Home
Sobre Antonio Miranda
Currículo Lattes
Grupo Renovación
Cuatro Tablas
Terra Brasilis
Em Destaque
Textos en Español
Xulio Formoso
Livro de Visitas
Colaboradores
Links Temáticos
Indique esta página
Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





NAURO MACHADO

( 1935 -2015 )

 

“É difícil qualificar esses poemas escritos, por assim dizer, no avesso da linguagem. Não é pela compreensão lógica que eles nos atingem mas pelo sortilégio de um falar desconcertante e único.” FERREIRA GULLAR

 

Nauro Machado é uma oportuna indicação de seu amigo Fernando Mendes Vianna, que escolheu os sonetos que incluímos aqui, extraídos de sua máxima antologia: Nau de Urano, edição do Governo do Maranhão, em 2002.   A.M.

 

Apenas uma breve notícia: A rocha e a rosca representa o ponto mais alto da carreira do poeta Nauro Machado. Precede o trabalho um agudo e inteligente estudo de Ricardo Leão, "A épica do ser". Quanto a mim, gostaria de discutir mais pormenorizadamente as categorias concernentes à epopeia e ao lirismo.

     Creio que a predominância da massa narrativa em Latinamérica de Marcus Accioly confere-lhe a primazia do aspecto épico. Do outro lado, a intensidade do "eu poético", acima do "eu social" em A rocha e a rosca dotam o poema de extrema formação lírica.                    

     Como quer que seja, a vivência poética de Nauro Machado culmina em A rocha e a rosca, talvez um dos mais inquietantes depoimentos existenciais da literatura brasileira. Tudo ali se conjuga para assinalar o alto poder de realização do autor.  Estrofes regulares, quase sempre encapsuladas em seu próprio sentido, versos medidos na sua cadência mais popular, poder conceituai decorrente das sentenças em forma de aforismos,

tendência à ênfase anafórica, inspirada nas ladainhas, amargo tom crepuscular, tudo conspira para tomar A rocha e a rosca um poema-chave da obra do poeta maranhense.

     A forma perfeita instrumentaliza a reflexão metafísica do poeta acerca da consciência da morte. Uma espécie de digressão sobre a morte anunciada, num tom pessimista "de uma alma que é

enfim ninguém" (p. 33). O poeta não se detém da confissão mais áspera: "vendo um morto, eu me vejo!" (p. 37).
     O lirismo de Nauro Machado confina com o de Jorge de Lima e, remotamente, com o de Augusto dos Anjos. Guarda a aspereza de João Cabral de Melo Neto e a elegância filosófica de Fernando Pessoa. Tomou-se mestre nos vocativos desesperados. A rocha e a rosca enobrece a nossa poesia. Faz da morte a razão do canto, como

Henriqueta Lisboa em Flor da morte. **  Extraído de: LUCAS, Fábio.  Lições de literatura nordestina.   Salvador, BA: Fundação Casa de Jorge Amado, 2005.  240 p.  (Casa de Palavras, Série Ensaios)  p. 223-224

 

Veja também:  DOIS POEMAS DE ANTONIO OLINTO SOBRE NAURO MACHADO – extraídos do livro Pátria do Exílio.

 

  

TEXTOS EM PORTUGUÊS   /    TEXTOS EN ESPAÑOL

 

 

MACHADO, Nauro.  Canções de roda nos pés da noite [poemas infantis/. Fotografias de Máracio Vasconcelos.   Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.   160 p.  ilus.  ISBN 978-85-7740-205-2   Ex. bibl. part. Salomão Sousa.  

 

RODA-GIGANTE

Humana faina
cumprida em plaina
de solidão

para o sozinho

que em mim caminho
rodando em vão,
 

semana e mês
e sem mercês,
roda a palavra,

 

para esse assédio a
 quem só mede
o ser que lavra

 

sua desumana
mais que humana
vida nenhuma,

 

feita de alguém
como ninguém
que é feito de urna
 

perpétua chama
que em mim derrama
a solidão,


para o sozinho
onde camino
rodando em vão.

 

 

ANIVERSARIO

Nenhuma alegria resta
ou sequer nenhuma queixa:
estou sozinho na festa
onde ninguém mais festeja.

Nada espero de ninguém,
pois nada me faltará:
já abri a porta e disse amém
para a infância que é o meu lar.

Do silencio como um rato
roedor dos próprios restos,
nenhuma vida mais resta
no vazio desses quartos.

Sequer a luz pelas frestas
das suas cegas vidraças
acende as velas sem festa
na tranca escura das traças.

 

Nauro Machado
O CIRURGIÃO DE LÁZARO
desenhos de Lucas Sargentelli
Rio de Janeiro: Contracapa, 2010.
200 p. ISBN  978-85-7740-074-4


         Nauro Machado é o mais perseverante de nossos sonetistas. [Existem outros, mais do que as pessoas menos familiarizadas com a nossa produção poética imaginam... Por exemplo, Glauco Mattoso e Anderson Braga Horta sempre estão às voltas com sonetos, de boa qualidade, mas exercitando outras medidas.]  Nauro é mestre em seu ofício. Sua obra poética é vastíssima, desde meados dos anos 50 do século passado, muitas edições esgotadas e de circulação restrita.  Em boa hora nos chega esta edição bem cuidada da pouco conhecida editora Contracapa, do Rio de Janeiro.  Inclui 170 novos poemas de uma série que já alcança o de número 976!!!  Sonetos canônicos, rimados,  muitos decassílabos como os consagrados por Camões.  De repente a gente encontra um verso insólito como nesta quadra: "Como se a culpa lhe fosse a existência/ tem todo o homem sua culpa já ao nascer/ de uma união que é fruto da indecência/ pela mulher trazida a um outro ser." Lindos versos, mas confesso que "indecência" me causa certo estranhamento...

         Em outros momentos lembra aqueles poetas malditos,  como no soneto 851. Ou enreda pelo lirismo mais puro no jogo das imagens que vão a seguir no texto do Soento 819.. Neste poema aparecem as rimas recorrentes "estrelas " e "vê-las" que estão perfeitamente colocadas, reconhecendo que os clássicos não tinham este tipo de preocupação, ao contrário, não raras vezes recorriam a dicionários de rimas, sabendo que o importante mesmo é o resultado, enquanto as palavras estão no domínio público.  Convidamos os leitores para a edição inteira que acaba de chegar às livrarias.  Vale também lembrar que está ilustrado com muita competência por Lucas Sargentelli. Pena que o papel deixa transparecer, ainda que vagamente, o texto impresso no verso da folha.

 

819

 

Abre-me as portas, mãe, enquanto as estrelas

buscam em mim agora a treva infinda,

sem luz alguma no meu olhar a vê-las

nessa cegueira a ser da altura vinda.

Assim, mãe, invado tua noite, a sabê-las

eternamente em pó na luz que é finda

só para mim, que vou comigo pelas

manhãs nascendo todas cegas ainda.

Como fazê-las ser de novo vivas?

Como, se nunca delas fui um conviva

às vidas feitas festas para as vistas?

Para arrancá-las da morte onde as pus,

quero essa noite, ó mãe, roubada à luz

do céu que, embora cega, tu conquistas.

 

851

 

Todo o furor da vida esvai-se quando

a natureza cobra o seu direito,

e o tempo chega pelo verme andando

para mamar seu leite em outro peito.

Ó tempo-vândalo, ó furor de um mando

na assinatura desse édito feito

com toda a dor do punho mais nefando

da natureza em seu madrasto leito!

Troai dos lábios as blasfêmias hirtas

pelo alfabeto além a se extinguir,

tais os corpos trêmulos no fim,

cadáver-verbo aberto pelo crime,

embora de um Deus feito pai do hímen

dessa mulher que é mãe também de mim.

 

==================================================================

ALGUNS POEMAS ANTERIORES DE NAURO MACHADO:

 

 

CALENDÁRIO

 

Tomaste parte em nenhuma outra guerra.

Não perdeste pés ou mãos dentro desta.

Não abriste túmulo em nenhum lugar.

Nada quiseste além dos teus haveres.

Teu país de bois na aurora plantados,

levou-o o tempo na usura do ocaso.

Fizeste nada sábado, domingo,

segunda, terça, quarta, quinta e sexta.

Igual a todos, somaste semanas,

Unindo a noite ao dia e o dia às noites.

Escuta: o tempo passa! E o teu passou.

Passou o bonde, o colégio, a criança.

Já o adulto vai-se: está chegando ao fim

como um ronco doído em cosa podre,

como um enlatado para ninguém.

Made in Brazil. Tonel à água lançado

No porto noite. Minha família! Ó alma.

 

         Masmorra Didática, 1979

 

 

FILA INDIANA

 

Um atrás do outro, atrás um do outro,

ano após ano, ano após outros,

minuto após minuto, século

após séculos, continuam

 

(a conduzir seus madeiros

na perícia dos próprios dramas).

 

um após do outro, atrás um do outro,

anos após ano, ano após outros,

minuto após minuto, século

após séculos, e de novo

 

um atrás do outro, atrás um do outro,

até a surdez final do pó.

 

 

AS PRAGAS

 

Porque não estive às portas de Madri,

de onde escuto, ainda, o “no pasarán”.

Te abjuro, Senhor, enfim, e a Ti,

a quem, outrora, chamei de pai e bom.

 

Porque não estive às portas de Madri,

lutando, às claras, com porcos-burgueses,

luto e lutarei, em trevas, por aqui,

Te abjurando, Pai, por milhões de vezes.

 

Entanto, saibam-no todos, e ouvi

que aos homens-bestas, com meus punhos, sorvo-os

enquanto, ao longe, às portas de Madri,

se erguer, incólume, o sangue dos povos!

 

         Décimo Divisor Comum, 1972

 

 

CAXANGÁ

 

Há um desespero real na palavra,

um desespero contra o desespero,

enlouquecido em tudo que é palavra

incapaz de dizer o real nela,

e um desespero dentro, um desespero

da palavra assentada na palavra,

de palavra assentada nela mesma,

canal e boca de uma angústia virgem,

de um dia novo contra a noite fora

envolvendo de luto os nomes todos:

Antônio, tênis, sonho, árvores, morte.

Sombra dentro de sombra, mas girando

em rodopio eterno, o pião da sombra,

o que fazer da voz, senão clamar

em uivos de absurda sombra, à noite

geradora de braços e destroços

vagando intérminos no extinto brado?

 

MACHADO, Nauro.  Nau de Urano (antologia de sonetos publicdos e alguns inéditos).  São Paulo: Editora Siciliano, 2002.  487 p.  14x21 cm.  ISBN 85-267-0886-4  “ Nauro Machado “  Ex. bibl. Antonio Miranda


91

Por que me bates com teus sinos, plágios

de uma humana cruz, calvário torto,

tu, coração vazio de apanágios,

sem esperança de nenhum conforto?

(Meu coração é gaveta de naufrágios,

de esperanças puídas no alto porto,

onde singro, sagrando em meus sufrágios

de vertigens, um mar que é natimorto.)

Porque me falas e escrutar não posso

teu nome, grito que laboro e roço

na plantação maldita que me bate,

pudesse eu, pária do meu próprio mundo,

arrancar de mim teu ser, qual imundo

dente, coração, à ponta de alicate!

 

 

92

Meu aniversário!: dá-me, Goethe, o fogo

que vi queimando nos lábios do teu ontem,

pura energia, livrando-me do logro

de existir para onde os deuses apontem.

Sarça ardente, crepúsculo que rogo,

regresse eu à terra, e que as trevas me montem

no tempo morto de um eterno logo,

eterno aberto ao pronto desmonte em

matéria e ruga, de olhar no meu rosto.

e ao achar-me inteiro – e à Tua partilha exposto,

elucida-me, Goethe, o em mim por quê:

se não sei o vento, verbo do arvoredo,

balbucio o tempo e nele retrocedo

ao não ser próximo do estar no Ser.

 

 

MACHADO, Nauro.  Pátria do exílio.  São Luis, MA: Lume Edições, 2007.  96 p.  21 cm. Formato 14x21 cm.  .   “ Nauro Machado “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

(FRAGMENTO)

Se é só exílio quando o fora

Faz-se dentro a própria ausência,

Para quem consigo mora

Estrangeiro em sua existência,

Sou a pátria do exílio agora,

Nela andando em minha essência;

 

Se a comida como almoço

Só mata a fome vizinha,

E o verbo, alimento insosso

De uma fome em mim daninha,

Faz-se refeição de um só osso

Para a boca que é só minha;

 

Se pelo fio da navalha

Que pela minha alma entrou,

Minha existência é a palha

Onde o fogo se alastrou,

Para o fim que me trabalha

No inferno que eu próprio sou.

 

MACHADO, Nauro.  Opus da agonia.  Rio de Janeiro: Record; Rioarte - Instituto Nacional de Artes e Cultura, 1986.  14x21 cm.  (Coleção Cavalo Azul)   Projeto da capa: Tunga. “ Nauro Machado “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

FIM DE LINHA

 

Desdobrando o cadáver que me abjeta

do nascimento à podre morte minha,

linha sem reta, pois que dupla reta

me faz e refaz de uma mesma linha,

 

tomando após a forma de uma ausência

feita e acrescida dos meus próprios braços,

fazer-me posso em lúcida demência,

cérebro enfim do tempo e dos espaços.

 

Fazer-me posso na amêndoa em trevo

da hora pública em que sou levado

e em que a dizer-me tanto ainda devo

para alcançar-me, longe do meu nado:

 

"eu quisera morrer eternamente,

sentindo o sopro de invisível vento.

Viver o mundo na palavra ausente.

Morrer na eternidade o seu momento."

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

------------------------------------------------------------------------

TEXTOS EN ESPAÑOL

Extraídos de la
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. Trad. de Xosé Lois García
Santiago de Compostela: Edicións Laiovento, 2001.

 

 

 

CALENDARIO

 

En ninguna otra guerra participaste.

No perdiste pies ni manos en esta.

No abriste sepulcro en ningún lugar.

Nada quisiste más que tus bienes.

Tu país de bueyes en la aurora plantados,

lo llevó el tiempo en la usura del ocaso.

Nada hiciste el sábado, domingo,

lunes, mares, miércoles, jueves y viernes.

Igual a todos, sumaste semanas,

uniendo la noche al día y el día a las noches.

ίEscucha: el tiempo pasa!  Y el tuyo pasó.

Pasó el tranvía, el colegio, el niño.

Ya se va el adulto: estás llegando al fin

Como un quejido ronco cosa podrida,

Como un enlatado para nadie.

Made in Brazil.  Tonel al agua lanzado

En el Puerto en la noche. ίMi familia! Oh alma.

 

         Masmorra Didática, 1979

 

 

FILA INDIA

 

Uno tras otro, tras de uno otro,

año tras año, uno tras otros,

minuto tras minuto, siglo

tras siglos, continuan

 

(conduciendo sus cruces

con la pericia de los propios dramas)

 

uno tras otro, atrás uno del outro,

año tras año, año tras de otros,

minutos tras minutos, siglo

tras siglos, y de nuevo

 

uno tras del outro, atrás uno del otro,

hasta la sordidez final del polvo.

 

 

LAS PLAGAS

 

Porque no estuve a las puertas de Madrid,

desde donde escucho, aun, el “no pasarán”.

Te adjuro, Señor, enfín, y a Tí,

a quien, antes, llamé padre y bueno.

 

Porque no estuve a las puertas de Madrid,

luchando claramente, com cerdos burgueses,

lucho y lucharé, en tinieblas, por aquí,

Te adjuro, Padre, millones de veces.

 

ίMientras tanto, sépanlo todos, escuchen

que a los hombres bestias, con mis puños, los aplasto

hasta que, a lo lejos, a las pueras de Madrid,

se levante, incólume, la sangre de los pueblos!

 

 

         Décimo Divisor Comum, 1972

 

 

CAXANGÁ

 

Hay un desespero real en la palabra,

un desespero contra el desespero

enloquecido en todo lo que es palabra

incapaz de decir lo real en ella,

y un despero dentro, um desespero

de la palabra asentada en la palabra,

de la palabra asenta en ella misma,

canal y boca de una angustia virgen,

de un día nuevo contra la noche afuera

envolviendo de luto todos los nombres:

Antonio, tênis, sueño, árbol, muerte.

Sombra dentro de sombra, pero girando

en eterno remolino, la peonza de la sombra,

¿en qué hacer con la voz, sino clamar

con aullidos de absurda sombra, a la noche

generadora de brazos y destrozos

vagando interminables em el extinto grito?

 

         O Calcanhar do Humano, 1981

 

 

 

Página ampliada e republicada em dezembro de 2007.

 

Voltar a página do Maranhão Voltar ao topo da página

 

 

 
 
 
Home Poetas de A a Z Indique este site Sobre A. Miranda Contato
counter create hit
Envie mensagem a webmaster@antoniomiranda.com.br sobre este site da Web.
Copyright © 2004 Antonio Miranda
 
Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Home Contato Página de música Click aqui para pesquisar