Home
Sobre Antonio Miranda
Currículo Lattes
Grupo Renovación
Cuatro Tablas
Terra Brasilis
Em Destaque
Textos en Español
Xulio Formoso
Livro de Visitas
Colaboradores
Links Temáticos
Indique esta página
Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BERNARDO GUIMARÃES

BERNARDO GUIMARÃES

Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (Ouro Preto, 15 de agosto de 182510 de março de 1884) foi um romancista e poeta brasileiro, conhecido por ter escrito o livro de nome A Escrava Isaura.

Formou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, em 1847, e nesta cidade tornou-se amigo dos poetas Álvares de Azevedo (1831-1852) e Aureliano Lessa (1828-1861). Os três e outros estudantes fundaram a Sociedade Epicuréia. Foi nessa época em que Bernardo Guimarães teria introduzido no Brasil o bestialógico (ou pantagruélico), que se tratava de poesia cujos versos não tinham nenhum sentido, embora bem metrificados. A maioria dessa poesia não foi publicada porque era considerada pornográfica, e se perdeu. Para alguns críticos, o melhor do escritor seria o bestialógico. Um exemplo dessa produção (não-pornográfica) é o soneto Eu Vi dos Pólos o Gigante Alado.  (Texto da Wikipedia) 

 

                   Veja também: O ELIXIR DO PAJÉ  (poema erótico-cômico)

 

Prelúdio    

                    

         Neste alaúde, que a saudade afina,
Apraz-me às vezes descantar lembranças
         De um tempo mais ditoso;

 

 De um tempo em que entre sonhos de ventura
Minha alma repousava adormecida
         Nos braços da esperança.

Eu amo essas lembranças, como o cisne
Ama seu lago azul, ou como a pomba
         Do bosque as sombras ama.

 

Eu amo essas lembranças; deixam n'alma
Um quê de vago e triste, que mitiga
         Da vida os amargores.

 

Assim de um belo dia, que esvaiu-se,
Longo tempo nas margens do ocidente
         Repousa a luz saudosa.

 

Eu amo essas lembranças; são grinaldas
Que o prazer desfolhou, murchas relíquias
         De esplêndido festim;

Tristes flores sem viço! - mas um resto
Inda conservam do suave aroma
         Que outrora enfeitiçou-nos.

 

Quando o presente corre árido e triste,
E no céu do porvir pairam sinistras
         As nuvens da incerteza,

 

Só no passado doce abrigo achamos
E nos apraz fitar saudosos olhos
         Na senda decorrida;

 

Assim de novo um pouco se respira
Uma aura das venturas já fruídas,
         Assim revive ainda

 

O coração que angústias já murcharam,
Bem como a flor ceifada em vasos d'água
         Revive alguns instantes.

 

Eu vi dois pólos

Eu vi dos pólos o gigante alado
Sobre um montão de pálidos coriscos,
Sem fazer caso dos bulcões ariscos
Devorando em silêncio a mão do fado.

Cinco fatias de tufão gelado,
Figuravam na mesa entre os petiscos,
Envolto em crepe de fatais rabisco
Campeava o sofisma ensangüentado.

Quem és? Que assim me cercas de episódios
Lhe perguntei com voz de silogismo,
Brandindo um facho de trovões serôdios!

Eu sou, me disse, aquele anacronismo
Que a vil caterva de sulfúricos ódios,
Nas trevas sepultei de um solecismo.


Nariz perante os poetas

Cantem outros os olhos, os cabelos
E mil cousas gentis
Das belas suas: eu de minha amada
Cantar quero o nariz

Não sei que fado mísero e mesquinho
É este do nariz
Que poeta nenhum em prosa ou verso
Cantá-lo jamais quis.

Ilusão desfeita

       Acabou-se o ardor antigo,

       Tenho o peito sossegado;

       Nem para fingir-me irado

       Acho agora em mim paixão.

              (Tradução de Metastásio)

 

"Oh! acredita, nunca olhar de virgem

Coou-me n'alma tanto ardor assim;

Nunca amor me sorriu com tanta graça

Em lábios de carmim!

 

"Tu és o anjo sonhado que minha alma

Aos céus pedia; - a flor que em meus caminhos

Encontrei a sorrir pura e fragrante

Do mundo entre os espinhos.

 

"Pio romeiro, irei aos pés depor-te

Oferenda singela, porém fida;

A ti a lira e o coração do bardo!...

A ti a minha vida.

 

"Cantar-te as graças, e mandar teu nome

Unido ao meu aos séculos vindouros,

Seria para mim melhor que um trono,

Melhor que mil tesouros.

 

"Porém passar meus dias a teu lado,

Ouvir-te as falas, contemplar-te o riso,

Gozar teus mimos, fôra para esta alma

Melhor que o paraíso!"

 

------------------------

 

Assim dizia-te eu naquele dia,

- O mais doce talvez da minha vida,

Em que na meiga luz desses teus olhos

Minha alma vi perdida.

 

Foi um sonho fugaz; - breve delírio.

De novo tenho o coração vazio;

E se no peito meu a mão pousares,

Achá-lo-ás bem frio!..

 

Caíste enfim da região de encantos,

A que meus puros sonhos te elevaram;

Desfez-se o talismã; - foram-se enganos,

Que outrora me embalaram.

 

Perdeste um coração que te adorava...

Porém que importa? se por um, que esfria,

Mil outros corações após teus risos

Vão correndo à porfia.

 

Mas não receies que eu maldiga aquela

Que num momento a vida me dourara;

E que num pego de emoções bem doces

Outrora me entranhara.

 

Oh! não receies, não, que eu te maldiga;

Graças a ti, aprendo hoje por fim

A não crer tanto nos fagueiros risos

De uns lábios de rubim.

 

Proveitosa lição nos fica n'alma,

Quando a ilusão se esvai:

Deixa um fruto no ramo, em que nascera

A flor, que murcha e cai.

 

         Ouro Preto, 1855.


NOVAS POESIAS

De

NOVAS POESIAS
DE
BERNARDO GUIMARAES

Rio de Janeiro: H. Garnier, Livreiro-Editor, 1900.
216 p. (Impresso em Paris)

Conservação a ortografia original.
(Exemplar da coleção A. M.)

 

CANTIGA

Aqui d´este arvoredo
Das sombras no segredo
         Oh! vem.
Por estes corredores
O bosque outras melhores
         Não tem.

O ruivo sol da tarde
Já nas montanhas arde
         D´além.
A lua alvinitente
Nas portas do oriente
         Lá vem.

A viração fagueira
A rapida carreira
         Detem,
E dorme preguiçosa
No calix da mimosa
         Cecem.

Ninguem na sombra escura
Verá nossa ventura,
         Ninguem.
Somente os passarinhos
Occultos em seus ninhos
         Nos vêm.

Do bosque entre os verdores
Se occupão só de amores
         Tambem.
E a lua, que desponta,
Jamais segredos conta
         De alguem.

Debaixo do arvoredo,
Na gramma do vargedo
         Oh( vem,
A´ sombra d´este abrigo
Fallar a sós commigo,
         Meu bem.

SE EU DE TI ME ESQUECER

Se eu de ti me esquecer, nem mais um riso
Possão meus tristes labios desprender;
Para sempre absondone-me a esperança,
         Se eu de ti me esquecer.

Neguem-me auras o ar, neguem-me os bosques
Sombra amiga, em que possa adormecer,
Não tenhão para mim murmúrio as agoas,
         Se eu de ti me esquecer.

Em minhas mãos em aspide se mude
No mesmo instante a flôr, que eu for colher;
Em fel a fonte, a que chegar meus labios,
         Se eu de ti me esquecer.

Em meu peregrinar jamais encontre
Pobre albergue, onde possa me acolher;
De plaga em plaga, foragido vague,
         Se eu de ti me esquecer.

Qual sombra de prescito entre os viventes
Passe os miseros dias a gemer,
E em miseros dias a gemer,
E em meus martyrios me escarneça o mundo,
         Se eu de ti me esquecer.

Se eu de ti me esquecer, nem  uma lagrima
Caia sobre o sepulchro, em que eu jazer;
Por todos esquecido viva e morra,
         Se eu de ti me esquecer.

 

OLIVEIRA, Alberto dePáginas de ouro da poesia brasileira. Rio de Janeiro: H Garnier, Livreiro-Editor, 1911.   420 p.  12x18 cm Ex. bibl. Antonio Miranda

Inclui os poetas: Frei José de Santa Rita Durão, Claudio Manuel da Costa, José Basílio da Gama, Thomas Antonio Gonzaga, Ignacio José de Alvarenga Peixoto, Manoel Ignacio da Silva Alvarenga, José Bonifacio de Andrada e Silva, Bento de Figuieredo Tenreiro Aranha, Domingos Borges de Barros, Candido José de Araujo Vianna, Antonio Peregfrino Maciel Monteiro, Manoel de Araujo Porto Alere, Domingos José Gonçalves de Magalhães, José Maria do Amaral, Antonio Gonçalves Dias, Bernardo Joaquim da Silva Guimarãaes, Francisco Octaviano de Almeida Rosa, Laurindo José da Silva Rabello, José Bonifacio de Andrada e Silva, Aureliano José Lessa, Manoel Antonio Alvares de Azevedo, Luiz José Junqueira Freire, José de Moraes Silva, José Alexandre Teixeira de Mello, Luiz Delfino dos Santos, Casemiro José Marques de Abreu, Bruno Henrique de Almeida Seabra, Pedro Luiz Pereira de Souza, Tobias Barreto de Menezes, Joaquim Maria Machado de Assis, Luz Nicolao Fagundes Varella, João Julio dos Santos, João Nepomuceno Kubitschek, Luiz Caetano Pereira Guimarães Junior, Antonio de Castro Alves, Luiz de Sousa Monteiro de Barros, Manoel Ramos da Costa, José Ezequiel Freire, Lucio Drumond Furtado de Mendonça, Francisco Antonio de Carvalho Junior, Arthur Narantino Gonçalves Azevedim Theophilo Dias de Mesquita, Adelino Fontoura, Antonio Valentim da Costa Magalhães, Sebastião Cicero de Guimarães Passos, Pedro
Rabello e João Antonio de Azevedo Cruz.   

 

HYMNO Á TARDE

A tarde está tão bella e tão serena
Que convida a scismar... Eil-a saudosa
         E meiga, reclinada
         Em seu ethereo leito,
Da muda noite a amável precursora;
Do róseo seio aromas transpirando,
Com vagos cantos, com gentil sorriso
Ao repouso convida a natureza.
Montão de nuvens, como vasto incêndio,
Resplende no horizonte, e o clarão rubido
Céos e montes ao longe purpurêa.
         Pelas odoras veigas
As auras brandamente se espreguiçam,
E o sabiá na encosta solitária
         Saudoso cadencêa
Pausado harpejo, que entristece os ermos.
Oh ! que grato remanso ! — que hora amena,
         Propicia aos sonhos d'alma!
Quem me dera voltar á feliz quadra,
Em que este coração me transbordava
De emoções virginaes, de affectos puros!

Em que esta alma em seu seio reflectia,
Como o crystal da fonte, pura ainda,
Todo o fulgor do céo, toda a belleza
E magia da terra !... ó doce quadra !
Quão veloz te sumiste — como um sonho —
         Nas sombras do passado !

Quanto eu te amava então, tarde formosa!
Qual pastora gentil, que se reclina
Rosea e louçã, sobre a macia relva,
Das diurnas fadigas descançando;
A face em que o afan lhe accende as côres,
Na mão repousa — os seios lhe estremecem
No molle arfar e o lume de seus olhos
Em suave languor vae desmaiando;
Assim me apparecias, meiga tarde,
Sobre os montes do occaso debruçada;
Tu eras o anjo da melancolia
Que á paz da solidão me convidava.
Então no tronco, que o tufão prostrára
No viso da collina ou na erma rocha ,
Sobre a margem do abysmo pendurada,
Me assentava a scismar, nutrindo a mente
De arroubadas visões, de aéreos sonhos.
Comtigo a sós sentindo o teu bafejo
De aromas e frescor banhar-me a fronte,
E afagar brandamente os meus cabellos,
Minh'alma então boiava docemente
Por um mar de Ilusões e parecia
Que um côro aéreo, pelo azul do espaço,
Me ia embalando com sonoras dulias;
De um puro sonho sobre as azas de ouro
Me voava enlevado o pensamento,
Encantadas paragens devassando;
Ou nas vagas de luz que o occaso inundam
Afouto me embebia, e o espaço infindo
Transpondo, ia entrever no estranho arroubo
Os radiantes pórticos do Elysio.
O' sonhos meus, ó illusões amenas
         De meus primeiros annos,
Poesia, amor, saudades, esperanças,
Onde fostes? porque me abandonastes?
Inda do tempo me não pesa a dextra
E não me alveja a fronte; — inda não sinto
Oercar-me o coração da idade os gêlos,
E já vós me fugis, ó ledas flores
         De minha primavera!
E assim vós me deixaes, — tronco sem seiva,
Só, definhando na aridez do mundo?
O' sonhos meus, porque me abandonastes?

A tarde está tão bella e tão serena

Que convida a scismar : — vae pouco e pouco

Desmaiando o rubor dos horisontes,

E pela amena solidão dos valles

Caladas sombras pousam; — breve a noite

Abrigará com a sombra de seu manto
         A terra adormecida.
Vinde ainda uma vez, meus sonhos de ouro,
Nesta hora, em que tudo sobre a terra
         Suspira, scisma ou canta,
Como esse afagador, extremo raio,
Que a tarde pousa sobre as grimpas ermas,
Vinde paira ainda sobre a fronte
Do bardo pensativo; — illuminae-a
         Com um raio inspirado;
Antes que os échos todos adormeçam

         Da noite no silencio,
 Quero um hymno vibrar nas cordas d'harpa
Para saudar a filha do crepúsculo.

 

Ai! de mim ! — esses tempos já cairam
Na sombria voragem do passado!
Os meus sonhos queridos se esvaíram,
Como após o festim murchas se espalham
         As flôres da grinalda :
Perdeu a fantasia as azas de orno
Com que se alava ás regiões sublimes
         De magica poesia,
E despojada de seus doces sonhos
Minh'alma véla a sós com o soffrimento,
         Qual véla o condem nado
Em sombria masmorra á luz sinistra
         De amortecida lâmpada.
Adeos, formosa filha do Occidente,
Virgem de olhar sereno que meus sonhos
Em doces harmonias transformavas;
Adeos, ó tarde! — já nas frouxas cordas
Rouqueja o canto e a voz me desfallece...
Mil e mil vezes raiarás ainda
Nestes sitios saudosos que escutaram
De minha lyra o deleixado accento;
Mas ai! de mim!... nas solitárias veigas
Não mais escutarás a voz do bardo,
Hymnos casando ao sussurrar da brisa
Para saudar teus mágicos fulgores!

Silenciosa e triste está minh'alma,
Bem como lyra de estaladas cordas
Que o trovador esquece pendurada
         No ramo do arvoredo,
Em ocio triste balançando ao vento.

 

 

Extraído de 

POESIA SEMPRE.  Ano 18.  2012. Número 36.  Edição dedicada a Minas Gerais. Rio de Janeiro: Ministério da Cultura, Fundação Biblioteca Nacional, 2012. Editor Afonso Henriques Neto.

 

        SONETO

Eu vi dos polos o gigante alado.
Sobre um montão de pálidos coriscos,
Sem fazer caso dos bulcões ariscos.
Devorando em silêncio a mão do fado!

Quatro fatias de tufão gelado
Figuravam da mesa entre os petiscos:
E, envolto em manto de fatais rabiscos,
Campeava um sofisma ensanguentado!

— "Quem és, que assim me cercas de episódios?"
Lhe perguntei, com voz de silogismo,
Brandindo um facho de trovões serôdios.

— "Eu sou", — me disse. — "aquele anacronismo,
Que a vil coorte de sulfúreos ódios
Nas trevas sepultei de um solecismo..."
 

 

Parecer da comissão de estatística a respeito
da freguesia da Madre-de-Deus-do-angu

Diga-me cá, meu compadre,
Se na sagrada escritura
Já encontrou, porventura,
Um Deus que tivesse madre?
Não pode ser o Deus-Padre,
Nem tão pouco o Filho-Deus;
Só se é o Espírito-Santo,
De quem falam tais judeus
Mas esse mesmo, entretanto,
De que agora assim se zomba,
Deve ser pombo, e não pomba,
Segundo os cálculos meus.

Para haver um Deus com madre,
Era preciso um Deus fêmea;
Mas isto é forte blasfêmia,
Que horroriza mesmo a um padre.
Por mais que a heresia ladre,
Esse dogma tão cru,
— De um Deus de madre de angu. —
Não é obra de cristão,
E não passa de invenção
Dos filhos de Belzebu.

E, se há um Deus do Angu,
Pergunto: — Por que razão
Não há um Deus do Feijão,
Seja ele cozido ou cru?
De feijão se faz tutu,
Que não é mau bocadinho;
Mas não se seja mesquinho;
Como o feijão sem gordura
É coisa que não se atura,
deve haver Deus do Toicinho.

Desta tríplice aliança
Nascerá uma trindade,
Com que toda a humanidade
Há de sempre encher a pança;
Porém, por segurança,
Como o angu e dura massa.
E o feijão nunca tem graça
Regado com água fria,
Venha para a companhia
Também um Deus da Cachaça.

Mas, segundo a opinião
De uma minha comadre,
Nunca houve Deus de madre.
Nem de angu, nem de feijão.
Tem ela toda a razão,
Pelos raciocínios seus,
Que são conformes aos meus,
Isto é questão de panela.
E Deus não deve entrar nela.
E nem ela entrar em Deus.

 

 

 

Página publicada em janeiro de 2009; ampliada e republicada em abril de 2010. Ampliada em novembro de 2017. Ampliada em agosto de 2018

 



Voltar para o Topo da Página Voltar para a Página de Minas Gerais

 

 

 
 
 
Home Poetas de A a Z Indique este site Sobre A. Miranda Contato
counter create hit
Envie mensagem a webmaster@antoniomiranda.com.br sobre este site da Web.
Copyright © 2004 Antonio Miranda
 
Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Home Contato Página de música Click aqui para pesquisar