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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




Canto 53 -   A Língua

Canto 54 -   Raças e Cores

Canto 55 -   Raízes do Brasil

Canto 56 -   Pernambucanidade

Canto 57 –   O Fator de União Nacional

Canto 58 -   Casa-Grande

Canto 59 -   Pátria Mãe Gentil

Canto 60 -   O Homem Cordial Revisitado

Canto 61 -   Da/De Formação

Canto 62 -   Data Venia

Canto 63 -   Do Sangue e da Terra

Canto 64 -   Brasilidades

Canto 65 -   Antes de tudo um forte?!

Canto 66 -   Mobilidade Social

Canto 67 -   Minorias

Canto 68 -   Por que me ufano

Canto 69 -   O Boi

Canto 70 -   Boi-Brasil

Canto 71 -   Carnavais

Canto 72 -   O Bode Santo

Canto 73 -   O Corpo Santo

Canto 74 -   Arte Barroca

Canto 75 -   Bordados e Labirintos

Canto 76 -   Com Menotti del Picchia

Canto 77 -   Os Pilotis

Canto 78 -   Havia
Canto 79 -   Tupy or not Tupy

Canto 80 -   Antropofagias

Canto 81 -   Verdades Oficiais

Canto 82 -   Prá não dizer que não falei

Canto 83 -   País de/do Futuro

Canto 84 -   Brasil no Microscópio

Canto 85 -   Teleologismos (Súmula)

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Canto 53

 

A LÍNGUA

     

     

           “Última flor do Lácio, inculta e bela,

            És, a um tempo, esplendor e sepultura”.

                                        OLAVO BILAC

 

São muitas as línguas do Brasil

— línguas próprias e línguas transplantadas.

 

As próprias, plantadas nas florestas

como raízes profundas de povos

confinados, esquecidos de suas origens:

quase autóctones

quase endêmicas.

 

São muitas as línguas do Brasil

(mesmo não sendo oficiais)

todas climatizadas, tropicalizadas

transformadas pela luz e pelas cores

miscigenadas, com ressábios

de todos os quadrantes e sextantes

(do local e do oriental)

— línguas tatuadas na imensa geografia

por entradas e bandeiras, sesmarias,

pela evangelização e pela escravidão,

pelas várzeas e montanhas, rios

a jusante, pelos sertões e praias

dos chegantes.

 

Língua mestiça, híbrida

— até mesmo castiça

e nunca, mesmo que se queira

(nunca!) a derradeira flor do Lácio.

 

O Português como base de enxertias

como substrato em recomposição,

um suporte, um veículo

de comunicação e comunhão;

sujeita a todas as injunções

e influências vivas

transfronteiras.

 

Na sua diversidade,

nas suas falas e acentos,

nos seus sotaques e polissemias

regionais, é aglutinadora

e, por seu efeito contraditório,

unificadora e pangeográfica.

 

A língua é a pátria brasileira.

 

A geografia do Brasil é a língua

expandida e assentada

ampliando e demarcando

fronteiras.

 

Sotaques chiados, arrastados

sincopados,

falares e dizeres

que comem sons, sílabas, significados

que confundem

mas que se lê nas entrelinhas

se entende nas intenções

nas cadências e malemolências,

gesticulações, arcaísmos,

gírias renovadoras,

estrangeirismos enraizados,

neologismos criativos, sofisticados

nas segundas intenções

nas ausências e permanências

em transfigurações semânticas

e rupturas gramaticais

nas transgressões ortográficas

lexicais.

 

Uma língua com muitas bocas

muitos dentes

antropofágica

antropocêntrica

antropológica

língua com fome, com resíduos

corrosiva

reciclada

aberta e inconclusa

indicionarizável

com acentos demais

que é mais falada do que lida

que é mais ouvida do que escrita

que é ensimesmada e circunscrita.

 

A língua é a pátria que a gente

leva a todo lugar

como identidade

familiar, como um canto de pássaro

de arribação

fazendo reconhecimentos.

 

Não tem sexo nem tem cor

nem idade apesar de tudo isso

e muito mais

— que iguala os desiguais

ou, por antítese, desnivela

porque a língua tem classes

e níveis sociais.

 

Pátria interior, de diálogos silentes

ou de discursos eloquentes.

 

Também escrevo de ouvido

pelo eco das palavras interiores

reverberando significados e ritmos

inteligíveis.

 

Sentindo a força das palavras

na gradação dos sentimentos

pelas nuanças do pensamento

que me fala e me constrói.

 

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Canto 54

 

RAÇAS E CORES

  

No Brasil, Senhor, não há raças

há cores, tonalidades

 

todos os matizes

numa hierarquia de cores, de classes

 

— preconceito, sim

(em casa, velado na rua)

segregação, nem tanto —

 

no processo de embranquecimento.

 

Raça, só dos animais inferiores.

 

Uma mestiçagem devoradora

— cruzamentos

até ao infinito.

 

Uma nova etnia

fundindo ressentimentos

— da escravatura

— dos desterros

— das imigrações

em que se aprende

a dormir em rede,

a despir-se,

em que o dendê e a pimenta

não são mais privilégio de índios e africanos.

 

A luta é entre o arcaico

e o moderno

entre o patriarcal

e o comunitário porque

negros, índios e mestiços

continuam pobres.

 

 

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Canto 55 

 

RAÍZES DO BRASIL

  

     “Somos... uns desterrados em nossa terra”.

              SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA

 

Nossas raízes são aéreas, expostas

como chagas lamurientas,

como pragas deletérias,

matérias superpostas.

 

Raízes epífitas

de vegetais transplantados

ou talvez parasitas

implantados em pau-brasil

e seringueiras

ou em quase-eternas aroeiras.

 

Aventureiros buscando o ouro

fácil: não vieram trabalhar

— que o mourejar é de mouro...

querendo extrair do solo excessivo

benefício sem maior sacrifício.

 

Ocupando terras virgens

(queimando-as, poluindo-as)

numa ação predatória

imune de responsabilidades;

numa extração destruidora

(impune!) de minerais finitos.

 

Busca-se um emprego nulo

já que o chulo trabalho

é para o escravo

(ainda que assalariado):

o ócio importa mais

que o negócio”.

 

Não deve haver patriotismo

em semelhante empresa,

embora haja ufanismo

combinado — sem surpresa —

com um certo pessimismo.

 

Em se plantando, tudo dá.

ou daria, num futurismo

(Brasil, país do futuro

dizia Stephan Sweig)

que contraria (ou adia)

o nosso assumido positivismo.

 

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Canto 56 

PERNAMBUCANIDADE
 

      “Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando,

       pois esta é a licença e liberdade que tem quem não pede favor

       senão justiça.”  Pe. ANTÔNIO VIEIRA  

I

Um modo de ser, de inconformação

e rebeldia – a pernambucanidade.

 

Nascida da luta contra o flamengo

em que o vencido é depois reverenciado:

 

a Mauritssadt dos armadores das Índias Ocidentais

dos casarões debruçados sobre os canais aquáticos.

 

Maurício de Nassau redivivo e totemizado

entrando no ser altivo do pernambucano.

 

No outeiro de Olinda, aquartelados

os revoltosos e os catequisadores.

 

A alma sedenta, sediça, insaciável

na ânsia de justiça e liberdade.

 

Um estado-maior que se espraia

por sertões e mares fronteiriços.

 

Numa regionalidade mais ampla

e sobranceira, universal e brasileira.


 

II

Do provincianismo de Gilberto Freyre conseguimos

enxergar e interpretar a própria nacionalidade.

 

Diz-se que a unidade brasileira nasceu

e firmou-se nas batalhas dos Guararapes.

 

Ou na Guerra dos Mascates, dos alfaiates,

das lutas sociais de um povo antes de ser nação.

 

Gente guerreira  — as três raças irmanadas —

plantaram sementes de revoluções libertárias.

 

Revolução Republicana de l817

Confederação do Equador de 1824.

 

Tantas outras, heroicas, idealistas, liberais

 — as revoltas populares, levantes, protestos.

 

História e revolução estão gravadas nos azulejos

e nas paredes e nas pontes e igrejas do Recife.

 

Espírito de rebelião aceso, polemista, panfletário!

Frei Caneca, o abolicionista Nabuco, o insurgente Julião.

 

 

III

Sertão adentro, dos canaviais à caatinga

Pernambuco é estirão da mata ao agreste.

 

Cabra-da-peste xerófito e também atávico

no seu degredo de morte e vida severina.

 

De outras guerras, romarias e cangaços

nas trilhas cáusticas dos tantos retirantes.

 

Imprecações, blasfêmias, queixas, heresias

nas procissões silenciosas de povos errantes.

 

Nas fantasias salvadoristas dos cordéis

nas profecias apocalípticas, enredos medievais.

 

Um certo fatalismo de acentos telúricos

e um libelo pela ingratidão de Deus.

 

Consequente, o sermão do padre Antônio Vieira

é vidente, combativo, irreverente, comandante:

 

Tão presumido venho de vossa misericórdia, Deus

meu, que ainda que nós somos os pecadores,

 

vós haveis de ser o arrependido”.  Vieira

ensandecido, cobra a conversão e a remissão

 

divinas.

 

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Canto 57

 

O FATOR DE UNIÃO NACIONAL

 

      “E fizeram filhos nas senhoras e nas escravas”.

                               OSWALD DE ANDRADE

 

Gilberto Freyre garante

com farta e firme documentação

que a unidade brasileira se deu

antes pela religião

que pela língua.

 

Pode ser.

Ou não.

 

Se pelo número de igrejas:

a nação mais católica...

Pela catequese e reduções de índios

e escravos. Cristãos-novos, conversões.

Pelo exclusivismo religioso

pela Santa Inquisição.

 

Nem tanto pela devoção.

 

Uma relação promíscua com o santo

familiar, a quem se pedia tanto

e se punia e blasfemava

quando nada acontecia...

 

Santos afogados, emborcados, enterrados...

 

Escapulários e figas-de-guiné

— um certo ou incerto fetichismo

(animismo e até animalismo)

mesclado ao culto de Deus

e nossa paixão pelo Encarnado

num sincretismo de terreiro

e pajelança.

 

Se estamos de passagem

para onde é que vamos?

Melhor perguntar, de onde

viemos. Esse messianismo

sem Deus: injustiça na terra

como no Céu.

 

O que uniu o Brasil foi

o misticismo ou a mestiçagem?

 

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Canto 58

 

CASA-GRANDE

 

      “onde melhor se exprimiu o caráter brasileiro”.

                                        GILBERTO FREYRE

 

Lembranças atávicas, ancestres

de que viemos (desmemórias)

por gerações e degenerações

sofremos — inglória —

perdida história

que não vivemos.

 

A casa impávida erguida

como fortaleza sobranceira

como claustro, protegida

da devassa, da senzala

em que se extravasa

o senhor feudal

transfigurado e libertino.

 

Um gosto de mando

de um despótico prazer

de possuir e usufruir

— origem de todo nepotismo

e de qualquer coronelismo.

 

Os bisavós na parede,

bisonhos, emoldurados

em relicários, com santos

e escapulários.

 

Cidadela mais importante

que a capela – seu prolongamento.

 

Parentela, agregados, serventias

pelos engenhos-de-cana

pelos cafezais enobrecidos

pelo tabaco curtido

o senhor e sua sesmaria

da mãe-índia — gentia — cunhã,

de negra possuída e grávida,

de terra escrava e cultivada

na manhã de nossa origem.

 

Os mortos enterrados no pátio

no adro da capela

prantos mantos encantados

nos quartos das virgens

infensas aos pecados.

 

Agora, séculos passados, são

mansões avarandadas

ainda patriarcais

detrás de grades graves

amuralhadas, senhoriais.

 

 

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Canto  59

 

PÁTRIA MÃE GENTIL

  

I

A nossa tão propalada

— decantada em prosa e verso –

cordialidade

de onde vem?

 

Quem primeiro observou

tão controverso entendimento

e registrou tão ínclito dom?

 

 

II

Pedro Álvares Cabral encantou-se

com a hospitalidade dos naturais

da terra nova;

Jean de Lévy considerou-os cordiais

(os tupinambás)

 por viverem em paz

(não obstante o canibalismo...).

 

A cordialidade certamente

vem da terra dadivosa

(bastante)

suficiente para alimentar aquela gente

e torná-la feliz:

um povo errante

migrando sempre para “sentir-se melhor”

porque a terra era livre

da propriedade.

 

 

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Canto 60

 

O HOMEM CORDIAL REVISITADO

  

           Não existe, entre o círculo familiar

            e o Estado, uma gradação

            mas antes uma descontinuidade

            e até uma oposição”.

                     SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA

 

 

Um mito, ou um hito.

 

Não sei de onde vem

ou quem disseminou

a aleivosia

melhor seria

uma crendice

e não uma constatação.

 

Sei não. Sei lá!

 

Valores apregoados

— a generosidade, a hospitalidade

um caráter benévolo —

de onde vêm?

— talvez da casa

e não da sociedade

e na cidade se diluem.

 

Cordialidade sem formalismo

nada ritual e sem convencionalismo

— ou seria visceral

sem a polidez do japonês

e a fleuma estéril britânica

oposta à vulcânica expressividade

mediterrânea.

 

Estar sempre “muito obrigado”.

 

Fazendo “reverência prolongada

ante um superior” até conquistar-lhe

a deferência

como haveríamos de supor

na intimidade.

 

Porque amamos as referências

particularizantes,

os privilégios

e os jeitinhos,

a espontaneidade.

 

Isso: cultivamos os diminutivos

como forma de carinho

e familiaridade

no nosso projeto de aproximação

com as pessoas

e com o objeto.

 

Uma certa promiscuidade

de relacionamento.

 

Um comportamento

complacente, levado

à conformidade. Tudo bem...

 

Preferimos o nome de batismo

ao sobrenome de família,

sobressaindo o indivíduo:

Fernando Henrique

e nunca o Cardoso ubíquo

e até mesmo o apelido:

Lula, Chico, Zé.

 

Amizade como condição

de convivência e mesmo

dos negócios.

 

Ter adversários

mas, inimigos, jamais.

 

Gente de pouca devoção

nada solene, avessa ao cerimonial

(quebrando hierarquias e protocolos)

pouco dada ao fanatismo

e sem maiores convicções.

 

Avessa ao culto da autoridade

e dos heróis nacionais,

infensa ao idolatrismo,

mas apegada ao bacharelismo

e ao “você-sabe-com-quem-está-falando”

nas relações sociais.

 

Ínclitos praticantes da miscigenação

transcendendo as barreiras raciais

sem, contudo, superá-las.

 

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Canto 61

 

DA/DE FORMAÇÃO

 

               “fundamento da boa ordem baseada na natural

                e necessária desigualdade entre os homens”

                    ISTVÁM JANCSÓ e JOÃO PAULO G. PIMENTA

                 

 

Onde o Brasil? Pergunta Drummond

no estranhamento mineiro do poeta

— mais que gauche, um desigual.

 

Somos iguais na desigualdade

— ludovicenses, pernambucanos, paulistas —

povos ligados à coroa

antes que à nação.

 

Onde o Brasil, se aqui estamos

antes de sermos:

nosso pertencimento

vem de povos circunscritos

mas sem lugar para os nativismos

e independentismos.

 

De onde viemos? O que somos?

Responde Ab´Sáber: paleoíndios

nômades ameríndios

— de alóctones a autóctones

 

arqueologias, genealogias milenárias

pelas eliminações étnicas trágicas,

por miscigenações infinitas

 

todos os estoques raciais do mundo:

mongolóides, caucásicos, negróides.

 

Dos tupi-guaranis aos europeus

transplantados, degradados

no confronto incontornável

e pela assimilação

inconsútil.

 

Que me quer o Brasil que me persegue?”

— pergunta Gregório de Mattos Guerra

vendo reinóis e colonos promíscuos

procriando-se

interracializando-se

desde o Achamento

da terra nova:

entre o conquistador

e o gentio.

 

E recorde-se:

os mamelucos são a pior casta

de gente de todo o Brasil

(Relatório Cearense à Coroa, 1724).

 

Gente de “qualidade de sangue

desconhecida

bastardos, não bastasse

a grande liberdade

com que vivem”.

 

E “que não se tome e recebão

para Religiosos pessoa

que tenha raça de mestiço

no Mosteiro de São Bento

(Bahia, 1602).

 

Terra de papagaios

 

dos brancos quase negros

dos negros quase brancos

 

mulatos insolentes

desejando ser fidalgos

 

e onde

todo aquele que he branco de cor

entende estar fora da esfera vulgar

arremata Loreto Couto (1757).

 

Trabalho é coisa de negros.

 

Para o espanto

de Thomas Lindley (1805)

ao ver o criado conversando com o seu senhor

de igual para igual

discutindo suas ordens

sendo “aceito pelo senhor

e “essa atitude se estende aos mulatos

e até aos negros”...

 

Comum povo livre e não sujeito

conclui Fernão Lopes

numa formação de raras rupturas

e confrontos.

 

Essa arraia-miúda rediviva

esta “gente [remanescente]

da terra braziliense de naszão

— as pátrias são as províncias

a Nação, a Monarquia —

recebe a Corte e depois a Independência

sem “qualquer merecimento”.

 

E chegamos ao paroxismo:

É da maior necessidade ir acabando

tanta heterogeneidade”, e

combinar sabiamente tantos elementos

discordes e contrários

e em amalgamar tantos metais diversos

para que saia um Todo homogêneo e compacto

(José Bonifácio de Andrada e Silva)

mesmo que num contexto escravagista

já que somos iguais, mas diferenciados.

 

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Canto 62 

DATA VENIA

 

discursos empolados

numa eloquência vazia

 

palavras edulcoradas,

verborreia filigramática

 

uma solene oratória

de retórica burocrática

 

de uma superioridade anelar

bacharelesca e autárquica

 

de onde sobrevém o papelório

de quem aspira ao cartório

 

resolvendo tudo por decreto

(ou por medida provisória)

 

pela lei enviesada e torta

eivada de circunlóquios

 

fazendo tábua rasa de tudo

— de tudo que é precedente

 

para ir ao “finalmente”

de uma certa descontinuidade.

 

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Canto 63

 

DO SANGUE E DA TERRA

 

        “O brasileiro  mostra espiritual e animicamente

          a frondosidade da flora brasileira”.

                        CONDE DE KEYSERLING

 

O Conde de Keyserling via no brasileiro

um ser magnânimo,

frondoso e vicejante como a flora circundante

carecendo de rudeza

mesmo em sua rusticidade.

 

O Conde de Keyserling

percebeu e interpretou

a contradição e a polarização

— contrários em comunhão? —

de nosso positivismo

(anímico e antimetafísico)

com o nosso saudosismo

e um certo romantismo...

num morrer e renascer

ruminante e consequente.

 

Nunca seríamos mesquinhos

nem limitados.

Teríamos sempre um encanto,

um verniz...

 

Nossa geografia é ampla

e sem ameaça

— razão da estabilidade da raça

na conformidade das misturas.

 

Um ambiente afrodisíaco

propício ao acasalamento

livrou-nos de preconceitos

[além de certos preceitos

mais sociais que raciais...

(mesmo sem pasteurizar-nos

e sim, amalgamar-nos?)]

na aceitação da terra

e de seu povoamento.

 

O Conde de Keyserling via

na junção de negros, índios,

brancos numa europeização definitiva...

 

O Brasil seria cada vez mais branco

ainda que no arco-íris de sua mutação.

 

(O francês estranha um oriental

falando português...

mas o nissei e o sansei

não sei se sentem alguma diferença.

 

Quem melhor entendeu

a condição do brasileiro

foi a imigração ianque

ao carimbar o passaporte

do negro e do oriental brasileiro:

— todos são latinos.)

 

O Conde de Keyserling

estranhou o sentido de justiça

do povo brasileiro:

avançado, vanguardista

no Direito Internacional

mas – paradoxal!!!- mais

na percepção da forma do direito

do que no sentimento de justiça.

 

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Canto 64 

 

BRASILIDADES

 

I

O povo da terra é de mui variada

textura e feitura,

de todas as alturas e conformidades

— impossível dizer de que raça são

senão que compõem misturas

e composturas variegadas,

híbridas, cruzadas.

 

Bonitas, as mulheres

(e também os homens)

algo mestiças

mesmo as que parecem brancas

ou negras ou amarelas

porque algo as identifica

na diversidade.

 

 

II

No porto da Bahia, os sorrisos são largos

e os movimentos dançantes

como palmeiras flamejantes,

são hospitaleiros, alegres, comunicativos

menos tímidos que os de África

(parece que vieram de lá,

mas aqui é que miscigenaram)

e andam seminus.

 

A arquitetura antiga é de um barroco

tardio, com adornos de cajus em vez de uvas

talhados gracilmente em pedras e madeiras.

São tantas as igrejas  e seus estilos

mas andam vazias

mais gente há nas escadarias, nos átrios

nas proximidades do que dentro delas

e praticam alguma forma

de sincretismo religioso

(que a gente da terra nem percebe)

sem maiores conflitos.

 

A ocupação batava dos séculos 16 e 17

resume-se a uma fortaleza de pedra

e a uns olhos acaramelados

a umas mechas douradas

de alguns descendentes

(mas eles não sabem disso).

 

Fácil é ver as raízes ultramarinas

portuguesas e africanas

na indumentária, na culinária

nos costumes indígenas

mas tudo entrelaçado

e devidamente aclimatado.

 

 

III

Em Pernambuco todos são holandeses

mesmo os negros e os mamelucos

se não na pele, no orgulho

e na postura intelectual.

 

No outeiro de Olinda os sinos rompem os séculos

de sua colonização

enquanto em Recife — a Veneza americana —

continuam os mascates, os mouros

e toda a gente de pele de cobre e azinhavre

como caranguejos no mangue.

 

Mais que o mar que é detido pelos arrecifes

impressiona o mar dos canaviais estendidos

devorando toda terra plana ou ondulada

até as bordas do agreste.

 

 

IV

Só a caatinga cinza e espinhenta

detém a cana e seu latifúndio

expandindo-se em miséria e insolação

na direção das Alagoas, do Sergipe

da Bahia e Paraíba

na direção do São Francisco

e depois delas

até às entranhas do Ceará

e mesmo no Piauí.

 

De comum, a seca e o bode,

a pele curtida pelo sol inclemente,

a fome e a crença nos elementos,

o mandacaru.

 

Por aqui andaram Antônio Conselheiro

o padre Cícero Romão e o famigerado Lampião

a Coluna Prestes

 

O sertanejo é antes de tudo um forte

(garante Euclides da Cunha)

comendo raízes e bebendo do sereno escasso.

 

Retirantes, esmoleres e pedintes,  vaqueiros de gibão,

penitentes, romeiros, vendedores ambulantes,

poetas errantes, religiosos, repentistas.

 

 

V

O sebastianismo continua vivo

no pensamento figurado

oposto ao pensamento letrado

do litoral.

 

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Canto 65

 

ANTES DE TUDO UM FORTE?!

 

Euclides da Cunha achava o mestiço

“um decaído”, “um mutilado”

que reúne o pior de duas raças...

“sem a energia física dos ascendentes selvagens,

sem a altitude intelectual dos ancestrais superiores”!!!

 

Nunca a melhor qualidade dos dois!

 

Feridos pela fatalidade das leis biológicas”,

condenados à degeneração

e à inferioridade...

 

Incapaz de solidarizar-se

com qualquer de suas origens.

Sem a capacidade abstrata

com “uma moralidade rudimentar”.

 

Para ele, o mestiço é um intruso

dispensivo e dissolvente

sem caracteres próprios

com tendência à regressão

às raízes matrizes

daí sua instabilidade...

 

O mulato despreza o negro

e tenta embranquecer-se...

O mameluco faz-se bandeirante

e vai dizimar os índios...

 

Para ele, “são invioláveis as leis

do desenvolvimento das espécies

e a parte “superior” do mestiço

tende a restaurar-se...

 

E completa, inexorável, sua razão:

Quando “a raça forte não destrói pelas armas,

esmaga-a pela civilização”...

 

Salva-se da degeneração, o sertanejo

— que “é um retrógrado, não é um degenerado

de uma raça cruzada que surge autônoma

e de algum modo original

adaptada ao meio

e capaz de alcançar a vida civilizada...

 

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Canto 66 

 

MOBILIDADE SOCIAL

 

os brancos das casas-grandes

e os negros das senzalas

 

os brancos dos sobrados

e os mulatos dos mocambos

 

os brancos dos palacetes

e os caboclos das palafitas

 

os brancos dos edifícios

e os mestiços das favelas

 

os ricos em suas mansões

e os pobres nos cortiços

 

numa maneira europeia

de viver e receber

 

noutra o estilo africano

ou indígena de convívio

 

enquanto a miscigenação

vai “amaciando” os antagonismos.

 

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Canto 67

 

MINORIAS

 

Minorias? Negros são minorias

—  com ou sem alforrias?

 

Mulheres são minorias?

Índios, talvez...

 

Homossexuais.

Cientistas.

Oculistas.

Umbandistas.

 

Minorias na corte

são as que oprimem

as maiorias – os pobres,

os deserdados da sorte.

 

Uma minoria todo-poderosa

com uma maioria esfarrapada

com os caminhos fechados

no (des)entendimento

das teses de Florestan Fernandes.

 

 

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Canto 68

 

POR QUE ME UFANO

 

O conde Affonso Celso louvou

sem modéstia e sem medida

as grandezas do Brasil

sem considerar as mazelas.

 

A superioridade territorial

é mesmo proverbial:

Canadá, Estados Unidos,

Rússia e China

— uns ricos, outros pobres —

não o são por dimensão,

e menos pela enormidade,

muito menos pela densidade

da população.

 

Não há país mais belo que o Brasil

mesmo sendo “inculto e selvagem”

“faz vantagem nos campos elísios,

hortos pênseis e ilha de Atlanta

disse o jesuíta Simão de Vasconcelos

comparando o sim com o não

ou então, apelando ao Rocha Pitta:

em cuja superfície tudo são

montanhas e costas tudo são aromas”

“em cuja superfície tudo são frutas

em cujo centro tudo são tesouros

— as águas as mais puras

salubérrimo o ar

onde sempre é verão.

 

     “Nosso céu tem mais estrelas

       Nossas várzeas têm mais flores,

       Nossos bosques têm mais vida,

       Nossa vida mais amores”

          (Gonçalves Dias)

 

Tais primores, incontáveis, indizíveis,

mundo de aprazíveis excelsitudes  

garante o patriota Celso, tudo

sempre o maior do mundo!

 

A começar pelo Amazonas

(que só é batizado em território nacional)

e culminando no Corcovado

com “panorama surpreendente, único

e não poderia ser diferente...

 

Minas de ouro e jazidas diamantinas

um imenso escrínio de gemas”

“até a poeira dos caminhos é aurífera

sem falar das riquezas naturais

e dos valores sobrenaturais

e mais e mais!

 

Nunca foi vencido, jamais foi humilhado!

Expulsou franceses, batavos e ingleses

sempre garrido, de peito inflado.

 

Em resumo, tudo nos favoreceu

e nada nos ameaça

nem vulcões, nem terremotos

temos jaça, temos raça

(e agora, até taça!)

sem preconceitos, privilegiados.

 

Há, pois, em ser brasileiro,

o gozo de um benefício”

uma vantagem

“uma superioridade

e “nenhum perigo inevitável

ameaça o desenvolvimento

do Brasil”.

 

Exceção ao malefício

dos maus governos

e fraqueza das instituições

republicanas.

 

Mas Deus “não nos abandonará

garante o conde e nos

reserva alevantados destinos

— quando e onde? “Confiemos”.

 

 

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Canto 69

 

O BOI

 

 

        Mas a verdade é que o boi

        nunca morre totalmente.”

                BUENO DE RIVERA

 

o boi está na paisagem

e no nosso inconsciente

 

somos bois em sacrifício

bois em peregrinação

 

boi ultramarino, mais que mítico

importado, inseminado

 

mesmo no Bumba-meu-boi

dos autos de nossa tauromaquia

 

Boi Bento, boi-de-mamão

boi de presépio

há tantos bois quanto gente

e  se cachorro também é gente

por que não o seria

o boi? pois ele corre

em nossa veias

ancestrais.

 

Boi ou vaca sagrada

— Ápis, Minotauro, Esfinge

universal e expiatória, zodiacal —

na retaliação profanadora,

na ritualização

de El Rey Dom Sebastião.

 

E sem derramamento de sangue

não há remissão: está no Hebreus

no Levítico — onde o novilho no altar

vertendo sangue, purifica

e santifica.

 

O boi na paisagem é

a imagem de Deus.

 

O boi precisa morrer

para ressurgir o Rei

com sua corte.

 

É o triunfo da vida sobre a morte:

a morte não existe

no pasto em que os bois se reproduzem

vivificando a morte.

 

Deyxem por morto,

vos reconheço vivo

ou morte prenhe de vida

no nosso sebastianismo

— paradoxo que tomo emprestado

de meu amigo Pedro Braga

que entende de alumbramentos

e ressurreições.
 

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Canto 70 

BOI-BRASIL

 

I

Boi de presépio, de rodízio

na terra adubada

e transformada em pasto

no ciclo da vida

de nossa vacunofagia

e tauromaquia:

boi-essência dos homens-bois

pantaneiros, pampeiros

marajoaras e mineiros

camponeses, nordestinos

bois-de-cangalha

e de maracangalha

desde as covas de Altamira

ao nosso sul-maravilha:

novilha desfilando

em passarela do samba.

 

 

II

Ruminando

vociferando

discursando no Senado

e redimindo nossos pecados

no boi-bumbá

antropofálico

nas telas gigantescas

e emblemáticas

de Humberto Espíndola:

bois herbívoros e dionisíacos

príapos púberes

colonizadores

de nossa vasta territorialidade

em nossa herdade

em nosso atavismo de boi

apascentado e calmo

(nosso caldo de cultura)

nosso nomadismo.

 

 

III

De faina e mais alegoria

de romaria e vaquejada

inseminando e dispersando

e conquistando chão e pão

no nosso culto propiciatório

do peão e do latifundiário

de todos os sextantes e quadrantes

em nosso êxodo civilizatório.

 

 

IV

Estes testículos-chifres-cupins

em formatos largos significantes

couros, marcas-de-fogo, berrantes

deformados

estas curvas-ângulos-vaginas

matriarcais, zodíacos, rituais

urinas vivificantes

prosopopeia

de nosso sangue ermo e bandeirante

nas tintas de Humberto Espíndola.

 

Nosso retrato de família

na parede, nossa alma flagrada

em cores decompostas

esquartejadas recompostas

(res integra, res nullius)

em murais de representação:

em formas plurais totêmicas

na conformação geral e total

do Boi-Brasil.

 

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Canto 71

 

CARNAVAIS

 

 

      “vendo mais do que se pode entender”.

                        ROBERTO DA MATTA

 

I

Apontamentos preliminares ao poema:

 

rito das encarnações invertidas

verdade buscada na mentira

dramatização/inconsciente coletivo

contra-rotina...

 

Cotidiano x extraordinário

ritual de passagem para o...

quando o pobre vira rico

o homem vira mulher

a mulher, lobisomem

 

um é o que se vê

o outro, o que se vive

 

ritos e mitos além do cotidiano

 

transformação do pobre em nobre

contraposição de semelhantes

na competição

 

“brincar” ,“fantasia”:

a lógica dos contrários,

das reversões

 

carnaval na praia, banho de fantasia

 

“mascarado” , “encantado”

jocoso, grotesco:

 

o general quebrando a regra

vira odalisca

de peruca e salto alto

e não esconde o bigode

 

encenação, vibração.

 

procissões que são blocos carnavalescos

 

estranha patologia

de exibicionismos

dos pavões gloriosos

 

alienação libertadora autoconsentida

catarse redentora compartilhada

nos limites da tolerância humana.

 

Hedonismo? Orgia? Ludismo? Sim

e não, no rito da contradição.

 

Se se quer: anticivilização

ou suspensão da ordem

na purgação dos sonhos reprimidos

dos desejos inibidos, dos fluidos

liberados, decantados do instinto

pagão. Por que não?!

 

 

II

 

Que o Carnaval é difuso e diferenciado

que muda no tempo, que se reorganiza

que é tanto diferente quanto igual

(é espontâneo e ritual)

que é tradição e renovação

(originalidade e repetição)

que é alegria e é tristeza

ordem e caos

numa transformação conservadora

— a gente sabe.

 

O carnaval é maniqueista

— vá lá: é dialético —

contraditório:

é competitivo mas também é anárquico

— fantasia e realidade — e cruel,

disfarces e contrastes.

 

É exagero, excesso, inversão

é grotesco, excêntrico

e extroversão

empolgação.

 

 

III

O carnaval muda pra seguir igual

nas páginas do jornal:

carnal, violência, mortes, infernal.

 

Não é outro o carnaval de salão,

dos grandes desfiles,

da Grande Ópera de Momo

— o maior espetáculo da terra,

como me ufano! —

para ser visto

flagrado.

 

No desfile de fantasias suntuosas

o folião mumificado

(eternas plumas e paetês!)

em seu curto reinado

na quase imobilidade de uma passarela.

 

Carnaval dos adereços

de peruas seminuas

das cores, do farfalhar

das saias rodadas das baianas

dos pierrôs e colombinas

importadas,

dos estereótipos

dos balangandãs da Carmem Miranda

tipo exaltação, tipo exportação

— nem por isso menos brasileiro.

 

Carnaval no tempo e na memória:

A Careta, n´O Cruzeiro

e, acima de tudo, em edição especial

da Manchete, que não mais circulam.

 

Não o carnaval

empresarial e

cronometrado

— ensaiado —

de coreógrafos

e artistas plásticos.

 

Carnaval-espetáculo

(televisivo, globalizado)

de figurantes e estrelas.

 

Venha o carnaval das empregadas domésticas,

dos pedreiros, dos malandros, da negritude,

de mulatice, da trégua social:

dos favelados e das socialites,

das aparências, do Brasil da euforia,

dos efeitos visuais, tecnologia.

 

 

IV

Num aglomerado compacto

ou massa movente circulando

— foliões em desfile:

conjuntos, grupos, blocos —

numa beleza plural

(trans-individual) mas uniforme.

 

O nosso avesso,

o nosso outro eu

transfigurado,

exposto, de suor

e compasso,

sofreguidão

e exaustão.

 

Carnaval de tamanco,

das sandálias, pés descalços.

 

De frevos frenéticos e maracatus,

axés e pastorinhas,

sambas-de-roda e marchinhas

de refrões debochados, caricatos,

deturpados...

 

Do ridículo, do escárnio,

da auto-flagelação, da transgressão

e do desespero,

curtição e deboche

— carnaval dos sujos

da opereta caricata,

dos entrudos, zé-pereiras,

das negas-malucas,

dos coretos de subúrbios,

das bandinhas fanhosas

e dos alto-falantes

da rua

sem enredo e sem medo

— para ser vivido!

 

 

V

A voz de Emilinha Borba

sai da caixa do tempo

deslocada e um tanto estranha;

antes dela, o Lamartine Babo

soava ainda mais estridente

nos programas de rádio, nos acetatos.

 

Mais difícil ainda é afinar

com Sinhô e Chiquinha Gonzaga

com seus corsos e cordões

encantados

dos mascarados com lança-perfume,

confete e serpentina.

 

[No início de tudo

depois do entrudo proibido:

os préstitos, os festejos, os folguedos

das caleches ornamentadas

puxadas por parelhas animais

vistas dos balcões de sobrados

imperiais, populares desfilando

saracoteando, culminando

nas pompas funerais de Momo

com as marchas fúnebres finais.]

 

 

Dar um grande salto

ao palco da encenações de Carlinhos Brown

e do Olodum.

 

Todos reciclados, centrifugados

na parafernália de um trio elétrico

ambulante.

 

 

VI

Palco-avenida longitudinal

como manchas coloridas em movimento

— verdes-rosas, azuis e brancos até ao arco-íris —

sincronizadas, cronometradas,

uma tela pintada pela imaginação febril

do carnavalesco.

 

Cenografias móveis

transformadoras

transfiguradoras

metamorfoses;

coreografias feéricas

repetitivas, mas competitivas.

 

Viemos-do-nada

Vai-quem-quer

Afoga o Ganso

Filhos-de-Gandhi:

é-se um e todos

na maior animação.

 

Vira cadência, gingado

breque e sapateio

sensualidade.

 

São seios e trejeitos

são cadeiras insinuantes

são nádegas e rebolados

cinturas que se contorcem

pés que driblam e corrupiam

são cabeças trepidantes.

 

E sexo insinuado

suor conjugado

no narcisismo absoluto

(e dissoluto)

— o Belo além do Racional.

 

Cafona e genial.

 

 

VII

Universo configurado, dos conjuntos

— demarcado e denso:

um desfile frenético e patético

um deslocamento como serpente

plúmbea, deslizante, em evoluções

dos abre-alas, mestres-salas

porta-bandeiras, ritmistas e percussionistas

das baterias ensurdecedoras, dos puxadores

de sambas, carros alegóricos

e, lá no alto, impondo-se

sobre os comuns, os destaques;

lá em baixo, os integrantes

do pacto social nivelador.

 

Reis, príncipes, condes

autoproclamados

numa idealização enobrecedora

suspensiva de desigualdades:

uma trégua passageira

nos rituais da inversão

das personificações arbitrárias

assumidas, consentidas.

 

Carnaval é carnaval

das autolegitimações

do mundaréu ensandecido.

 

 

VIII

          “Entre a turba grosseira e fútil

           Um Pierrot doloroso passa.

           Veste-o a túnica inconsútil

           Feita de sonho e desgraça”.

                    MANOEL BANDEIRA

 

Na Quarta-Feira de Cinzas

caímos na real:

o desfilante-príncipe volta a ser camelô

a sambista ao tanque de roupas

a baiana às suas panelas

e o homem da comissão-de-frente ao caminhão.

 

Deixam a fábrica de sonhos

a utopia

para o chão da fábrica de sabão.

 

A patroa volta a ser patroa

e a empregada, comparsa do mesmo grupo

volta a ser empregada.

 

Os que foram invejados, admirados

endeusados por seu virtuosismo

por sua capacidade de organização

pela complexidade, por sua criatividade,

voltam a ser párias

a ser os incapazes, antissociais:

prostitutas, pederastas

bandidos, traficantes

desalojados de qualquer  cidadania

e alforria.

 

O rico volta à sua riqueza

e o pobre à sua pobreza

depois da banda passar.

 

A solteirona aos seus sonhos redivivos

o machista às suas fixações recalcitrantes

alguns encontram o amor perdido

enquanto outras saem grávidas do embate.

 

E vem o bloco dos retardatários

que saem dos últimos bailes,

das prisões, das ilusões,

os que vão aos penhores

os que vão aos enterros

dos suicidas e vitimados.

 

A cidade vai voltando

à outra normalidade

ao clichê e à rotina

ainda mais cruel.

 

Tragédia e alegria

num só lance de sorte

de vida e de morte

mas ano que vem tem mais!
 

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Canto  72

      

O BODE SANTO

 

Cabras e bodes

nas constelações nordestinas.

 

Somos cabras, somos bodes

nos íngremes penedos

do solstício de verão.

 

E somos trágicos

somos tragos

daí a nossa ascendência helênica

e sertaneja, renitente, penitente

consumindo a água do próprio

corpo, como cacto, como gravatá

e qualquer farinha ou mungunzá.

 

Bodes expiatórios, da redenção

(vida), do expurgo e da comunhão

— da pele que absorve a última

gota de orvalho ou de sangue

no sacrifício votivo, na expiação

na imolação salvacionista.

 

Cabras e bodes de Deus

ovelha negra ou mestiça

que exorcizais os pecados do mundo

tende piedade de nós

e que o velho ceda lugar

ao novo:

assim seja.

 

A cabra morrendo e parindo

no milagre da ressurreição

— o nordestino é

antes de tudo um forte

pela sua morte (de cabra)

que fecunda a terra

com seu sangue de barro

sagrado, santificado

seja o vosso nome.

 

Como semente, como grão

fertilizante, como ovo da reprodução

da morte que gera a vida

nas entranhas do sertão

absorvendo o alimento

de parcela extraída da terra

de que é parte indissolúvel.

 

Aquela morte que se multiplica

e frutifica: a morte do nordestino

é antropofágica, geofágica

alimenta-se de si mesma,

alvissareira e adventícia.

 

Não só no bode mas também

no touro encantado

da ilha de São Luís do Maranhão

numa evocação arquetípica

da fecundação telúrica, arcaica

e sempiterna do milagre da vida,

amém.

 

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Canto 73
 

 

CORPO SANTO

 

obrigação    oferenda

manjares

 

ritos purificadores

avatar dos orixás

 

a alma humana

acorrentada à sepultura

escura do corpo

 

aliança / pacto

entre o homem e a divindade

 

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Canto  74

 

ARTE BARROCA

 

Anjos, arcanjos, querubins

sujeitos à devoção e aos cupins.

Transplantados, imitados

nos confins

do mundo civilizado.

 

Estatuária

de cópia e recriação

impositiva mas, ainda assim

construtiva —  ou seria adaptativa —

das matérias-primas

nativas, estranhas.

 

Nas missões e reduções

indígenas, nas montanhas

das Minas, nas plantações

escravas, numa catequese

de branco exilado, sermões

e ascese, em procissões.

 

Nos pampas jesuíticos

e seu ideário ou utopia

numa autoria coletiva

e mesmo anônima

numa adaptação ou improviso

renovador pela mão

do artista de exceção,

mas também por desvio

e acomodação.

 

Pinturas veneradas, corroídas,

santos-de-pau-oco, utensílios

vestígios coloniais nas feições

derruídas de imagens esculpidas

no cedro e na pedra-sabão.

 

Um barroco expandido

às vezes tosco (numa produção

de amálgama e sujeição)

de rigidez que martiriza.

 

Arte como parte

da missão evangelizadora

e exploradora de bens

e de almas subjugadas.

 

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Canto 75

 

BORDADOS E LABIRINTOS 

 

Debruçada sobre a almofada cilíndrica

dedilhando bilros de madeira lustrada

vejo minha mãe, corcovada

cruzando os fios e espetando alfinetes

— talvez espinhos de mandacaru —

perfurando no papelão o riscado

de motivos florais tão sutis.

 

Vejo outras mães, tias, sobrinhas

na dança dos bilros redondos

tramando rendas e bordados

cruzando fios de algodão

em combinações labirínticas

— linhas grossas, espessas

embaralhadas, enviesadas

ganhando formas e cores.

 

Modelagens de sonhos coletivos,

artefatos engenhosos, manuais

com agulhas e dedais

— são pontos de cruz e crivo,

ponto cheio e matiz, ponto estrela,

ponto d´água, ponto-a-jour,

ponto no ar, moldando figuras

esticadas em bastidores tenazes.

 

São arabescos bordados,

teia e enredo, tramas e tessituras

de fazeres e manufaturas:

são rosáceas, engenho e arte

na espessura do linho

na alvura da cambraia

pela rudeza do morim

e a pureza do organdi.

 

Monogramas aplicados em travesseiros,

cestinhas (delicadas) forradas de cetim

com apliques, tecidos recortados

com os fios retirados, trançados

formando geometrias e simetrias

repetindo e multiplicando-se

em peças emendadas, arremates.

 

Vejo minha mãe-bordadeira

à luz do dia, à máquina de costura

preparando o enxoval de bebê,

a cortina e os guardanapos enfeitados

a toalha de mesa em richelieu.

 

Solteironas, viúvas, mulheres

abandonadas, avós e netas

na cerimônia da iniciação

— no Ceará, no Rio Grande do Norte

e na ilha de Santa Catarina –—

de mãos ágeis que mais sabem

na moldagem do tecido vazado,

nas tramas de luz e aragem

da renda de filé, na renda de crochê.

 

É quando as linhas se cruzam

e se enlaçam em nós e pontos

tecendo as redes com varandas

em Mato Grosso ou no Maranhão

como tapetes voadores caprichosos,

como sugestivos jardins florais

nas cortinas e nos finos panos de mesa

decorando as sacristias das Minas Gerais.

 

 

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Canto  76

 

COM MENOTTI DEL PICCHIA

 

                     “Quello que fu nom è più”.
                                                    PAPINI

 

A Semana de Arte Moderna

foi a pira fumarenta e centrífuga

dos valores passadistas

— contra os “patriarcas do obsoleto”.

 

Havia-os, então.

Haverão!

 

Com as “proporções de queima

no altar das vocações

libertárias, incendiárias

uma fogueira iconoclasta

ardia e julgava

com alguma pirotecnia.

 

Quem diria? Além de pregar

— com justiça e alguma chalaça —

contra os vocábulos chochos e secos

— um montão de cadáveres insepultos

idolatrados no relicário da literatice

— “lerdice de nossa incultura” —

contra os râncidos moldes da estatuária

literária;

além de abjurar o inçado anacrônico

a caturrice

a estultícia

as ruguentas vestais do passadiço

os misoneistas faquirizados

— inertes e inúteis! —

os modernistas imolaram

Peri e Aleijadinho...

 

Contra o romantismo piegas!

Contra o realismo de açougueiro das letras!

 

Contra o velho, o obsoleto, o anacrônico

o conservantismo

a subserviência e a mediocridade:

conhecimentos surrados, fossilizados

o ramerrão gasto e atrasado.

 

Contra o parnasianismo marmóreo

e pomposo dos poemas imortais!

Contra a gaiola-de-ouro do soneto

(o “sonetoccocus brasiliensis” satirizado

por Cassiano Ricardo —  um fardo!)

arapuca-de-taquara dos versos medidos

no acicate do Oswald de Andrade...

— uma estatuária gélida e oca

cheirando a cópia da tradução, a plágio...

 

A ordem do dia era a renovação.

Buscar novas formas para as formas novas,

outra técnica para a sua

representação.

 

Vanguardas!

Todas as vanguardas estão mortas

(não apenas os vanguardistas)

mas ainda ardem

as suas brasas

como asas de fênix

per omnia secula seculorum

no incensário

das exaltações.

 

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Canto 77

 

OS PILOTIS

 

Os pilotis estavam em toda parte

a partir de Le Corbusier

e Niemeyer:

nos edifícios públicos,

nos prédios de apartamentos,

nos clubes e parques

criando espaços vazados

arejando as nossas cabeças,

ampliando a nossa visão

— éramos tão modernos

tão avançados, imensos...—

imersos no mundo (hodiernos!!!)

e não cabíamos em nosso tempo.

 

Os pilotis sustentavam o Brasil

e projetavam a nossa criatividade:

nos poemas dos concretistas,

na diagramação do  Jornal do Brasil,

nas esculturas geometrizantes

de Amílcar de Castro e Lygia Clark,

nos jardins de Burle Marx

e, estilizados, avarandados,

nas construções de Brasília

e até mesmo na bossa-nova

de João Gilberto e Tom Jobim.

 

Eu via pilotis por onde andava

até onde a vista alcançava:

nos filmes de Nelson Pereira dos Santos

e do genial Glauber Rocha

que a gente adorava, mas não entendia:

em Deus e o Diabo na Terra do Sol

havia tantos mandacarus-pilotis

suportando um céu de inclemência...

 

Em Terra em Transe os pilotis

não eram apenas cenário

mas o discurso arbitrário

de arquiteturas impossíveis

no desvario da linguagem

do cinema-invenção

numa estética de rompimento

e aproximação planetária.

 

Nunca houve tanta utopia

e tanto questionamento!

 

Nunca fomos tão originais

— e como éramos universais!

 

Estávamos tão alienados

entre pilotis teoréticos

em manifestos proféticos

de uma (abortada) revolução.

 

 

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Canto 78

 

HAVIA

 

Havia sempre água fervendo

na chaleira

para as rodadas de chimarrão;

havia sempre cafezinho quente

no bule

no fogão à lenha nas serras de Minas;

havia o vinho carmim do açaí

na tigela

do Pará ao Maranhão.

 

Galinha de cabidela,

pinga na roça

e tererê à vontade

durante as cheias dos rios.

 

Havia macaxeira cozida

e polenta assada

havia torresmo e pinhão.

 

Depois da piracema

havia peixe de montão:

pirarucu, pintado

com pirão.

 

E tinha também a mariola

nos trens da Central do Brasil

vendidas a grito e a vintém.

 

Roletes-de-cana, garapa

e paçoca

sem contar que o amendoim torradinho

nas matinês do cinema

— dizia-se —

era afrodisíaco.

 

Tinha até feijoada

e angú e arroz carreteiro

e pamonha

em folhas de milho

tacacá-no-tucupi

e vatapá.

 

Hoje tem pipoca de micro-ondas

hamburguer de freezer

comida a quilo

no delivery do fast-foood

para o horror do Ariano Suassuna

reclamando do coffee-break.

 

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Canto 79

 

TUPY OR NOT TUPY

 

    não consentindo por modo algum (...)

      Usem a Língua própria das suas Nações,

      Outra chamada Geral; mas unicamente a Portuguesa”

      (...) “para desterrar dos Povos rústicos

     a barbaridade dos seus antigos costumes”.

         (DIRETÓRIO DOS ÍNDIOS, instrução pombalina, séc. 17)

 

I

Haveremos de (voltar a) ser poliglotas

para nossa inserção no mundo

— a nossa definitiva mundialização.

 

Éramos multilingues no Grão-Pará e Maranhão

e por todos os brasis

na relação entre língua e fé

ou religião

— entre conhecimento e catequese

na tese da doutrinação.

 

II

A nossa Língua Geral

nos primórdios da colonização:

uma gramatização do tupi

na conversão do gentio

até que aprendessem o portuguez

e sua súdita condição.

 

Todas as línguas havia pelo sertão

a conquistar

com a confissão cristã

numa linguagem de conversão.

 

Há(via) as línguas subterrâneas

de judeus e de árabes

e de comerciantes clandestinos

e os dialetos africanos

de senzalas e quilombos.

 

III

Línguas de relação

e até mesmo de Inquisição

(do latim da liturgia

e do francês do Iluminismo)

e cativeiro e redução jesuítica

da evangelização.

 

Mas no Maranhão

línguas havia de remissão

nativas ou de dominação:

o francês, o holandês e o português

entre os tupinambás.

 

Em que língua parlamentavam

Charles de Vaux e o cacique Pira-jivá

Na França Equatorial?

 

IV

(O Marquês de Pombal acabou

com a Língua Geral

ao expulsar os jesuítas do Brasil

e de Portugal.

Ao persistir a homogeneização

de uma língua tal – ele temia? –

a independência da colônia

viria de forma natural..

 

Exercício especulativo banal!

A História não é território de lógica

e de hipóteses pretéritas... Mas vá lá:

a unidade linguística portuguesa

 preservou a unidade nacional?!)

 

V

Havemos de ser poliglotas

— depois de dominarmos a língua nacional —

pra cultivar todas as línguas

de nosso multirracial povoamento

e imigração, de todos os quadrantes

e para nossa efetiva globalização.

 

Haveremos de valorizar

as tantas línguas indígenas

e as várias falas regionais

de nossas identidades

numa aldeia global.

 

E que a nossa miscigenação

definitiva seja linguística e cultural

— por que não?! —

e não apenas racial.

 

Haveremos de ser poliglotas e multilíngues

mesmo conservando a nossa língua oficial. 

 

 

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Canto  80

 

ANTROPOFAGIAS

  

São muitas as antropofagias do Brasil,

não apenas as da pura encarnação

ou, dos modernistas, a deglutição

de saberes e sabores nacionalistas.

 

Mas o verdadeiro diálogo com os portugueses,

a verdadeira comunhão de raças,

a definitiva fundação da nacionalidade

começou quando os caetés devoraram

o bispo Sardinha como alga marinha.

 

Como tupinambás abocanhamos Hans Staden

e toda a cultura ocidental

e a oriental de sobremesa:

ideologias, símbolos, fantasias.

 

O futuro do passado

— cru ou assado, tanto faz —

na voracidade da digestão

pelas vísceras

da criatividade.

 

Hélio Oiticica monta parangolés

para exorcizar araras e tucanos;

Caetano Veloso e Décio Pignatari

esfacelam a língua para recriá-la;

Glauber Rocha, primitivista,

quer-nos famintos mastigando mitos.

 

Essa mania nacional de misturar tudo no prato

de combinar iguarias incompatíveis

de miscigenar, fundir e confundir essências

e vivências irreconciliáveis

na amálgama dos minerais inconsúteis.

 

Canibalizamos tudo ao nosso alcance

— gêneros literários, frutas, etnias, ideias –

e ruminamos inocentes nossos crimes

e virtudes e nos redimimos

 pelo excesso de pecado.

 

O Brasil devora seus habitantes

a televisão dilacera as consciências

as igrejas trituram almas indefesas

as relações sociais ou sexuais

metabolizam qualquer idiossincrasia

e anulam toda individualidade:

viramos suco, geleia geral, galera.

Amerdalhamos. 

 

 

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Canto 81

 

VERDADES OFICIAIS

 

Todos somos iguais perante a lei

e os direitos constitucionais são para todos

os parentes, os amigos e correligionários.

 

Todos somos inocentes, até prova em contrário

alguns são considerados inocentes

mesmo depois de comprovados

os seus crimes contra o erário público.

 

Repetimos, para que não reste dúvida:

usufruímos de todos os direitos constitucionais

— tortura, nunca mais!!!

e estamos livres de preconceitos

— quem duvida?!?!

e somos cordiais.

 

Nossos políticos são mais honestos,

nossos banqueiros mais patriotas

e os juristas mais judiciosos.

 

Nosso céu tem mais estrelas

nossos coqueiros têm mais cocos

nossas galinhas põem mais ovos.

 

 

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Canto 82

 

PRÁ NÃO DIZER QUE NÃO FALEI

 

Por onde passa boi ,passa boiada

diz o ditado de origem popular,

— passa trem, passa tudo, passatempo

e se não bastar, passarinho
como ensaiava Mário Quintana.

 

Vou passar em revista, em revisão

o que escrevi, com mouse na mão

no “localizar”, buscando palavras,

lavrando os termos da composição.

 

Como não sou poeta de cordel

versejador de improviso e desafio

sem o papel de Patativa do Assaré

nem busco rimas no dicionário...

 

Pois é... rimo é no meio, atravessado

em qualquer lugar, e se quiser

e convier. Vou listar o preterido

— mas nunca o esquecido — se se quer.

 

Apenas para constar, não é?

Não falei de cafuné, pois não.

Nem de rapé, axé e bicho-de-pé

porque estavam, pois sim, subentendidos.

 

Esqueci da Marta Rocha e suas polegadas

a mais, e dos versos preferidos

do Bilac, nem citei as vaquejadas

nem o Cadillac de JK no museu.

 

Deus meu! Esqueci até a devoção

a Nossa Senhora de Aparecida. Sacrilégio!

O Auto da Compadecida e o Cícero Romão

de nosso culto, romaria e sortilégio.

 

Deixei de lado até mesmo o futebol

e sua/nossas/deles glórias eternas

o arrebol do Araguaia – e levo vaia

por olvidar as vedetes e suas pernas.

 

Samba do crioulo, branco azedo,

do nissei, do sansei e do não-sei,

esqueci a lira do Álvares de Azevedo!!

Medo de citar o presidente Figueiredo...

 

Passaredo, Passa Quatro, Pajuçara.

Não citei Araraquara e nem a capivara...

Onde ponho a Xuxa, o Pelé e o Gegê

(quem se lembra?!) e os ídolos da tevê?

 

Quem não comunica se trumbica

dizia o filósofo Chacrinha – um ventríloquo

com o relógio na pança. Como fica?

Ubíquo? E o “Criança Esperança”?

 

Em verdade, os digo, falei de todos

eles, de tudo, nas entrelinhas

das verdades comezinhas, modos

de ser, de falar e de representar.

 

Somos múltiplos, prolixos, discursivos

misturados, uma salada — Xtudo.

Os preferidos de Deus, predestinados

e tudo o mais... e fico mudo.

 

 

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Canto 83

 

PAÍS DE/DO FUTURO

 

        “o hábito nacional de deixar tudo para o dia seguinte”.

                                                       MÁRIO DE ANDRADE.

 

Eterna nação do futuro!

 

Sem noção da própria história

talvez por falta de memória.

 

É que estamos ligados à terra

e a terra é sempre o cotidiano

em renovação

com tudo que ela encerra:

(uma questão de meridiano)

luz, (in)salubridade, brotação

— nascer e renascer a cada ano

mas, por opção

preferimos o pôr-do-sol

aos arrebóis.

 

Seres diurnos

mas de hábitos noturnos

sob os lençóis da madrugada

amancebada.

 

Stephan Zweig a falar de futuro!

 

E com toda razão...

não cultuamos heróis:

vivemos de premonição

enquanto os fatos históricos

viram meras efemérides

— que eufemismo!!!

são datas oficiais

— nunca pessoais, entranhadas.

 

Nada sabemos da Independência

e de sua consequência

e a tal da Abolição da Escravatura

ficou mesmo na assinatura.

 

Em quem votamos

nas últimas eleições

(sem melhores opções)?

 

Indiferentes a qualquer governo

— em que nunca confiamos

nem creditamos esperanças —

pois não acreditamos em políticos.

 

Entre nós, o caudilhismo

fracassou

enquanto prosperou nas vizinhanças.

 

Sobreviveu ao coronelismo

do voto de cabresto,

pois votamos de arresto

compulsória e obrigatoriamente.

 

“Este futuro é sermos tudo”

vaticinou Fernando Pessoa.

 

O futuro é termos tudo

que o passado nos l(n)egou.

 

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Canto 84 

BRASIL NO MICROSCÓPIO

 

Superando metodologias bitolantes,

rechaçando o instituído e acadêmico

e pondo em risco a própria credulidade

no limite do que é reconhecido.

 

Há um Brasil fossilizado, estigmatizado

e repetido sem qualquer reflexão,

um país ruminado e mesmificado

em discursos pra plateia.

 

Brasil de slogans publicitários

para um consumo pasteurizado

que invade outdors, frequenta faculdades

e alimenta campanhas eleitorais.

 

Há um Brasil fátuo, caricaturado

de autoajuda e de divã de psicanalista.

Tem também o Brasil do especialista

que analisa um cadáver

e que só vê as partes

— a economia, a história, o subsolo.

São fúteis, quase inúteis.

 

Tem também o Brasil de prancheta

de projetos identitários conformantes

— dos políticos, dos religiosos, dos marqueteiros

que funcionam enquanto duram

mas não perduram ou sobrevivem.

 

Na diversidade de nosso imaginário

antropofagiamos tudo o que é supostamente eterno

pela dialética permanente de tanto céu e tanto inferno.

Carnavalizamos tudo o que é pretensamente sério

e revivemos e regressamos à selva enigmática

e emblemática que tudo encobre

 e que tudo devora como aquela serpente.

 

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Canto 85

 

TELEOLOGISMOS

(SÚMULA)

 

I

Quem se atreve a prever o futuro?

É como dar um tiro no escuro!

 

Oráculo de Delfos

que sinais emite?

 

Futurologias mediúnicas, ou científicas.

Cenários projetados, previsões estatísticas,

monitoramentos, opiniões de especialistas.

 

Que Brasil vai emergir

desses planos e de seus reveses

de tantas políticas públicas

quanto de seus contratempos?

 

Que acidentes definem o curso

das ações dos governantes,

de suas mentes errantes?

São coerentes ou são circunstantes?

 

Antes tem a ver com depois?

Afinal, a História parece

não ensinar coisa alguma.

Viveremos de salvacionismos e descontinuismos?

De que soluções surgirão novos problemas?

 

Seria possível traçar algumas utopias

e valer-se de teoremas, prognósticos

e prever alguns desdobramentos?

Como não temos respostas

valhamo-nos de questionamentos.

 

II

Que advirá destes ciclos sucessivos

de uma economia predatória

de desmatamentos intensivos

e de plantações extensivas

em infindos latifúndios?

 

Como, em seu tempo, dizia

frei Vicente do Salvador (em 1627):

usam da terra, não como senhores,

mas como usufructuários,

só para a desfrutarem

e a deixarem destruída”.

 

Sombrios cacauais, infinitos canaviais,

terras paludosas, montanhas bociosas

nas Gerais, pantanais e manguezais.

 

Haveremos de plantar nova cultura

de preservar e reciclar e proteger

a natura e sua criatura

e evitar a desertificação.

Que a ciência e a consciência

se irmanem pois trabalham em rota

de colisão.

 

Acabando o analfabetismo terminaria o coronelismo?

É o voto universal e obrigatório

um direito compulsório?

Talvez o clientelismo, paradoxalmente, sobreviva

para limitar o centralismo

para minar o autoritarismo. Algo polêmico

tratando-se de um mal endêmico

que tem suas raízes em alguma relevância

pois “o nosso momento é ainda noturno

como nos ensinou Graça Aranha.

 

O voto do analfabeto é igual ao do acadêmico?

O de um é muitos, o do outro pouco

e qual é o seu desdobramento?

O acadêmico enviesado por sua ideologia,

o analfabeto e sua mais-valia eleitoral:

mais valem mil analfabetos na urna

que dois intelectuais na redação. Sim ou não?

Pior é quando analfabetos e lideranças carismáticas

se irmanam e proclamam consignas apocalípticas,

profiláticas, panaceias salvadoristas

— salve-se quem puder!— messianismos redentoristas,

populismos doutrinários sifilíticos.

 

As nossas debilidades seriam as nossas fortalezas?

Enquanto povos fortes e sanguíneos se destroem

nós, tão flexíveis, nos entendemos

sem maior discernimento.

 

Há mais partidos políticos no Brasil

do que ideologias em todo o mundo:

vermelhos, azuis e muitos laranjas.

Talvez sim. Isso é bom, isso é ruim.

Seria o multipartidarismo

a forma final da idiossincrasia nacional?

Seria um bem ou seria mesmo um mal?

Uma forma enviesada de pacto político

de governabilidade, contra o caudilhismo?

 

[Toda tese, mesmo a mais disparatada

pode e deve ser testada... pode revelar tudo

ou pode dar em nada. Pouco importa.

Perguntar não custa coisa alguma

mas pode levar a alguma coisa...]

 

III

Voltaríamos ao parlamentarismo

para desalojar os feudos regionais do poder central?

O profissionalismo, finalmente, imperaria

no serviço público, sem partidarismos e regionalismos

arbitrários. Utopia? Sonhar é preciso.

 

Separatismo: garantia de união

só na cláusula pétrea da Constituição?

Parece que não. Haveremos de unir-nos

num novo pacto republicano

garantindo uma representação mais nacional.

 

Em vez de separatismo

criaríamos mais estados e territórios

reciclando os regionalismos?

 

Teríamos dois Rio Grande do Sul

três Minas Gerais

quatro Amazonas... etc.,

por divisões fisiográficas e econômicas

além das fronteiras culturais e políticas.

É o que li por aí... Qualquer proposta

é bem-vinda se a alma não é pequena.

 

Dividam o meu Maranhão em dois estados!

Um ao sul, com pedaços do Tocantins

e do Pará... mas não dividam os territórios

entre as mesmas famílias mandatárias!

 

Pombal (já sabemos) impediu o ensino

das línguas indígenas na catequese.

O Estado Novo proibiu o ensino de línguas

dos imigrantes na alfabetização.

Em política, sempre há razões
(que a própria razão desconhece)

e circunstâncias

mas também as consequências.

 

A língua nacional nos une e nos separa

— com tradições milenares e povos

multitudinários — promovem línguas estrangeiras

em massa... Que haveremos de fazer?

Nem o português ensinamos pra valer...

 

Terrorismo: horroriza-nos semelhante barbarismo.

Terrorismo seria o clímax do idealismo exacerbado

contra o qual nós brasileiros estaríamos vacinados

pelo nosso eterno relativismo e conformismo.

 

Mas, em que vai dar o nosso pacifismo

em meio a uma guerra civil não declarada?

Organizações criminosas, corrupção

e violência generalizada, fora ou mancomunada

com os poderes da Nação. Venceremos

pela negociação e/ou pela repressão?

Com as concessões às minorias,

com o pleno desenvolvimento?

Queiramos ou não, é a sociedade

que se autogoverna (pela força da coletividade

organizada) e que se entranha

e impõe soluções. Acreditemos.

 

Estou apenas especulando.

Como poeta, apenas interpreto

quando não omito opinião.

O país — estamos convencidos —

é mais forte que seus governantes

e, na maturidade, viverá de sua

própria dinâmica e não apenas

(e apesar) de qualquer governo.

É nisso em que nós brasileiros

realmente acreditamos.

 

 

 

 

 
 
 
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