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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANTONIO MIRANDA


Veja também versão em animação Quase-Cinema do mesmo poema:

 

EXTREMA
(DE ANTONIO MIRANDA)
 NA INTERPRETAÇÃO DE JOSÉ FERNANDES
(da Universidade Federal de Goiás)

A leitura de cada poema visual sempre reserva surpresas, uma vez que nunca se sabe o que está escondido nas palavras, sobretudo quando se fragmentam e, principalmente, nas imagens que se formam e que exigem profunda hermenêutica de cada ponto que compõe a construtura do discurso poético. Muitas vezes, o próprio poeta, mediante um poema metalingüístico, oferece-nos pistas para a leitura e interpretação de seus poemas, como ocorre com a obra de Antônio Miranda a que nos propomos analisar neste estudo. O poema a que podemos intitular Extrema conforma um destes enigmas poéticos, pois tecido a partir da palavra extremamente parece, a uma primeira vista de olhos, não dizer nada. Mas, a partir do momento que verificamos que as letras do vocábulo se colocam dentro de um quadrado, temos de começar a pensar na quantidade de símbolos que se colocam diante de nossos olhos e nas direções técnicas amadurecidas pelo tempo e pelo lavor poético. O quadrado, ao ligar-se à simbologia do número quatro, mostra-nos, de imediato, que estamos diante da própria ambigüidade, uma vez que este é o único número que resulta tanto da soma quanto da multiplicação. Isto já nos permite verificar que temos interpretações várias, uma vez que podemos ver no vocábulo extrema, se considerado substantivo feminino, a incorporação dos semas do verbo extremar, condizentes com o ato de criar, entendido como aperfeiçoar, apurar, antecipar-se. Ora, ligado ao termo seguinte, mente, oferece-nos duas interpretações possíveis, uma vez que pode se ligar à extrema mente, a mente do criador do poema ou a mente do Deus, arquiteto do universo. Se o poeta carrega consigo um pouco dos deuses, como já dissera Martin Heidegger (1962, 222), traz consigo também um pouco da extrema mente que pronunciou o faça-se, à medida que imita o ato criador primeiro a cada poema, ao re-nomear o verbo no claro escuro da linguagem ou das imagens, no poema visual:     

[ver acima]

             Se entendermos ente, em sentido literal, como tudo que existe, a interação entre o poeta e os deuses permanece. Porém, considerando que o Deus não existe; mas é e, portanto, é Ser, a esfera do poético continua na diferença estabelecida entre os deuses e o poeta, pois este está sempre dizendo o sagrado, depois que os deuses se retiraram da criação. Se a missão do poeta é revelar e esconder, notadamente quando exercita e pratica o logos, no poema visual, ao utilizar-se de signos e símbolos que ultrapassam os limites da palavra, a semelhança com os deuses se torna mais concreta. Por isso, o vocábulo ente, neste momento, se refere tanto ao criador, poeta, quanto, ao criado, poema, ou ao criador, Deus, e às criaturas.

            Além disso, como o texto que se encontra abaixo não conforma um espelho do que se coloca acima, com letras invertidas; mas as mesmas palavras e o fonema, postos de trás para frente, proporciona-nos a confirmação das relações estabelecidas entre poeta e poema, e entre Deus e criado, pois, por incrível que pareça, Deus necessita da criatura para ser criador. Isso nos possibilita, na leitura de trás para frente, da expressão mente extrema, a proceder a união dos dois seres criadores: Deus e o poeta, à medida que uma mente extrema se nos afigura mais consiste, mas potente, no verdadeiro sentido teosófico de poder criador.

Nossa interpretação se robustece quando verificamos que no centro do discurso está a letra [e]. O centro, ou o ponto, encerra uma forte simbologia, porquanto se relaciona ao equilíbrio dos contrários: deuses e homens, ou criador e criatura. Esta visão do equilíbrio pode até nos levar a ler a primeira parte do poema como a extrema mente que a tudo cria e ordena, e a segunda parte como a extrema mente que recria e re-ordena, pois reedita a pronúncia primeira do verbo. A atenção ao significado original da letra [e], a partir de sua conformação hieroglífica, mostra esta relação de igualdade que se estabelece entre o criador e o criado. Ao significar sopro, a letra [e] materializa o ato de criar e de permanecer na criação, porquanto a pronúncia do verbo implica sempre a existência do sopro, da alma que se infunde ao criado.  

            Além disso, a letra [e] tem como correspondente o número cinco, símbolo da harmonia, da própria criação, considerada em sua origem primeira. Ora, como expõe Annick de Souzenelle (1987, 56) A vida, em seu principio, é o sopro divino que cria, modela, modula. Ele é o seu sopro nas narinas do Homem. O ato de criar, através da palavra, além de aludir ao sopro primeiro do verbo, refere-se à criação, por meio da pronúncia de signos novos que recria, com e como o sopro, a palavra poética, que é signo, sinal e selo do criado na dimensão da linguagem. Sintomaticamente, a letra [e] se repete quatorze vezes ao longo do poema. Sendo ele um número que se reduz a cinco, 1 + 4 = 5, vem apenas confirmar o lado metafísico da letra [e] e sua condição de centro de onde se expande o ar vital sobre as demais esferas do discurso poético.

            Não bastasse a significativa presença da letra em todos os vocábulos que se formaram, verificamos também o consórcio da letra [x], extremamente significativa, quando se fala em poesia. O significado que ela carrega — fechado, secreto, mistério —,  condiz inteiramente com o entendimento que temos do discurso poético, notadamente o visual, pois se ele não contiver um mistério, não encerrar um enigma, não se pode dizer que seja arte, no exato sentido do verbo ser, aquilo que possui a essência do estético. Ademais, seu número correspondente, seis, a que os gregos chamavam panarkós, panarkóV, significa exatamente poder, potência, como a dizer que dispor da palavra, a ponto de recriá-la desde dentro, desde a essência, implica um tipo de potência singular, própria dos deuses, como o é a elaboração de um poema.

            A repetição binária da letra [x] implica repetir o seis que, somado, resulta em doze, um número que se reduz a três. Nada mais significativo, ao ligar-se ao sopro do [e], pois, tendo como simbolismo a ação, condiz de forma perfeita com o ato de criar, máxime o poético, pela constante busca da perfeição, inexistente sem se estar em constante garimpagem do melhor verbo.

            Por outro lado, a letra [t], ao relacionar-se ao círculo, através do uróboro, significado inicial da palavra ty+,, tēt, liga-se ao simbolismo de perfeição, intrínseco à arte poética. Não sem motivo, tem como correspondente o nove, último número da unidade simples, que se alia ao um e a suas semias de unidade, de princípio, ratificando mais uma vez a ação de elaborar a palavra e o discurso poético. Seu significado hieroglífico, escudo, só vem ratificar nossa interpretação do poema, uma vez que ele se correlaciona com defesa, apoio. Se bem entendemos o exercício da criação poética, verificamos que uma das razões de se esconder para mostrar e mostrar para esconder, típicas da linguagem poética e exatamente a defesa; mas uma defesa que é ataque, porque poesia é, a um só tempo, realização pessoal e vingança, amor e ódio.  

            A repetição ternária da letra [t] em cada lado do poema, além de configurar a ação, impressa ao número três, reitera, mediante sua soma, seis, a noção de poder, imprescindível ao domínio da linguagem. Não é sem motivo que se costuma dizer que o tamanho do homem é o tamanho da sua linguagem; do mesmo modo, o poder do poeta reside na capacidade de se dispor da linguagem, a fim de dizer o indizível, sem revelá-lo em sua plenitude, pois tem de saber velar e desvelar.      

Considerando que o poema se erige sobre três palavras — extrema, mente, ente — e a letra [e], o significado da letra [r], colocada exatamente no meio da palavra, na periferia do poema, constitui a própria mente, pois, cabeça, seu sema original, encerra o ato de pensar, a mente, e, no caso, o ato de poetar, a extrema mente. Neste sentido, podemos também ler no vocábulo mente, o sentido de mentira, de fingimento, uma vez que o discurso poético é o extremo fingimento, ao ponto de, segundo Fernando Pessoa, poder-se fingir tão completamente que se finge a dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve,/Na dor lida sentem bem,/Não as duas que ele teve, /Mas só a que eles não têm.

Além disso, a letra [r], inicial, em hebraico, da palavra, ךאט , ro’s, significa princípio, começo. Ora, a palavra extrema, ainda visualizada como substantivo feminino, ao assimilar as semias do verbo extremar, traduz bem o simbolismo do fonema [r], pois ao extremo, no sentido de praticar uma ação primeira e única, como se faz ao produzir-se um poema. Não sem forte razão a letra se encontra no meio da palavra, como a representar o centro, o início da pronúncia e, portanto, da criação, ex novo, da linguagem poética. Não bastasse esta descoberta, vemo-la ainda corresponder, dentro da palavra extrema, ao número quatro, a ambigüidade imprescindível à instauração do poético. Enquanto letra, seu número é dois, símbolo de receptividade e, em decorrência, do princípio que contém o que vai proceder dela. Por isso, se coloca entre três outras letras, que se somam seis, o poder, e, juntamente, com as demais, compõem o número sete, a perfeição intrínseca ao poético e à estética que se desprende do poema.

            A repetição binária da letra [r] dentro da palavra extrema, também repetida, corrobora o sentido inerente ao número dois e à ação de criar, uma vez que, se considerarmos a parte superior do poema como a extrema mente que a tudo cria, a parte inferior representa exatamente a criação segunda, provinda da mente extrema do criado, que incorpora o criar, próprio do Deus. Esta interpretação se avulta, à medida que a parte inferior do poema não se coloca como espelho da primeira; mas como repetição e, em decorrência, como imagem e semelhança da extrema mente primeira. Por isso, não se trata de imagem refletida; mas de imagem reiterada, porquanto o criar poético se converte em criar através da palavra, como fez no início a extrema mente.

            De forma intrigante, a letra [m], conformada no alfabeto hebraico, como um quadrado, מ , reitera a simbologia do todo, uma vez que ela representa a forma ideal da materialidade do poema. Além disso, a letra [m] se correlaciona aos mundos criados, o visível e o invisível, como deve ser o poema. Por isso, ela também configura um triangulo para cima e outro para baixo, em sua visualização maiúscula, e um quadrado, também no alfabeto latino, reafirmando o sentido duplo dos mundos imprescindíveis à criação: o mundo de mi, ym, e o de ma, םה , ou o ying e yang. Neste caso, a extrema mente superior e a inferior; inteiramente iguais no ato criador das coisas e do poético.

            Exatamente por traduzir o igual e o diferente, semelhantes como criadores, que a letra [m] tem como correspondente o número quatro, a ambigüidade dos dois mundos e, em decorrência, também do poético incrustado no poema de Antônio Miranda.

            Para fechar a palavra extrema, a letra [a] final, que é silêncio e contemplação do criado e, ao mesmo tempo, o início, o número um, uma vez que até a criação poética se encontra em contínuo panta rei, πάντα ε, em eterno fluir e refluir, pois este ato de ler o poema não deixa de ser um novo inicio e um novo fim, sobre a mesma criatura: o poema. Esta projeção do início para o fim e do fim para o início pode ser percebida pela seqüência das letras da palavra mente, em que [n], ao significar peixe e, em decorrência, liga-se à água é à fecundidade, como a confirmar a necessidade de se criar, de se repetir a pronúncia primeira do faça-se. A riqueza simbólica do poema é tamanha que, além dessa leitura dupla a envolver o Deus e o poeta, certamente ainda permitirá outras interpretações, a serem efetuadas segundo os olhos do conhecimento de cada leitor. Esse desafio ocorre na repetição quaternária da letra [n], a espalhar a multiplicidade de leituras sobre o poema. Multiplicidade que se confirma, ao verificarmos que ela se encontra em duas palavras de singulares significados: mente e ente, o que pensa e o que executa ou até mesmo o executado, o criado.   

            O número cinco, correspondente da letra [n], a ela se alia para confirmar e conformar a hermenêutica do poema, pois, ao relacionar-se à harmonia, liga-se também à ambigüidade do quaternário, incorporada pelas vezes que a letra aparece no poema e, sobretudo, pela harmonia necessária observada entre o criador e o criado.

            A relação do poeta com a arte, segundo a perspectiva estética de Antônio Miranda, agora, deverá ser aplicada à maioria dos poemas que compõem a sua produção poética que iremos desenvolver nos capítulos que seguem.   [referindo-se a um texto mais completo que realiza sobre a poesia visual do poeta.] 

Bibliografia do autor:

            FERNANDES, José. O poema visual. Petrópolis: Vozes, 1996.

            FERNANDES, José. O selo do poeta. Rio de Janeiro: Galo Branco, 2005.

            FERNANDES, José. O interior da letra. Goiânia: UCG/SMC, 2007.

            HEIDEGGER, Martin. Chemins qui ne mènent nulle part. Paris: Gallimard, 1962.




 

 

 
 
 
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