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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

JOSÉ HÉLDER DE SOUZA

(1931 — 2004)

 

 

Nasceu em Massapê (CE) em 1931. Ainda jovem se mudou para o Rio de Janeiro e, em 1960, transferiu-se definitivamente para Brasília, onde consolidou sua carreira jornalística no Correio Braziliense. Pertenceu à Associação Nacional de Escritores, à Academia Cearense de Letras, à Academia Brasiliense de Letras, e ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. Faleceu em Brasília em 07 de outubro de 2007. Foi um dos fundadores do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal.

 

De sua vasta bibliografia como poeta, romancista e crítico literário, merecem destaques os livros de poemas: A Musa e o Homem (1959), A Grandeza das Coisas (1978), Sonetos de São Luiz (1981), Relvas do Planalto (1990), Brilhos e Rebrilhos de Goiás (1990) e Gestos de Adeus (2001). Além das antologias de Joanyr de Oliveira, está incluído em A Poesia Cearense do Século XX, de Assis Brasil (Imago, 1966); A Novíssima Poesia Brasileira, de Walmir Ayala (Cadernos Brasileiros, Rio de Janeiro, 1962); e Amor nos trópicos, de Beatriz Alcântara e Lourdes Sarmento (Casa de José de Alencar/UFC, 2000).   

Página especialmente preparada por Salomão Sousa. 

 

 

 

SONETO DA DESPEDIDA

Morto serei na hora em que já não houver

nascido a rosa clara da alvorada.

E neste tempo, a roupa que eu vestir

será solene como a cor da noite.

 

Tu, então, ó minha amada branca,

sê alegre como foras dantes

pois este fato não merece luto,

posto que muito triste e vaga foi

 

a vida do poeta que amaste.

Morto, só restarão de mim meus versos

que valem só porque contêm teu nome.

 

E basta então que em memória minha

a rosa clara da alvorada colhas

e com ela faças meu epitáfio triste.


 

METAFÍSICA EXISTENCIAL

 

Morto, amargo morto de mim mesmo,
não me enterrem sem audição, desorelhado.
Quero ouvir os brados de Maiakovski,
de todos os suicidas de sua era,
exceto Mário de Sá Carneiro.

         Vistam-me fraque de plástico,
         no enterro, indeformável
         e anticorrosivo, um cravo
         de aço na lapela — microfone
         camuflado para gravar impressões
         do século XXI, substituídas
         as tripas por fitas magnéticas.

(De A Grandeza das Coisas, 1978)

 

 

 

ÚLTIMO TRANSE

 

Eu

sou eu e sou muitos.

Acumulei vidas, enriqueci-me de saudades.

Longas estradas me trouxeram.

No percurso marquei os acidentes:

cerros, vales, campinas, o mar,

o mar, encapelado ou liso, azul ou verde,

os rios, os córregos, as simples grotas,

as lagoas verdoengas e, mais ainda,

o homem, o homem a trafegar:

o que subia o monte… o que descia o rio na canoa,

o que amainava a terra, o marinheiro e o pescador,

o que tudo olhava e só olhava,

o que sofria a sua e as dores dos outros.

 

Quando aprendia a percebê-los e a inscrevê-los,

o homem, a pedra, a campina,

o mar e o barco a singrá-lo,

me vi na outra margem, sem barca, sem marujo,

passado pelo tempo, sem volta, em transe,

 

o último. 

 

CAVALGADA

 

Para Maria Neide

 

 

 — Que te dizia o vento sibilante
ao cavalgares pela praia para o Leste
ao triste som das ondas ululantes?
 
— Assuntos de amores, saudades…

 
— Aonde ias a cavalo galopando
pela praia, rumo ao Leste, ao som
dos ventos e das ondas ululantes?
 
— Aos morros do Capuí, suleste da Fortaleza,
a rever formosa e sossegada noiva,
moça inupta à espera de marido.
 
— E as ondas as fulvas algas rebolando
na branca areia, que te diziam, quando ias
a cavalo pela praia rumo ao suleste?
 
— Davam-me leito de sargaços odoríficos
para, aconchegando a noiva ao peito,
tê-la, amoroso e terno, como esposa.
 
— E agora, rumo Oeste, cavalgando o tempo,
aos ventos soltos encanecidos cabelos,
que te dizem os uivantes ares
e, a rugir, as marinheiras vagas?
 
— Falam-me de saudade os estos do mar,
de esvaída visão da noiva nua
sobre a praia, por entre algas oloríferas,
nada mais, nesta senda rumo ao sol poente.

 

 

RELVAS DO PLANALTO

E agora me parece a cabeleira dos sepulcros, formosa e não cortada.
Eu te tratarei ternamente, grama ondulada,
Pode ser emanes do peito dos jovens.
Pode ser que eu os tivesse estimado, caso os houvesse conhecido,
Pode ser que provenhas de gente velha,
ou de pequeninos logo roubados ao colo materno,
E que sejas, aqui, o seio materno.

Walt Whitman
(Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos).

 

I

Relva,
vejo-te renascer, sobre a colina,
por cima das ruínas,
tumulares de meu povo,
te insinuas pelas brechas
da alvenaria — pedra e cal —
quebrada pelo tempo,
cabeleira vegetal, fria e verde,
dos desgrenhados mortos
sem memória nestas terras de adeuses.

Relva,
brotas pelas frestas tumulares,
cabelos crespos de meus mortos
despenteados na miséria
de suas vidas vagas.
Só tu relva agora és vida
e só és relva sobre a colina sepulcral
dos meus sonhos mortos.

II

Enquanto é noite a relva cresce
e cobre a Terra e os mortos,
sob a lua iridescem os cristais
do orvalho recamado em suas folhas
e pia a coruja escondida
nas sombras grossas das paredes tumulares
rachadas pelo tempo, pelo sol, a chuva
e o vento a ondular a relva,
despertada na frescura da aurora,
já crescida, relva de outrora.

No relvado a noite é densa,
só o Sol e o vento estivais
virão, quando manhã, secar e pentear
os teus cabelos relva, espessa relva
dos meus túmulos, relva só em cima,
sob o chão, a raiz profunda
dos meus mortos há muito sepultados
na colina coberta pela relva.

III

A pedra tumular coberta pela relva
não sente o sol em sua pele pétrea,
há uma delgada sombra entre o chão e as folhas
— aí me escondo para sempre,
sob a relva, pedra fria

de meus sonhos mortos.

Espero, um dia, a relva seja limpa
e dela surja tudo que almejei
para o meu povo, agora enterrado sob a relva.

 

 

 

Página especialmente preparada por Salomão Sousa e publicada em fevereiro de 2008.




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