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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

 

José Inácio Vieira de Melo (1968), alagoano radicado na Bahia, é poeta, jornalista e produtor cultural.

Publicou os livros Códigos do silêncio (Salvador: Letras da Bahia, 2000), Decifração de abismos (Salvador: Aboio Livre Edições, 2002), A terceira romaria (Salvador: Aboio Livre Edições, 2005) – Prêmio Capital Nacional de Literatura 2005, de Aracaju, Sergipe, A infância do Centauro (São Paulo: Escrituras Editora, 2007), Roseiral (São Paulo: Escrituras Editora, 2010), Pedra Só (São Paulo: Escrituras Editora, 2012) e a antologia 50 poemas escolhidos pelo autor (Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2011).

 

Organizou Concerto lírico a quinze vozes – Uma coletânea de novos poetas da Bahia (Salvador: Aboio Livre Edições, 2004), Sangue Novo – 21 poetas baianos do século XXI (São Paulo: Escrituras Editora, 2011) e as agendas Retratos Poéticos do Brasil 2010 (São Paulo: Escrituras Editora, 2009) e Retratos Poéticos do Brasil 2013 (São Paulo: Escrituras Editora, 2012).

 

Publicou também o livrete Luzeiro (Salvador: Aboio Livre Edições, 2003) e os CDs de poemas A casa dos meus quarenta anos (Salvador: Aboio Livre Edições, 2008) e Pedra Só (Salvador: Aboio Livre Edições, 2013). Participa das antologias Pórtico Antologia Poética I (Salvador: Pórtico Edições, 2003), Sete Cantares de Amigos (Salvador: Edições Arpoador, 2003) e Roteiro da poesia brasileira – Anos 2000 (São Paulo: Global, 2009). No exterior, participa das antologias Voix croisées: Brésil-France (Marselha: Autre Sud, 2006),  Impressioni d’Italia – Piccola antologia di poesia in portoghese con traduzione a fronte (Napoli: U.N.O., 2011), En la otra orilla del silencio – Antologia de poetas brasileños contemporáneos  (Cidade do México: Unam / Ediciones Libera, 2012), Traversée d’océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Paris: Éditions Lanore, 2012) e A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua (Maputo, 2013).

 

Coordenador e curador de vários eventos literários, como o Porto da Poesia, na 7ª Bienal do Livro da Bahia (2005) e a Praça de Poesia e Cordel, na 9ª, 10ª e 11ª  Bienal do Livro da Bahia (2009, 2011, 2013), assim como os projetos A Voz do Poeta (2001) e Poesia na Boca da Noite (2004 a 2007), ambos em Salvador, e Travessia das Palavras (2009 e 2010), em Jequié. Desde 2009 é curador do projeto Uma Prosa Sobre Versos, na cidade de Maracás, no Vale do Jiquiriçá.

 

Tem sido convidado, com frequência, para participar de bienais do livro e de eventos literários por todo o país, como a Fliporto (PE), Flimar (AL), Flica (BA), Festival Literário de Feira de Santana (BA), Festival de Violeiros do Nordeste (RN), Sarau do MAC (PB), Flap (AP), Forum das Letras (MG), Portuguesia (MG), Off Flip (RJ), Terças Poéticas (MG), Quinta Poética (SP) e vários outros. Tem poemas traduzidos para os seguintes idiomas: espanhol, francês, italiano, inglês e finlandês. Foi coeditor da revista de arte, crítica e literatura Iararana, de 2004 a 2008.

 

Edita o blog Cavaleiro de Fogo: www.jivmcavaleirodefogo.blogspot.com

E-mail: jivmpoeta@gmail.com

 

 

LENDO UM POEMA DO LIVRO SETE DE JOSÉ INÁCIO VIERA DE MELO. por ANTONIO MIRANDA. Texto extraído (fac-similar digitalizado):
http://www.antoniomiranda.com.br/ensaios/
lendo_um_poema%20do_livro%20_sete_de_jivm.html

 

SETE, NOVO LIVRO DE POEMAS DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

"Sete" é o novo livro de poemas de José Inácio Vieira de Melo. Publicado pela editora 7Letras, a obra, que é permeada pela mística que envolve o número 7, tem lançamento marcado em Brasília para 1º de abril (sexta-feira), no Café Objeto Encontrado, às 19:30 h.

Com o livro "Sete" José Inácio foi o vencedor, na categoria melhor autor, do Prêmio QUEM 2015. 

Na foto: os poetas José Inácio Vieira de Melo, Felipe Fortuna, Antonio Miranda e Salomão Sousa, durante o lançamento.

 

 

Veja também o ensaio:  PEDRA SÓ – ABRIGO E SANTUÁRIO [sobre o livro de José Inácio Vieira de Melo] por Ana Maria Rosa

 

 

Veja também: A SÉTIMA PARTITURA POÉTICA DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Entrevista com o autor

 

TEXTOS EN ESPAÑOL E EM PORTUGUêS

 

 

TEXTOS EM ITALIANO E EM PORTUGUêS

 

 

MELO, José Inácio Vieira deO galope de Ulisses.   Seleção, organização e prefãcoiio: Igor Fagundes.  São Paulo, SP: Patuá, 2014.  148 p.  14x21 cm.  capa dura.   Foto do poeta por Ricardo Prado.  Projeto gráfico e capa: Leonardo Mathias.  ISBN 978-85-8297-118-5   “José Inácio Vieira de Melo”  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

A INFÂNCIA DO CENTAURO

 

Eu venho do caos primordial.

Percorri as searas da escuridão

(caminhos que náo sei).

 

Desse tempo sem memória

nasce a consciência dos dias

(como não sei, invento).

 

Fantasma de barro,

 

preciso de um amálgama

 

e que teus olhos me afirmem.

 

Sou um centauro escarlate

e galopar na infância

é a minha metafísica.

 

 

 

ROMARIA

 

Oh que caminho tão longe

Cheio de pedra e areia

            Domínio popular

 

Oh que estrada mais comprida

Oh que légua tão tirana

            H. Teixeira e Luiz Gonzaga

 

 

Dentro de mim, nas lonjuras,

bem dentro do meu juízo,

um romeiro caminhando

em busca do que preciso.

 

Oh que caminho tão longo

cheio de pedra e de areia.

Tenho que firmar o passo

e romper essas cadeias.

 

Pergunto, em meu desatino:

aonde ir? Que lugar?

Por que a sina de cigarra

esparramando o cantar?

 

Certo. Sou aquele que parte

numa eterna romaria,

faça sol ou faça chuva,

seja de noite ou de dia.

 

O caminho que percorro
não é o da Rosa dos Ventos,
pois ele surge do nada,

de acordo com o momento.

 

Oh que estrada mais comprida,

tanto azul, tanta poeira!

Em que plaga do Universo

estará o meu Juazeiro?

 

Cada qual tem seu destino:

Pedro Vaqueiro tangia

gado pelo mundo afora;

seu Fortunato fazia

 

forno pra queimar tijolo;

Manezim Tetê, meu tio,

caçava tatu e onça

com o luzeiro dos pavios.

 

Lá me vou com minha cruz,

são poucos beiços de açude

e tantas léguas tiranas.

Maior e vária é esta sede

 

que vale cada passada

desta minha romaria.

Peregrino de mim mesmo

no meio da travessia.

 

 

FUNERAL

 

Assustadoramente toca o sino.

A morte, com seus ternos e tapetes

sensacionais, conduz, em caracóis,

dolentes multidões tão carregadas

 

de vozes que desaguam cemitérios.

Exposta a dor dos que ficam suspensos,

começam a florescer outros símbolos:

rosas brancas ressurgem nas lembranças.

 

Os pássaros da noite estão no vento,

vozes que vibram dentro do silêncio,

tumulto na frieza de uma lápide.

 

Na agonia de viver tudo morre.

E o mistério da vida desenvolve,

na morte, novas vidas em instantes.

 

 MELO, José Inácio Vieira de.  Pedra só.  Fotografias de Ricardo Prado.  São Paulo:  Escrituras, 2012.   140 p.  13,5x20,5 cm. 

 

 

PEDRA SÓ

 

 

I

 

Canto de peito ao vento,

um boi de campina anda comigo.

Outra vez as águas antigas,

ravinas na memória do tabuleiro.

 

É um boi das algarobeiras

que muge a solidão.

Suas manchas, ruminadas na paciência,

reúnem a terra.

 

O chão secando, serranias, caatingas.

O boi nas malhadas dos céus.

O sabor hereditário estendido em varas,

couros leves secando ao sol.

 

Sobre o couro do país,

no terraço da província que me é sagrada,

o poeta

          o fogo

                    o cavalo

e os marmeleiros onde se estendem

leopardos sertânicos.

 

Ao céu do país, no couro esticado,

o nome primeiro, à luz do sol,

à sombra das algarobeiras:

PEDRA SÓ

chã que se abre

ao cavaleiro deslumbrado.

 

 

VIII

 

A pele dos carneiros

encadernando os primeiros nomes,

salmos secretos.

 

Evangelhos da boca do pastor

lavram as visões interiores.

E as ovelhas e os bodes e as cabras,

couros e lãs vestindo a saga dos homens.

 

Homero, cantador assombrado

pelos astros e por seus rastros,

singrou os mares da imaginação

e assim foi o inventor de deuses e homens.

 

Homero tinha um cavalo

onde cabiam todos os guerreiros

e escreveu com sangue e verbo

os salmos da sua história

cujos ritos e sacrifícios

se repetem em mim, agora.

 

E um dia os escribas gravaram

nas peles dos bois e dos carneiros

os cantos do cego que inaugurou

os sertões ocidentais.

 

 

XII

 

Sertão, cartilha e dicionário

que recupera o fôlego do ser

e laça as águas do momento

que escorregavam da memória.

 

Sertão, coisa de espírito mesmo:

o nome incrustado no âmago.

 

No Sertão, o princípio do enigma,

o galope para dentro do redemoinho,

e na garupa alforjes de couro

bordados com a chama do amor.

 

O Sertão encourando os primeiros saberes...

 

 

XXI

 

As estrelas partilham

os segredos das letras.

Escudo misterioso do ser,

as palavras estão grávidas.

 

Em silêncio luto a luta vã.

Busco a mão direita de Devar que,

decepada por lâminas cabralinas

no curral da Ribeira do Traipu,

deu adeus ao seu corpo.

 

E de sua boca, palavras em brasa.

A mão esquerda segurou o pulso direito

de onde brotava, instantânea,

uma dolorosa rosa de sangue.

 

Da dor de Devar

e de seu punho,

o veio da arte.

 

E debaixo de algum pé de algaroba,

lá na Ribeira do Traipu,

a mão direita de Devar cava o chão,

prepara os sete palmos e espera pelo corpo

que perambula perdido pelo sertão das Alagoas.

 

 

XXIII

 

Às cinco horas da tarde,

no céu da Pedra Só,

um cavalo emerge das nuvens

e uiva para a lua.

 

Às cinco horas em ponto,

na fazenda Pedra Só,

a lua é o olho do dragão.

 

E a moça de Jorge de Lima

é enorme, enorme,

e engole a lua e vai ficando

menor, menor.

 

Mas continua caindo

num desembesto sem fim

até virar Alice.

 

E logo ali, um alce.

E logo ali,

o galo de Abraão Batista

numa briga feroz

com o boi do Patativa.

 

Às cinco em ponto da tarde,

no reino da Pedra Só,

Federico Garcia Lorca

montado num corcel de algodão

crava seu punhal de prata

nos olhos da escuridão.

 

 

XXV

 

O sapateiro celeste costura

um labirinto no couro do touro,

onde se misturam e se perdem

      e se encontram

Damião Alagoano e Pedro Vaqueiro,

Sérvulo Duarte e Linduarte,

Vavá Machado e Marcolino,

e Moisés, o meu avô.

 

A legião de vaqueiros

que me acompanha e me protege

com as sete peles do gibão de couro.

 

A legião de argonautas

que me acompanha

em busca do velo de ouro.

 

A legião de vaqueiros

que me acompanha e que entoa,

na origem do sentimento,

o que a palavra não diz

mas a voz aboia.

 

 

XXVII

 

Do alto da Pedra Só, contemplo a onça:

fulgor de malhas

                         sabor de mato.

 

A velha casa é chão e couro.

 

Leia mais dados sobre o Autor ao final desta página>>

 


TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL

De
José Inácio Vieira de Melo
Roseiral
 São Paulo: Escrituras, 2010.  105 p
ISBN 85-7531-356-5


"O que mais espanta em José Inácio Vieira de Melo é a extrema vitalidade de sua poesia. Uma poesia telúrica e carnal. Visceralmente ligada ao cotidiano, transfigurada pelo mistério que parece emergir das coisas mais simples." MYRIAM FRAGA

 

 

 Fuga

 

As crianças galopam goiabeiras,

sentem o gosto da paisagem de êxtase.

As crianças são deuses, mas não trazem

o germe do sofrimento, só brilham.

 

Quando o homem chega dentro da criança,

o infinito cai e a casa começa

a ter entranhas, a criar paredes.

Quem mais sofre com isso são as pedras:

 

sem sangue, sem respiração, sem ritmo,

seus escombros preenchem toda terra;

seus sonhos - fuzilados no horizonte.

 

Eu ainda saio dessa ciranda,

entro no primeiro buraco negro

e vou me inventar em outra galáxia.

 

 

Abandono

 

No teu banquete,

não é permitida a minha presença.

O colorido dos meus anelos

é uma afronta à tua matemática.

 

Apesar de não compreenderes,

os caracóis dos meus cabelos oferecem sombra

ao sonho das minhas palavras.

 

E mais uma vez subo ao telhado da infância

e com os passarinhos vou aprendendo

a ser o voo dentro da paisagem.

 

E no paredão do açude, o menino que foste corre,

é mais ligeiro que o abandono que sofremos juntos.

 

Sim, o abandono,

única presença que compartilhamos.

 

 

Canibal

 

Bota a comida no fogo e deixe

que os aromas das carnes recendam,

deixe as carnes mugirem, balirem,

chiarem no delírio das brasas.

Que o cheiro das picanhas e dos pernis

despertem os rios de minha boca!

Bota logo a comida na mesa e deixe

que eu louve, no ritmo da arcada, as delícias das carnes.

 

E olharei em teus olhos e sentirei as tuas carnes,

as tuas carnes que vibram por meus caninos afiados.

 

 

 

 

ANTONIO MIRANDA ENTREVISTA JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
SOBRE SEU LIVRO "ROSEIRAL" NA VI FLIPORTO 2010.

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A infância do Centauro

Ilus. de Juraci Dória

São Paulo: Iluminuras, 2007

 

José Inácio Vieira de Melo sabe que o poeta é o fundador dos seres. Só ele pode trazer dos abismos a decifração de todas as formas do ser, para expressá-las na linguagem pura da metáfora.  Não há dúvida de que este livro anuncia e prenuncia um momento de beleza imperecível. De poesia propriamente dita.

Gerardo Mello Mourão

 

Seleção de poemas do livro:

 

 

DILÚVIO

 

O olho daquele pingo de chuva que vem caindo

revela a minha convicção: acredito no dilúvio.

 

Não tem mais jeito, para toda árvore que olho

só vejo tábuas para construir a arca da salvação.

 

Sei que todos riem de mim, fazem galhofa

e acham mesmo que estou com um chocalho no juízo.

 

Mas é que tive um sonho: um ser vestido de água

inundava o meu dia a minha noite a minha vida.

 

 

DANÇA DAS REDONDILHAS

 

Vamos cantar um galope

no coração da caatinga,

dizer palavras de luz

nos versos de sete sílabas,

caminhar passo acertado:

cadência de redondilhas.

 

 

CIÚME

 

Trêmula, incendiando o pavio da íris,

assim é essa dor que me devora

e que a tudo devasta.

 

Cego, arriscando passos,

sigo por um deserto de lâminas:

afiadas facas da perdição.

 

 

PRESSÁGIO

 

Um rebanho de nuvens pairando pelas pastagens dos céus

ganha forma original e me tira do chão,

e rodopiando nos ares sinto a tua presença

e leio tua imagem nesse gado celeste — signo dos deuses.

E nada mais precisa ser anunciado.

 

 

NARCISO

 

Já não quero saber do amargor do vinho,

sei que sou um bicho espalhafatoso.

Assim vou, degrau por degrau,

lavando o sal do mar de meus olhos,

tirando os véus, despetalando as máscaras.

Qual lâmina d´água decepará a dúvida?

Qual sonho inscreverá a verdade?

 

 

CIÇO CERQUEIRO

 

O meu é fazer cerca:

cavar buraco, aprumar mourão,

esticar arame com pé-dee-cabra,

apregar grampo nas estacas

 

em troca peço pouco:

basta me dar leite azedo,

rapadura, farinha e uma hora

de sombra de pé-de-pau.

 

Precisa nada mais não!

Me dê coalhada todo dia

que eu cerco o mundo

pros bichos não se perderem.

 

 

ROMARIA

 

         Oh que caminho tão longe

         Cheio de pedra e areia.

                   Domínio  popular

 

         Oh que estrada mais comprida

         Oh que légua tão tirana

                   H. Teixeira e Luiz Gonzaga

 

Dentro de mim, nas lonjuras,

bem dentro do meu juízo,

um romeiro caminhando

em busco do que preciso.

 

Oh que caminho tão longe

cheio de pedra e de areia,

tenho que firmar o passo

e romper essas cadeias.

 

Pergunto, em meu desatino,

aonde ir? Que lugar?

Por que a sina da cigarra

Esparramando o cantar?

 

Certo, sou aquele que parte

numa eterna romaria,

faça sol ou faça chuva,

seja de noite ou de dia.

 

O caminho que percorro

não o da Rosa dos Ventos,

pois ele surge do nada,

de acordo com o momento.

 

Oh que estrada mais comprida,

tanto azul, tanta poeira,

em que plaga do Universo

estará meu Juazeiro?

 

Cada qual tem seu destino:

Pedro Vaqueiro tangia

gado pelo mundo afora;

seu Fortunato fazia

 

forno pra queimar tijolo;

Manezin Tetê, meu tio,

caçava tatu e onça

com o luzeiro dos pavios.

 

Lá me vou com minha cruz,

são poucos beiços de açude

e tantas léguas tiranas.

Maior e vária é esta sede

 

que vale cada passada

desta minha romaria.

Peregrino de mim mesmo

no meio da travessia.

Gênese

Sabe, moça da encruzilhada,
quando te encontrei foi um assombro.
Tu trazias estampada no semblante
a indagação que me acompanha.
O mais espantoso é que também
eras a resposta que sempre busquei.

Não aquela resposta exata, matemática.
A verdade que tua chegada me trouxe
foi a das abelhas zunindo no romper da aurora
em busca do mel das flores das algarobeiras,
foi a dos cavalos galopando na boca da noite
sonhando com touceiras de capim e éguas luzidias.

Ah, moça, tu estás no centro da Rosa dos Ventos,
pra onde deres o passo é caminho o que há.
A gente olha pra cima e não vê limite:
é tudo um azulão que não acaba mais.
Mas basta dá meio-dia, o limite aparece,
e não é longe não: bem na boca do estômago.

Sabe, vou te dar um chapéu do tamanho do céu,
que é pra te proteger dos devaneios solares
e pra que todos te percebam e apontem para ti:
“olha lá a moça que sombreia o mundo”.
E todos vão te olhar e todos vão te aplaudir
e o arco-íris vai ficar preto-e-branco de inveja.

Aí, um passarinho, desses bem miudinhos
que trazem uma sanfona de cento e vinte no peito,
vai aparecer e assobiar uma cantiga doce:
e a gente, espiando bem dentro dos olhos,
começa a sentir um monte de estrelas pipocar.
É isso, quando te encontrei, nasci.


Dois poemas do livro A Terceira Romaria (2005) de José Inácio Vieira de Melo


Toada da despedida

Para Antonia Torreão Herrera

Certo, temos que ir.
E quando damos o passo
muito do que somos fica.
Muito mais seremos.

Inevitável a única certeza:
um dia a Derradeira vai lamber
a tua boca, e já estarás
habitando noutras plagas.

Não te aperreies, é assim mesmo:
a despedida é a véspera do encontro
(e o mundo – que nem peão –
continua no arrodeio, na ladainha).

Amanhã, quiçá, estaremos juntos
nos favos de mel das europas
ou no estrume das vacas leiteiras.
Vamos cumprir as quadras da vida!



Rastros

O poeta traz os segredos da poeira.
Em sua mão pulsa o nó do espanto:
um sorriso bêbado de eternidade:
um poema.



 CIÇO CERQUEIRO

 

O meu é fazer cerca:

cavar buraco, aprumar mourão,

esticar arame com pé de cabra,

apregar grampo nas estacas.

 

Em troca peço pouco:

basta me dar leite azedo,

rapadura, farinha e uma hora

de sombra de pé de pau.

 

Precisa nada mais não!

Me dê coalhada todo dia

que eu cerco o mundo

pros bichos não se perderem.

 

 

SENTIDO

 

Os homens vinham e havia um caminho.

Continuavam, e o prumo os esperava,

e eles seguiam acreditando nisso:

sempre rumar — sempre sempre sempre.

 

Os homens nunca chegavam a algum lugar,

mas iam eternamente em busca de,

pois não queriam nem suportariam

entender a verdade do lugar nenhum.

 

 

EXERCÍCIOS CRÍSTICOS

 

Eu sempre tive o desejo incontinente de salvar o mundo,

sempre escolhi por companhia os que não medem o tempo

e andam para cima e para baixo a praticar cigarras,

os que têm por fortuna o dia todo – todos os dias.

 

Sempre cri ser o redentor de toda miséria humana,

então resolvi me coroar de espinhos

e por trono escolhi o cravejar da cruz,

tenho esse sorriso triste, essa lágrima de sangue.

 

Eu só acredito nas coisas que não vejo

e sinto em cada estrela uma Madalena a luzir,

e mesmo sabendo que Deus não existe

em cada criança percebo a Sua Face esplendorosa.

 

Trago comigo todos os pecados do mundo

e sou o cordeiro imolado que alimenta o delírio,

por isso a glória e a humilhação do vinho:

não é nada fácil ser juiz da própria loucura.

 

 

 

 

MELO, José Inácio Vieira de.  Códigos do silêncio  - 1989-1999.  Salvador: Secretaria da  Cultura e Turismo, Fundação Cultural do Estado, Empresa Gráfica da Bahia, 2000.  82 p.  “José Inácio Vieira de Melo”   Ex. bibl. Antonio Miranda

 

O EXCLUÍDO

 

traje roto

horizonte torto

caminhada incerta

sonho morto

olhos de indignação

lágrimas de dor

onde é o lugar?

chão

          pão

                  educação

 

 

 A POESIA

 

            Para Inácia Rodrigues de Santana

 

 

                A poesia acontece

         ao acendermos a luz

         eu acendo a luz

         tu acendes a luz

 

         e ascendemos.

 

 



 


ANTONIO MIRANDA ENTREVISTA O POETA JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO
durante a FLIPORTO 2010 em Olinda, Pernambuco, 14/11/2010

O poeta baiano nascido em Alagoas fala sobre seu último livro e de sua trajetória poética a Antonio Miranda, para o Portal de Poesia Iberoamericana .

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EXERCÍCIOS CRÍSTICOS - poema de José Inácio Viera de Melo, poeta alagoano residente na Bahia, declamado pelo autor para o Portal de Poesia Iberoamericana - —www.antoniomiraNda.com.br —em video realizado pelo webdesigner Juvenildo Barbosa Moreira, durante a Fliporto - Festival Literário,  Olinda, Pernambuco, 2010.  ´POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

 

DISCURSO PARA INICIADOS, poema do cearense FRANCISCO CARVALHO, na voz do poeta José Inácio Vieira de Melo, gravado para o PORTAL DE POESIA IBEROAMERICANA — www.antoniomiranda.com.br - em video realizado pelo webdesigner Juvenildo Barbosa Moreira, durante a Fliporto - Festival Literário,  Olinda, Pernambuco, 2010.  ´POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

 

VAMPIRO, poema erótico José Inácio Viera de Melo, poeta alagoano residente na Bahia, declamado pelo autor para o Portal de Poesia Iberoamericana - —www.antoniomiraNda.com.br —em video realizado pelo webdesigner Juvenildo Barbosa Moreira, durante a Fliporto - Festival Literário,  Olinda, Pernambuco, 2010.  ´POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA - POESIA ERÓTICA

 

 

OS CANHÕES DO SILÊNCIO, fragmento do poema de JOSÉ CHAGAS, na interpretação  de JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO, gravado pelo webdesignar Juvenildo Barbosa Moreira em Olinda, Pernambuco, durante a FLIPORTO 2010.  POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA.

 



Três poemas do livro Decifração de Abismos (2002) de José Inácio Vieira de Melo

Tradução para o espanhol – Claudina Ramírez,
chilena naturalizada brasileira, professora, psicoterapeuta e advogada. Autora do livro de foto poemas “Asas sobre Salvador” em parceria com o fotógrafo Lauro Lustosa. Participou do Porto da Poesia na VII Bienal do Livro da Bahia.


Epitáfio para Guinevere

Cavalos já foram pombos
de asas de nuvem.
Domingos Carvalho da Silva

Meus cavalos choram por ti, égua de olhos azuis.
Não mais invadirei o vento montado no teu galope.

Que fique inscrito na tua lápide
o verso de lágrimas dos meus cavalos.

Para tu, que trazias os céus dentro dos olhos,
o relinchar da paixão pagã
dos cavalos que trago dentro de mim.


Epitafio para guinevere

Cavallos ya fueron palomas
 de alas de nubes
Domingos Carvalho da Silva

Mis caballos lloran por ti, yegua de ojos azules.
Nunca más invadiré el viento montado en tu galope.

Que quede inscrito en tu lápide
el verso de lágrimas de mis caballos.

Para ti, que traías los cielos adentro de los ojos,
el relinchar de la pasión pagana
de los caballos que traigo adentro de mí.



Sentido

Os homens vinham e havia um caminho.
Continuavam, e o prumo os esperava,
e eles seguiam acreditando nisso:
sempre rumar – sempre sempre sempre.

Os homens nunca chegavam a algum lugar,
mas iam eternamente em busca de,
pois não queriam nem suportariam
entender a verdade do lugar nenhum.


Sentido

Los hombres venían y había un camino.
Continuaban, y la brújula los esperaba,
y ellos seguían creyendo en eso:
siempre  rumbear – siempre siempre siempre.

Los hombres nunca llegaban a algún lugar
pero iban eternamente en busca de,
pues no querían ni soportarían
entender la verdad del lugar ninguno.



A morte promete jardins

Este teu brilho de agora
são cacos – rastros errantes
que persistem na busca inútil
da tua primeira semente.

Este teu brilho de agora
é a sombra do que foste,
e se ainda és girassol celeste
é que a morte promete jardins.


La muerte promete jardines

Este tu brillo de ahora
son trozos – rastros errantes
que persisten en la busca inútil
de tu primera semilla.

Este tu brillo de ahora                           
es la sombra de lo que fuiste
y si todavía eres girasol celeste
es que la muerte promete jardines.

 

VIDAS SECAS
Poema de José Inácio Vieira de Melo
na voz do autor

http://www.youtube.com/watch?v=XFUavpVKrRQ

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CONTINUAÇÃO DA BIOGRAFIA DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO:

 

Coordenador e curador de vários eventos literários, como o Porto da Poesia, na VII Bienal do Livro da Bahia (2005) e a Praça de Cordel e Poesia, na 9ª Bienal do Livro da Bahia (2009), assim como os projetos A Voz do Poeta (2001) e Poesia na Boca da Noite (2004 a 2007), ambos em Salvador. Atualmente coordena o projeto Travessia das Palavras, em Jequié e é curador do projeto Uma Prosa Sobre Versos, em Maracás.

Foi co-editor da revista de arte, crítica e literatura Iararana, de 2004 a 2008. É colunista do site Cronópios e edita o blog Cavaleiro de Fogo (www.jivmcavaleirodefogo.blogspot.com). Venceu o Prêmio Nacional Iararana de Poesia 2001/2002 e o Concurso de Fotografia e Poesia Vila d’Água 2009.

 

ROSEIRAL - O MUNDO ENCARNADO PELA SEIVA DAS ROSAS ESCARLATES

 

Quinto livro de poemas de JIVM, Roseiral conta com ilustrações do artista plástico carioca Daniel Biléu e com o ensaio “O poeta que monta o Sertão é o mesmo que pisa na Lua”, de Eliana Mara Chiossi, escritora paulista radicada na Bahia. No ensaio, que fica no posfácio, Eliana Mara atenta para a mudança de tom deste novo trabalho em relação aos livros anteriores: “Posto que decide dar um salto, JIVM mostra a coragem de assumir outra dicção. Ele avança, resoluto, ainda que esteja temeroso quanto ao escuro e ao vazio, em busca de outra vertente, na própria voz autoral.”

A contracapa traz texto da poeta Myriam Fraga, que assim definiu a poesia de Roseiral: “O que mais espanta em José Inácio Vieira de Melo é a extrema vitalidade de sua poesia. Uma poesia telúrica e carnal. Visceralmente ligada ao cotidiano, transfigurada pelo mistério que parece emergir das coisas mais simples. Uma poesia que nasce no sertão e se abre para o mundo”.

Outras duas grandes poetas brasileiras aparecem no Roseiral: a baiana Maria da Conceição Paranhos e a amazonense Astrid Cabral. A primeira, com um belíssimo soneto dedicado ao autor. Astrid, com o texto das orelhas, no qual afirma: “Abrangendo múltiplos temas nas cinco partes em que se compõe, e recorrendo a diversas formas poéticas, este novo livro de José Inácio Vieira de Melo reafirma-lhe o vigoroso perfil com que conquistou a admiração dos leitores neste país.”

Roseiral, obra que inaugura um novo momento na poética do Cavaleiro de Fogo, é composto por 42 poemas inéditos divididos em cinco capítulos: “A idade da pedra”, “Roseiral”, “Odisseia”, “A calçada dos meus quinze anos” e “A casa dos meus quarenta anos”. Sem perder as características que lhe são peculiares, o poeta muda de tom e passa a ser mais incisivo na abordagem dos assuntos, não importando se eróticos ou familiares (“A calçada dos meus quinze anos”). E, da mesma maneira que passa a experimentar mais – visitando o realismo mágico e buscando novas combinações semânticas (“Roseiral” e “Odisseia”) – frequenta as formas fixas, com ênfase no soneto branco (“Roseiral” e “A idade da pedra”). O último capítulo, “A casa dos meus quarenta anos”, composto apenas por um poema homônimo de longo fôlego, é a ponte entre a produção anterior de JIVM e esse Roseiral ardente que traz o sugestivo subtítulo de “O mundo encarnado pela seiva das rosas escarlates”.

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TEXTOS EM ITALIANO E EM PORTUGUêS

 

 

Cantiga per Leonardo

 

Leonardo,

il sorriso delia tua musa mi indaga

come una daga que colpisce la cicatrice.

Ho cercato di decifrare quella donna

nelle figlie delle figlie delle tue figlie,

italie che diventarono brasili

e dettero un volto ai nuovo mondo.

 

E in loro tutte,

da ogni angolo,

in ogni abbozzo di sorriso,

nell'esplosione delia risata

o nei gemiti del piacere,

era onnipresente

l'enigma di Monna Lisa.

 

E con i loro stendardi ho cucito

la coperta che mi avvolge,

che mi commuove e mistrappa

e sfilano tutte

sulla passerella di questa poesia

inaugurando le forme dei bello:

 

Soglia, Bompard, Buffone,

Mariniello, Degino, Michelli,

Morbeck, Ranieri, Pizanni,

ecco gli stemmi indicati

dal mio pugnale di Alagoas.

 

Leonardo, uomo vitruviano,

son rinato sugli accordi delia tua lira d'argento,

mi nutrii alle mammelle della lupa

per poter respirare la Via Lattea:

 

Romolo e Remo sono figli miei

che galoppano insieme a me e aspettano

altre grazie, altri nomi

che suonano sempre il primordiale

Romolo e Remo - miei ancestrali.

 

Leonardo, genio della razza,

in quale costellazione sei?

Dove brilla la tua lampada meravigliosa?

Mostra le rinque punte della tua stella!

Inventa subito, col tuo ingegno,

un pavão misteryozo1,

una macchina che mi porti via

verso il regno degli incanti:

 

una Sicília dove la regina

sia Cecília Meireles,

discendente di Monna Lisa,

che cammina sulle acque

dello Stretto di Messina

offrendo la grazia maggiore

della poesia.

 

' N.d.T. Si tratta di una allusione ad uno dei piü celebri libretti della letteratura popolare dei Nordest dei Brasile, Pavão Misteryozo di José Camelo de Rezende. Il pavone del libro, immaginato in un época in cui non esistevano ancora gli aerei, era una macchina ingegnosa che volava. Il testo fu musicato negli anni '70 dal cantautore Ednardo.

 

 

 

Cantiga para Leonardo

 

    José Inácio Vieira de Melo

 

Leonardo,

o sorriso da tua musa me indaga

como uma adaga que fere a cicatriz.

Busquei decifrar essa mulher

nas filhas das filhas das tuas filhas,

itálias que se fizeram brasis

e deram face ao novo mundo.

E em todas elas,

de todos os ângulos,

em cada esboço de sorriso,

no estardalhaço da gargalhada

ou nos gemidos do gozo,

estava onipresente

o enigma da Mona Lisa.

 

E com seus estandartes costurei

a colcha que me envolve,

que me comove e me retalha

e desfilam todas

na passarela deste poema

a inaugurar as formas do belo:

 

Soglia, Bompard, Buffone,

Mariniello, Degino, Michelli,

Morbeck, Ranieri, Pizanni,

eis os brasões assinalados

por meu punhal alagoano.

 

Leonardo, homem vitruviano,

renasci nos acordes da tua lira de prata,

mamei nas tetas da loba

para poder respirar a Via Láctea:

 

Rômulo e Remo são meus filhos

que galopam comigo e atendem

por outras graças, por outros nomes

que soam sempre o primordial

Rômulo e Remo - meus ancestrais.

 

Leonardo, gênio da raça,

em que constelação estás?

Onde brilha a tua lâmpada maravilhosa?

Mostra as cinco pontas da tua estrela!

Inventa logo, com teu engenho,

um pavão misteryozo,

uma máquina que me leve daqui

para o reino dos encantos:

 

uma Sicília onde a rainha

seja Cecília Meireles,

tataraneta da Mona Lisa,

que anda sobre as águas

do Estreito de Messina

oferecendo a graça maior

da poesia.


 

 

 




 

 

 
 
 
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