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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





Parte II:

DE REVOLUTIONE MUNDI

 

Canto 15 -  Desmemoria

Canto 16 -   I. Mare Clausum

Canto 17 -   O Verdadeiro Achamento?

Canto 18 -   Mares nunca dantes...

Canto 19 -   Houvemos vista de Terra

Canto 20 -   Os Primeiros Degredados

Canto 21 -   Degredados

Canto 22 -   Nudez e Catequese

Canto 23 -   Invenção do Brasil

Canto 24 -   Povoamento e Cruzamento Racial

Canto 25 -   A Ampulheta

Canto 26 -   O Dueto Monárquico

Canto 27 -   A Imperatriz Leopoldina e os Imigrantes

Canto 28 -   O Imperador Pedro I e as milícias

Canto 29 -   Poema com rodapé

Canto 30 -   A Regência Trina

Canto 31 -   Desterro

Canto 32 -   A Bandeira Imperial

Canto 33 -   Canudos

Canto 34 -   Antônio Conselheiro

Canto 35 -   Rui, a fogueira e o mar

Canto 36 -   Caxias, uma breve biografia

Canto 37 -   O Baile da Ilha Fiscal

Canto 38 -   Si hay gobierno, soy contra

Canto 39 -   Os Donos do Poder

Canto 40 -   O Paradoxo do Coronelismo

Canto 41 -   Partidos-repartidos

Canto 42 -   Os Dois Brasis

Canto 43 -   O Ditador de Turno

Canto 44 -   A Fraude Eleitoral de 1989

Canto 45 -   Crise

Canto 46 -   Caixa Dois e Metástase

Canto 47 -   Povos de Rua

Canto 48 -   Violência Urbana

Canto 49 –  País inconcluso

Canto 50 -   Diacrítica

Canto 51 -   Sambaquis

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Canto 15

 

DESMEMÓRIA

 

Não sabemos se os mortos

(ainda)

governam os vivos;

país sem heróis

-amnésico-

não frequenta os cemitérios

embora invoque espíritos

errantes.


 

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Canto 16

 

 

 MARE CLAUSUM

 

             “A América e o Brasil foram apenas “achados” nas datas

             oficialmente comemoradas, pois seus verdadeiros descobridores,
             cumprindo o juramento feito, tiveram o cuidado de não revelá-los”.

                                          FERNANDO PINTO

 

CABRAL

I

O Tratado de Tordesilhas

(a 7 de julho de 1494) dividia ilhas

e terras ainda por descobrir

ou já descobertas...

(Antes e depois!!!...)

entre os católicos e apostólicos

reis de Espanha e Portugal.

Nada mal. O Papa Alexandre VI

deixava de fora das conquistas

os hereges protestantes.

Pois, pois.

 

Existem tantas versões e revisões...

Haveria um outro acordo, secreto

para interpretações mais seguras?

 

Afinal, quem descobriu a América?

Espanha ou Portugal?

Para mim, tanto faz...

 

 

II.

S.F.Z.

 

Era Colombo genovês, catalão ou português?!

A resposta, se houver, não me garante

o pão e o feijão no fim do mês...

 

A história é controversa

podemos mudar de conversa...

Para o poeta interessa

mais a pergunta do que a resposta

esta posta ao historiador...

 

Se eu tivesse que (ou pudesse) escolher

o nome do Redescobridor da América

ficaria com o meio-judeu

— helenista, cosmógrafo, hebraísta —

SALVADOR FERNANDES ZARCO

filho bastardo do

Infante Dom Fernando de Portugal.

Cristão-novo

espião português, tido por genovês

a serviço dos Reis de Espanha!!!

 

Habituado a se chamar

- uma confusão tamanha!!!-

Cristovao Colombo

Cristovam Colom

(Cristóforo Colombo)

Crhistofom Colom

Christofon Colom

Cristóbal Colón

em grafias e regalias

palacianas.

 

Nunca jamais assinava o próprio nome...

Usava sigla e monograma

pra autenticar cartas a reis

aos amigos e aos filhos...

O monograma, decifrado

combinava as letras S, F., Z...

Salvador Fernandes Zarco.

 

 

III.

OVO ERECTUS

 

Salvador Fernando Zarco era

capaz de convencer almirantes

por ser culto e experimentado marujo

salvo a nado de batalhas

ousado e, sendo fidalgo, de chegar

à presença de reis e poderosos

— o que um tecelão genovês

que nem a língua pátria sabia

certamente não conseguiria....

 

Ele vendeu a hipótese convincente

— com a obviedade de um ovo —

de ir ao Oriente pela rota do Ocidente

(mas, em vez da Índia, chegou ao novo mundo...)

 

[Sempre a serviço do rei de Portugal...]

 

Às terras descobertas

dava denominações encobertas...

Nomes portugueses, com certeza...

 

Na Spaniola, onde aportou, encontrou

nativos “brancos como em Espanha”

e que já conheciam as caravelas...

 

 

IV

DESPISTAMENTOS

 

À primeira ilha encontrada

deu o nome de Salvador

— supostamente dedicada a Cristo...—

mas Salvador era o próprio nome

— certamente — de Cristovam...

 

À segunda denominou Fernandina

— homenagem ao Rei Fernando, de Castela? –

mas Fernando era o próprio pai ...

 

À terceira deu o nome de Isabela

— para honrar a rainha Isabel? —

mas Isabel Zarco era a sua mãe...

 

A quarta recebeu o nome de Juana

— homenagem a Dom João II

seu primo e cunhado

e seu verdadeiro soberano?

 

Por ser tão óbvio, no seu Diário

mudou o nome para Cuba

— sua terra natal, no Beja.

Posteriormente, mudou definitivamente

para Longa, com cuidados...

 

Spaniola era a Península ibérica

e não apenas o nome de España...

Spaniola, um diminutivo, bem podia

referir-se a Portugal...

 

Alfa e Omega – já existentes em Portugal

eram também símbolos hebraicos...

 

Belém, Assumpción, Buena Vista

tinham ascendências lusitanas...

Por pouco não colocou Nova Belém...

 

E até Brazil – porto da Spaniola...

Brazil era já, então

uma das ilhas dos Açores!!!

 

E que dizer de Curaçao

— ou Curação, pelo fato de curar ali

os marinheiros vitimados

pela maldição do escorbuto...

 

Faro, Galera, Graciosa

Morón, San Jorge, San Luiz

San Nicolas, Santarém, Guinchos.

 

Deu apenas nomes portugueses

— disfarçados — a toda a toponímia...

 

 

V

ENIGMA

 

Que projeto realmente perseguia?

 

Se realmente queria

cristianizar os indianos

por que não levava missionários

em sua tripulação?!

 

Perseguia o intento

de encontrar povos hebreus desterrados?

[Já então havia referências

a índios circuncidados

e com nomes hebraicos...]

Por que levava um intérprete

hebreu a bordo?

 

Teria dado o nome de América

em homenagem a Américo Vespucci?

Pouco provável, sendo Salvador

(ou Cristóvão...) seu superior...

Mas havia uma tribo visitada

em 1502, que ele reportou... – Americ

ou Amérique... – em seu regresso.

 

Zarco, vulgo Colombo, passou

oito dias em Portugal

antes de regressar à Espanha...

Estranha ousadia... Visitou

e relatou ao Rei D. João II

sua viagem às Índias Ocidentais...

 

O soberano português, depois

considera-o “especial amigo”

em carta enviada a Sevilha.

Que amigo descobre um continente

para o inimigo ou concorrente?!

 

 

 

 

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Canto 17

 

O VERDADEIRO ACHAMENTO ?

 

Ano Santo de 1500.

 

Eram quatro caravelas

como as de Cristóvão Colombo

em demanda de Cathay e de Cipango

das especiarias do Oriente.

 

Mapas incertos, rotas imprecisas.

 

Nasceu uma terrível tempestade

de ondas e turbilhões de vento”...

vagalhões ciclópeos, ventos uivantes

depois de cruzarem o Equador,

a Estrela Polar e seus desígnios

tenebrosos. Mare-magnum.

 

Vicente Yánez Pinzón

capitão da Coroa de Castela

descobre as praias desertas

depois dos embates do mar.

 

Costa alta e verdejante

mar adiante

com seus contrafortes azuis,

depois das águas turvas

em alta mar...

 

Aonde chegaram os marinheiros

errantes? Aquém ou além das Tordesilhas?

A que paragens desconcertantes?

 

A Pernambuco ou, antes, ao Ceará

ou quem sabe ao Amapá?

 

Nem havia Pernambuco, nem lugar

algum por reconhecer,

eram terras de nomimar.

 

“Santa Maria de la Consolación”

foi nome de batismo

das terras por conquistar

ao norte do Cabo Orange

ou seria na Ponta do Mucuripe

quem sabe no Cabo de Santo Agostinho...

 

Apenas pegadas na areia

e fogueiras à distância.

 

Sobreveio o enfrentamento

entre nativos (potiguares?) e espanhóis;

diz-se que eram os da terra

ferozes e arredios

ou que resistiram

“com grandíssimo ímpeto”

ao arresto e ao sequestro...

 

Singrando mares

costa avante

enxergaram um monte

vermelho bico de cisne

mergulhado no oceano

depois de rezarem por seus mortos.

 

Mais adiante, aportariam

às terras felizes pela fertilidade do solo

habitadas por “gente mansa e sociável

mas pouco úteis”  por não ostentarem

riquezas...

 

Encontraram as águas

que adoçavam o mar aberto

região de Marantiabal

— o futuro Amazonas, do Orellana —

que Pinzón denominou

Santa María de la Dulce Mar.

 

Àquelas praias remotas

àquelas vastidões desconhecidas

àquelas muralhas verdes coroadas

àqueles estuários mansos-ermos

chegaram as naus do achamento

e do encantamento.

 

O fim do episódio

ou o começo, se se quer,

foi a coleta de aves,

de animais e de plantas

(embora almejassem o Eldorado)

e a escravidão dos gentios

—“povos nus, mansos e pacíficos”-

que chega aos nossos dias.

 

 

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Canto 18

 

MARES NUNCA DANTES...

 

Até onde chegaram os descobrimentos

portugueses desde a Escola de Sagres

em tempos do Infante Dom Henrique?

 

Que sigilo encobria

périplos e circunavegações

daquelas viagens exploradoras

sob o signo da Ordem de Cristo?

 

Teriam os portugueses

DIOGO DE TEIVE

e PEDRO VASQUES

— conforme o testemunho

insuspeito de Fernando Colón

— filho do Cristóbal Colón!!! —

chegado às terras americanas

em 1452, quarenta anos

antes do Descobrimento?!

 

Seja verdade ou fantasia

— apesar das provas documentais —

O Tratado de Tordesilhas

negociado, favorecia Portugal...

 

Garantia a navegação exclusiva

no litoral africano para as Índias...

(às verdadeiras, por suposto...)

 

Seria a história invertida?

Portugal teria descoberto a América

e os espanhóis o Brasil?

Ou estaria o Brasil nas rotas dos descobrimentos

portugueses (secretos) que o Tratado de Tordesilhas

viria depois legitimar?

Em que versão acreditar?

 

Então, Cabral viria apenas confirmar

o que já era sabido...

(e “se tinha mais que simples indícios”...)

o que já estava garantido...

Um fato perfeitamente voluntário

assevera Fidelino de Figueiredo.

 

Teria vindo “descobrir” apenas

para completar a encenação?

[Afinal, o Tratado de Tordesilhas

reservara para Portugal aquela

área desconhecida..

E a defenderam com tanta artimanha

na partilha com a Espanha...

Portugal levou para a barganha

cartógrafos experimentados

enquanto a Espanha mandara

letrados e clérigos emplumados...]

 

Surpreendente a naturalidade com que

o escrivão da frota participou ao Rei:

nenhuma palavra sequer de espanto

a resplandecer o regozijo

pela inesperada fortuna...

confirma Pedro Calmon.

 

A carta de Caminha

não demonstra nenhum espanto...

 

Que encanto teria mudado a rota

de quem conhecia os caminhos?

Era apenas um álibi, um lorota

para enganar os vizinhos?

 

 

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Canto 19

 

HOUVEMOS VISTA DE TERRA

 

Reiteramos: nenhum espanto naquele santo dia

em que divisaram sargaços

e o pedaço saliente de um continente

(possivelmente) redescoberto:

acharam um território previsto

e (já) concedido no Tratado de Tordesilhas.

 

Nenhum assombro no discurso de Caminha

ao seu rei Dom Manuel

— apenas um desvio de percurso

até àquele rio em sua embocadura

como quem toma posse

ou lavra escritura do que já era seu.

 

Em vez de Descobrimento

apenas o documento de posse

e seu sacramento em missa campal

e início de povoamento

para “cuidar da salvação

daquela gente de Santa Cruz

ou Pindorama.

 

Pura formalidade

pois a verdadeira finalidade

era a rota das especiarias:

às Índias

destino final da viagem

de Pedro Álvares Cabral.

 

 

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Canto 20

 

OS PRIMEIROS DEGREDADOS

 

Afonso Ribeiro, mancebo desafortunado

foi o primeiro degredado

entre o gentio da terra

para “saber de seu viver e maneira

mas é mais de uma vez rejeitado...

 

Mas ficaram em terra nova

dois condenados

e dois grumetes foragidos

de quem não mais se ouviu falar.

 

Somos todos descendentes

desses pobres desgraçados?

Seriam meus/nossos retroparentes?

De que genealogias emergiram?

 

Que erro, que crime cometeram

— sacrilégio, perversão —

para sofrerem tal desterro?

E os grumetes

preferiram o paraíso?

 

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Canto 21

 

DEGREDADOS

 

Desertores, degredados, náufragos

e outros homens abandonados

deambulando pelas trilhas litorâneas

personagens solitários, marginais

povoadores sem alternativa,

traficantes.

 

Por onde andou Caramuru?

O que fazia João Ramalho

suposto fundador da Paulicéia

pelos desertos da Cananéia?

 

A que senhores serviam?

Teriam sido polígamos, acaso

traidores de duas pátrias

escravagistas, incréus, cruéis?

 

Aleixo Garcia atravessou (mesmo?)

o continente em busca de riquezas

dos incas altiplanos?

 

Havia mesmo planos

ou eram sonhos, delírios                                        

nas Entradas e Bandeiras?

 

E o sangue/seiva daqueles

aventureiros? Os primeiros brasileiros

(ou seus pais) na mestiçagem fundadora

de nossa identidade. Hexa, penta

tetra-avós de nossos avós paternos?

 

 

 

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Canto 22

 

NUDEZ E CATEQUESE

 

                              “tomam tantas mulheres quantas querem

                                                     AMÉRICO VESPUCIO

 

I

As matas eram nuas

e nuas as praias e as serras.

 

Puras, limpas, inocentes.

 

Nuas as índias e suas crias.

 

Não havia pecado

nem vergonhas

e maldades

no despir

e exibir corpos

e intimidades.

 

 

II

Ímpias, impuras, indecentes!!

 

O pecado aportou

com os religiosos

e seus preceitos morbosos

gerando preconceitos.

 

Homens vestidos, armados,

suados, fedidos,

considerando lúbricos

aqueles corpos limpos,

lavados

e dourados

pela liberdade.

 

Logo ultrajados, possuídos

e escravizados

enquanto se discutia a tese

— res-nullis: uma coisa

e não uma pessoa —

 

de serem ou não humanos,

se se podia

humanizá-los pela catequese.

 

 

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Canto 23

 

INVENÇÃO DO BRASIL

 

Nu e pintado a jenipapo

com tatuagens e por alegorias

Martim Soares Moreno

simboliza a Invenção do Brasil.

 

Deixado para aprender a língua

e familiarizar-se com os costumes

o jovem é logo assimilado

e regride à condição da barbárie:

— esta a versão do colonizador.

 

Protegido de Jacaúna, cacique potiguar

acompanhado de dois soldados

estabelece uma fortaleza no Ceará;

pela procriação e miscigenação

dá início a uma nova civilização:

— esta a visão de José de Alencar.

 

Martim “barbariza-se” para “civilizar”

no dizer analítico de Ítalo Barbieri:

vira personagem do nativismo romântico

em Iracema, uma lenda cearense

(a virgem dos lábios de mel)

na fundação do Romance brasileiro:

e aqui faz parte do Cordel.

 

 

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Canto 24

 

POVOAMENTO E CRUZAMENTO RACIAL

 

Viver com muitas mulheres

— brancas, negras, índias –

podiam os bandeirantes

os senhores-de-engenho

os militares e — por que não? —

ainda que por exceção

também os clérigos

em seu ardoroso empenho

de prazer e povoar.

 

Pois a terra era vasta e vazia

e havia que multiplicar

e garantir a serventia.

 

Uma poligamia enrustida

(de linhagens mozárabes

ou de origens tupiniquins

correndo nas veias)

culturalmente consentida

como moeda corrente.

 

Uma poligamia dividida

entre o refúgio social

da casa-grande

e o subterfúgio da senzala.

 

Mulatos, cafuzos, mamelucos

numa multiplicação sincrética

e geométrica avançando

e povoando sesmarias.

 

Havia naqueles cruzamentos

interraciais

de classes sociais distantes;

naquela fornicação descarada

protegida pelos estamentos;

naqueles coitos sem os devidos

sacramentos

um pacto de silêncio

e de não reconhecimento.

 

Filho de branco com negra

o que era: era negro.

Filho de branco com índia

o que era: era índio

e virava propriedade.

 

E podia o dono vender

ou esconder sob o manto

protetor

sem nenhum espanto

ou pudor,

a prole.

 

Até mesmo tê-los como filhos

adotivos

e educá-los

ou domesticá-los como servos

sem nenhum embaraço.

 

Tudo podia ser

naquela bastardia que a lei

protegia pela omissão

e que a religião ignorava

quando nada podia fazer.

 

O resultado já sabemos:

a morenidade de uma meta-raça

— base de toda diversidade

de nossa unidade racial

origem de nosso sincretismo

e a capacidade final

de nossa santidade

sem nenhuma beatitude.

 

 

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Canto 25

 

A AMPULHETA

 

 

    “só o trabalho livre” (...) “satisfaria

     os anseios de colonização do Brasil”.

     OSCAR CANSTATT (1871)

 

Dois Brasis contrastavam

na hora da Independência

— um, ao norte, aristocrático

mantendo privilégios coloniais

e a escravatura

— outro, mais pobre,

no sul

aberto ao trabalho livre

pela imigração.

 

Que impedia, então

acabar com a escravidão

a exemplo das repúblicas vizinhas?!

 

Coloca-se a culpa na Monarquia...

 

Quem tinha escravos e benesses

eram os membros do Parlamento

(desde então e desde sempre...).

 

Qual a razão do contraste

que levaria ao desastre

da inversão da ampulheta

da História?

 

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Canto 26

 

O DUETO MONÁRQUICO

 

 

Ele, um garanhão católico libertino

e mandão, industrioso e mesmo cruel.

Ela, luterana inconformada

em terras de ousadias consentidas

e de tantas degenerações acobertadas.

 

Ele, liberal (ou amoral?)

em seus excessos e caprichos.

Ela, infensa aos mexericos

e indefesa nos constrangimentos.

 

Unidos em matrimônio numa aliança

de duas dinastias

de emblemático apelo

representado na Bandeira Imperial:

verde da casa de Bragança de D. Pedro

e amarelo da casa Lothringen-Habsburgo

cores que persistem até hoje

no Pavilhão Nacional!!

 

 

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Canto 27

 

A IMPERATRIZ LEOPOLDINA E OS IMIGRANTES

 

 

         “gentalha rota (...) muitos mal logravam encobrir a nudez...

                  (...) bêbeda a maior parte destes maltrapilhos e
                  vagabundos”.

                             EDUARDO THEODOR BOESCHE (em 1825)

 

Sem graça, varonil, calças rústicas

com botas e maciças esporas de prata

a Imperatriz luzia o garbo dos Habsburgo

a cara vermelha, os olhos azuis

de sua raça.

 

Moscas sobrevoando a cabeleira nobre

o suor ardido, os urubus ao largo.

 

Vermelha, sim, mas não do clima

— dizia-se, então, na corte —

por algum tipo de cachaça...

ou pelos destemperos do afoito consorte

acobertado por algum chalaça.

 

Cascos faiscando pelo pedregulhos

e fezes adubando o percurso imperial

— do paço ao litoral para inspecionarem

o Wilhelme em sua chegada ao porto

com seu carregamento de colonos.

 

A Imperatriz e os conterrâneos

imigrantes

a servir-lhes de intérprete.

O intrépido Pedro I, dentes alvos

cabelos anelados, olhos arredios:

admirado pelos contemporâneos

transeuntes e forâneos.

 

Sua imperial pessoa como medida

costa com costa, comparando-se

e selecionando os mais altos

e endereçando-os para São Leopoldo.

 

A Imperatriz e sua (pretensa)

empresa civilizadora

em colônias de sua inspiração

— pela liberdade de culto

e devoção e pela pujança

daquela terra prometida.

 

Esperança e redenção.

 

 

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Canto 28

 

O IMPERADOR PEDRO I E AS MILÍCIAS


     “seus modos eram grosseiros, faltava-lhe

          o sentimento das conveniências”.

              EDUARDO THEODOR BOESCHE (em 1828) 

 

No Wilhelmine  vinham  também

assassinos e ladrões algemados

homens rudes mas bem formados

pela natureza

escolhidos

para os batalhões de caçadores

granadeiros e toda milícia

— pelo porte e resistência.

 

Sujeitos logo a exercícios excessivos

à lascívia, à má alimentação

e desconfortos

e ao uso frequente da chibata

— Imperador em pessoa açoitava.

 

(“E pegando-os um a um pelo topete,

Passou-os todos a chicote”)

 

Condições humilhantes, deserções

Suicídios, aleijões e bebedeiras constantes

Rebeliões, desordem, amotinamentos.

 

Pagamentos atrasados, desespero

— denuncia o cadete Boesche.

 

Batalhões de irlandeses, caçadores alemães

ingleses e marinheiros franceses:

rixas e enfrentamentos frequentes

saques e estupros, mortes de civis

e civis massacrando soldados.

 

Quebras de hierarquia, prisões.

Anarquia.

 

O comandante Ewald, bêbedo

fez “desfilar a tropa em ordem

de marcha” frente ao jardim da casa

de uma rameira

e atou à bandeira do corpo militar

a liga azul “da Gertrudes”...

na parada do Campo de Santana...

 

Levaria longe descrever os excessos

ocorridos”.

 

Baste-nos o desabafo do jovem Boesche:

 

“Todo sentimento de direito e equidade se some,

em se tratando de proveito”:

 

Não se pode fazer ideia da malvadez

e perversidade da maior parte

dos europeus nos continentes estrangeiros”....

 

Paixões selvagens envenenam o sangue

 

(...) revelaram uma crueldade e baixeza

de espantar o selvagem.

 

 

 

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Canto 29  

 

POEMA COM RODAPÉ

 

      “corte provinciana formada de parentes,

           aderentes, parasitas”.
                                             JOAQUIM NABUCO

 

Os dedos engordurados* de D. João VI

as alcovas suorentas** de D. Pedro I

— nossa monarquia transplantada

ou foragida, depois repatriada.

 

Dom Pedro de Alcântara

conquanto não fosse bonito, tinha aspecto

agradável, e estatura harmônica. Sobravam-lhe

à fonte bastos cabelos negros e anelados,

olhos escuros e brilhantes saltitavam”...

(na descrição do jovem Boesche)

assim luzia aquele que viria  a ser

o soberano de sois continentes.

 

Teve o dia do fico

e o do vou m´embora

para salvar as coroas

d´aqui e d´além mar.

 

Teve o Imperador-menino

Dom Pedro de Alcântara Francisco Antônio

 João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael

 Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano

Serafim de Bragança e Bourbon

apaziguando as desavenças

depois Velho de Barbas Brancas***

mecenas das artes cênicas

da Grande Era Exemplar:

moderando a Monarquia Parlamentarista. 

 

* porque não lavava as mãos

e para assear-se, valeram-se de um artifício:

construíram uma casa de banhos em São Cristóvão

a pretexto de curas dermatológicas...

 

** impetuoso, mulherengo, fogoso valia-se

do Chalaça para orgias de todos conhecidas...

 

*** efígie em selo do Correio imperial.

 

 

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Canto 30

 

A REGÊNCIA TRINA

 

Com a abdicação do Imperador

foi o Brasil entregue aos brasileiros

em Regência:

o Marquês de Caravelas

o Visconde de Magé

e Campos Vergueiro

em  triunvirato:

 

um ato republicano

disfarçado de monárquico...

 

Quem diria, o português D. Pedro

era o mais brasileiro de todos

— intempestivo e impetuoso

(se pudesse, incestuoso)

e festivo.

 

Os partidos surgem dos quartéis

como ratos das sepulturas:

exaltados, moderados e conservadores

 

em meio a levantes e sedições

— soldados expulsando oficiais

e oficiais depondo comandantes

— a mon(an)arquia.

 

Como sempre, vieram as anistias

e tudo volta a ser como antes

nas sacristias

e nos clãs dominantes.

 

Monarquia republicana

— com presidentes na províncias —

e fidelidade ao Imperador-menino

na maioridade antecipada (1840)

para conter a bagunça

e assegurar a pacificação...

 

Continuidade da regência eletiva

e democrática...

mais efetiva e democrática

que a dos republicanos sulistas.

 

Haveria mais monarquismo pessoal

no caudilhismo dos pampas

do que na pantomima

da Quinta da Boa Vista.

 

Alguém entendeu?! Nem eu.

 

 

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Canto 31

 

DESTERRO

 

Na Ilha de Santa Catarina

nas ruelas do Desterro

no calçamento coberto de capim

onde cavalos e muares pastavam

Oscar Constatt (1871) constatou

condenados “presos dois a dois”

acorrentados, com seus uniformes

azuis e guarnições encarnadas.

 

Sem as condições necessárias

à regeneração moral dos delinquentes

emparelhados, expostos como indigentes

e em condições humilhantes:

ficam cada vez mais calejados

moralmente” degredados.

 

Lotados em ilhas e fortalezas

sem os mínimos cuidados

agrupados promiscuamente

sem “ter em vista a duração

da sentença” e a natureza dos crimes

ou então

fugindo e desaparecendo

pela falta de vigilância.

 

O que mudou desde então?

 

 

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Canto 32

 

A BANDEIRA IMPERIAL

 

Solano López usava

a Bandeira Imperial brasileira

como tapete

(uma afronta!)

— hoje, repatriada, virou relíquia

no Museu Histórico Nacional.

 

A Guerra do Paraguai

seria uma infâmia

contraposta à insânia de sua deflagração.

 

A História é mesmo dos vencedores

carregando em seu andores

ardores de sublimação transfigurada

— pátria amada idolatrada!!!-

na coleção do Museu

na memória pública

do interesse privado.

 

Havendo erro de cada lado

o que resta

é a Bandeira reconquistada

se é que ela presta

se não fora fabricada lá mesmo

ou importada.

 

Tanto faz...

livre da afronta e do insulto

jaz a nossa bandeira imperial

depositada para seu culto

— e valha tanta besteira! —

já que a História

não é só feita de glória.

 

 

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Canto 33

 

CANUDOS

 

 

      “das ondas do mar, São Sebastião sahirá...”

                                      ANTONIO CONSELHEIRO

 

Delírios, desvarios, martírios.

 

Multidões delirantes

pelas estações alcalinas

das prédicas redentoristas

pelas caatingas dilacerantes.

 

Práticas ascéticas

de atavismos vingadores

de ancestres persecutórios

das visões proféticas.

 

Pervagando, sitiadas

perseguidas

hordas peregrinas.

 

O Emissário em seu calvário

Ambulante,

o Apóstolo do apocalipse

pelo manicômio

delirante

em seu vaticínio

em seu encômio

em sua insânia.

 

 

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Canto 34

 

ANTONIO CONSELHEIRO

 

    “rosto tumefato, e esquálido,

       olhos fundos cheios de areia”.

                  EUCLIDES DA CUNHA

 

O cajado perdido, os trajos hediondos

e o sudário-mortalha do homem vencido

depois de uma batalha sem depois

depois de todas as mais vis batalhas

em que todos os corpos dos combatentes

(ou seriam penitentes, renitentes fiéis)

obstinados foram, um a um,

sacrificados.

 

Em andrajos, pestilentos, famintos

abatidos, mesmo os mais velhos  

e as crianças, foram todos imolados

todas, todas as casas derrubadas

— que não fique pedra sobre pedra

onde medra o vil messianismo!

 

Restaure-se a República em território

de heresias e cismas e loucura.

 

A cabeça do Conselheiro

decepada.

A caatinga emudecida

e humilhada

em sua vastidão

aviltada e entristecida.

 

Mas o sertão há-de virar mar

e Dom Sebastião há-de ressurgir

no milagre da restauração

de nossa monarquia

celestial e de nossa

idolatria terrenal.

 

 

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Canto 35

 

RUI, A FOGUEIRA E O MAR

 

I

Queimaram, Senhor, incineraram

numa pira ensandecida e solerte

nas chamas de um opróbrio

(palavra correta para o incorreto)

na fogueira dos despistamentos

todos os papéis, livros e documentos

existentes nas repartições

do Ministério da Fazenda

sobre o tráfico negreiro.

 

Para apagar a memória oficial

de uma ignomínia, uma infâmia

que sobreviveu à própria Abolição

que persiste nas nossas entranhas

e que reaparece, rebrota, reverbera

e violenta a nossa consciência.

 

Rui Barbosa, o ordenador

da queima de arquivos.

 

No incêndio culposo, as almas

dos condenados

nas labaredas, as agonias

dos penitentes

crepitando, gritos

lancinantes

seres aflitos abrasados

— sentimentos no queimor

de negritudes crestadas

tecidos tostados e ossos

tisnados, carvões

de cremações renitentes

persistentes.

 

Como se a centelha apagasse

o porão negro, fundo

infecto, apertado, imundo

O Navio Negreiro

de Castro Alves.

 

Como se as fornalhas ardentes

como mares incandescentes

borrassem a lembrança

daquelas temeridades.

 

Ó mar! por que não apagas

Co´a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?”

— clamor do poeta baiano

que o ministro soteropolitano

escutou...

 

 

II

 

Uma irreflexão, uma leviandade

uma aleivosia.

 

Por quê?! Por quê?!

 

Documentos fiscais

podiam ir a tribunais

em pleitos de ex-senhores

por indenizações.

 

[Não se apagam os resquícios

da covarde escravidão

destroem-se os vestígios

legais da propriedade servil!]

 

Na queima

de certidões

as sub-reptícias

intenções...

 

Pela honra da pátria

em defesa do estado...

 

 

III

 

Nas cinzas

do fogaréu patriótico

na ardência de um mea culpa

emulado em todos os Estados

num expurgo aclamado

pela imprensa

com as congratulações

e moções dos congressistas

signatários de fervores

exorcistas.

 

Daí vem a nossa desmemória

Senhor, de um povo sem história

(a salvo de vergonhas esquecidas)

sem heróis, sem glórias passadas.

 

Em vez de indenizar os escravos

pretendia-se ressarcir

os escravocratas.

 

Até o abolicionista Joaquim Nabuco

— estaria caduco? — em sua representação

pedia a inutilização dos livros

e registros “para que, em tempo algum

servissem à pretensão das indenizações

num arrazoado assim precipitado

ou eivado de boas intenções...

 

No indeferimento

do pedido de socialização das perdas e danos

Rui, constrangido, reconhecia:

mais justo seria

e melhor se consultaria o sentimento

nacional”, indenizar os ex-escravos

mas — lógico — sem onerar o Tesouro...

 

Dívida que ainda não pagamos.

 

 

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Canto 36

 

CAXIAS, UMA BREVE NOBILIARQUIA

  

Luis Alves de Lima e Silva

sentou praça em 1808;

regressou da Bahia capitão.

 

Da campanha do Sul voltou major.

Já coronel foi pacificar o Maranhão

das balaiadas bem-te-vis.

 

Considerava “a guerra

uma calamidade pública

mas entendeu ser também

um meio de civilização para o futuro”.

 

Como barão de Caxias combateu

sublevações em São Paulo e Minas Gerais.

 

Elevado a marechal-de-campo

e mandado a combater separatistas

(de “exageradas ideias”)

tornou-se conde e senador.

 

Depois de combater Rosas

é elevado a marquês e tenente-general.

 

Derrotando Solano Lopes no Paraguai

torna-se Duque de Caxias

e Ministro da Guerra

(depois que as guerras acabaram).

 

Garantiu o Império

mas o Império o traiu.

 

Foi um militar

mais que um político

no seu entendimento.

 

Rejeitou honras e pompas oficiais

e “quis ser enterrado como

obscuro paisano

escreveu Capistrano de Abreu

— morreu a 7 de maio de 1880

depois de lenta agonia.

 

 

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Canto 37

 

O BAILE DA ILHA FISCAL

 

Ao último baile do Império

veio o Silvério dos Reis

e veio o Inconfidente

(de enforcado e penitente)

com outro mascarado

— talvez o padre Anchieta

de muleta e o poeta Gonçalves

Dias como índio romantizado.

 

Veio Arariboia dos confundós

de Niterói e veio o herói

da Batalha de Riachuelo

da mortalha, arrependido;

veio a Chica da Silva fantasiada

de senhora de engenho;

vieram os Andradas redivivos

e os confederados e as criadas

das decadentes fazendas de café.

 

Vieram a pé os jesuítas

e os sibaritas maçons

(antes inflamados monarquistas

depois travestidos republicanos).

 

Veio Caminha de carruagem

como cronista social

e até o Barão de Mauá

de trem, com a Marquesa de Santos

acompanhando o Maurício de Nassau

e mais ninguém, para deixar espaço

aos oficiais chilenos — e as mulatas!

 

Depois do baile, o Monarca

foi de navio para a Europa

com uma pensão vitalícia

e começou para valer

o Carnaval da República.

 

 

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Canto 38

 

SI HAY GOBIERNO, SOY CONTRA

               

                      “democracia sem povo, sem cidadãos”.

                                                  MANOEL BOMFIM

 

O mais radical de nossos pensadores

— publicou su´A América Latina em 1905 –

foi o médico e educador Manoel Bomfim.

 

Quase um anarquista, quase um marxista!

 

Um socialista contra o liberalismo econômico,

um antiimperalista

contra a hegemonia europeia

e a dos emergentes Estados Unidos da América.

 

O mais original de nossos historiadores

ao denunciar a nossa herança colonial:

o parasitismo do Estado e das elites

como o mal a sugar a riqueza nacional.

 

Diziam ser contra tudo e contra todos

— em favor dos vencidos e dos oprimidos —

contra o Estado e contra a livre iniciativa.

 

Quem ouviu falar dele e de sua obra?

 

O Estado só serve para cobrar impostos...

Como opressor, em favor dos prepostos...

 

Combateu o positivismo, o evolucionismo

e o racismo, e qualquer determinismo

biológico, a supremacia do mais forte,

a mais-valia dos apoderados

e o darwinismo mal interpretado...

 

Pregou a educação e a reeducação

para a superação do atraso nacional,

mas

desiludido e combatido, afinal

acreditou numa única saída:

a REVOLUÇÃO

— nunca a de Getúlio, que ele combateu,

cujas contradições e retrocessos

denunciou.

 

Manoel Bomfim, um sergipano.

 

 

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Canto 39

 

OS DONOS DO PODER

 

    construir a realidade a golpes de leis”.

                RAYMUNDO FAORO

 

Que país é este? — pergunta-se —

a que estamos atrelados, condenados?

 

Que atavismos, que arcaísmos,

que caminhos enviesados

— de um capitalismo de Estado

privatizado pelos donos do poder.

 

“Estado patrimonial e estamento burocrático”

num suceder efetivamente errático,

persistentemente aristocrático.

 

A dominação

Ttadicional tornou-se patriarcal

(weberianamente)  entendida

e apropriada pelo quadro administrativo

com os mecanismos judiciais e militares

de sustentação.

 

Estrutura eterna de tutela e sujeição

que cinde o Estado e a Nação

e prescinde da iniciativa

e tolhe a liberdade de ação.

 

Manietando a sociedade

à ausência de uma economia

racional

desvirtuando o capitalismo (???)

criando a serventia e o favorecimento

em detrimento do social.

 

Modernidade ornamental.

 

De quem é mesmo este país

se da gente ele não é?!

 

 

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Canto 40

 

O PARADOXO DO CORONELISMO

 

             “o coronelismo falseia a representação política

                       e desacredita o  regime democrático”

                                     VITOR NUNES LEAL (1948)

 

O coronelismo — uma praga,

um cancro, um abcesso — sobrevive

e se renova na vida republicana.

 

Tem origem no patriarcalismo

— o patriarca isolava-se para produzir

e ajudava a manter a monarquia.

 

Mas, o coronel, o que seria?

 

O patriarca virava barão

e explorava terras, escravos

plantações e rebanhos;

o latifundiário vira coronel

em terras improdutivas

arrebanhando votos e favores.

 

Patriarcas e coronéis

são senhores feudais

em domínios coloniais.

 

O coronel atua (explícito)

no cenário local,

no município de base rural

mas — sub-reptício — projeta-se

na vida política nacional.

 

O coronelismo é, afinal,

o poder privado sobreposto

ao interesse público

pela ausência de governo

e anuência ao mando pessoal

atribuindo-lhe faculdades tais

(além de pessoais, imorais)

pela insuficiência do poder estatal.

 

Onde o “coronel” institui-se

no interior desprotegido e submisso

pelo dever omisso e subtraído,

pela ignorância, a miséria, o abandono.

 

O paradoxo: o coronelismo

é a extensão do direito do sufrágio

que sustenta a política rasteira

pelo privilégio do voto obrigatório

e universal ao analfabeto

— que o coronel intermedia...

 

Estágio de uma cidadania passiva,

distorção da própria democracia

pelo voto de cabresto, de curral

— rebanho eleitoral.

 

Vendendo, comprando

trocando votos cegos

— eleição a bico-de-pena,

listas, cédulas, urnas eletrônicas —

votos tão secretos

que nem se sabe

em quem se vota...

 

Regime representativo do quê?

 

Influência política dos donos da terra

na eleição fraudulenta

violenta, flatulenta.

 

Composição escusa, espúria

— expediente da República Velha —

sustentou a Nova República

as eleições atuais e as que virão

com represálias aos oposicionistas

e favoritismos para correligionários.

 

Criam-se mais e mais municípios

sem contudo emancipá-los...

sujeitá-los aos recursos externos,

torná-los eternos dependentes

 

do coronel, das verbas federais,

dos políticos, assistencialismo

 

de bolsa-isso e bolsa-aquilo

que garantem o conservadorismo

e o centralismo de qualquer governo

e, no decurso, só cultiva o poder.

 

 

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Canto 41

 

PARTIDOS-REPARTIDOS

 

O Positivismo era a unanimidade

entre civis e militares

no Império do Brasil,

mas eles estavam divididos

e aguerridos

(quando não estavam mancomunados).

 

No regime monárquico

(democrático e escravagista!)

o Imperador era suprapartidário

com posições libérrimas

em seu poder arbitrário

sobre as disputas acérrimas

entre conservadores e liberais

entre generais e civis.

 

Depois das fronteiras defendidas

definidas e pacificadas

as espadas, enfim, ensarilhadas,

vem a malfadada Questão Militar

— a politização dos quartéis:

um Exército deliberante

polemizando pela imprensa

em tom beligerante.

 

O Abolicionismo dos conservadores

tinha a oposição dos liberais...

Havia vanguardas cautelosas

e conservadores sediciosos...

e o paradoxo nada trivial

do conservador liberal...

e muita propaganda republicana

entre os descontentes fardados.

 

Liberais defendendo ideais

republicanos

e republicanos

exaltando reivindicações liberais.

 

Nada mais conservador do que um liberal

mais monarquista do que um republicano!

 

A alforria dos escravos

(sem a pretendida indenização...)

uniu os ressentidos

de todos os partidos.

 

Liberais estrategicamente conservadores.

Conservadores tacitamente republicanos,

políticos compondo e trocando

posições e funções nos gabinetes.

 

Crises, cisões, alas, facções,

fusões entre contrários,

adversários nos próprios partidos,

correligionários fazendo oposição.

 

Com a Proclamação da República

(um ato heroico de madrugada)

houve então a debandada:

conservadores e liberais

tornaram-se todos republicanos

(mantendo títulos de nobreza)

em novos grupos contrapostos

em dissidências figadais.

 

Cada partido em seu trono

com seu líder ou seu dono,

seu reduto eleitoral,

seu mandatário.

 

Assim o quadro partidário:

ninguém da Direita

todo mundo na Esquerda

“aliás, muito pelo contrário”.

 

 

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Canto 42

 

OS DOIS BRASIS

 

       os dois Brasis, tão diferentes, estão unidos pelo

            mesmo sentimento nacional e por muitos

            valores comuns”. 
                                      JACQUES LAMBERT

 

I

Uma unidade nacional coesa e forte

e uma extrema diversidade regional.

 

Dois brasis, cara a cara

ou de costas um para o outro.

 

— um progressista e o outro, arcaico:

 

um com as raízes no século XVIII, o outro

democrático, fincado na modernidade.

 

Uma unidade crítica, mas firme

sustentada em nosso federalismo.

 

E, no entanto, há mobilidade social

contraposta ao coronelismo das elites.

 

Um equilíbrio de graves sutilezas,

resistências surdas e tolerâncias.

 

Haja pactos para uma governança!

Haja alianças e subterfúgios!

 

Os pactos são públicos e privados

numa promiscuidade de conchavos.

 

 

II

Os dois brasis são três, são muitos,

estão mas não são irreversíveis,

 

embora sejam — e são! — recalcitrantes

resistentes, em oposições cordiais

 

porque se dialoga e se negocia,

em que se muda pra ficar igual.

 

Resquícios de colonizações ainda recentes

numa geografia de flagrantes maniqueísmos,

 

de relações difíceis com os migrantes

criando tais desníveis e inferioridades

 

de assimilações forçadas e dissimuladas

de integrações por via do desenvolvimento

 

e não por decretos, pela instrução

e não se quer eliminar as diferenças

 

mas, a longo prazo — absorvíveis,

superáveis —  todos estaremos absortos

 

a longo prazo, todos estaremos mortos

numa igualdade de sepultamento.

 

 

III

Numa diáspora nordestina e sulista

amalgamadora, fusionaria, centrifugadora

 

dos nortistas para o Leste e o Oeste

dos sulistas para o oeste e o nordeste

 

— os paus-de-arara querendo alforria,

os do sul buscando terras de cultivo.

 

Antes as monções e as bandeiras

do mar para o interior, escravizando

 

povos indígenas, buscando o Eldorado,

povoando, explorando, catequizando,

 

criando a sociedade dualista

de que ainda não nos libertamos.

 

 

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Canto 43

 

O DITADOR DE TURNO

 

Em sua canhestra racionalidade

o Canalha vê a nacionalidade

como um protetorado:

faz discurso de sedução

apelando ao populismo.

 

Maiorias surdas e mudas

expostas aos chavões e refrãos,

artimanhas de seu cego patriotismo.

 

O Ditador é sempre viscoso e aderente

e prepotente e desequilibrado,

horrorizado com a possibilidade

de qualquer institucionalização

que limite a excepcionalidade

de seus poderes e humores.

 

Ele mesmo, o Ditador

se autoproclama

restaurador da Ordem

pela moralização da sociedade.

 

Está sempre aceso e acossado

abrindo espaços a destempo

impondo regras perceptíveis

mas nunca verdadeiramente

inteligíveis:

acatadas pelo medo e intimidação.

 

Falando sempre de um bem

inacessível,

pregando a virtude retórica

irreconhecível

de seu pretenso messianismo

mas vai logo recrudescer e perpetuar

em males que promete extirpar...

 

Apaixonado pelas crises

em que se sustenta:

ele não pode viver em paz.

 

Todo ditador porta uma cauda invisível

de sua inequívoca descendência de réptil

ou é um primata com um ímpeto assassino

e instinto de suíno.

 

Na mente inerme de uma minoria

privilegiada ou mal informada

— chaleira, puxa-saco —

pode haver alguma identidade

com ele.

 

Um ser serpentário

resvalando por territórios dominados,

demarcados pelo despotismo e o nepotismo.

 

É mais fácil corromper um regime

que mantê-lo sadio!

 

Mas o Ditador traz sempre (!!!)

o germe da (própria) destruição.

 

 

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Canto  44

 

A FRAUDE ELEITORAL DE 1989

 

I – Os antecedentes

 

Os fraudadores vêm armados

de argumentos engenhosos

(que precisam ser desarmados)

baseados em lógicas, teoremas,

estratagemas e até superstições...

 

Armações, maquiavelismos.

Tecnologias e patriotismos...

 

 

II. A Eleição de 1989

 

Collor foi eleito pela fraude

eleitoral

no pleito de 1989

mas, afinal,

Lula foi o único beneficiário

(seguro) da armação

se não, de imediato

— no futuro imaginário.

 

O então candidato-operário

era a contraposição genuína

na disputa.

 

O “caçador de marajás” das Alagoas

— ele próprio o marajá em pessoa,

herói de novela, ícone de tecnologia

eleitoreira;

Lula, barbudo radical,

nordestino carrancudo

com cabelo africanizado

no maniqueísmo de TV.

 

Dois extremos programados

nos programas de televisão

— mais do que nos programas políticos,

que eram raquíticos

de textos

e de ideias,

jogados para as plateias

em horário obrigatório.

 

(Um purgatório...)

Palavras, mais que ideias.

Imagens mais que propostas

dos personagens.

Miragens, ventriloquia.

Dois radicalizados

com discursos ajustados

às circunstâncias.

 

 

III – Nada de revanchismo!

 

Era a primeira eleição direta

depois de vinte e cinco anos

de ditaduras e aberturas discretas

no processo de redemocratização.

 

Na terceira posição, Leonel Brizola,

ainda popular, ainda prestigiado

líder nacional.

 

Qual o perigo?

Lula era emblemático.

Collor midiático.

Brizola, carismático.

 

A rejeição a Collor e Lula,

muito elevada por seus radicalismos

de direita e de esquerda

— prato cheio para a mídia

e para os marqueteiros.

 

Havia outros candidatos

naquele fatídico ano

dividindo o voto dos indecisos:

Aureliano, Maluf, Ulisses...

Representando forças vivas

da situação e da reação

no processo republicano.

 

 

IV – A tese...

 

O confronto (soturno) deveria ser,

tinha que ser

entre Collor e Lula,

no segundo turno.

 

O super-herói das Alagoas

contra o Sapo barbudo,

um defendendo o Mercado

- “prefiro ser o último dos desenvolvidos

a ser o primeiro dos subdesenvolvidos...” –

o outro proclamando-se terceiro-mundista.

 

Haveria ou não, nos bastidores,

nos corredores escuros do poder,

um pacto a ser cumprido?!

 

Como garantir a transição

sem o risco do revanchismo?

 

Quem garantia a anistia

e a cortina sobre o passado?

Quem poderia perturbar

o legado da transição democrática,

a garantia da continuidade,

da paz e da conciliação?

 

Haveria um pacto de silêncio

mas também de submissão

(infame) ao seu ditame:

que nenhum político pré-1964

saia ungido da eleição!!!

 

 

IV – O álibi

 

Na suposta fraude nacional

o álibi seria perfeito:

paulista não vota em gaúcho!

 

Afinal, todos sabem (?!)

Getúlio Vargas humilhou São Paulo

enterrou a Revolução Constitucionalista de 1932.

 

Brizola é gaúcho, logo...

Um ardil verossímil

apesar de imbecil.

 

Que me perdoem os paulistas

mas o povo – eu desconfio –

nem sabe (mais) quem foi Getúlio...

 

No páreo de candidatos

havia tantos paulistas

a dividir votos

no primeiro turno...

 

 

V – A apuração

 

Eu estava lá, cético, cismado,

acompanhando o cômputo dos votos

— seriam mais bem ex-votos

de eleitores esperançosos

em alguma transformação...

 

Era no Centro de Convenções de Brasília

o quartel-general do Tribunal

Superior

Eleitoral,

quando as apurações eletrônicas

chegavam sucessivamente

deste país-continente,

sem qualquer ordem ou preceito.

 

Nada de contagem de voto na mesa,

urna a urna, em cada sessão,

município por município,

estado por estado... Boletim

assinado por mesário...

 

Coisa arcaica, superada...

— riam os correligionários.

 

Havia então um valão de votos

de qualquer procedência

num cômputo aleatório.

 

Na Presidência do TSE

um mineiro

enquanto os votos de Minas

atrasavam. Coincidência.

 

Os votos chegavam pela rede,

contados em conta-gotas,

painéis mostrando apurações

parciais, indefinidas,

para a estranheza dos analistas.

 

 

VI – O impasse

 

Um empate técnico Lula-Brizola

pelo segundo lugar

contrariando a previsão.

 

Os votos de Brizola e de Lula

levavam ao empate e ao impasse.

 

Houve repasse de votos

de Brizola para Lula

nos redutos brizolistas na divisa

de Minas Gerais com o Rio de Janeiro?

 

Seriam especulações de derrotado?

Complexo de perseguido, alienado?

 

Os votos que (presumivelmente) sumiam

eram os de Minas Gerais...

 

Não havia mais Jornal do Brasil

para uma apuração paralela...

 

Haveria o PT de permitir

a recontagem de votos

— colocar em dúvida a vantagem

de seu candidato?

 

Um esquema de eleição já decidida?

 

 

VII – O Quixote dos Pampas

 

Brizola seria um Quixote alucinado

contra os moinhos de vento

do Supremo Tribunal Eleitoral?

 

Só ele enxerga as artimanhas

de tamanhas majestades!?

 

As mesmíssimas forças governam

por gerações e gerações,

— terrível herdade!—

nos bastidores,

não importando os resultados das eleições,

compondo as maiorias

da governabilidade.

 

 

VIII – Crônica de uma morte anunciada

 

Todo mundo se lembra

daquele debate final

— COLLOR X LULA –

frio e premeditado

com roteiro e desenlace

preconcebidos.

 

Até a TV Globo (agora)

reconhece por escrito

que houve uma “edição”

— não falemos de manipulação —

do compacto do debate

para influir na eleição.

 

De quem foi a decisão?

Ainda estão discutindo.

 

Veio depois o confisco

dos depósitos bancários,

o arroubo perdulário

do primeiro mandatário,

os amores interministeriais

e favores de secretários.

 

Francisco Rezek

— que surpresa! — nomeado

ministro do Exterior..

 

Em que país civilizado

o juiz de uma eleição

aceita cargo de confiança

de uma das partes, vencedora?

 

Não o critico por isso

— nem a favor nem contra

aliás, muito pelo contrário —

posto que sendo culto e preparado

merecia o posto. Repito apenas

o que corria a boca pequena.

Maledicências...

 

Dizem ainda que, salvando-nos

das cinzas, tivemos

a abertura da economia.

Quem diria!

 

Sempre um programa modernizador

vem pelas mãos dos mais retrógrados,

diz-nos qualquer historiador...

Foram os conservadores e não os liberais

que, na Monarquia, faziam concessões

entendidas como avanços sociais...

 

(Mas sempre foi assim

ao longo de nossa história:

enquanto os radicais se matam

por ideias e não avançam,

o reacionários concedem,

transformam, sem grandes mudanças...)

 

 

IX– Perguntar não ofende

 

Especulações, fantasias, elucubrações?

Por que não responder às questões?

 

Onde estão os arquivos das eleições?

Qual o destino daquelas urnas suspeitas?

Os votos que teriam migrado

do Brizola para o Lula

—  conforme a suspeita do Caudilho –

que rumo tomaram no segundo turno?

Alguém já comparou os escrutínios?

 

Eleições fraudulentas no Brasil?!

Quem vai acreditar?!

Nem nos Estados Unidos

onde se sabe votar e contar votos!!!

Nem na disputa Bush e Al Gore...

 

Será que um programa de computador

transforma a linguagem solerte

e dúbia de um político profissional

em mensagem objetiva e preclara?

 

Se o sistema eleitoral

sempre foi enviesado

pode o computador

anular os subterfúgios

e inibir os conchavos?

 

O programa de computador

orienta a desorientação partidária?

Desentorta o discurso demagógico

e eleitoreiro da versão marqueteira?

 

Inibe o abuso de poder?

Coíbe o uso da máquina administrativa?

Impede a compra de votos?

Denuncia os candidatos-laranjas?

Os caixa dois, caixa três, quatro

e o escambau?

 

O computador acaba

com os eleitores fantasmas?

 

Só o programa de computador

é inviolável, indevassável, incorruptível?

 

Só o programa partidário

é fictício, enganoso e mentiroso?

 

O computador ilumina consciências

e orienta a melhor escolha?

 

O computador acaba

definitivamente,

para sempre,

com os escrutínios fraudulentos?

Controla as arrecadações coercitivas

e as associações com o crime organizado?

 

 

X – A contra-argumentação

 

Se já invadiram contas bancárias

e sumiram com somas absurdas...

 

Se já fizeram remessas clandestinas

para tantos paraísos fiscais...

 

Se os sistemas de segurança

são inseguros até no Pentágono!

 

Se for assim, então, sem dúvida

o Barão de Pindaré Júnior

vai declarar o seu voto

nas vindouras eleições

— mesmo sendo o voto secreto— :

vai votar no Computador.

 

Eu não sei de nada,

e só falo de ouvido.

Para ser confirmado

que procurem o Meritíssimo

agora protegido

na imunidade de seu cargo.

 

Eu, pelo contrário, o defendo

por sua clarividência.

 

Acredito piamente

na ignorância dele:

ele nada sabia,

como acredito em fadas,

duendes e no chupa-cabra.

 

Só fez o que era possível

naquela circunstância

— alguém que sinta repugnância

contra ato tão patriótico.

 

Collor deu no que deu

e se... Sei lá, foi-se

o que era doce

e passados todos esses anos

de democracia representativa

— mais representativa que democrática —

estamos na plenitude republicana.

 

 

XI - EPÍLOGO

 

País sem memória, por opção.

Dados existem. Onde estão?

 

Foi há tão pouco tempo

mas ninguém se lembra mais.

 

E eu a abrir túmulos,

a falar de urnas sepultadas.

 

Que os cadáveres da ditadura

elevem suas vozes

e saiam da escuridão.

 

Que os algozes na sinecura

que presidem esta Nação

locupletados no Estado

sejam um dia julgados!

 

Voltem os mortos às suas tumbas,

os documentos secretos saiam dos porões.

 

A democracia consentida

apaga qualquer ferida

apesar das cicatrizes.

 

Que a paz não seja um pacto

de conciliação e olvido,

mesmo que não haja perdão,

nem justiça, nem reconciliação

com o regime maldito

que ainda não superamos.

 

Tenho dito.

 

 

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Canto 45

 

CRISE

 

Tem um anti-herói – Macunaíma – levitando no Congresso.

 

Os intelectuais estão mudos, perplexos,

monologando sobre a utopia corrompida,

relendo manifestos. Paquidermes ressentidos.

 

Os políticos sangram, desencantam

(quem foi estilingue virou vidraça)

sugam as entranhas do poder

num inferno a céu aberto.

Em posições trocadas, os canalhas

em espelhismos e disfarces sutis

exorcizam fantasmas redivivos

— ou seriam mortos-vivos

canibalizados.

 

Um  batráquio atônito discursa

para as colunas surdas

para ouvir o próprio eco.

 

Não, não e não!!!  é o bordão

dos acusados. Ato falho, coerção

enquanto os jornalistas sádicos

regozijam-se, triunfantes

sobre os escombros.

 

Os urubus planam ávidos

sobre a esplanada desconcertante

e os ratos roem os alicerces

precários.

 

Os banqueiros estão blindados

mas assustados.

Os militares cegos, os religiosos surdos

e os juízes calados.

 

A população aturdida

— enquanto a lama medra -

não entende mas pressente

a véspera do nada.

 

 

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Canto 46

 

CAIXA DOIS E METÁSTASE

 

Porque sempre foi assim,

não tem por que ser sempre assim.

 

Acuado pela crise

o presidente Lula orquestrou

a tese do Caixa Dois

como um vício republicano

— a compra de votos —

trocando o efeito pela causa:

um determinismo político

execrável mas justificável.

 

Instado a pronunciar-se

depois da queda de ministros e assessores

e de aliados envolvidos com os escândalos,

declarou-se surpreso e traído;

afirmou que cortaria da própria carne

se preciso fosse

como a oferecer outro dedo ao sacrifício

— mas não apontou culpados.

 

Quando a crise arrefeceu

saturada e alastrada pelos partidos

da base aliada e entre adversários,

pelas empresas estatais e fundos de pensão

no escambo e escambau,

numa trama tentacular e cancerosa

o presidente ofereceu cargos

e liberou verbas aos políticos

e admitiu que houve erros

mas nunca-jamais corrupção

em seu governo

(dizendo ser essa a prática dos anteriores)

logo aplaudido pelos acusados

e ameaçados de cassação de mandatos.

 

Mas a crise se alastra

subterrânea e sub-reptícia

e os cadáveres saem dos arquivos

para as manchetes dos jornais

na metástase do poder corrompido,

nos estertores de um sistema político

falido.

[Ainda sonho com o parlamentarismo

com partidos estáveis, fidelidade partidária,

com uma nova Constituinte,

com uma verdadeira reforma política!!!]

 

 

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Canto 47

 

POVOS DE RUA

 

“... minha percepção de rua: fio de ligação

entre a matéria e o espírito”.

             CRISTINA DOS SANTOS PEREIRA

 

 

A rua é a pátria dos excluídos,

dos povos de rua, desalojados

dormindo seminus nas calçadas

procriando e constituindo

famílias errantes e carentes.

 

O Brasil é uma rua só

que começa em Salvador

continua em Maceió e Fortaleza

chega ao Rio de Janeiro

passa por Curitiba e Belo Horizonte

estreitando-se em Belém do Pará

e terminando em Porto Velho

e Cuiabá, além de Brasília.

 

Uma rua só e sem teto

em que transitam hordas

humanas, dejetos, povos deserdados

da sorte, os desafortunados

os expulsos, uma coorte

de humilhados, desempregados

catadores de papel, travestis

prostitutas e proxenetas

bêbedos, drogados, doentes

nas sarjetas, debaixo de marquises.

 

Uma rua que começou em Lisboa

com os seus enjeitados, mendigos

meninos sem pais, abandonados

às portas das igrejas, degredados.

 

Uma rua que começou nos porões

das galés dos escravos d´África ,

nas ralés dos imigrantes e exilados,

na trilha dos retirantes da seca,

do latifúndio e da ignorância.

 

Famintos mas plenos de fé,

loucos mas ainda esperançosos,

em andrajos, mas até orgulhosos,

exigindo respeito e dignidade

no lúmpen, mas em liberdade.

 

Biscateiros, vendedores ambulantes

malandros, aleijados, boêmios inveterados

meninas estupradas, transeuntes

feirantes em pernoite, notívagos, vagabundos

as vítimas de assaltos e chacinas

— e os fanáticos, pregadores de Bíblia na mão

anunciando o fim dos tempos.

 

 

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Canto 48

 

VIOLÊNCIA URBANA

 

Oh sobressaltos notívagos, assaltos

temores, necessidades inconformadas!

 

Ferrolhos, grades, armadilhas

trancas, retrancas, alarmes

portões e treliças, pregos, alçapões

pés-de-cabra, machados, punhais.

 

Levantam-se muros e barricada

desespero, imprecações.

 

Insumos, consumos, exsumos sem remissão.

 

Mil, dez mil igrejas tributadoras

de estardalhaço

no desassossego de nenhuma salvação.

 

 

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Canto 49

 

PAÍS INCONCLUSO

 

           “Já desisto de lavrar

             este país inconcluso

            de rios informulados

            e geografia perplexa.”                 

               CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

 

I

Eu, nem tanto.

 

É uma lavra complexa

em terras sediciosas

e arbitrárias.

 

No entanto

sedutoras.

 

Capitanias hereditárias

(promissoras!)

atávicas, refratárias

à transformação

senão pela ação

contestatária.

 

Que assim seja!

 

Pela lavra reflexa

da palavra incidente

sobre o país obtuso

e demente.

 

Com bisturis e acicate

na visão de gabinete

em versos brancos

verdes e amarelos.

 

Haja ira e ironia!

 

 

II

Brasil que o poeta

percebe envergonhado,

de paletó e gravata,

numa leitura de enfado.

 

Uma geografia perplexa

de estados maiores

e províncias menores

numa política

de supremacias

e inferioridades

sob o disfarce

federativo.

 

Depois da Guerra, alçado

aos seus questionamentos.

 

Depois de Getúlio Vargas

e antes do mesmo Getúlio.

 

Claros enigmas, eleições:

pretensas mudanças

informuladas, atadas

a estruturas pensas

a conchavos  subterrâneos

a acordos de aparência

sujeitos às fraturas

de qualquer dissidência.

 

Lutar com palavras

parece sem fruto”.

 

Rosa do Povo, cancerosa

em que o poeta

protesta mas desanima

assina o livro-de-ponto

depois

aperta o detonador

do poema

e desperta

as consciências

na penumbra surda

das massas, no aconchego

das musas.

 

 

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Canto 50

 

DIACRÍTICA

 

Parece que a História não se dá no tempo

sucessivo, mas em tempos paralelos,

— contraditórios —

sem antecedentes e consequências

 

se no tempo, fracionário e arbitrário

se no espaço, disperso e controverso

 

contraposto, sem fim e sem princípios

sujeito às ideologias

que desviam e mascaram

os sentidos.

 

Que História é essa do Brasil?

 

Do colonizador travestido de missionário?

Do aristocrata fantasiado de revolucionário?

 

Parece que a História é carente de exemplos

— não tem respostas nem explicações —

nada que mitigue nossas aflições.

 

Não conhecemos heróis,

nem mártires, nem próceres

mesmo aqueles condestáveis

imortalizados em monumentos marmóreos

desconhecidos dos passantes.

 

Nada de bonapartismos, peronismos

nunca um Simón Bolívar,

jamais um Gandhi

 

Tiradentes, Pedro II, Caxias...

 

Todos são canibalizados

ou carnavalizados

 

isso é muito bom, muito ruim.

 

Só por decreto reverenciamos

a Bandeira Nacional

fora da Copa do Mundo.

 

Preferimos as estátuas de orixás

as iemanjás

os cristos-redentores

as formas mais abstratas

— que são as mais inteligíveis

porque desmitificadas.

 

Os poderes, mal distribuídos

os direitos aos aquinhoados

 

os políticos revezam-se

nas sinecuras

 

os do judiciário protegem-se

em armaduras eternas

por menos que durem

 

os religiosos

numa impostura de funerária

 

e os militares, quando aquartelados

— guardiões das instituições —

sentem saudades do poder.

 

Nos períodos de maior rigor

há mais desfiles militares

 

quando há mais miséria e medo

— e infortúnio —

acontecem as procissões e romarias.

 

Nessa hierarquia festiva

Senhor, a sociedade se organiza:

na intenção religiosa fica a Semana Santa,

na direção cívica cabe o 7 de Setembro

e, como ninguém é de ferro, rompem-se

as amarras

soltam as frangas

no Carnaval de todos os disfarces.

 

Tudo indica, Senhor, que o padrão

seja a alteridade: as negras podem ser

evangélicas e as brancas mães-de-santo

sem causar espanto

ou confusão.

 

E mais: que experimentam a ambivalência

nas relações sociais – um cientista de renome

 — Roberto Da Matta — diz mais:

que podem ter duas convicções opostas

— uma em casa, outra na rua.

 

Em casa são conservadores, autoritários,

na rua, tolerantes, liberais

e coisas mais: condescendência aos amigos

e rigor para os demais.

 

Um povo que idolatra com escárnio

que louva enquanto blasfema

 

é o que se pode dizer

fora dos holofotes.

 

 

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Canto 51

 

SAMBAQUIS

 

Que povos dizimados,

que línguas extintas

que marcas ardentes

povoam as cavernas

de paredes imanentes

nos vestígios rupestres

em São Raimundo Nonato?

 

Que vozes ressoam

com os ventos passantes

entre ruínas reluzentes

de nossos antepassados

na Serra da Capivara?

 

Que nos revelam

as cerâmicas silentes

dos povos marajoaras

desaparecidos, ausentes?

 

Verdadeiramente

de onde vieram?

De muitas partes

certamente.

Quando? Por onde?

 

De períodos remotos

por caminhos ignotos.

 

De quem eram as ossadas

sepultadas em urnas funerárias

em sambaquis enterrados?

 

Que relações com povos andinos

com civilizações asiáticas

com homens pré-históricos?

 

Que palavras permaneceram

daquelas línguas isoladas

esquecidas, soterradas

pelo tempo ou dizimadas

pela civilização?

 

Que dizem as pinturas

e figuras das cerâmicas

de Santarém?

Que cerimônias ensejavam?

 

Que pensavam e sonhavam,

que costumes havia

como sobrevivia no cotidiano

o homem destas paragens

dez, dez mil, trinta mil

anos atrás?

 

Que história haveria

na pré-história

e que desvenda

a sua arqueologia?

 

Cabral surpreendeu-se com ossos

nos lábios dos indígenas — os tambetás —

sem entender as origens

e nenhum significado.

 

E os muiraquitãs zoomorfos

a que serviam?

 

Que Champolión haverá de decifrar

os hieróglifos

da pedra lascada do Ingá?

 

Que mitos, que ritos

revelam os grafismos

e antropomorfismos  de um Maracá?

Que imagens ainda guardamos

nas faces errantes

que traços antigos

sobrevivem na gente?

 

 

 

 

 

 
 
 
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