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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
POESIA MUNDIAL EM PORTUGUÊS

CHARLES BAUDELAIRE

 

Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 — Paris, 31 de agosto de 1867) foi um poeta boémio, dandy, flâneur e teórico da arte francesa. É considerado um dos precursores do simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha se relacionado com diversas escolas artísticas. Sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX. /Biografia completa em: pt.wikipedia.org/wiki/

 

 

BAUDELAIRE, Charles,  Elevação /e outros poemas/.  Tradução de Renato Suttana.  Capa e         ilustrrações internas: Aline Daka. Revisão: Camilo Prado.   Desterro, SC: Edições  Nephelibata, 2018.  109 p.  14,,5 x  20 cm.  Exemplar no. 20 de uma edição de 70. Col. Antonio Miranda

 

Charles Baudelaire (1821-1867) é um dos poetas mais relevantes da literatura ocidental e não seria exagero dizer que sua principal obra, As flores do mal (Los fleurs dn mal — 1857), representou uma verdadeira revolução no género lírico. Para além do escândalo causado por sua publicação, o que levou o poeta e seu editor aos tribunais (resultando numa segunda edição censurada em 1860), o livro instituiu as bases para o desenvolvimento posterior do decadentismo e do simbolismo, sendo considerado por muitos como a obra que inaugura a lírica moderna.

 

TEXTOS

EM PORTUGUÊS   -   EN FRANÇAIS

 

AU LECTEUR 

La sottise, l'erreur, le péché, la lésine,
Occupent nos esprits et travaillent nos corps,
Et nous alimentons nos aimables remords,
Comme les mendiants nourrissent leur vermine.

 

Nos péchés sont têtus, nos repentirs sont lâches;
Nous nous faisons payer grassement nos aveux,
Et nous rentrons gaiement dans le chemin bourbeux,
Croyant par de vils pleurs laver toutes nos taches.

 

Sur 1'oreiller du mal c'est Satan Trismégiste
Qui berce longuement notre esprit enchanté,
Et le riche métal de notre volonté
Est tout vaporisé par ce savant chimiste.

 

Cest le Diable qui tient les fils qui nous remuent!
Aux objets répugnants nous trouvons des appas;
Chaque jour vers
1'Enfer nous descendons d'un pas,
Sans horreur, à travers des ténèbres qui puent.

 

Ainsi qu'un débauché pauvre qui baise et mange
Le sein martyrisé d'une antique catin,
Nous volons au passage un plaisir clandestin
Que nous pressons bien fort comme une vieille orange.
 

Serré, fourmillant, comme un million d'helminthes,
Dans nos cerveaux ribote un peuple de Démons,
Et, quand nous respirons, la Mort dans nos poumons
Descend, fleuve invisible, avec de sourdes plaintes.

 

Si le viol, le poison, le poignard, l'incendie,
N'ont pas encor brodé de leurs plaisants dessins
Le canevas banal de nos piteux destins,
C'est que notre âme, hélas! n'est pas assez hardie.

 

Mais parmi les chacals, les panthères, les lices,
Les singes, les scorpions, les vautours, les serpents,
Les monstres glapissants, hurlants, grognants, rampants,
Dans la ménagerie infâme de nos vices,

 

II en est un plus laid, plus méchant, plus immonde!
Quoiqu'il ne pousse ni grands gestes ni grands cris,
Il ferait volontiers de la terre un débris
Et dans un bâillement avalerait le monde;

 

C'est l'Ennui! L'oeil chargé d'un pleur involontaire,

II rêve d'échafauds en fumant son houka.

Tu le connais, lecteur, ce monstre délicat,

— Hypocrite lecteur, — mon semblable, — mon frère!

 

 

 

AO LEITOR

 

A tolice, a avareza, os erros, o pecado
Ocupam nossa mente e o corpo nos devastam;
E um amável remorso em nós é cultivado —
Como mendigos de que os vermes se repastam.

 

Teimosos em pecar, lentos no arrepender,
Por nossas confissões alto preço cobramos;
E ao caminho do mal voltamos com prazer,
Crendo que em pranto vil nossas nódoas lavamos.

 

Ao lado, na almofada, eis Satã Trismegisto,
Que há muito nos embala o espírito encantado;
E da nossa vontade o metal impermisto
Pelo químico audaz é todo evaporado.

 

O fio que nos move o Diabo empunha, eterno!
Achamos grande encanto em coisas repugnantes;
Descemos diariamente outro passo ao Inferno,
Sem horror, através de escuridões nauseantes.

 

Como beija e devora um pobre libertino
De antiga meretriz o seio murcho e lasso,
Roubamos, ao passar, um gozo clandestino,
Como laranja que se espreme até o bagaço.

 

Como helmintos, em bando, a ferver, aos milhões,
De Demónios um povo a mente nos chafurda,
E nos desce, a cada hausto, a Morte nos pulmões,
Como invisível rio, em lamentação surda.

 

Se o incêndio ou o veneno, o estupro ou o punhal

Não bordaram assaz seu padrão luxuriante

Sobre a tela da nossa erma sorte, banal,

E só porque nossa alma — ai! — não ousa o bastante!

 

Mas por entre chacais, e linces, e panteras,
Macacos, escorpiões, abutres e serpentes,
E o uivar, latir, berrar de rastejantes feras,
No infame zoo dos nossos vícios repelentes,

 

Sem produzir embora amplos gestos ou gritos,
Um é mais feio, mais iníquo, mais imundo!,
Que faria de bom grado a Terra em detritos
E engoliria num bocejo o próprio mundo:

 

E o Tédio! Opaco o olhar de um pranto irreprimível,
Fumando um narguilé, sonha com a punição.
Tu o conheces, leitor, esse monstro sensível
— Hipócrita leitor, — meu igual, — meu irmão!

 

 

 

L'ENNEMI

 

Ma jeunesse ne fut qu'un ténébreux orage,
Traversé çà et là par de brillants soleils;
Le tonnerre et la pluie ont fait un tel ravage,
Qu'il reste en mon jardin bien peu de fruits vermeils.

 

Voilà que j'ai touché l'automne des idées,
Et qu'il faut employer la pelle et les râteaux
Pour rassembler à neuf les terres inondées,
Où l'eau creuse des trous grands comme des tombeaux.
 

Et qui sait si les fleurs nouvelles que je rêve
Trouveront dans ce sol lavé comme une grève
Le mystique aliment qui ferait leur vigueur?

 

— Ô douleur! ô douleur! Le Temps mange la vie,
Et l'obscur Ennemi qui nous ronge le coeur
Du sang que nous perdons croît et se fortifie!

 

 

 

 

O lNIMIGO

 

Foi sô negra tormenta a minha mocidade,
Que resplendentes sois alguma vez cortaram.
Tais danos lhe causou a horrível tempestade,
Que em meu ermo jardim poucos frutos restaram.

 

Eis que o outono da mente em mim foi alcançado;
E eis as pás, e outra vez eis que cumpre empunhá-las
Para juntar de novo o terreno inundado
Onde, quais tumbas, a [agua escavou grandes valas.

 

E as flores novas com que sonho encontrarão
Nesse solo, talvez, lavado da aluvião,
O místico nutrir que as ceva e vivifica.

 

— Vai o Tempo engolindo — oh, dor! — nosso viver.
E em nosso peito o obscuro Inimigo, a roer,
De sangue, sem cessar, cresce e se fortifica!

 

 

 

SONETOS. v.2. Jaboatão dos Guararapes, PE: Editora Guararapes EGM, s.d.  151 - 310 p.  16,5 x 11  cm.  ilus. col.  Editor: Edson Guedes de Moraes. Inclui 171 sonetos de uma centena de poetas brasileiros e portugueses.  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

   OBSESSÃO

Os bosques para mim são como catedrais,
Com órgãos a ulular, incutindo pavor...
E os nossos corações , — jazidas sepulcrais,
De profundis também soluçam, n´um clamor.

        Odeio do oceano as iras e os tumultos,
Que retratam minh´alma! O riso singular
E o amargo do infeliz, misto de pranto e insultos,
É um riso semelhante ao do soturno mar.

        Ai! como eu te amaria, ó Noite, caso tu
Pudesses alijar a luz que te constéia,
Porque eu procuro o Nada, o Tenebroso , o Nu!

        Que a própria escuridão  é também uma téia,
Que vejo fulgir, na luz dos meus olhares,
Os entes que perdi, — espectros familiares!

 

 A BELEZA

De um sonho escultural tenho a beleza rara,
E o meu seio, — jardim onde cultivo a dor.
Faz despertar no Poeta um vivo e intenso amor,
Com a eterna mudez do marmor de Carrara.

                Sou esfinge subtil no Azul a dominar,
De brancura do cisne e com a neve fria;
Detesto o movimento, e estremeço a harmonia;
Nunca soube o que é rir, nem sei o que é chorar.

                O Poeta, se me vê nas atitudes fátuas
Que pareço copiar das mais nobres estátuas,
Consome noite e dia em estudos ingentes...

                Tenho, p´ra fascinar o meu dócil amante,
Espelhos de crista, que tornaram deslumbrante
A própria imperfeição : — os meus olhos ardentes!

 

        OS MOCHOS

       Sob os feixos onde habnitam,
Os mochos formam em filas;
Fugindo as rubras pupilas,
Mudos e inquietos, meditam.

        E assim permanecerão
Até o Sol se ir deitar
No leito enorme do mar,
Sob um sombrio edredão.

        Do seu exemplol, tirai
Proveitoso ensinamento:
— Fugíi do mundo, evitai

        O bulício e o movimento...
Quem atrás de sombras vai
Só logra arrependimento!

 

 A GIGANTA

No tempo em que a Natura, augusta, fecundanta,
Seres descomunais dava à terra mesquinha,
Eu quisera viver junto d´uma giganta,
Como um gatinho manso aos pés d´uma rainha!

                Gosta de assistir-lhe ao desenvolvimento
Do corpo e da razão, aos seus jogos terríveis
E ver se no seu peito havia o sentimento
Que faz nublar de pranto as pupilas sensíveis

                Percorrer-lhe a vontade as formas gloriosas,
Escalar-lhe, febril, as colunas grandiosas,
E às vezes, no verão, quando o ardente solo

                Eu visse deitar, numa quebreira estranha,
Dormir serenamente à sombra do seu colo,
Como um pequeno burgo ao sopé da montanha!

       

O TONEL DO RANCOR

O Rancor é o tonel das Donaidas alvíssimas;
A Vingança, febril, grandes olhos absortos,
procura em vão encher-lhes as trevas profundíssimas,
Constante, a despejar pranto e sangue de mortos.

        O Diabo faz-lhe abrir uns furos misteriosos
Por onde se extravasa o líquido em tropel;
Mil anos de labor, de esforços fatigosos,
Tudo seria vão para encher o tonel.

        O Rancor é qual ébrio em sórdida taverna,
Que quanto mais bebeu inda mais sede tem,
Vendo-o multiplicar como a hidra de Lema.

        — Mas se o ébrio feliz sabe com quem se avém,
O Rancor, por seu mal, não logra conseguir,
Qual torvo beberrão, acabar por dormir.

 

SEPULTURA D´UM POETA MALDITO

Se, em noite horrorosa, escura,
Um cristão, por piedade,
te conceder sepultura
Nas ruínas d´alguma herdade,

                As aranhas hão-de armar
No teu coval suas teias,
E nele irão procriar
Víboras e centopeias.

                E sobre a tua cabeça,
A impedi-la que adormeça.
— Em constantes comoções,

                Hás-de ouvir lobos uivar,
Das bruxas o praguejara,
E os conluios dos ladrões.

 

 

 

 

 

BAUDELAIRE, CharlesAs Flores do Mal.  Tradução, introdução e notas de  Ivan Junqueira.  Edição bilingüe Francês – Português.  7a. impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,    1985.  658 p.  (Poesia de todos os  tempos) Capa: Victor Burton.  16x 23 cm.  ISBN 978-85-209-0505-6   Ex. bibl. Antonio Miranda

 

CORRESPONDANCES

 

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.

 

Comme de longs échos qui de loin se confondent

Dans une ténébreuse et profonde unité,

Vaste comme la nuit et comme la clarté,

Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

 

Il est des parfums frais comme des chairs d'enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
— Et d'autres, corrompus, riches et triomphants,

 

Ayant l'expansion des choses infinies,

Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens,

Qui chantent les transports de l'esprit et des sens.

 

 

 

CORRESPONDÊNCIAS

 

A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.

 

Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

 

Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o oboé, verdes como a campina,

E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,

 

Com a fluidez daquilo que jamais termina,

Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente,

Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.

 

 

 

L'AUBE SPIRITUELLE  

Quand chez les débauchés l'aube blanche et vermeille
Entre en société de l'Idéal rongeur,
Par l'opération d'un mystère vengeur
Dans la brute assoupie un ange se réveille.

 

Des deux Spirituels l'inaccessible azur,
Pour l'homme terrassé qui rêve encore et souffre,
S'ouvre et s'enfonce avec l'attirance du gouffre.
Ainsi, chère Déesse, Etre lucide et pur,
 

 

Sur les débris fumeux des stupides orgies
Ton souvenir plus clair, plus rose, plus charmant,
A mes yeux agrandis voltige incessamment.

Le soleil a noirci la flamme des bougies;

Ainsi, toujours vainqueur, ton fantôme est pareil,
Ame resplendissante, à l'immortel soleil! 

 

A AURORA ESPIRITUAL

 

Entre os devassos, quando a branca e rubra aurora

Faz mútua sociedade com o Ideal roedor,
Por obra e graça de um mistério vingador
Na entorpecida besta fera um anjo aflora.

 

Dos Céus Espirituais o azul inacessível,

Para o homem que padece e sonha em paroxismo,
Se entreabre e se aprofunda em fascinante abismo.
Assim, graciosa Deusa, lúcida e sensível,

 

Sobre os despojos fumegantes das orgias

Tua imagem mais clara, mais rósea, mais cheia,

Ante meus olhos pasmos sem cessar volteia.

 

O sol crestou nos castiçais as chamas frias;

Assim, triunfante, o teu fantasma se parece,
Alma radiosa, ao sol que eterno resplandece!

 

BAUDELAIRE, CharlesAs Flores do Mal. Tradução, introdução e notas de Jamil Almansur Haddad. Editor Victor Civita.  São Paulo: Abril Cultural, 1984.  336 p   13 x 20 cm.  Capa dura.  Ex. bibl.AntonioMiranda


A seguir, três dos “POEMAS ACRESCENTADOS À FLORES DO MAL” Na Edição Postuma:

 

ORAÇÃO DE UM PAGÃO

 

Tua chama não se apague;
O meu coração aviva,
Volúpia, da alma o azorrague!
Supplicem exaudi!   Diva!  *

 

Deusa pelo ar difundida,
Flama em nosso negro espaço!
Ouve esta alma consumida
Que te eleva um canto de aço.

 

Volúpia, de glória cheia!
Toma forma de sereia
Feita de carne e veludo,

 

Ou verte o teu sono rudo
No vinho místico e aplástico,
Volúpia, fantasma elá
stico!

 

                *Escuta o suplicante, deusa!

 

 

 

A ADVERTÊNCIA

 

O homem, como tal respeitado,

Áspide tem no coração,

E o reptil no trono instalado,

Se o homem diz sim, responde não!

 

Mau há de ser que os olhos fixes

Pelas Bacantes, pelas Nixes

Que a presa diz:   "O teu dever!"

 

Gera os teus filhos, planta as árvores,
Os versos lustra, esculpe os mármores,
A presa diz:   "Não vais morrer?"

 

Em tudo o que espera ou que sonha
O homem nunca vive em essência S
em que ele padeça a advertência
Da áspide e de sua peçonha.

 

 

 

O REBELDE

 

Um anjo risca o céu feito ave de rapina,

Firme passa a agarrar os cabelos do incréu,

E sacudindo-os diz:   "Saberás a doutrina!

(Pois eu sou teu bom anjo!)   Assim o exige o céu!

 

Pois é preciso amar sem que um esgar se faça,
O embrutecido, o torto, o sempre atado ao mal,
Para estenderes a Jesus, quando ele passa,
Com tua caridade um tapete triunfal.

 

Este é o amor!   E bem antes que seja apática
Tua alma, a Deus acende a tua crença extática;
Esta é a volúpia ideal, a que jamais se trunca!"

 

E o anjo, possuído a um tempo de ódio e amor supremo,
Com punhos de gigante excrucia o blasfemo;
Só sabe responder o amaldiçoado: "Nunca!"

 

Página publicada em janeiro de 2019. página ampliada e republicada em fevereiro 2019l


 

 

 
 
 
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