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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
POESIA MUNDIAL EM PORTUGUÊS

PAUL VERLAINE

 

Paul Marie Verlaine (30 de Março de 1844 – 8 de Janeiro de 1896) é considerado um dos maiores e mais populares poetas franceses.

 

Extraído de

 

 

FRÓES, Heitor FMeus poemas dos outros. Traduções e versões.  Bahia, 1952.  312 p. "Deste livro foram impresso 1.000 exemplares em papel de qualidade superior e 500 exemplares  em papel Westerpost, exclusivamente para subscritores, numerados e rubricados pelo autor."  Ex. bibl. Antonio Miranda.

 

 

 

CORTÈGE

Un singe en veste de brocart
Trotte et gambade devant elle
Qui froisse un mouchoir de dentelle
Dans sa main gantée avec art,

Tandis qu'un négrillon tout rouge
Maintient à tour de bras les pans
De sa lourde robe en suspens,
Attentif à tout pli qui bouge.

Le singe ne perd pas des yeux
La gorge blanche de la dame,
Opulent trésor qui réclame
Le torse nu de Vun des dieux.

Le négrillon parfois soulève
Plus haut qu'il ne faut, Vaigrefin,
Son fardeau somptueux, afin De voir ce dont la nuit il rêve;

Elle va par les escaliers,
Et ne parait pas davantage
Sensible à l'insolent suffrage
De ses animaux familiers.

 

 

O SÉQUITO

Tradução de Heitor P. Froes

 

Num jaleco de brocado
Um macaco pula e trota
Ante a bela que amarrota
Na dextra um lenço rendado. .

E um negrinho petulante
De libré toda encarnada
Segura a cauda pesada
Do vestido farfalhante.

Prende o mono os olhos seus
No níveo colo da dama
— Um tesouro que reclama
O abraço viril de um Deus!

O negrinho, sem-vergonha,
Suspende mais o vestido
Para fitar comovido
Os primores com que sonha;

E a Diva tranquilamente
Sobe e desce pela escada
Qual se estivesse alheiada
De seu séquito insolente!...

 

 

TRÊS POEMAS DE PAUL VERLAINE

Tradução de MANUEL BANDEIRA

         I

No ermo da mata o som da trompa ecoa,
Vem expirar embaixo da colina.
É uma dor de orfandade se imagina
Na brisa, que em ladridos erra à toa.

A alma do lobo nessa voz ressoa. . .
Enche os vales e o céu, baixa à campina,
Numa agonia que à ternura inclina
E que tanto seduz quanto magoa.

Para tornar mais suave esse lamento.
Através do crepúsculo sangrento,
Como linho desfeito a neve cai.

Tão brando é o ar da tarde, que parece
Um suspiro do outono. E a noite desce
Sobre a paisagem lenta que se esvai.

 

II

As mãos que foram minhas, mãos
Tão bonitas, mãos tão pequenas, A
pós tanto equívoco e penas,
Tantos episódios pagãos,

Após os exílios medonhos,
Ódios, murmurações, torpezas,
Senhoris mais do que as princesas
As caras mãos abrem-me os sonhos.

Mãos no meu sono e na minh'alma,
Pudera eu, ó mãos celestes,
Adivinhar o que dissestes
A est´alma sem pouso nem calma!

Mente-me acaso a visão casta
De espiritual afinidade,
De maternal cumplicidade
E de afeição estreita e vasta?

Caro remorso, dor tão boa,
Sonhos benditos,  mãos amadas,
Oh essas mãos, mãos consagradas,
Fazei o gesto que perdoa!

 

III

Chora em meu coração
Como chove lá fora.
Que desconsolação
Me aperta o coração!

Oh a chuva no telhado
Batendo em doce ruído!
Para as horas de enfado,
Oh a chuva no telhado!

Chora em ti sem razão,
Coração sem coragem.
Se não houve traição,
Teu luto é sem razão.

Certo, é esse a pior dor:
O não saber por que
Sem ódio e sem amor
Há em mim tamanha dor.

 

VERLAINE, Paul. Festas galantes. Tradução de Onestaldo Pennafort.  Terceira edição revista.  Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1983. 160 p.   Capa: Antonio Sergio de Farias Braga, reproduzindo quadro de Antine Watteau. Ex. bibl. Antonio Miranda

 

Tradução de Onestaldo Pennafort.

 

 

CLA1R DE LUNE

 

Votre âme est un paysage choisi

Que vont charmant masques et bergamasques,

Jouant du luth et dansant, et quasi

Tristes sous leurs déguisements fantasques.

 

Tout en chantant sur le mode mineur
L´amaur vainqueur et la vie opportune,
Ils n´ont pas l´air de croire à leur bonheur
Et leur chanson se mêle au clair de lune,

 

Au calme clair de lune triste et beau,

Qui fait rêver les oiseaux dans les arbres

Et sangloter d´extase les jets d'eau,

Les grands jets d'eau sveltes parmi les marbres.

 

 

 

 

LUAR

 

Tua alma é uma paisagem de outros dias
por onde, ao som de alaúdes, vão passando,
quase tristes nas suas fantasias,
bergamascos e máscaras dançando.

 

E cantando em surdina a doce vida
e o amor vitorioso, eles têm o ar
de quem de tudo e até de si duvida,
me o seu canto mistura-se ao luar,

 

ao calmo luar cheio de encanto e mágoa

que faz sonhar aos pássaros nas árvores

e soluçar de êxtase os jorros d'água,

os grandes jorros d'água esveltos entre os mármores.

 

 

 

LES INGÉNUS 

 

Les hauts talons luttaient avec les longues jupes,
En sorte que, selon le terrain et le vent,
Parfois luisaient des bas de jambes, trop souvent
Interceptés! — et nous aimions ce jeu de dupes.

 

Parfois aussi le dard d'un insecte jaloux
Inquiétait le col des belles sous les branches,
Et c'était des éclairs soudains de nuques blanches,
Et ce régûl comblait nos jeunes yeux de fous.

 

Le soir tombait, un soir équivoque d'automne.
Les belles, se pendant rêveuses à nos bras,
Dirent alors des mots si spécieux, tout bas,
Que notre âme depuis ce temps tremble et s'étonne.

 

 

 

 

OS INGÊNUOS

 

Com as saias longas os tacões altos lutavam.
De modo que, ao sabor do terreno ou do vento,
as meias — e isso bem que era um divertimento —
ocultas quase sempre, às vezes se mostravam.

 

Também, às vezes, sob os ramos, se uns insetos,
pousando-lhes no colo, as belas surpreendiam,
uns súbitos clarões de alvas nucas se viam,
e isso nos regalava os olhos irrequietos.

 

Caía a tarde, tarde outonal e adequada.

E, pelo nosso braço, as belas, divagando,

iam tais cousas, tão sutis, nos sussurrando,

que desde então nossa alma ainda treme, espantada.

 

 

 

Página publicada em dezembro de 2017; ampliada em setembro de 2018


 

 

 
 
 
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