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MURILO MENDES

MURILO MENDES

(1901-1976) 

 

Nacido en Juiz de Fora, Minas Gerais, murió en Lisboa, donde vivía la familia de su esposa Maria da Saudade, hija de Jaime Cortesão, personalidad de prestigio en el movimiento de la Renascença Portuguesa y su revista A Águia. Su inventiva inquietud se manifiesta de niño. En su libro evocador A Idade do Serrote (1958) relata experiencias del hogar y de la calle, describiendo sus peripecias y suspicacias, con dramático sentido del humor y análisis. Llega a ser irónico sin crueldad. Expresa una ilustración fascinante de Ias fuentes de su lirismo, múltiple, denso, mágico, antropológico y sagrado. Su cultura vastísima sirvió muy bien a la divulgación de Brasil en Europa, cuando con los auspicios de ltamaraty (Ministerio de las Relaciones Exteriores) fue el director de Estudios Brasileños en Roma. De manera activa integró el grupo de Antropofagia e Terra Roxa, pero sólo llegó a debutar literariamente con Poemas (1930). En esa primera obra usa como recurso el "poema piada" ("chiste"), con el cual se distinguieron también Oswald y Drummond.

 

Su participación en el Modernismo ha sido substancial. Enamorado de l0 onírico o las imágenes del inconsciente, será uno de los raros surrealistas en la poesía brasileña. La originalidad, el humanismo, la fe católica, la predisposición a la protesta y las llamaradas proféticas marcan afirmativamente su vida y su obra, iluminan su trayectoria. Véase como ejemplo la sucesión de algunos libros: O Visionário (1941), O Discípulo de Emaús (1944), Mundo Enigma (1945), Poesia liberdade (1947), Contemplação de Ouro Preto (1954), magistral demostración de pericia métrica y rítmica. Ha de ser uno de sus poemas ejemplares, cántico eximio de la tierra y su historia, religiosidad anímica de los mineiros estigmados por la cultura del Barroco. Obra completa publicada por Editora Nova Aguilar, de Rio de Janeiro.                                             JOSÉ SANTIAGO NAUD

 

 

Autodenifições de Murilo Mendes, escolhidas por Antonio Miranda:

 

“Sou da terra e do céu enquanto textos.”

...

“Crer num deus: é ser oculto a si
Ou então se manifestar ao próprio ser?”

...

Não pedi para nascer, não escolhi meus pais.
Fui imposto a mim próprio. O enigma permanece.

Meu trabalho: exceder-me do meu nada,
Do meu contexto de ossos.

...

“Minha forma
Devo eu fabricá-la no tempo
Com estas mãos autônoma:
A WORK IN PROGRESS
OPERA APERTA
.”

 

 

 
TEXTOS EM PORTUGUÊS    /   TEXTOS EN ESPAÑOL

TEXTS IN ENGLISH

TEXTOS EM PORTUGUÊS  - TEXTI EN ITALIANO

TEXTS EN FRANÇAIS

 

 


Veja também  POESIA VISUAL DE MURILO MENDES

 

Veja também:  O POETA – PROFETA DA BAGUNÇA TRANSCENDENTE [ MURILO MENDES ] – por José Paulo Paes – ENSAIOS

 Vejam:  MODERNISMO : TRADIÇÃO E RUPTURA, por IVAN JUNQUEIRA, ensaio extraordinário (!!!) publicado originariamente na revista POESIA SEMPRE, da Fundação Biblioteca Nacional, em 1993. IMPERDÍVEL. Inclui texto sobre o poeta MURILO MENDES:    http://www.antoniomiranda.com.br/ensaios/modernismo_tradicao_e_ruptura.html

 


ZECA BALEIRO interpreta uma composição sua baseada em poema do poeta mineiro MURILO MENDES.

 

 

PSALMO 

Eu Te proclamo grande, admirável,
Não porque fizeste o sol para presidir o dia
E as estrelas para presidirem a noite;
Não porque fizeste a terra e tudo que se contém nela,
Os frutos do campo, as flores, os cinemas,
                                       as locomotivas;
Não porque fizeste o mar e tudo que se contém nele,
Seus animais, suas plantas, seus submarinos, suas sereias; Eu Te proclamo grande e admirável eternamente
Porque Te fazes pequenino na Eucaristia,
Tanto assim que eu, fraco e miserando, posso Te conter!...

 

 

MENDES, MuriloJanela do caos. Ilus. Francis Picabia. Paris: Imprimerie Union, 1949. Na época da edição do livro, Picabia vivia sua melhor fase, ligado ao Movimento Dada, fazendo uma arte figurativa, na contra-mão das tendências de seu tempo. “Cet ouvrage de format 25x32,5 cm., sur papier d´Auvergue, composé em Juin 1949, par l´Imprimerie Union por le text, e MM. Desjobert pour les tithographies e suítes em couleur, son la direction de Roberto Assumpção de Araujo, avec le concours de J. Guimarães Rosa et Francette Rio-Branco. La maquete est de Michel Tapié. L édition est limietée à 197 exemplaires numérotés de q à 197 et 23 exeplaires for-commerce”.  Col. Brasiliana Itaú.   Exemplar na Col. A.M “H.C.”  (LA)

 

POEMA DIALÉTICO

I

Todas as coisas ainda se encontram em esboço
Tudo vive em transformação
Mas o universo marcha
Para a arquitetura perfeita.

Retiremos das árvores profanas
A vasta lira antiga.
Sua secreta música
Pertence ao ouvido e ao coração de todos.
Cada novo poeta que nasce
Acrescenta-lhe uma corda.

II
Uma vida iniciada há mil anos atrás
Pode ter seu complemento e plenitude
Numa outra vida que floresce agora.

Nada poderá se interromper
Sem quebrar a unidade.

Um germe foi criado no princípio
Para que se desdobre em plenos múltiplos.
Nossos suspiros, nossos anseios, nossas dores
São gravados no campo do infinito
Pelo espírito sereníssimo que preside às gerações.

III
A muitos só lhes resta o inferno.
Que lhes coube na monstruosa partilha da vida
Senão um desespero sem nobreza, e a peste da alma?
Nunca ouviram a música nascer  do farfalhar das árvores,
Nem assistiram à contínua anunciação
E ao contínuo parto das belas formas.
Nunca puderam ver a noite chegar sem elementos de terror.
Caminham conduzindo o castigo e a sombra de seus atos.
Comeram o pó e beberam o próprio suor.
Não se banharam no regato livre...

Entretanto, a transfiguração precede a morte.
Cada um deve realiza-la na sua carne e no seu espírito
Para que a alegria seja completa e definitiva.

 

IV
É necessário conhecer seu próprio abismo
E polir incessantemente o candelabro que o esclarece.

Tudo no universo marcha, e marcha para esperar:
Nossa existência é uma vasta expectação
Onde se tocam o princípio e o fim.
A terra terá que ser retalhada entre todos
E restituída um dia à sua antiga harmonia.
Tudo marcha para a arquitetura perfeita.
A aurora é coletiva.

 


MURILO MENDES

De
Murilo Mendes
AS METAMORFOSES
Rio de Janeiro: Editora Ocidente, 1938
Capa: Santa Rosa
Ilustrações de Portinari

 



ESTUDO PARA UM CAOS


O ÚLTIMO  anjo derrama seu cálice no ar.

Os sonhos caem da cabeça do homem
As crianças são expelidas do ventre materno
As estrelas se despregam do firmamento.
Uma tocha enorme pega fogo no fogo.
A água dos rios e dos mares jorra cadáveres.
Os vulcões vomitam cometas em furor
E as mil pernas da Grande Dançarina
Fazem cair sobre a terra uma chuva de sangue.
Rachou-se o teto do céu em quatro partes.
Instintivamente eu me agarro ao abismo.
Procurei meu rosto, não o achei.
Depois a treva foi ajuntada à própria treva.



MULHER VISTA DO ALTO DE UMA PIRÂMIDE


Eu vejo em ti as épocas que já viveste
E as épocas que ainda tens para viver.
Minha ternura é feita de todas as ternuras
Que descem sobre nós desde o começo de Adão.
Estás encarcerada nas formas
Que se engrenam em outras na corrente dos séculos.
E outras formas estão ansiosas por despontarem em ti.
Quando eu te contemplo
Vejo tatuada no teu corpo
A história de todas as gerações.
Encerras tua filha, tua neta e a neta de tua neta.
Ó mulher, tu és a convergência de dois mundos.
Quando te olho a extensão do tempo se desdobra ante mim.

 

MURILO MENDES

  

 

=================================================

 

METAFÍSICA DA MODA FEMININA

 

Tudo o que te rodeia e te serve

Aumenta a fascinação e o enigma.

Teu véu se interpõe entre tie meu corpo,

É a grade do meu cárcere.

Tuas luas macias ao tato

Fazem crescer a nostalgia das mãos

Que não receberam meu anel no altar.

Tua maquilagem

É uma desforra sobre a natureza.

Tuas jóias e teus perfumes

São necessários a ti e à origem do mundo

Como o pão ao faminto.

Eu me enrolo nas tuas peles nos teus boás

Rasgo teu peitilho de seda

Para beijar teus seios brancos

Que alimentam os poemas

Entreabro a túnica fosforescente

Para me abrigar no teu ventre glorioso

Que ampliou o mundo ao lhe dar um homem a mais.

Teus vestidos obedecem a um plano inspirado

Correspondem-se com o céu com o mar as estrelas

Com teus pensamentos teus desejos tuas sensações.

A natureza inteira

É retalhada para ornar teu corpo

Os homens derrubam florestas

Descem até o fundo das minas e dos mares

Movem máquinas teares

Soltam aviões pelos ares

Lutam pela posse da terra matam e roubam pelo teu corpo.

O mundo sai de ti, vem desembocar em ti  

E te contempla espantado e apaixonado,

Arco-íris terrestre,

Fonte da nossa angústia e da nossa alegria.

 

Tudo que faz parte de ti — desde teus sapatos ­

Está unido ao pecado e ao prazer,

À teologia, ao sobrenatural.

 

 

(A Poesia em Pânico, 1937)   


 

CHORO DO POETA ATUAL

 

Deram-me um corpo, só um!

Para suportar calado

Tantas almas desunidas

Que esbarram umas nas outras,

De tantas idades diversas;

Uma nasceu muito antes

De eu aparecer no mundo,

Outra nasceu com este corpo,

Outra está nascendo agora,

Há outras, nem sei direito,

São minhas filhas naturais,

Deliram dentro de mim,

Querem mudar de lugar,

Cada uma quer uma coisa,

Nunca mais tenho sossego.

Ó Deus, se existis, juntai

Minhas almas desencontradas.   


 

GRANADA

 

Ninguém soube até hoje se o céu é macho ou fêmea:

Mas o céu de Granada é macho e fêmea.

Granada, dei-te apenas uma semana da minha vida.

Tu me deste séculos de outrora rudes estandartes,

O gênio africano enxertado no castelo da Europa,

A tensão de duas culturas dispares;

E no limite desse tempo épico

A certeza geométrica da cruz.

 

Dás-me agora arquiteturas vermelhas e desertas,

A floresta reduzida no teu centro,

A água árabe explodindo nos jardins do Generalife;

Dás-me a Sierra Nevada e a vega próxima,

O tom vital, altíssimo.

Diviso as marcas digitais do Oriente,

Retomo o caminho de Manuel de Falla;

E o problema español nutre meu sangue.  

 

Distingui na noite de Granada o sol,

O fogo central da terra

Comunicando a gana da vida a qualquer um.

Distingui o sol da noite demarcar torres vermelhas.

Vi gitanos dançando a roa

Nas galerias secretas do Albaicin,

Tocados pelo duende e o sol da noite:

Inventam sem cessar o canto e a dança,

Homem, mulher e criança inventam o ritmo.

Os minutos aumentados aprestavam os dentes:

E tive gana da vida, não quis morrer para sempre.

 

(Tempo Espanhol, 1959) 


 

CERTO MAR

 

O mar não me quer,

O mar não sei por que me abomina,

O mar autárquico:

Ele me atira barbatanas e algas podres,

Destroços de manequins e papéis velhos,

Arrastando para longe barco e sereia.

O mar tem idéias singulares sobre mim,

Manda-me recados insolentes

Em garrafas há muito esquecidas e sujas.

Suprime de repente o veleiro de 1752

Que vinha beirando o cais.

 

Suprime o veleiro e um bando de fantasmas

- Eu bem sei -

Únicos, polidos, um quase nada solenes.

Não tolero mais este safado,

Nem mesmo o admito no outro mundo:

Felizmente a eternidade é límpida,

Sem praia e sem lamentos.

Hei de espiá-lo da Grande rosácea,

Hei de vê-lo um dia lá embaixo,

Inútil: espremida esponja, carcaça de canoa,

Avesso de fotografia.  

 

 

(Parábola, in Poesias, 1959)  


  

MURlLOGRAMA A GABRlELA MISTRAL

 

Num território de trigo

& cobre te criaste criança

De vôo sólidoterrestre.

 

Eu te datilotoquei:

 

Encorpada tal a terra.

Horizonte semovente.

Mesa posta afeto aceso.

 

Índia de alto coturno

Incorporas maia & quíchua

Ao teu espaço de família.

 

Os pés giróvagos traçam-te

Mapa total, periferia & centro

Do teu toque corpóreo, dom.

Andina. Transandina. Íntegra

 

Integras tua saga,

humana Linguagem de vinho culto

Nutrindo um hóspede áspero

 

Chegado de qualquer vento.

Portavas o sal, a raiz

No prato, na própria boca

Comunicando homem & cosmo.

 

 

(Convergência, 1970) 


 

NATAL 1961

 

Deslocados por uma operação burocrática — -o recenseamento da te­rra-a Virgem

                           e o carpinteiro José aportam a Belém.

 

«Não há lugar para esta gente», grita o dono do hotel onde se reali­za um congresso

                           de solidariedade.

 

o casal dirige-se a uma estrebaria, recebido por um boi branco e um burro cansado

                           do trabalho.

 

Os soldados de Herodes distribuem alimentos radioativos a todos os meninos de menos

                           de dois anos.

 

Uma poderosa nuvem em forma de cogumelo abre o horizonte e súbito explode.

 

O Menino nasce morto.

(Roma, 1961

 

MODINHA DO EMPREGADO DE BANCO

Eu sou triste como um prático de farmácia,
sou quase tão triste como um home que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.

Lá fora chove e a estátua de Floriano fica limpa.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos pra não fazerem nada com eles.

Também se o Diretor tivesse a minha imaginação
O Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro luar.

 

         (De Poemas  1925-1974)

 

CAVALOS

 

                Translated by W. S. Merwin

 

Pela grande campina deserta passam os cavalos a galope.

Aonde vão eles?

Vão buscar a cabeça do Delfim rolando na escadaria.

Os cavalos nervosos sacodem no ar longas crinas azuis.

Um segura nos dentes a branca atriz morta que retirou das águas,

Outros levam mensagens do vento aos exploradores desaparecidos,

Ou carregam trigo para as populações abandonadas pelos chefes.

Os finos cavalos azuis relincham para os aviões

E batem a terra dura com os cascos reluzentes.

São os restos de urna antiga raça companheira do homem

Que os vai substituir pelos cavalos mecânicos

E atirá-los ao abismo da história.

Os impacientes cavalos azuis fecham a curva do horizonte,

Despertando clarins na manhã.

 

======================================== 

 

Leila Maria Fonseca Barbosa
Marisa Timponi Pereira Rodrigues

Ismael Nery e  Murilo Mendes: reflexos.
 Juiz de Fora: UFJF / MAMM, 2009.  216 p.  ilus. color.
 ISBN 978-85-62136-00-9

 

A biblioteca do poeta Murilo Mendes, depois de sua morte repentina em Lisboa, em 1977, foi doada pela viúva Maria da Saudade Cortesão Mendes para a Universidade Federal de Juiz de Fora, em sua terra natal.  Leila Maria Fonseca Barbosa e Marisa Timponi Pereira Rodrigues, professoras e pesquisadoras da área de Letras da UFJF dedicaram-se ao estudo do acervo e surgiram duas obras extraordinárias que revelam textos e imagens importantes sobre o nosso grande poeta:  A trama poética de Murilo Mendes (2002, já esgotada) e Ismael Nery e Murilo Mendes: reflexos.

Como se sabe, o pintor e poeta Ismael Nery exerceu, na fase final da obra e da vida de Murilo Mendes, uma influência transformadora, convertendo-o ao cristianismo ao catolicismo expresso no "essencialismo" de pintor-poeta-filósofo, de forma profunda, o que teve um reflexo decisivo sobre sua poesia.

Eu, particularmente, confesso que é a fase do poeta que menos me interessa embora sabe-se que toda a obra dele é excelente e merece atenção, como atestam as duas pesquisadores desta obra descrita acima. Elas intitulam "Ismael Nery: um ente magnético no espelho de Murilo Mendes" o primeiro artigo da obra supra citada. E registram: "Murilo Mendes elege-o e, como porta-voz, registra as teorias estéticas, a visão de mundo, a exuberância intelectual desse múltitplo ente: poeta-filósofo-pintor-desenhista-arquiteto-dançarino-teólogo."

Murilo Mendes faz o retrato poético de seu amigo:

 

SAUDAÇÃO A ISMAEL NERY

Acima dos cubos verdes e das esferas azuis
Um Ente magnético sopra o espírito da vida.
Depois de fixar os contornos dos corpos
transpõe a região que nasceu sob o signo do amor
e reúne num abraço as partes desconhecidas do mundo.
Apelo dos ritmos movendo as figuras humanas.
Solicitação das matérias do sonho, espírito que não nunca descansa.
Ele pensa desligado do tempo,
as formas futuras dormem nos seus olhos.
Recebe diretamente do Espírito
a visão instantânea das coisas, ó vertigem!
penetra o sentido das ideias, das cores, a totalidade da Criação,
olho do mundo,
zona livre de corrupção, música que não para nunca,
forma e transparência.       

(1930)
 

As autoras apresentam a "Cronologia de uma amizade" e uma foto dos dois:


 

Ismael Nery também pinta o retrato de seu amigo Murilo Mendes, de 1923, aquarela sobre papel (29,5x17 cm):



Nasceram no início do século 20, Ismael em 1900 e Murilo em 1901. Os dois se conhecem no Rio de Janeiro na década de 20 e têm em comum o interesse pelo surrealismo, além do modernismo brasileiro, e colaboram na Revista de Antopofogia e Verde.  Em 1929 Murilo apresenta uma exposição de quadros do amigo Ismael  e em 1930 Murilo publica Poemas (1925-1929). A morte de Ismael Nery em 1934 teria provocado "uma crise religiosa que o devolverá a um cristianismo das origens", crêem as autoras que traçam as biografias. Mas foi Pedro Nava, segundo elas,  que descreveu a cena do velório em que Murilo entrou em transe.

Quem quiser, deve continuar a leitura na obra de Lella Maria e Marisa que nos brindaram esta fanaástica coleção de imagens e de revelações sobre os dois gênios i(r)manados pela criação.

Antonio Miranda, julho 2010

 

De
Murilo Mendes
POESIA LIBERDADE
Rio de Janeiro: Agir, 1947.   157 p.

 

 

DESEJO

 

OBSCURA vida

O que te peço

É que reveles teus desígnios

Obscura vida

Que sejas transparente

E concisa

Como por exemplo a morte

- Clara esperança.

 

 

POEMA DE ALÉM – TÚMULO

 

DAQUI de cima

Vejo homens e bichos combatendo

Ao mesmo tempo pelos bens e pela fome

Vejo campos de sangue e ossada

Faixas de terror

Mas vejo essencialmente uma coisa branca

Um castelo branco e simples

Feito de um só diamante

Que da terra não se vê.

 

 

POST  -  POEMA

 

O ANTEONTEM – não do tempo mas de mim –

Sorri sem jeito

E fica nos arredores do que vai acontecer

Como menino que pela primeira vez põe calça

                                                        [comprida.

 

Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,

Trata-se de substituir o lado pelo centro.

O que é da pedra também pode ser do ar.

O que é da caveira pertence ao corpo.

Não se trata de ser ou não ser,

Trata-se de ser e não ser.

 

 

MEMÓRIA

 

1

 

NASCI  nu.

 

Quando eu vim me sussurraram:

“Adeus”.

 

Estrelas voando,

Frutos de árvores da inocência

Inclinavam-se.

 

Mulheres cheirosas

Deslizando no mosaico.

 

Seriam para mim esses corpos

Terrestres e celestes

Rolando sem parar na ampulheta divina?

Na cerração do dilúvio

Sanfonas ainda se ouviam

Por detrás da terra.

 

 

2

 

Ilhas e montanhas

Fugi do vosso lugar

Um homem aparece

Lutando com o batismo

- Arriscava a danação –

E . . . mereceu a cruz?

 

Dizei-mo cronistas futuros

Músicos da corte popular celeste

Aprontai flautas e pianos

Louvai o homem com tímpanos

Com Xilofones saxofones

Louvai o homem

Que se arrisca e luta.

 

Louva-o, posteridade dos famintos.

 

 

De

MENDES, Murilo
Contemplação de Ouro-Preto
Rio de Janeiro: Ministério da Educação e
Cultura, Serviço de Documentação, 1954. 
171 p. Ilustrado com fotos  em p&b de Ouro Preto, sem o nome do fotógrafo.  
Os títulos dos poemas em páginas independente em vinhetas.
Formato 16 x 23 cm. (EE)


 

         MONTANHAS DE OUTRO PRETO
        

                   A Lourival Gomes Machado

 

DESDOBRAM-SE as montanhas de Ouro Preto

Na perfurada luz, em plano austero.

Montes contemplativos, circunscritos

Entre cinza e castanho, o olhar domado

 

Recolhe vosso espectro permanente.

Por igual pascentais a luz difusa

Que se reajusta ao corpo das igrejas,

E volve o pensamento à descoberta

 

De uma luta antiquíssima com o caos,

De uma reinvenção dos elementos

Pela força de um culto ora perdido,

 

Relíquias de dureza e de doutrina,

Rude apetite dessa cousa eterna

Retida na estrutura de Ouro Preto.

 

 

 

 

MENDES, Murilo.  Mundo Enigma.  Rio de Janeiro: Edição da Livraria do Globo, 1942.  142 p.   (Col. Autores Brasileiros, 14)  14,5x20 cm.  “ Murilo Mendes “  Ex. na bibl. Antonio Miranda

Como sabemos, Murilo Mendes viveu na Europa durante a 2ª Guerra Mundial. Sendo um católico e poeta, assim registrou a sua experiência:

 

NIHIL

 

Profundo penoso

Das nuvens do inferno

Surgiu meu destino.

 

Grandeza -não tive,

Nem jeito pra vida.

 

Nesta noite maquinal, .

Ouvinte da guerra,

Sem passado nem futuro,

Odiando o presente,

Me encontro face a, face

Com a estátua do pó,

À-toa, esperando

A mão do Criador

Finalmente me abater.

 

 

O OPERADOR

 

Uma mulher corre no jardim

Despenteando as flores

Alguém desmonta o tempo

Édipo propõe um enigma às constelações

O mar muda provisoriamente de lugar

Se assobiares um foxtrote

A ordem se fará outra vez.

 

 

 

MENDES, MuriloPoemas. Posfácio: Silviano Santiago.  São Paulo: Cosac Naif, 2014.   128 p.    (Coleção Murilo Mendes (Coordenação Júlio Castañon Guimarães, Milton Ohata, Murilo Marcondes de Moura) 14x23 cm.  ISBN 978-85-405-0763- O  Inclui as seções: O Jogador de Diabolô, Ângulos, Máquina de Sofrer, O Mundo Inimigo, A Cabeça Decotada, Poemas sem Tempo.  Projeto gráfico: Gabriela Castro, Paulo André Chagas. “ Murilo Mendes “ Ex. bibl. Antonio Miranda

 

Murilo Mendes (1901-75) é um dos maiores autores da

poesia moderna brasileira. “Poemas” marca a sua estreia

em 1930, tendo recebido então de Mário de Andrade o seguinte comentário: "historicamente é o mais importante

dos livros do ano". SILVIANO SANTIAGO

 

IDÍLIO UNILATERAL                      

 

Praia de Botafogo,
acácias e colunas dóricas falsificadas.

O meu namoro no ponto mais complicado da praia

é um pretexto para vir no jornal,

seção de atropelamentos.

Minha namorada já parece até mãe,

os seios dela estão crescendo dia a dia,

que ancas largas batem no meu nariz...

Hoje fui no ônibus com ela pregado na combinação cor-de-rosa,

adivinhando a carne morena

que dia a dia vai mudando de tom.

Ai quando virá o espírito da destruição

acabar com a minha memória

e corromper para sempre

o corpo enxuto da filha do quitandeiro

surgindo, milagre moreno, dentre cenouras e couves.

Ó saxofones do último dia

soprando a música do aniquilamento.

 

 

 

 

MENDES, Murilo.  Convergência.  Posfácio: Júlio Castañon Guimarães. Artigo: Ruggero Jacobbi.   São Paulo: Cosac Naif, 2014.   256 p.    (Coleção Murilo Mendes (Coordenação Júlio Castañon Guimarães, Milton Ohata, Murilo Marcondes de Moura) 14x23 cm. Projeto gráfico: Gabriela Castro, Paulo André Chagas. ISBN 978-85-405-0784-5  Convergência inclui os poemários: Grafitos, Murilogramas, Sintaxe.  “ Murilo Mendes “ Ex. bibl. Antonio Miranda

 

Convergência (1970) é o último livro de poesia que Murilo

Mendes publicou em vida. Ele já era um veterano reco-

nhecido como um dos maiores poetas brasileiros, mas o

volume possui o frescor da novidade, abrindo caminhos

para além da inspiração surrealista que havia marcado a

sua obra.  JÚLIO CASTAÑON GUIMARÃES

 

GRAFITO NA PRAÇA DJEMAA El FNA

Quem diz Alá diz: espaço.
Deus. O espaço de Deus. O braço

Que escreve: "Faço. Desfaço. Renasço."
Paço aberto a todos. Compasso

Regula o giro do espaço. O não-lasso.
O braço vector do homem lasso.

 

GRAFITO NA LÁPIDE DUMA MENINA ROMANA

Vivi parede-e-meia com minha mãe,
Durante nove meses aquecida.

(Soavam flautas. Pássaros volando.)

Borboleta que larga seu casulo,
Concluí o sonho. Comecei a vida.

 


MENDES, Murilo. Antologia poética.  Organização e posfácios: Júlio Castañon Guimarães, Murilo Marcondes de Moura.   São Paulo: Cosac Naif, 2014.   288 p.    (Coleção Murilo Mendes (Coordenação Júlio Castañon Guimarães, Milton Ohata, Murilo Marcondes de Moura)  14x23 cm.  Inclui um CD com “Poemas lidos pelo autor”. Capa dura.  ISBN 978-85-405-0795-I   . “ Murilo Mendes “ Ex. bibl. Antonio Miranda 

 

FORMAS ALTERNADAS

 

Vi a menina crescendo

Na sombra de sua mãe.

Vi a mãe dela sumindo,

O corpo da outra aumentando,

Vi a posição dos corpos

Mudando sempre no espaço,

O tempo desenrolando

Olhares e movimentos,

Vontades, curvas e cheiros,

Ora da filha bonita,

Ora da mãe consumida,

Com tantas afinidades

Vindas, sem se perceber,

De formas bem semelhantes:

Não sei onde a mãe acaba

Nem onde a filha começa.

 

MENDES, MuriloSiciliana e Tempo Espanhol.  Artigos: Anton Angelo Chiocchio, Alexandre Pinheiro Torres. Posfácio: Eduardo  Sterzi.  São Paulo: Cosac Naif, 2015.  160 p. 14x23 cm.  ISBN 978-85-405-0908-5   “ Murilo Mendes “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

A DAMA DE ELCH
(Museu do Prado)

Homem ou mulher,
Animal ou mineral,
Ibérica ou não (talvez pelo penteado)
Dama de Elche
Impões enigma e problema.

A força em silêncio resumida
Te gerou e perfez; compacta.
Ao te defrontar, dama de Elche:
Por esse rigor e melancolia
Ibérica serás? Muda decerto.

          (De Siciliana, 1954-1955)

 

MOURA, Murilo Marcondes deO mundo sitiado. A poesia brasileira e a Segunda Guerra Mundial.  São Paulo: Editora 34, 2016.   376 p.  ilus.  p&b  14x21 cm.  “Murilo Marcondes de Moura”  Ex. bibl. Antonio Miranda  Inclui poetas estrangeiros (ex. Apollinaire, Wilhelm de Kostrowitsky, Brecht, personalidades como Gandhi, artistas como Goya e poetas brasileiros que escreveram textos sobre as guerras mundiais: Clóvis Assumpção, Rossine Camargo Guarnieri,  Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Cecília Meireles, Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade.     

 

O seguinte (meta)poema de Murilo Mendes, que aparece meio descentrado, fora do tema central do livro — a poesia sobre a guerra —, mas muito bem analisado, por certo... Aqui vai apenas o poema:

 

MANHÃ

As estátuas sem mim não podem mover os braços
Minhas antigas namoradas sem mim não podem amar
          seus maridos
Muitos versos sem mim não poderão existir.

É inútil deter as aparições da musa
É difícil não amar a vida
Mesmo explorado pelos outros homens
É absurdo achar mais realidade na lei que nas estrelas
Sou poeta irrevogavelmente.

 

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JANDIRA

 

         Poema erótico de MURILO MENDES

 

O mundo começava nos seios de Jandira. 

Depois surgiram outras peças da criação:
surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos).
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
o ar inteirinho ficou rodeado de sons
mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
captavam objetos animados, inanimados,
dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
quando Jandira penteava a cabeleira... 

Depois o mundo desvendou-se completamente,
foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E jandira apareceu inteiriça,
de cabeça aos pés.
Todas as partes do mecanismo tinham importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
de sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedecem aos sinais de Jandira
crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
e eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
e apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira.
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira.
E seus cabelos cresciam furiosamente com a força das máquinas;
não caía nem um fio,
nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
a família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
por causa de Jandira. 
E um padre na missa
esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de Jandira. 

E Jandira se casou.
E seu corpo inaugurou uma vida nova,
apareceram ritmos que estavam de reserva,
combinações de movimento entre as ancas e os seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem
as formas e os sestros de Jandira desde o princípio do tempo. 

E o marido de Jandira
morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
fez um grande esforço para ressucitar:
que Jandira viva sozinha,
que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade
e que ele fique ali à toa. 

E as filhas de Jandira
inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
espera que os clarins do juízo final
venham chamar seu corpo,
mas eles não vêm.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.

 

 

Imagem extraída  de

DIAS-PINO, WlademirA lisa escolha do carinho (Rio de Janeiro: Edição Europa, s.d. 
            20,5x20,5 cm.  33 f. ilustradas  (Coleção Enciclopédia Visual).   Inclui versos de
            poetas brasileiros
 

 

 

 

Murilo Mendes, retrato
por
GUIGNARD

TEXTOS EN ESPAÑOL

De
Murilo Mendes
Tiempo Español
Trad. Pablo del Barco.
 s.l.: Almuzara, 2008. 201 p.               (Serie Noche Española, 8)
 Impresso con la colaboración de la Embajada de Brasil en España.

 

NUMANCIA

Prefigurando Guernica
E a resistência espanhola,

Uma coluna mantida
No espaço nulo do outrora.

Fica na paisagem térrea
A dura memória da fome,

Lição que Espanha recebe
No seu sangue, e que a consome.

 

NUMANCIA

Configurando Guernica
Y la resistência espanola,

Una columna mantenida
En el nulo espacio dei ayer,

Queda en el paisaje térreo
La dura memória dei hambre,

Lección que Espana recibe
En su sangre, y Ia consume.

 

O SOL DE GRANADA

    Á memória de Manuel Altolaguirre

O sol de Granada aspira
Arquiteturas abstraías.

O sol de Granada gira
O corpo de Lindaraja.

O sol de Granada inspira
Sangue e ritmo de gitanos.

O sol de Granada mira
As duas faces de Espanha.

 

EL SOL DE GRANADA

            A la memória de Manuel Altolaguirre

El sol de Granada aspira
Arquitecturas abstractas.

El sol de Granada gira
El cuerpo de Lindaraja.*

El sol de Granada inspira
Sangre y ritmo de gitanos.

El sol de Granada mira
La doble cara de Espana.

* Hay testimonio de la existência dei mirador de Lindajara en la Alhambra granadina en 1362, por un texto dei poeta Ibn aljatib; era el sólio para el trono de Muhammad V. Tiene ventana de arcos gemelos, peraltados y angrelados, y se abre a los jardines de Daraja, a través de Ia cual se podia contemplar Ia ciudad de Granada, antes de que füera reformado el espacio por el emperador  Carlos V. (N. dei T.)


PUEBLO

            A Blas de Otero

O pueblo subsiste no ar, no sol de poeira,
Nos quadrados de cal e na secura.

Subsiste na conversa organizada
Em torno da água pública da fonte.

Um som qualquer ressoa prolongado
No ouvido de animal, pessoa ou casa.

Os minutos pacientes limam os dias.
O pueblo destacando-se da história

Participa do obscuro de cada um.
E participam todos deste pueblo

Que rejeitando a ideia do aniquilamento
Joga aos dados a ressurreição da carne.

 

PUEBLO

         A Blas de Otero

El pueblo subsiste en el aire, en el sol de polvo,
En los cuadrados de cal y en la sequía.

Subsiste en la conversación organizada
En torno ai agua pública de la fuente.

Cualquier son resuena prolongado
En el oído de animal, persona o casa.

Los minutos pacientes liman los dias.
El pueblo ai destacarse de Ia historia

Participa de lo oscuro de cada uno.
Y participan todos de este pueblo

Que ai rechazar la idea dei aniquilamiento
Juega a los dados la resurrección de la carne.

 

NA CORRIDA

Soubesse eu distinguir
O milésimo de instante
Em que o olho do touro e o do toureiro
Se cruzam no vértice da luta,
Conhecendo cada um
Que irá matar, ou ser morto.

 

EN LA CORRIDA

Si supiera distinguir
La milésima de instante
En que el ojo dei toro y del torero
Se cruzan en el vértice de la lucha,
Sabiendo cada uno
Que vá a matar, o a ser muerto.



 ANTONIO MIRANDA ENTREVISTA... PABLO DEL BARCO
poeta, ensaista e tradutor de Murilo Mendes, sobre a importância
da obra "Tiempo Español".

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 Traducciones de Rumen Stayanov,

Dámaso Alonso y Angel Crespo
 

METAFÍSICA DE LA MODA FEMENINA

 

Todo lo que te rodea y te sirve

Aumenta la fascinación y el enigma.

Tu velo se interpone entre tú y mi cuerpo,

Es la reja de mi cárcel.

Tus guantes suaves al tacto

Hacen crecer la nostalgia por las manos

Que no recibieron mi alianza en el altar.

Tu maquillaje

Es una venganza sobre la naturaleza.

Tus joyas y tus perfumes

Te son necesarios a ti y al orden del mundo

Como el pan al hambriento.

Me envuelvo en tus pieles y en tus boas

Rasgo tu pechera de seda

Para besar tus senos blancos

Que alimentan los poemas

Entreabro la túnica fosforescente

Para abrigarme en tu vientre glorioso

Que amplió al mundo dándole un hombre más.

Tus vestidos obedecen a un plano inspirado

Se corresponden con el cielo con el mar las estrellas.

Con tus pensamientos tus deseos tus sensaciones.

La naturaleza toda

Está siendo destruida para ornar tu cuerpo

Los hombres talan bosques

Bajan hasta el fondo de las minas y los mares

Mueven máquinas telares

Sueltan aviones por los aires

Luchan por la posesión de Ia tierra matan y roban por tu cuerpo

El mundo sale de ti, viene a desembocar en ti

Y te contempla asombrado y apasionado,

Arcoiris terrestre,

Fuente de nuestra angustia y de nuestra alegria.

 

Todo lo que forma parte de ti — desde tus zapatos —

­Está unido al pecado y al placer,

A la teología, a lo sobrenatural.

 

 

(Traducción de Rumen Stayanov)  


 

LLANTO DEL POETA ACTUAL

 

Me dieron un cuerpo, !sólo uno!

Para soportar callado

Tantas almas desunidas

Que se empujan unas a otras,

De tantas edades diferentes;

Una nació mucho antes

Que yo apareciera en el mundo,

Otra nació con este cuerpo,

Otra está naciendo ahora,

Bay otras, no sé bien cuántas,

Son mis hijas naturales,

Deliran dentro de mí,

Quieren cambiar de lugar,

Cada una quiere una cosa,

Nunca ya tengo sosiego.

Oh, Dios, si existes, junta

Mis almas extraviadas.

 

(Traducción de Rumen Stayanov)  


 

GRANADA

 

Nadie supo hasta hoy si el cielo es macho o hembra:

Pero el cielo de Granada es macho y hembra.

Granada, te di apenas una semana de mi vida.

Tú me diste siglos de antaño rudos estandartes,

El genio africano injertado en el castillo de Europa,

La tensión de dos culturas dispares

Y en el limite de ese tiempo épico

La certidumbre geométrica de la cruz.

 

Me das ahora arquitecturas rojas y desiertas,

EI bosque reducido en tu centro,

EI agua árabe estallando en los jardines de Generalife;

Me das Sierra Nevada y la vega cercana,

EI tono vital, altísimo.

Diviso las marcas digitales del Oriente,

Retomo el camino de Manuel de Falla;

Y el problema español nutre mi sangre.

 

Distinguí en la noche de Granada el sol,

El fuego central de Ia tierra

Comunicando a cualquiera las ganas de vivir.

Distinguí al sol de la noche demarcando torres rojas

Vi a gitanos bailar la roa

En las galerias secretas del Albaicín,

Tocados por el duende y el sol de la noche:

Inventan sin cesar el canto y el baile,

Hombre, mujer y nino inventan el ritmo.

Los minutos añadidos preparan los clientes:

Y tuve ganas de vivir, no quise morir para siempre.  


 

CIERTO MAR

 

El mar no me quiere,

El mar no sé por qué me abomina,

El mar autárquico:

Él me echa aletas y algas podridas,

Destrozos de maniquís y papeles viejos,

Arrastrando para lejos barco y sirena.

El mar tiene ideas singulares sobre mí,

Me manda recados insolentes

En botellas hace mucho olvidadas y sucias.

Suprime de repente el velero de 1752

Que venía costeando el muelie.

 

Suprime el velero y un bando de fantasmas

— Yo 10 sé bien —

Únicos, pulidos, casi nada solemnes.

No aguanto más este canalia

Ni siquiera lo admito en el otro mundo:

 

Felizmente la eternidad es límpida,

Sin playas y sin lamentos,

He de espiarlo de Ia Gran rosácea,

He de verlo un día aliá, abajo,

Inútil: esponja exprimida, caparazón de canoa,

Dorso de fotografía.

 

 

(Traducción de Rumen Stayanov)

 

Traducciones de Rumen Stayanov extraídas de la antología: POETAS PORTUGUESES Y BRASILEÑOS DE LOS SIMBOLISTAS A LOS MODERNISTAS/ Organización y estudio introductorio de José Augusto Seabra.  Buenos Aires: Instituto Camões; Brasília: Thesaurus, 2002. Edición bilingüe. 

 

 

MURILOGRAMA A GABRIELA MISTRAL

 

En un territorio de trigo

& cobre te criaste niña

De vuelo sólidoterrestre.

 

Yo te dactilotoqué:

Sustantiva como la tierra.

Horizonte movible.

Mesa puesta afecto encendido.

 

India de alto coturno

Incorporas maya & quechua

A tu espacio de familia.

 

Los pies giróvagos te trazan

Mapa total, periferia & centro

De tu toque corpóreo, don.

Andina. Transandina. Íntegra

 

Integras tu saga, humano

Lenguaje de vino culto

Nutriendo un huésped áspero

 

Llegado de cualquier viento.

Portabas la sal, la raíz

En el plato, en la propia boca

Comunicando hombre & cosmos.

 

 

(Traducción de Rumen Stayanov)

 

 

 

NAVIDAD 1961

 

Desplazados por una operación burocrática —-el censo de la tierra­— la Virgen y el

                 carpintero José llegan a BeIén.

 

“No hay sitio para esta gente”, grita el dueiño del hotel donde se celebra

                un congreso de solidaridad.

 

El matrimonio se dirige a un establo, recibido por un buey blanca y un burro

                cansado de trabajar.

 

Los soldados de Herodes distribuyen alimentos radiactivos a todos los niños

               de menos de dos anos.

 

Una poderosa nube en forma de hongo abre el horizonte y estalla de repente.

 

El Niño nace muerto.

 

 

 Roma, 1961.

 

 

Trad. de Dámaso Alonso y Ángel Crespo

Extraído da REVISTA DE CULTURA BRASILEÑA, Tomo IV, Numero 12, marzo 1965.  Publicación de la Embajada de Brasil en Madrid, España.
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LAMENTO DEL POETA ACTUAL

 

Trad. Rodolfo Mata

 

Me dieron un cuerpo, sólo uno

Para soportar callado

Tantas almas desunidas

Que chocan unas con otras

De tan variadas edades;

Una nació mucho antes

De que yo apareciera en el mundo,

Otra nació con este cuerpo,

Otra está naciendo ahora,

Hay otras, ya ni sé bien,

Son mis hijas naturales,

Deliran dentro de mí.

Quieren cambiar de lugar,

Cada una quiere una cosa,

Ya no tengo más sosiego.

Oh Dios, si existes, junta

mis almas desencontradas.

 

 

De O visionário (1941)

 

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De
Murilo Mendes
Al otro lado del mundo
Trad. de José Javier Villarreal.
Monterrey:  Ediciones Sin Nombre, 2009. 
116 p.  ISBN 978-968-579-355-1

Conheci o poeta e tradutor José Javier Villarreal em Morelia, México, durante o XII Encuentro de Poetas del Mundo Latino e passamos horas conversando... sobre Poesia Brasileira. Sabe mais do que alguns de nossos especialistas... Traduziu Drummond, Bandeira... E o nosso Murilo Mendes. Ao traduzir, adotou a fórmula proposta por Murilo: “No debe existir desproporción entre la sustância y la forma.”  José Javier seguiu à risca!

ANTONIO MIRANDA

 

 

EL POETA EN LA IGLESIA

 

Entre tu etemidad y mi espíritu

se mece el mundo de las formas.

No consigo rebasar la línea de los vitrales

para descansar en tus caminos de perfección.

Mi pensamiento se tropieza en los senos, en los muslos y

         nalgas de las mujeres,

inexorablemente.

Estoy aquí, desnudo, paralelo a tu voluntad,

sitiado por las imágenes exteriores.

¡En vano mi ser busca romper su propio molde!

Noche del espíritu

donde los círculos de mi voluntad se agotan.

Tajado de la etemidad de las ideas

¡ay! ¿Quién vendrá a llenar el vacío de mi alma?

 

Vestidos sudados, cabezas volviéndose de pronto,

piemas rompiendo la penumbra, axilas tibias,

senos escolados no me dejan ver la cruz.

 

¡Me separan dei mundo de Ias formas!

 

                   (De Poemas, 1925-1929)

 


SOLIDARIDAD

 

Estoy unido por la herencia dei espíritu y la sangre

al mártir, al asesino, al anarquista;

estoy unido

a las parejas en la tierra y en el aire,

al vendedor de la esquina,

al padre, al mendigo, a la mujer de la vida,

al mecánico, al poeta, al soldado,

al santo y al demónio

hechos a mi imagen y semejanza.

 

                   (De El visionário, 1930-1933)


EL HOMBRE Y EL AGUA

 

Las manos tienen hélices, tempestades y brújulas.

Los pies guardan navios

que enfilan hacia Oriente

el ojo tiene peces,

la boca, arrecifes de coral;

los oídos tienen noches, poios y lamentos de olas.

La vida es tan marina.

 

         (De Los cuatro elementos, 1935)

 

       

POEMA ERÓTICO DE MURILO MENDES

Traducción de RODOLFO ALONSO

Publicado originalmente en El movimiento Poesía Buenos Aires (1950-1960)
BuenosAirees: Editorial Fraterna, 1979

 

         JANDIRA 

El mundo comenzaba en los senos de Jandira.
Después surgieron otras partes de la creación:
Surgieron los cabellos para cubrir el cuerpo
(a veces el brazo izquierdo desaparecía en el caos,
quedaba solamente el brazo derecho).

Surgieron los ojos para vigilar el resto del cuerpo.
Y surgieron sirenas de la garganta de Jandira:
el aire entero se hizo eterno de sonidos

más palpables que las aves.
Y las antenas de las manos de Jandira
captaban los objetos animados, inanimados,
dominaban las rosas, los peces, las máquinas,

y los muertos despertaban en los caminos visibles del aire
cuando Jandira peinaba su cabellera...
 

Después el mundo se develó completamente,
se fue levantando, armado de anuncios luminosos.
Y Jandira apareció entera,
de la cabeza a los pies.

Todas las partes del mecanismo tenían importancia,
Y Jandira apareció con el cortejo de su padre,
de su madre, de sus hermanos.

Ellos obedecían a las señales de Jandira
que crecía a la vida en gracia, belleza, violencia.

Los enamorados pasaban, olían los senos de Jandira
y eran precipitados en las delicias del infierno.
Ellos jugaban por causa de Jandira,
dejaban novias, esposas, madres, hermanas
por causa de Jandira.

Y Jandira no había pedido nada.

Y se vieron retratos en el diario por causa de Jandira.

Y aparecieron cadáveres boyando por causa de Jandira.
Ciertos enamorados vivían y morían

por causa de un detalle de Jandira.

Uno de ellos se suicidó por causa de la boca de Jandira.

Otro, por causa de un lunar en la mejilla izquierda de Jandira.

 

Y los cabellos de Jandira

crecían furiosamente con la fuerza de las máquinas;
no caía ni una hebra,
ni ella los recortaba.

Y la boca de Jandira era un disco bermejo
como un sol mínimo.

Alrededor del aroma de Jandira

su familia andaba atolondrada.

Las visitas tropezaban en las conversaciones

por causa de Jandira.

Y un sacerdote en misa

olvidó hacerse la señal de la cruz por causa de Jandira.

 

Y Jandira se casó.

Y el cuerpo de Jandira inauguró una vida nueva,
aparecieron ritmos que estaban de reserva,
combinaciones de movimientos entre las caderas y los senos.
A la sombra del cuerpo de Jandira
nacieron cuatro niñas que repiten
las formas y las mañas de Jandira desde el principio del

  tiempo.

 

Y el marido de Jandira

murió en la epidemia de gripe española.

Y Jandira cubrió la sepultura con sus cabellos.
Desde el tercer día el marido de Jandira

hizo un gran esfuerzo para resucitar;

no se conforma, en el cuarto oscuro donde está,

con que Jandira viva sola,

que los senos, la cabellera de ella trastornen la ciudad
y que él se quede allí, espiando.

 

Y las hijas de Jandira

todavía parecen más viejas que ella.

Y Jandira no muere,

espera que los clarines del juicio final
vengan a llamar su cuerpo,
pero no vienen.
Y, aunque viniesen,
¡el cuerpo de Jandira

Resucitará todavía mayor, más ágil y transparente!

 

 

 

Murilo Mendes
Pintura de Cândido Mendes

 

TEXTS EN FRANÇAIS

MURILO MENDES

 

Né à Juiz de Fora (Minas Gérais) en 1901.

Murilo Mendes débuta vers 1930 par une série de poèmes-boutades (poemas-piadas) qui le rendirent célèbre du jour au lendemain. Ceux qui le connurent avant cette époque à Rio de Janeiro se rap¬pellent un jeune homme à la santé délicate, fréquen¬tant les concerts, les conférences, les théâtres, où il ne manquait pas de lancer ses remarques paradoxales, osées et parfois agressives... Au courant de la production littéraire de son temps, il avait tout lu et sur tout émettait des jugements audacieux. Ses premiers poèmes réunis en volume lui valurent le prix de la Fondation Graça Aranha. Il travaillait déjà à une histoire satirique du Brésil et à des poèmes irrévérents qui devaient paraître sous le titre Dieu au volant. Sa conversion au catholicisme, survenue à l'occasion de la mort de son ami le peintre Ismaël Néry, en 1934, le fit apparemment abandonner sa première voie. Il appartint dès lors à cette tendance catholique de gauche qui échappe à l'intolérance fanatique sévissant dans les pays de la jeune Améri¬que où le problème religieux est soumis à d'autres coordonnées que celles de l'inquiétude spirituelle. Son mysticisme se manifeste dans un livre, Tempo e eternidade, où lui et Jorge de Lima ont rassemblé leurs poèmes en 1935. Il publia en outre plusieurs articles de polémique et de critique, dans lesquels il se bat contre la position nettement réactionnaire d'une partie du clergé brésilien (Arrêtez le pape, etc.).

Après ses études secondaires à Niteroi, il fit du journalisme à Rio de Janeiro, fut ensuite employé de banque, inspecteur de l'enseignement, et devint enfin notaire. Chargé de mission officielle, il a donné dans plusieurs villes d'Europe une série de confé¬rences sur la littérature brésilienne.

Bibliographie : Poemas, 1930; História do Brasil, 1932; Tempo e eternidade, 1935; A poesia em pânico, 1938; O visionário, 1941; As metamorfoses, 1944; O discípulo de Emaius, 1944; Mundo enigma, 1945; Poesia liberdade, 1947; Janela do caos, 1949; Obra completa.

 

TEXTS EN FRANÇAIS

 

Extraído de

 

TAVARES-BASTOS, A. D.  La Poésie brésilienne contemporaine.  Antologie réunie, préfacée et traduite par…   Paris: Editions Seghers, 1966.  292 p.   capa dura, sobrecapa.  Ex; col. bibl. Antonio Miranda

 

LA GRACE

 

         Une pluie de pierres s'éboule, une averse de statues d'idoles renversées, de mannequins décolorés, de visages rouges désincarnés des livres contenant les actions humaines.

         Et mon corps serein attend la fin d'un tel événement, tandis que mon âme s'ébat aux prises avec le temps qui coule, coule.

         Jusqu'à ce que Toi, impatient, Tu rompes les grilles du sanctuaire ; me tendes les bras ; et que nous traversions ensemble le monde effrayé.

         Et l'arc-en-ciel se dresse au-dessus de moi-même, création renouvelée.

« TEMPO E ETERNIDADE »

 

 

TOBIE ET L'ANGE

 

I

Ils ont déjà marché beaucoup
Au son des trompettes pascales,
Plongeant dans les arbres
Qui de près sont verts
Mais ont une profondeur bleue.

 

Déjà le grand Poisson a attaqué le jeune danseur.
Déjà ils ont laissé loin les murs d'Ecbatane
Et le profil de Sarah.

 

Le vent balaye les omoplates de la pierre.

De la chasteté des cloches

La nuit vient de surgir.

Le jeune homme s'en va seul

Par les avenues désertes.

 

II

O moderne démon, ange baroque,
que désires-tu enfin que je t'annonce ?

A la fin des cloches nous retrouvons déjà la nuit classique
Et le bouquet profond des nuages nous fait signe.

 

Nous ne serons jamais seuls : oiseaux et miroirs,
Végétaux en marche, esprits déferlés
Seront à jamais nos complices.

De l'asphalte blême

Se dresse la mort.

Je ne te rencontrerai jamais

Adieu monde invisible.
                                               
«   MUNDO  ENIGMA »

 

 

POÈME BAROQUE

 

Les chevaux de l'aurore renversant les pianos
Franchissent farouchement les portes de la nuit.
D'antiques   anges   les   pieds   blessés   dorment   dans la

                                                                                               pénombre,

Dorment les horloges, les cristaux d'autres époques, les
                                                                                  
squelettes d'actrices                                                                    

Le poète chausse des nuages ornés de têtes grecques
Et s'agenouille devant l'image de Notre-Dame-des-Victoires
Tandis que les premiers bruits des voitures de laitiers
Croisent le ciel de lis et de bronze

 

Il me faut connaître mon système artériel
 Et savoir jusqu'à quel point je me sens limité
Par les  songes  au  galop,  les  dernières  nouvelles des
                                                                                  
massacres,

La marche des constellations, la chorégraphie des oiseaux,
Le labyrinthe de l'espérance, la respiration des plantes
Et le vagissement de l'enfant nouveau-né au fond de la
                                                                                              
maternité

Il me faut connaître le fond de cale de ma misère,
Mettre le feu aux herbes qui croissent autour de mon corps
Menaçant de boucher mes yeux et mes oreilles
Et bâillonner la chasteté nue et sans défense

 

C'est alors que je retourne la belle image bleu-rouge :
Me présentant l'autre côté criblé de poignards
Notre-Dame-des-Défaites, couronnée de glaïeuls,
Montre son cœur et demande secours.

                                                                                   (Idem)

 

 

 

LE SINISTRE REPAS

 

1

Nous sommes assis à la table servie par un bras de mer.
Voici l'heure propitiatoire, auguste,
L'heure de donner à manger aux fantômes.
Qui va là, monté sur un tracteur de cadavres,
Avec une grande épée pour enfoncer dans la poitrine de
                                                                                  
la Russie ?

D'autres déploient les drapeaux de tous les pays,

Font un rideau de brouillard qui cache le chevalier errant :

L'homme meurt sans savoir encore qui il est.

La mort collective s'empare de la mort de chacun.

Sur la terre il pleut sang et sueur

Les vagues mugissent.

 

2

 

Le tank commande l'homme.

L'âme opprimée sanglote

Dans un angle de la terreur.

Ame antique et neuve.

Où est ta mélodie ?

L'oiseau, la source, la flûte,

Les fleurs, le doux bétail t'attendent

Pour que de nouveau tu les nommes.

Assis à la table ronde

Nous attendons le souffle du jour.

 

3

 

Les morts troubleront la fête inutile.

Qui leur a apporté des fleurs et des cadeaux en vie ?

Qui leur a inspiré des pensées et des chastes amours en vie ?

Qui leur arrachait des mains l'épée et le fusil en vie ?

 

Maintenant ils n'ont plus besoin de fleurs ni de caresses.

Maintenant ils sont libres et vivants,
C'est eux qui foulent nos tombes.

 

Assis à la table ronde

Nous mangeons ce que nous avons volé aux morts connus
                                                                                  
et anonymes.]

«  POESIA LIBERDADE »

 

 

POÈME

 

Dans le ciel surgit une femme-comète
Regardez l'énorme queue d'argent qu'elle a
Semez les enfants pour qu'ils la voient
Préparez les musiques innocentes d'autrefois...

 

Ah, qu'il me soit permis de m'en aller dans le vertige de
                                                                      
la femme-comète !

...Ce n'est pas toi qui sanglotes dans les couloirs sombres,
Et pries toute la nuit, car on a étouffé ton âme ?
C'est toi qui vas consoler la nudité des statues,
Tu es l'ange du fleuve, tu chantes des chansons pour les
                                                                                              
poissons

Et la première tu fis marcher un gramophone dans la ville...

Que m'importent les signes de la communauté

Si je peux enlacer le buste de la femme-comète ?

Je cours à ta rencontre sur le sable blanc de la mer.

 

Je suis celui qui t'annonce depuis les temps reculés.
Si je ne te vois pas personne ne te verra — je te montre
Au laboureur des astres, aux galères des anges,
O femme-comète qui ne sais pas que tu existes !...
J'entends la grande symphonie et le chœur qui monte de la mer,

Je vois les Madeleines qui poussent autour de moi,
O chevelures ! Mers du sud ! Yeux translumineux !
J'ai pris le bateau. Hissez les voiles ! Le mystère commence.

 

«   A  POESIA EM  PÂNICO »

 

 

LA MAISON DES ATRIDES

 

Emmenez-moi de la maison des Atrides, emmenez-moi de
                                                                  cette véranda

D'où je vois rire la mer cruelle et bleue.
Emmenez-moi de cette maison de volupté et d'angoisse
Où les fils se dressent contre leurs parents
Où les frères délirent de fièvre pour leurs sœurs
Et où les pères se suicident à cause de leurs filles.
Emmenez-moi de ces salons coloniaux, spacieux et blancs,
Où les esprits du mal conspirent derrière les rideaux,
Sinon je me suspendrai aux rideaux, je me pendrai comme
                                                                            mon oncle,

Entraînant dans ma chute la nostalgie des poètes...

 

Jusques à quand devrai-je opposer ma nudité

Au mystère de Ton insatiabilité ?

Je n'ai rien à T'offrir que les crimes des autres.

Ah ! Dynamitez la maison des Atrides, afin que se dissolve

La brume des générations antérieures !
 

                   (Idem)

 

 

L'EMIGRANT

 

Regardez l'enfant géant
— fils du sexe —

Qui ne réussit pas à être un ange.

Pas même un avion.

Regardez l'enfant géant

Né de la classe moyenne

Plein de ce désespoir du monde,

Qui n'est pas seulement de salaires.

Regardez l'enfant géant

Qui traversa l'amour

Sans jamais reprendre haleine.

Regardez l'enfant géant

Qui veut reposer dans les limbes,

Dans les bras de son aimée.

Ou seulement se reposer.

« Paix

Paix

Paix ».

Le voilà l'enfant en train de chanter
Tandis que les sirènes des fabriques,
Des cuirassés, et le bruit des avions
Composent l'hymne du monde.

 

 

 

COMMENCEMENT

 

Une vaste main me secouera dans le matin clair.
Peut-être naîîrai-je à cet instant,

 

Moi qui me meurs depuis la création du monde,

Qui porte en moi très fort

Le péché de nos premiers parents.

 

L'espace et le temps

Seront dissous dans la robe de la grande mariée blanche.

Je serai enfin déchiffré, l'étranger à la vie

Reposera pour la première fois dans l'univers familier.

 

« LA POESIE EN PANIQUE » - 1938.

 

 

 



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