Home
Sobre Antonio Miranda
Currículo Lattes
Grupo Renovación
Cuatro Tablas
Terra Brasilis
Em Destaque
Textos en Español
Xulio Formoso
Livro de Visitas
Colaboradores
Links Temáticos
Indique esta página
Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POESIA PERNAMBUCANA

Coordenação de Lourdes Sarmento

 

OLEGÁRIO MARIANO

Fonte: www.academia.org.br

 

OLEGÁRIO MARIANO

(1889-1958)

 

 

Olegário Mariano Carneiro da Cunha, poeta, diplomata, deputado federal e constituinte, nasceu em Recife, Pernambuco, Estreou na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, em 1911.  Segundo os biógrafos da Academia Brasileira de Letras, da qual foi membro, “sua poesia lírica é simples, correntia, de fundo romântico, pertinente à fase do sincretismo parnasiano-simbolista de transição para o Modernismo. Ficou conhecido como o "poeta das cigarras", por causa de um de seus temas prediletos

 

Obra literária: Angelus, 1911; Sonetos, 1912; Evangelho da sombra e do silêncio, 1912; Água corrente, 1918; Últimas cigarras, 1920; Castelos na areia, 1922; Cidade maravilhosa, 1923; Ba-ta-clan, 1924; Canto da minha terra, 1930; Destino, 1931; Teatro, 1932; Vida, caixa de brinquedos; O enamorado da vida, 1937; Da cadeira 21, 1938; Quando vem baixando o crepúsculo, 1945; A vida que já vivi,1945; Cantigas de encurtar caminho, 1949; Tangará conta histórias, 1953; Correio sentimental; Toda uma vida de poesia, 2 volumes, 1957.

 

Leia o ensaio aqui: CINQUENT´ANOS DA MORTE DA CIGARRA [= OLEGARIO MARIANO ] por Anderson Braga Horta>>>

 

 

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS  - TEXTOS EN ESPAÑOL

 

TEXTOS EN ITALIANO




[MARIANO, Olegário] HORTA, Anderson Braga.  Cinquent’anos da morte da cigarra.  Jaboatão, PE: Editora Guararapes EGM, 2015.  90 p.  20x13 cm.  Editor: Edson Guedes de Moraes.  Edição artesanal, limitada.  “Olegário Mariano” Ex. bibl. Antonio Miranda


 

 

 

Olegário Mariano, 1931,
pintura de Cândido Portinari.

 

 

PAGANISMO

Sinto às vezes horror do modo diferente

Com que em louca emoção voluptuoso te espio,

Meu suave amor que tens a figura inocente

De um lírio muito branco, um lírio muito frio.

 

Ao meu olfato chega o perfume doentio

Do teu corpo mudado em corpo de serpente:

E através desse aspecto anêmico e sombrio

Meu desejo passeia alucinadamente.

 

Fauno, os olhos boiando em volúpias bizarras,

Quem me dera que tu viesses, na noite escura,

Minha fronte adornar de crótons e de parras,

 

E na calma do bosque onde o meu sonho medra,

Unisses para sempre, entre o amor e a loucura,

Os teus lábios de sangue aos meus lábios de pedra.

 

Angelus (1911)

 

 

A MÃE-D'ÁGUA

Num recanto de parque onde a melancolia

Da tarde estende um véu de saudade e de dor,

Uma água morta jaz, na última luz do dia,

Imota e triste, em seu perpétuo dissabor.

 

Ninféias a oscilar bóiam à tona fria

E do leito lodoso, em súbito rumor,

Sobe, de quando em quando, um choro de agonia

Que vai de folha em folha, e vai de flor em flor.

 

Quando a noite se estende, essa voz continua ...

Cresce cada vez mais e, alongada e comprida,

 Como o vento que encrespa os cabelos da lua,

 

Corre à tona na luz tênue que a sombra espanca ...

— É a Mãe-d'água que chora a saudade da vida

Dentro do coração de um ninféia branca.

 

 

Sonetos (1912)

 

 

NOITE SONORA

 

Anoiteceu. Pelas montanhas veio

Lentamente o crepúsculo caindo ...

O céu, redondo e claro como um seio,

Ficou, de lindo que era, inda mais lindo.

 

O vale abriu-se em pirilampos cheio,

Luzindo aqui, e ali tremeluzindo ...

No regaço da treva, úmido e feio,

A natureza adormeceu sorrindo ...

 

As cigarras, na sombra, se calaram:

As árvores no bosque farfalharam

Na esperança de ouvi-Ias e de vê-las.

 

Caiu de todo a noite quieta ... Agora,

O céu parece uma árvore sonora

De cigarras cantando nas estrelas ...

 

 

Últimas cigarras (1920)

 

 

O SOL QUE CANTA

 

Quando a cigarra canta é o sol que canta.

Por isso o canto dela acorda cedo

E vai rolando com veemência tanta

Que enche as grotas, os campos e o arvoredo.

 

Desce aos vales, penetra na garganta

Da serra e acorda a pedra do rochedo.

Parece que da terra se levanta

Um punhado de pássaros com medo.

 

Em chispas de ouro e vibrações estranhas

Vibram clarins nas notas derramadas ...

Estilhaçam-se taças nas montanhas ...

 

E o sol, seguindo o canto que se alteia,

Deita fogo na poeira das estradas

E põe pingos de luz nos grãos de areia.

 

 

Últimas cigarras (1920)

 

 

 

MARIANNO, Olegário.  Canto da minha terra.  Rio de Janeiro: Edição de Pimenta de Mello, s.d.   99 p.   16,5x23 cm.  “ Olegario Mariano “  Ex. autografado bibl. Antonio Miranda

 

 

DESLUMBRAMENTO

 

É amor? Não sei. Esta intranqüilidade,

Este gozo na dor, esta alegria

Triste que vem de manso e que me invade

A alma, enchendo-a e tornando-a mais vazia;

 

Este cansaço extremo, esta saudade

De uma cousa que falta à vida ... O dia

Sem sol, as noites ermas, a ansiedade

Que exalta e a solidão que anestesia,

 

É amor. Egoísmo de sofrer sozinho,

De as penas esconder do humano açoite,

De transformar as pedras do caminho

 

Em carícias sutis para colhê-las

E andar como um sonâmbulo, na noite,

Escancarando os olhos às estrelas ...

 

 

Canto da minha terra (1930)  

 

 

 

 

A VELHA MANGUEIRA

 

No pátio da senzala que a corrida

Do tempo mau de assombrações povoa,

Uma velha mangueira, comovida,

Deita no chão maldito a sombra boa.

 

Tinir de ferros, música dorida,

Vago maracatu no espaço ecoa...

Ela, presa às raízes, toda a vida,

Seu cativeiro, em flores, abençoa...

 

Rondam na noite espectros infelizes

Que lhe atiram, dos galhos às raízes,

Em blasfêmias de dor, golpes violentos.

 

E, quando os ventos rugem nos espaços,

Os seus galhos se torcem como braços

De escravos vergastados pelos ventos.

 

 

Canto da Minha Terra (1930).

 

 

ARCO-ÍRIS

 

Choveu tanto esta tarde

Que as árvores estão pingando de contentes.

As crianças pobres, em grande alarde,

Molham os pés nas poças reluzentes.

 

A alegria da luz ainda não veio toda.

Mas há raios de sol brincando nos rosais.

As crianças cantam fazendo roda,

Fazendo roda como os tangarás:

 

"Chuva com sol!

Casa a raposa com o rouxinol."

 

 De repente, no céu desfraldado em bandeira,

Quase ao alcance da nossa mão,

O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira

A cauda em sete cores, de pavão.

 

 

Canto da Minha Terra (1930).

 

 

A VELHA MANGUEIRA

 

No pátio da senzala que a corrida

Do tempo mau de assombrações povoa,

Uma velha mangueira, comovida,

Deita no chão maldito a sombra boa.

 

Tinir de ferros, música dorida,

Vago maracatu no espaço ecoa...

Ela, presa às raízes, toda a vida,

Seu cativeiro, em flores, abençoa...

 

Rondam na noite espectros infelizes

Que lhe atiram, dos galhos às raízes,

Em blasfêmias de dor, golpes violentos.

 

 E, quando os ventos rugem nos espaços,

Os seus galhos se torcem como braços

De escravos vergastados pelos ventos.

 

 

Canto da Minha Terra (1930).

 

 

 

CIGARRA

 

Figurinha de outono!

Teu vulto é leve, é sensitivo,

Um misto de andorinha e bogari.

Num triste acento de abandono,

A tua voz lembra o motivo

De uma canção que um dia ouvi.

 

Quando te expões ao sol, o sol te impele

Para o rumor, para o bulício e tu, sorrindo,

Vibras como uma corda de guitarra...

É que o sol, quando queima a tua pele,

Dá-te o grande desejo boêmio e lindo

De ser flor, de ser pássaro ou cigarra

 

Cigarra cor de mel. Extraordinária!

Cigarra! Quem me dera

Que eu fosse um velho cedro adusto e bronco,

E tu, nessa alegria tumultuária,

Viesses pousar sobre o meu tronco

Ainda tonta do sol da primavera.

 

Terias glórias vegetais sendo vivente.

Mas um dia de lívidos palores,

Tu, cigarra, que vieste não sei donde,

 

Morrerias de fome lentamente

No teu leito de liquens e de flores

No aconchego sutil da minha fronde.

 

E eu, na dor de perder-te, no abandono,

Sem ter roubado dessa mocidade,

Do teu corpo de flor um perfume sequer,

Morreria de tédio e de saudade...

Figurinha de Outono!

Cigarra que o destino fez mulher!

 

 

Evangelho da Sombra e do Silêncio: versos (1911/1912).

 

 

A CIGARRA MORTA

Ontem, Cigarra, quando veio a aurora,
acordei a vibrar com a tua vinda.
A tua voz tinha, de espaço fora,
notas tão claras que eu a escuto ainda.

Glorificando a luz consoladora,
cantaste, e enfim tua cantiga é finda.
Tenho nas minhas mãos, inerte agora,
teu corpo cor de mel. Cigarra linda.

Foste feliz, porque te deram esta
garganta de ouro. Assim, de palma em palma,
passou, num sonho, a tua Vida honesta...

Vendo-te, os meus sentidos se levantam,
esperando a cantiga de tua alma,
que as almas das Cigarras também cantam...

                   (De Ùltimas Cigarras)



A OVELHA TESMALHADA


A noite abriu, em céu estranho,
para adorá-las e querê-las,
um turbilhão tonto de estrelas,
lindas ovelhas de um rebanho.

O luar — pastor lírico, em breve,
surge e, apontando o seu cajado,
vai por montes e colinas de neve
guiando o rebanho mágico e doirado...

Mas uma ovelha tresmalhada
perdeu-se. O luar, em cólera, se espelha:
— Onde andará aquela ovelha
de olhos verdes, a mais amada,
de boca a mais vermelha?

“Onde andará?...”  De serra em serra:
“Onde andará?...” Ansioso, avança,
como um doido pelas alturas...

E ela tranqüila, aqui na terra,
com o nome lindo de Esperança
iludindo e matando as criaturas...

         (De Canto de Minha Terra
)



RENÚNCIA

Renunciar.  Todo o bem que a vida trouxe,
toda a expressão do humano sofrimento.
A gente esquece assim como se fosse
um vôo de andorinha em céu nevoento.

Anoiteceu de súbito. Acabou-se
tudo... A miragem do deslumbramento...
Se a vida que rolou no esquecimento
era doce, a saudade inda é mais doce.

Sofre de ânimo forte, alma intranqüila!
Resume na lembrança de um momento
teu amor.  Olha a noite: ele cintila.

Que o grande amor, quando a renúncia o invade<
fica mais puro porque é pensamento,
fica muito maior porque é saudade.

                   (De Ùltimas Cigarras)


De
CIDADE MARAVILHOSA
(Poema)
2ª edição augmentada
São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1930

[Livro dedicado à cidade do Rio de Janeiro. Conservamos a ortografia original como curiosidade.]

 

 

O crepusculo na Quinta da Boa Vista

 

VI

 

O crepusculo estende as mãos sobre a paysagem,

Abre os braços num gesto affectuoso de amigo.

Tua saudade vae caminhando commigo,

Humanísada como a tua própria imagem.

 

Dormem, á fiar do lago, as nymphéas em calma.
De quando em quando uma asa fere a agua dormente.

Por que doe tanto em mim essa tristeza ambiente?

 

Amôr? Tedio? Renuncia? O pensamento vário
Gira em torno das cousas tristes que me encantam.

Na alma de cada poeta ha um lago solitario
Que sonha ouvindo a voz dos passaros que cantam...

 

===================================================

 

CONFISSÃO SILENCIOSA  

Amo os crepúsculos cinzentos
Caindo sobre as águas estagnadas . . .
Os pinheiros sonolentos
Humanizando a calma das estradas . . .
O infinito, as estrelas longínquas,
O poema que há na dor silenciosa
Dos que querem falar e que se calam :
Amo os teus olhos, amor dos outros,
Porque os teus olhos nunca falam!

 

A  TOADA  DA CHUVA

Chove incessantemente . . . Uma garoa
Fina e sutil parece não ter fim.
No ar pardacento uma andorinha voa . . .
E a chuva bate como um tamborim.
Para os seres sem alma a vida é boa,
Para mim que sou triste a vida é ruim,
Pois me falta o calor de uma pessoa
Que é a própria vida boa para mim.
E a chuva continua à toa, à toa . . .
Chuva, por que vives caindo assim?
Será que uma outra força te magoa?
Por que teu choro d’água não tem fim?
Se eu tivesse o calor de uma pessoa,
Seria a vida um sonho para mim. 

 

NAS  RUÍNAS  DA  CASA-GRANDE 

A casa-grande é um espelho do passado :
Corroeu-lhe o tempo a pedra do batente
E do que foi solar da minha gente
Resta apenas um escudo brasonado. 

Mas, através do paredão gretado,
Ouvem-se ainda na aflição do poente,
Ressonância de vozes e o frequente
Bater das velhas portas do sobrado. 

Em cada telha há um gesto de abandono.
A voz que vem de longe das herdades
É a mesma voz que me embalava o sono. 

E agora, em plena noite que se expande,
Piam as andorinhas . . . São Saudades
Que dormem no beiral da casa-grande. 

                   Poço da Panela – Recife, 1940.


Olegario Mariano

De

Olegario Mariano
DESTINO
2a. edição aumentada
Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1933.

Obs. mantivemos a ortografia original.

 

 

Palavras a um desgraçado


Não procures no céu nenhum conforto
 A’ tua dor, que o céu, indiferente,

Ante a miséria do teu corpo morto,

vendo-te triste, ficará contente.

 

Não procures nas arvores de um horto

Alguma, cuja sombra te acalente.

Deixa que passe o tempo... O desconforto

Irá com o tempo milagrosamente...

 

Mas se a dor te pungir com mais crueldade,

Esmaga o coração com a mão crispada

Que emfim terás, num derradeiro alento,

 

Coragem de morrer sem ter saudade...

Fôrça para a renuncia desejada

ou redenção para o arrependimento.

 

(ortografia atualizada)

 

           A ALEGRIA DE VIVER!

Para a alegria de viver nada nos falta:

Sol, natureza clara e sinos a tocar,

Nuvens imateriais na montanha mais alta,

Ondas desenrolando a planura do mar;

 

O céu tranquilo e azul que a madrugada esmalta,

O alvoroço de amor dos ninhos soltos no ar.

I; a agua que da montanha entre begônias salta

E, em cambiantes de luz, forma um riacho a cantar.

 

0 vento que sussurra, o silêncio que espreita,

Voos de pombas numa apoteose de penas,

Tudo em torno de nós é tão puro e tão bom,

 

Que a criatura feliz, em divina colheita,

Enche as mãos sem querer... (como as mãos são pequenas!)

De perfume, de sol, de cor, de luz, de som.

 


De
CASTELLOS NA AREIA
Poemas de Olegario Marianno
Rio de Janeiro:  Pimenta de Mello, 1923
[Castelos de Areia, Olegario Mariano]

Conservamos a ortografia original na atual reprodução.


MELANCHOLIA

Que dia insipido e enfadonho!
Maldito seja este domingo!
Lá fóra cae a chuva, pingo a pingo...
Cá dentro passa a vida, sonho a sonho...

Fumo e fumaça, no ar parado,
Sóbe ondeando... Eu bem sei.
É um contôrno impreciso, ennevoado,
Humanizando um sonho que eu sonhei...

Fecho os olhos de manso para vel-a
Com os olhos da memoria... A alva fumaça
Se adelgaça num gésto e passa pela
Vidraça

E ganha o parque e vae, diáfana e fina,
Caricia humana, sonho ephemero de amor...
Tem qualquer cousa de menina,
De menina, de passaro ou de flor...

Galga as frondes á chuva, desce ao rio
A´ tona da agua crêspa...
E´um minúsculo insecto luzidio,
Aurilavrada vêspa.

Vôa e revôa aos lyrios, louca,
Passando, em tímido meneio,
Pollen de lyrios para a flôr da boca,
 Alvôr de lyrios para o alvôr do seio.

Depois, tonta de vida, ebriada volta
Garatujando ao longe outro roteiro...
Tem cuidado com o vento, fôlha solta,
Fôlha do jasmineiro!

E cresce á proporção que se approxima,
Rompe a distancia á tôa...
E´ uma rima que vôa
De uma Ballada, passaro da rima.

Atravéssa a vidraça...
E agora, erguendo as mãos implorantes por mim,
Ella, que foi sonho e fumaça,
Vae ser cinza e saudade... A vida é assim...

 

De
POEMAS DE AMOR E DE SAUDADE
por OLEGARIO MARIANNO
São Paulo: Companhia Editora Nacional, s.d.

Conservamos a ortografia original na atual reprodução.

 

XII

DO SONHO E DO SOFFRIMENTO

Porque ha de o Sonho ser tão breve,
Durar tão pouco, meu amor?
O Sonho tem o ephemero sabôr
Da phrase que se pensa e não se escreve.

Passa, mas deixa como em cofre
Antigo, de metal lavrado,
Um pouco de perfume do Passado
E um resto de infortunio de quem soffre.

Passa, mas sempre fica a flamma
De uma saudade bemfazeja:
Perfume do pescôço que se beija,
Sombra do corpo da mulher que se ama.

Depois, no fundo da alma doída,
É que sentimos para nós crescer
Essa immensa vontade de morrer
E esse indifferentissimo pela Vida...

 

 

MARIANNO, Olegario.  A Vida que já vivi.  Poemas selecionados por Silva Tavares e Simões Muller.  Lisboa: Portugalia Editora, s.d.  96 p. 13x20 cm.  Retrato do poeta no frontispício, desenho de Leopoldina Celli.   Inclui Errata ao final. “Primeira obra escrita na ortografia unificada luso-brasileira”. “Desta edição fez-se uma tiragem especial de  12 exemplares em papel offset, todos fora de mercado, numerados e assinados pelo autor.”  Col. A.M.

 

POEMA INACABADO

 

E as palavras que eu disse em surdina? E a carícia

Que a minha mão tentou ? Quero ouvir, quero ver

Tua boca falar no gozo e na delícia

Penetrante de recordar e de sofrer.

 

Quero sentir por um momento apenas,

Um minuto que seja, a maciez invulgar

Dos teus braços que têm a ondulação das penas

De uma garça que envelheceu de tanto voar. ..

 

Senta-te aqui. Fala da vida.. . Que tens feito?

Afinal conseguiste esquecer-me. Ainda bem.

Eu, entretanto, trago, insepulta no peito,

Como no velho tempo, a saudade de alguém.

 

E o último olhar ? E o poema inacabado

Dos espelhos que olhavam para ver

No meu corpo de pássaro cansado

Teu corpo de alga desaparecer...

  • MARIANNO, Olegario.  XIII Sonêtos de Olegario Mariano. Rio de Janeiro: 1912.  s.p.       “Impresso nas oficinas gráficas de Cortes, Valle & C.”  N. 06 220 ( Olegario Mariano )

 

O Elogio da Esperança

 

Forasteira de Alem!.. . Tu que as azas espalmas

Pelo céo tropical como o Arco-da-Alliança,

Guardas todo o consolo e o carinho das Almas,

E és sempre a mesma, sempre! Esperança! Esperança!

 

Triste embora, no olhar tens expressões tão calmas,

Tão cheias de languôr e és tão boa e tão mansa,

Que mal vens a cantar, piedosamente acalmas

A Dor do Mundo, a Dor sem bemaventurança.

 

Alta noite te espero e ouço um rumor em torno;

E's tu; na procissão das nevoas que te enlutam

Chegas; brilha na sombra o teu leve contorno.

 

Cantas; ouço-te a voz diabólica e bizarra,

Com a mesma adoração com que as folhas escutam

Nas arvores títans a Canção da Cigarra.

 

 

 

MARIANNO, OlegarioVida, Caixa de brinquedos.   Rio de Janeiro: Editora Guanabara, s.d. (1934?)  137 p. 13x18,5 cm “Olegario Mariano”  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

(conservando a ortografia original)

 

 

O Declínio Das Louras

 

Por serem mais românticas e belas

De linhas mais sensuais e duradouras,

Entre viuvas, casadas, e donzelas

Prefiro sempre as raparigas louras.

 

Porque nas atitudes mais singelas

São silenciosas e perturbadoras.

E a gente sente que é por causa delas

Que o sol loureja as searas e as lavouras.

 



Em Hollywood porem, na hora presente,

Andam as louras desaparecidas

De cabelos mudados de repente.

 

Será que a moda já não vale nada

Ou quem sabe se a lei contra as bebidas

Proibe a venda de água oxigenada?

 

 

A MANIA DO ANTIQUARIO


Gosta de trastes velhos o antiquário.

Tem um museu em. casa. A vida toda

Ficou sendo o feliz depositário

De tudo aquilo que passou de moda.

 

Enquanto gira o tempo e a vida roda,

Ele, a quem chamam de retardatário,

Vê na mania que a outros incomoda

A alegria de um gozo extraordinário.

 

Casou.se. Foi seu ultimo castigo.

Apezar da mulher ser bem bonita,

Ele contou sorrindo a certo amigo

 

O fim da derradeira transação:

—Procurei uma viuva... Era da escrita:

Gosto dos moveis de segunda mão...

 

 

MARIANO, Olegário.  Cantigas de encurtar caminho. Poemas.  Rio de Janeiro: José    Olympio Editora, 1949.  90 p.  16x22 cm.  Inclui uma monotipia de Portinari: retrato do poeta.” Olegario Mariano “ Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

A PRIMEIRA ESTRELA

 

Pus-me na sombra para surpreendê-la :

Era a primeira estrela que surgia

Na minha noite e da amplidão dizia

Frases sábias.. . Quem era aquela estrela ?

 

Quem era aquela que me aparecia

Quando em penas penava por não vê-la ?

Era a felicidade que eu pedia

Em troca do que fiz por merecê-la.

 

Tenho-a afinal comigo e para tê-la

Fiz todo bem no mundo que podia.

Deu-me a vida o condão de compreendê-la

E ela me deu, bendita aquela estrela !

Coragem calma e indiferença fria

De alcançar a ventura e de perdê-la

Sem saber se a alcançava ou se a perdia.

 

 

 

MARIANNO, OlegarioO Enamorado da vida. Poemas.  Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1937.  181 p+6 p 13x19 cm  “ Olegário Mariano “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

ANDORINHA

 

A frescura ao céu baixou com a tarde calma,

Penetrou pouco a pouco os meus sentidos... Vejo

Em cada boca estuar a volúpia de um beijo,

Arder em cada corpo a chama do desejo

E um frémito passar vibrando de alma em alma...

 

Voa, chilreando, louca, uma inquieta andorinha.

Cruza o céu, desce à tona azul da água apressada,

Pousa num fio telegráfico da rua.

— "Dá-me um pouco de sol! Eu que não tenho nada,

Preciso de aquecer a minh'alma na tua.

 

                   Andorinha! Andorinha!

Tens em meu coração tua melhor morada...

Mas és de outro e afinal bem podias ser minha!”

 

 

TEXTOS EN ESPAÑOL

 

 

OLEGÁRIO MARIANO

 

 

FIGUEIRA, Gaston.  Poesía brasileña contemporânea (1920-1946)  Crítica y antologia.   Montevideo: Instituto de Cultura Uruguayo-Brasileño, 1947.  142 p.   18x23 cm.  Col. A.M.

 

Poeta de los más populares de su patria, Olegario Mariano se caracteriza por su intenso y delicado lirismo y su música plena de intimidad.

 

Sin ser propiamente un simbolista, lo más calificado de su obra tiene ciertoparentesco con muchas de las facetas primordiales de los líricos franceses de fines del siglo pasado. Pero al mismo tiempo los separa de ellos su expresión más clara, su acento más humano. Su poesía no llega a la quintaesencia.

 

Es autor de numerosos libros, todos armonizantes al presentar la misma personalidad lírica, cuyas variantes están sólo en algunos matices expresionales.

 

Entre sus obras recordamos las siguientes: "Ángelus" (su primer libro, 1911), "Sonetos" (12), "Evangelio da sombra e do silencio" (16), "Ultimas cigarras" (20, y varias ediciones más), "Agua corrente" (20), "Cidade maravilhosa" (23). Ha traducido al portugués algún poema de Juan Ramón Jiménez.

 

Olegario Mariano, cuyo nombre completo es Olegario Mariano Carneiro daCunha, nació en Piecife (Pernambuco) en 1889. Desde 1926 pertenece a la Academia Brasileña de Letras.

 

 

EN LA FERIA LIBRE DE COPACABANA

 

Cuando el sol pone extraños coloridos

en los puestos de la feria del barrio noble,

van llegando los niños mal vestidos,

los niños errantes, de vida pobre.

Se paran frente a una tienda de juguetes

y guardando en la mirada todo aquel tesoro,

los niños nerviosos apuntan con los dedos

y juega el sol en sus cabellosi de oro.

¡Cómo ríen de felicidad!

Y luego van, contentos a su casa,

cargando en las pupilas la tristeza

de las muñecas rubias y bellas.

Y los ojos lindos de las muñecas, de varios matices,

iluminan las casas de las niñas infelices

          como un lindo bazar lleno de estrellas.

 

 

CIUDAD MARAVILLOSA

 

¡Ciudad maravillosa!

A la luz del luar, flúidica y fina,

parece excéntrica bailarina,

cuerpo de náyade o sirena

deshojándose en pétalos de rosa

con los desnudos pies sobre la arena.

 

¡Ciudad del gozo y del vicio!

¡Flor de veinte años, rosa de deseo!

Cuerpo vibrando para el sacrificio,

senos a la espera del primer beso.

 

Ciudad de Amor y de Locura

y de estrellas errantes... Para verlas,

palpita en la mirada de cada criatura

un ansia indefinida

por el brillo lejano de las estrellas

que es, como todo, efímero en la vida.

 

Ciudad del éxtasis y de la Melancolía,

de días tristes y de noches quietas;

desencantada sombra de la alegría

de los que viven de lágrimas, los poetas.

 

Ciudad de árboles y de camjpanas

de niños y jardines. Flor de Ciudades;

cuna de oro de todos los Destinos,

fuente eterna de todas las Saudades.

 

 

 

TEXTOS EN ITALIANO

 

Extraído de

MIRAGLIA, TolentinoPiccola Antologia poetica brasiliana.  Versioni.  São Paulo: Livraria Nobel, 1955.  164 p.  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

FUNERALE DELLA CICALA

 

Formiche la portavano . . . Pioveva.
Fine !. . . Povero Autunno fumolento !


 

Vicino, quella fonte in movimento
Con voce d’
acqua tremola piangeva.

 

Un giorno la conobbi ed essa aveva

Nei canto un triste e doloroso accento . . .

Fu la cicala di maggior talento

Neila contrada e piú cantar soleva.

 

Passa il corteggio, tra le foglie amiche.
 Quanta tristezza in tutto; che tortura !
 Che allegria negli occhi han le formiche !

 

E, povera cicala, ti portavano . . .

Inquanto ti piangeva la natura,

Tua madre e le sorelle ti cantavano . . .

 

 

S O N E T T O

 

Le cicale son morte, tuttavia
Sento un lieve rumor, tranquillo e lento,
Che va, di ramo in ramo, in armonia,
Lento e tranquillo come il pensamento.

 

Le cicale non son, che, in agonia
L altro di vidi, in ultimo lamento . . .
Forse sarà l'anélito dei vento
Che mormora tra i rami in melodia.

 

Ma quel bisbiglio a me mi pare eterno,
Ed
ora che le stelle son risorte,
È vera serenata sullunare . . .

 

Dicono i campagnuoli che, nel vérno,
L'alme delle cicale, che son morte,
Restano nelle foglie per cantare . . .

 

 

Página ampliada e republicada em dezembro de 2008; ampliada outra em julho 2009. ampliada e republicada uma vez mais em maio de 2010.. Republicada em set. 2013. Republicado em novembro de 2013, Ampliada e republicada em janeiro de 2014. Ampliada em dezembro de 2015.


Voltar para o topo da página Voltar para a página de Pernambuco

 

 

 
 
 
Home Poetas de A a Z Indique este site Sobre A. Miranda Contato
counter create hit
Envie mensagem a webmaster@antoniomiranda.com.br sobre este site da Web.
Copyright © 2004 Antonio Miranda
 
Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Home Contato Página de música Click aqui para pesquisar