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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NEI LEANDRO DE CASTRO

(1940—)

 

 

Foto: http://tribunadonorte.com.br/

 

(Caicó, 30 de maio de 1940) é um escritor brasileiro, participante do movimento poema/processo. É formado em direito, mas dedicou-se à publicidade. Foi um dos fundadores da revista natalense CACTUS.

Tem vários livros de poesia publicados, boa parte deles voltada para o erotismo, como Zona Erógena e Era uma Vez Eros. Em 2013, lançou seu último livro: Pássaro sem sono.

 

 

CASTRO, Nei Leandro de.  Romance da cidade de Natal.  2ª. edição.  Natal, RN: Sebo Vermelho, 2004. 73 p.  15x23 cm. Capa e projeto gráfico: Alexandre de Oliveira.  Editor: Abimael Silva.  “ Nei Leandro Castro “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

O BAIRRO DAS ROCAS

Paisagens. O galo da torre observa

 

- O povo das Rocas é visto

pelo galo, ao amanhecer.

A manhã ali se põe

De pé antes de querer.

 

Ou seja, ali a manhã

não mais serve ao seu fim:

em vez de acordar, acorda-a

o mestre Valentim.

 

No cais do Canto do Mangue

é água mansa do rio,   

apenas arrepiada

por uma onda de frio:

 

a pele cortada pela

lâmina corrente de ar

que sobre o dorso das águas

desce da noite do mar.

 

Dali os veleiros partem

todos a uma só hora

e transpõem a barra antes

que a transponha a aurora.

 

A mulher que permanece

não espera pelo homem.

E tudo tão rotineiro

como sua antiga fome

 

ou como o feto anual

que intumesce seu ventre

ou ainda como a morte '

de um tísico, seu parente.

 

Meninos sujos, sem cor

definida, fazem festa

nas poças frias de lama

da Rua da Floresta.

 

O galo da torre, olhando,

humanamente tece

um canto rubro de amor

às crianças., Mas permanece

 

— porque feito de metáfora -

silente, na altaneira

torre cinza de azulejos.

E depois olha a Ribeira.  

 

 

 

 

A múltipla atividade intelectual de Nei Leandro de Castro fez com que as propostas vanguardistas do Estado caminhassem com bastante lucidez: incentivador nas horas certas, estudioso da obra de Guimarães Rosa, sempre combateu o romantismo provinciano dos elogios mútuos e as "igrejinhas" literárias sem consequências criadoras. Da poesia-sentimento (O Pastor e a flauta, 1961; Voz geral, 1963) evoluiu para o poema- linguagem (1822, 1966; a 3" mundial, 1968; decomposição do nu, 1969; erótica, 1969; soneto das vogais, 1969; isoporno gráfico, 1970), fazendo um estágio em João Cabral de Melo Neto: Romance da Cidade do Natal, 1964. Porém já se sentia em alguns versos de Voz geral a preocupação básica daqueles que lidam com os instrumentos do fazer poético: fundar novas formas expressionais e novos processos estético-informacionais.

 

A vivência corri 6 mundo verbal de Guimarães Rosa — a vivência com palavras do porte de bambalango, coscuvilho, fosforém, horrorizância, lequelequear, lugarim, mogúncias, nonada, prostitutriz etc. — foi de indiscutível significação para o comportamento vanguardístico de Nei Leandro. Verdade seja dita: nas atitudes e nas declarações, o autor de Universo e vocabulário do Grande Sertão nunca chegaria à radicalidade explosiva de um Dailor Varela, de um Anchieta Fernandes, de um Falves Silva, de um Marcos Silva. Sua radicalidade vai se concentrar rios poemas, sobretudo em 1822, a 39 mundial e decomposição do nu. Analisemos o último,  que seria, produzido em  território português

 

Trata-se de uma sequência numeral, de um a nove, cuja existência se marca pela escrita da iconicidade.  O poema desdobra-se em nove fases, instaurando-se de modo progressivo: a primeira fase ocupa um espaço signico; a segunda, dois; a terceira três, e assim por

diante, até a última, que ocupa nove espaços. O número — seja 2, seja 3, seja 9 — define-se sempre no último espaço de cada fase, sendo que o número l já nasce definido em sua simbologia fálica. Temos a estrutura geral do poema e as estruturas particulares das fases ( ver imagem...): o poema avança, erótica e visualmente, através de recuos gráficos — retornos semânticos a um dado ponto de partida, podê-lo-emos afirmar.  Considere-se o ponto de partida como uma necessidade gráfica, depois de intervalos visuais entre um número e outro. Teríamos, assim, nove poemas dentro de um só poema: cada fase-poema, sobretudo a partir da terceira, tendo uma realidade estética própria (a realidade semântica seria a mesma para todas as fases).

 

Não se deve perder, no entanto, o sentido da totalidade. A soma, neste caso, é indispensável: a soma que perfaz 45 unidades espaciais — as unidades temáticas do poema.  Há que observar: as proposições eróticas de decomposição do nu(mero) manifestam-se antes como indicações/sugestões de uma escrita visual fundada na exigência da invenção. E, em se tratando de arte, tendo em vista suas rupturas e sua evolução, faz-se necessário assumir os riscos de uma possível incomunicabilidade. Nei Leandro o sabe muito bem. Mesmo que, hoje, esteja voltado para a publicidade.

 

 

 

Texto extraído de

CIRNE, Moacy.  Vanguarda: um projeto semiológico. Petrópolis: Vozes, 1975.  144 p.  ilus.   12x20 cm.  Capa: Nenn.   Col. A.M 

 


 

 

 
 
 
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