe à superfície
Flébil choro, a que à tarde, ao pôr do sol, responde
O longínquo mugir dos touros na planície.

 

Mas aos cedros da serra a maciça coluna
Basta lascá-la venha o raio de repente,
Basta nuvem de bronze o espaço coalhe, e zuna,
Lampeje o céu boreal, ruja a trovoada ardente,

 

E ele, alteando feroz, a tudo investe, ao peso
Das ondas, bolha e espuma em férvida cascata;
À cauda triunfal — como um vencido preso
À cauda de um cavalo — as suas preas ata;

 

Leva-as; minaz estronda, e o socavão dos montes,
Com o inaudito fragor, fundo reboa e geme;
Engenhos, construções que ao pé lhes vedes, pontes
Que a atravessá-lo estão, tudo vacila e treme.

 

E ao encontro lhe vêm seus grandes tributários:
Vem o Piratininga, o Turvo, que em caminho
Toma o das Pedras; vem (tantos são e tão vários!)
Agora liso e manso, agora em redemoinho,

 

Gorgolhando, a bufar, o Mundéus, o Vermelho, Laje,
que o nome tem da pedra em que descansa,
Cachoeira, a refletir o azul em seu espelho,
Taquaral, São José, Formoso e Barra-Mansa;

 

Vem Barroso, e Quatis; vem e dos cerros tomba
Piabanha, e Paquequer; vem Dois Rios, formado
De dois rios: o Grande e o Negro; vem o Pomba,
Vem o Muriaé; vêm de um lado e outro lado

 

Todos, de uma e outra borda. E em movediço bando,
Ante o Rei do deserto, as urnas de água cheias,
Cantam, ora do chão nas lapas ajoelhando,
Ora, como a chorar, de bruços nas areias:

 

—     "Ave, ó Rei gigante! ave! (E aos pés dele, em terra,
Vão depor-lhe, jurando eterna vassalagem,

As páreas; de um às mãos o minério da serra
Reluz; outro sopesa estípite selvagem;

 

Este de seus sertões, na costumada faina,
Lhe traz dos jequiris as contas cor de rosa;
Qual as plumas do ubá, qual os flocos da paina,
Qual a flor da canela e a madeira cheirosa)

 

"Ave, ó Rio gigante! A ti viemos das trevas
E do sol da solidão; e a ti, que undoso e forte
Vais, e — novo Tritão — contigo as chaves levas
Com que as portas abrir sóis do Atlântico, ao Norte,

 

Rio, viemos pedir: os teus vassalos guia!
Faltam-nos força e alento em jornada tamanha!
Tu, só tu, belo e audaz, à praia fugidia
Que em sonhos vemos nós, como uma pátria estranha,

 

A alva praia, onde à noite, em seu clamor obscuro,
A chamar-nos está, quebrando, o Oceano, em cheio:

—     Rios, meu seio é bom, não pedregoso e duro,
Água eu sou como vós; rios, vinde a meu seio!

 

Tu, só tu, magno Rio, é que levar-nos podes!
Arrebata-nos, pois. E a correnteza tensa
Suma em ti, como a flor da espuma que sacodes,
Nosso imenso cansaço e nossa mágoa imensa."

 

Então, sustando um pouco a marcha e um murmúrio Arrancando maior do peito cavernoso:
— Vinde! às águas que vê diz conturbado o rio,
Grande, afetivo e bom, como um Titão piedoso;

 

Depois, várzeas e céus atroando com o alarido,
Troncos, pedras, o que acha enfeixa a uivar na garra,
E divino e feroz, num cântico ou rugido
De cólera ou de amor, entra em São João da Barra.

......................................................................

 

VII

Ressurgiu o gigante! Aves, um hino à vida
Que com ele renasce! um ramalhar, florestas!
Um sorriso, aldeões! Terra, outra vez florida,
Vale, verde outra vez, campo, outra vez em festas,

 

Saudai-o! Abram-se à luz palhoças e arribanas!
Da alma do camponês cuidados vãos se soltem!
Eia, arado que o chão regoas férreo e aplanas,
Vem! Contigo ao trabalho enxada e foice voltem!

 

Mas que desmesurado o rio cresce! A enchente!
Horror! a enchente aí vem! piam-lhe à frente, em bando, Codornas e irerês; um fragor, um frequente
Estrépido infernal pelos campos reboando,

 

Se ouve. É a água a vingar os conhos broncos e altos,
A estender-se em lençóis, e qual de rotas urnas,
Das pedras a bolhar e indo eversora, aos saltos,
O côncavo a entupir das fragas e das furnas.

 

Paraíba, o que és tu na inundação tremenda,
Quando infrene te vais, a voz do povo o conte,
Digam-no as vidas mil que tens tragado, e a lenda
De Cecília e Peri sumidos no horizonte...

...................................................................................

 

IX

 

Uma noite (dos céus completamente escuros
Trovoava ininterrupta a enorme profundeza)
Num rancho de sapé, desses que mal seguros
Com uns paus e barro e palha edifica a pobreza,

 

Um pequenino esquife, entre fita e flores,
Mostrava amortalhado um anjinho. Dois velhos
Rodeiam-no. É um casal de rudes lavradores;
Ele, mudo, a cismar; ela, a rezar de joelhos.

 

Súbito, um som medonho! uma parede abate,
E logo um tropel vasto e grosso a ecoar lá fora...
É o rio, é o Paraíba! àquela porta bate,
Bate, e entra onde a mãe ao pé do filho chora.

 

Mulher, marido, os dois olham-se então. Horrível!
Olham-se e olham lá fora a noite, em que se espraia
Branca, sob um céu negro, a enchente toda um nível,
Toda um nível com o céu, sem horizonte ou raia!

 

—     "Eia! — o homem exclama — é já fugir! é o rio!"

—     "Mas como? e este anjo?!" a mãe, joelhos em terra,

                                                                          [fala,

E estorce as magras mãos hirtas, em desvario. Abate outra parede. O teto arqueja e estala.

—     "Ouves? — e ele a impeliu — Ergue-te!" Ela resiste:

—     "Meu filho!" é quanto diz. Ele se cala, absorto,
Mas logo: — "Vem!" implora. E ela a teimar, a triste,
Em morta ali ficar com o seu filhinho morto.

 

Já o rio molha aos dois os pés, e a casa inunda;
Já se vêm na água andar os móveis aboiando;
Vai ruir o frechal; o chão se cava e afunda,
Rasga-se um boqueirão de hiantes fauces! quando,

 

Só então, a mãe se ergue; ao leve esquife estreito,
Ao morto filho, ali, pálido, inanimado,
Pela última vez aperta contra o peito...
Duas velas lhe acende, uma de cada lado;

 

Rosas brancas aos pés e à cabeceira espalha;
Dá-lhe um beijo, outro beijo, o último beijo ardente;
Olha-o ainda, ao corpo ajeita-lhe a mortalha,
Depois, como um baixel, solta o esquife na enchente.

 

E num grito de dor e de todas as mágoas,
Alçando as mãos, o olhar faiscando ignoto brilho,
Brada, olhando a extensão intérmina das águas: —
"Minha Nossa Senhora, entrego-te o meu filho!"

 

X

Voga o esquife na enchente. Ao largo avança. Voga.
Duas luzes o vão nas águas alumiando;
Corta, como uma quilha, a flutuante gigoga,
Cruza os lódãos em flor. Vai boiando, boiando...

 

E enquanto ele assim vai, o rancho extinto esquecem
Os dois; e água até ao peito, encanecida a fronte,
Curvos, sob um céu mau, longe desaparecem,
Ao clarão de um fuzil, na extrema do horizonte.

 

Mas um grito de dor e de todas as mágoas,
O esquife a acompanhar no aventuroso trilho,
Inda se ouve à distância e vem morrer nas águas:

—     "Minha Nossa Senhora, entrego-te o meu filho!"

 

XI

Decorreram três sóis. O rio baixa. Um dia

—     Encalhado batel — do cemitério à porta
Alguém o esquife encontra; inda uma vela ardia,
E entre rosas sonhava a criancinha morta.

 

XII

Foi milagre? Talvez... Indiferente, entanto,
Passa o rio a espumar sob a mão que o governa,
Saudando os céus azuis num formidável canto,
Na divina embriaguez de sua força eterna.

 

 

                ("Poesias", 2.a série)

 

 

 

 

 

CÉU FLUMINENSE

 

 

Chamas-me a ver os céus de outros países,
Também claros, azuis ou de ígneas cores,
Mas não violentos, não abrasadores
Como este, bárbaro e implacável, — dizes.

 

O Céu que ofendes e de que maldizes,
Basta-me entanto: amo-o com os seus fulgores,
Amam-no poetas, amam-no pintores,
Os que vivem do sonho, e os infelizes.

 

Desde a infância, as mãos postas, ajoelhado,
Rezando ao pé de minha mãe, que o vejo:
Segue-me sempre... E ora da vida ao fim,

 

Em vindo o último sono, é meu desejo
Tê-lo sereno assim, todo estrelado,
Ou todo sol, aberto sobre mim.

 

 

                ("Poesias", 4.a série)

 

 

 

===================================================

 

TEXTOS EN ESPAÑOL

Traducción de Adán Méndez

 

 

FUENTE ESCONDIDA

 

Entre unas piedras metida,

Rodando clara y modesta,

En medio de la selva

vive una fuente escondida.

 

Recelando de ser oída

Tal vez conteniendo un ay,

Casi sin queja o murmullo

Fluyendo va;

 

Y si es vista, recelosa,

el hilo vivo adelgaza;

 

y así ignorada pasa,

pasa ligera y miedosa.

 

Así el alma desdichada

Que ya no cree ni ama,

Un hilo de lágrimas lleva

Sin que lo vean.

 

DESPERTANDO

 

Te quiero, ven! si acaso de la neblina

Del sueño puedes deshacer sus formas,

Si no eres sueño tú, si despierto

Puedo tocarte, sombra peregrina!

 

Con el mismo rostro pálido y apenado,

La sonrisa triste en la boca purpurina,

Con todo eso en fin, de aparicion divina,

Irrumpe de la niebla, tierno bulto amado!

 

Encarnate! aparece! surge! acude!

Y el cabello de mi frente, ondeante y oscuro,

Lleno de rocíos, húmedo, sacude;

 

Pero si te duele pisar este funesto

Suelo espinoso que yo piso, imagen pura,

Continúa apareciéndote en mi sueño.

 

 

FETICHISMO

 

Hombre, en vano interrogas

A las sombras inclementes de tu vida,

Qué cielos habita Dios? Dónde esta la región bandita,

El paraíso de los creyentes y los justos?

 

En vano tus manos tantean temblorosa

Las entrañas de la noche vacía, infinita,

En donde grita la duda atroz, y blasfema,

Y solamente hay quejas y rechinar de dientes...

 

En la bóveda oscura en vano elevas

Los brazos hacia el Dios soñado, y luchas por abarcarlo;

No hay otra cosa que tinieblas...

 

Solamente al vacío estrechas en tus brazoa;

Y apenas, un ruido escuchas, pávido,

Que es el ruido de tus propios pasos.

 

 

========================================================

POÈMES EN FRANÇAIS

 

         LES PAPILLONS

 

         Dans les clairs matins où le dimament se ressérène,
         Où l´air se fait plus pur, aux rais du soleil grand ouvert,
         Quel spectacle plus beau: dans la campagne se promène
         Un essaim qui frémit, papillonnant par le desert.

 

         Épapillé au vent, tout comme une brassée des fleurs,
         Au bord du fleuve, il vient butiner l´humble marguerite.
         C´est un chassé-croisé diapré de diverses couleurs:
          Du blanc, du vert, du bleu, du jaune, en raies hétéroclites.

 

         Dans sa rumeur feutrée, étouffée, un vol zigzagant
         Brasse l´aire, saturé du parfum des plantes fécondes.
         En um vol suspendu, planant au loin et paradant,
         J´em vois passer parfois toute une bande vagabonde.

 

         Certains volètent bas, a uras de la verdure neuve,
         D´autres moment plus haut, dans um battement d´ailes vif,
         D´autres encor, sur l´eau, escortant les bulles du fleuve,
         Suivent l´écume errante, au gré du courant fugitif.

 

         Mais soudain, dans um val, où la cataracte mugit,
         Tourbillone et bouillone en mille agitations inquiètes,
         Leur nuage sauvage en colonne alors s´assagit,
         Danse et vibre sous le soleil aux caresses secretes.

 

 

         Trad. de LORRAINE, BernardPoèmes du Brésil  choisis, traduits et présentés par Bernard Lorraine.  Paris: Les Editions Ouvrières Dessain et Tolra, 1985.187 p.  (Enfance Hereuse des paus du monde)  13x21,5 cm.  Ex. Bibl. Nacional de Brasília.

 

 

 

Página ampliada e republicada em junho de 2018; ampliada em dezembro de 2019



Voltar para o topo da páginaVoltar para Brasil Sempre

 

 

 
 
 
Home Poetas de A a Z Indique este site Sobre A. Miranda Contato
counter create hit
Envie mensagem a webmaster@antoniomiranda.com.br sobre este site da Web.
Copyright © 2004 Antonio Miranda
 
Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Home Contato Página de música Click aqui para pesquisar