Coordination de ARICY CURVELLO
LÊDO IVO
EM PORTUGUÊS / EN FRANÇAIS
A chuva sobre a cidade
Chove sobre a cidade
e a chuva inunda o asfalto, difunde o desastre e o desencontro
e procura abater as palmeiras que do fim da tarde
queriam apenas - graça plena – as estrelas.
Os trovões reboam, espantando os pássaros
que vieram refugiar-se no meu quarto.
Os relâmpagos, fotógrafos do absoluto, iluminam as pessoas
que passam
- são outros rostos, minha irmã, são as faces
revoltadas porque as divindades impossibilitaram os idílios,
a chegada pontual a uma casa, o já adiado trespasse com o inefável.
As sarjetas recebem finalmente a Poesia. Como são belos
e nítidos os barcos de papel
que navegam buscando os reinos fantásticos, os inacessíveis!
A chuva tem uma canção. Jamais uma elegia
para saudar sua gentileza. Jamais uma ode,
um himeneu, uma écloga deploratória.
Meu irmão, deixa que a goteira molhe tuas últimas
poesias. Pouco importa que amanhã te reconcilies com os
grandes temas poéticos.
O amanhã é inconsumível. A chuva te ensina
a ser invariável sem se repetir.
La pluie sur la ville
Il pleut sur la ville
et la pluie inonde la chaussée, répand le désastre
et le manque de rencontre
et elle cherche à abattre les palmiers qui à la fin de l’aprés-midi
voulaient à peine - grâce pleine - les étoiles.
Le tonerre retentit, em épouvantant les oiseaux
qui sont venus se réfugier dans ma chambre.
Les éclairs, photographes de l’ absolu, illuminent les gens qui passent
- ce sont d’autres visages, ma soeur, ce sont les faces
révoltées parce que les divinités ont rendu impossibles les idylles,
l’ arrivée à l’heure dans une maison, le dejà ajourné transperce
l’ ineffable.
Les rigoles d’écoulements reçoivent finalement la Poésie. Comme
ils sont beaux
et nets les bateaux en papiers
qui naviguent en cherchant les règnes fantastiques, les inaccessibles!
La pluie a une chanson. Jamais une élégie
pour saluer sa gentillesse. Jamais une ode,
un hyménée, une églogue qui déplore.
Mon frère, laisse la gouttière tremper tes dernières
poésies. Peu importe que demain tu te reconcilies avec les grands
thèmes poétiques.
Le lendemain n’est pas consommable. La pluie t’enseigne
à être invariable sans se répéter.
( Da antologia bilingüe “Poésie du Brésil”, seleção de Lourdes Sarmento, edição Vericuetos, como nº 13 da revista literária francesa “Chemins Scabreux”, Paris, setembro de 1997. Traduções de Lucilo Varejão, Maria Nilda Miranda Pessoa e outros.)
Página publicada em setembro de 2008. |