Home
Sobre Antonio Miranda
Currículo Lattes
Grupo Renovación
Cuatro Tablas
Terra Brasilis
Em Destaque
Textos en Español
Xulio Formoso
Livro de Visitas
Colaboradores
Links Temáticos
Indique esta página
Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




ANASTACYO AYRES DE PENHAFIEL



O Barroco: Exemplo para a Vanguarda

[uma introdução ao poema de Anastacyo Ayres Penhafiel]

Jayro Luna

Doutor em Literatura Portuguesa (USP)

 

O Barroco por suas características relacionadas ao trabalho de invenção e pesquisa da forma, voltando-se, em muitos casos, para o aproveitamento espacial da página, tem servido de ponto de referência para muitos experimentos poéticos contemporâneos. Além deste as­pecto espacial do barroco, a própria atitude barroquista de entender a obra de arte como um engenho, um artifício, criando assim uma rela­ção lúdica entre autor, obra e público, é outro ponto de forte marca que tem levado estudiosos contemporâneos a reestudar essa época, até então tida apenas como um momento nebuloso marcado pela postura da contra-reforrna religiosa, e por isso mesmo, considerado por alguns críticos como uma época retrógrada e comprometida ideologicamente com uma postura artística envolvida com a supressão da liberdade, visão que os estudos mais recentes e profundos sobre essa época modi­ficaram, principalmente a partir de trabalhos como o de Wolfflin, Walter Benjamim, entre outros, alguns dos pioneiros nessa reavaliação.

No caso que nos interessa, a visão barroca de que a obra pode ser o resultado de um produto probabilístico ou estatístico da ocorrência de signos, cabendo ao artista uma tarefa de controlador do fluxo dessa ocorrêncía, parece ser possível. Para considerar a existência de tal visão, ou algo parecido a isso, pensamos em poemas como o do enigmático Anastacyo Ayres de Penhafiel, do barroco baiano, com seu "Labirinto Cúbico”.


A frase latina "In Utroque Cesar", traduzÍvel como "há um outro césar" ou "de ambos os lados um césar", é um poema aparentemente laudatório ao então vice-rei do Brasil, Vasco César de Menezes. Observa Péricles Eugênio da Silva Ramos, que é possível ler a frase completa, partindo-se de cada "I", fazendo viradas para a esquerda ou direita, para cima ou para baixo, conforme o caso. Comentando produções barrocas como esta, que particularmente para Alfonso Ávila é um exemplo de poema em que prevalece o elemento "gráfico, este de graficidade mais despojada e concreta", para Ávila o Barroco tema característica de ser uma época em que O elemento lúdico assume posturas de jogo do aleatório.

"A esse processo lúdico de encadeamento, seja de formas plásticas. seja de palavras, não soaria imprópria a classificação de sintaxe do aleatório ou estruturação do arbitrário. A 'mistura arbitrária das coisas', referida por Leo Spitzer, explicar-se-ia, deste modo, como um exemplo a mais dentre tantos outros daquele multifário usar bem do jogo da linguagem barroca."(Á VILA, Affonso. O Lúdico e as Projeções do Mundo Barroco, p.57)

Se atentarmos para o poema, ele se baseia na junção de dois triângulos, cuja hipotenusa comum aos dois triângulos retângulos é a diagonal do quadrado que forma o poema, ou seja, a seqüência formada pel­a letra "I". Assim, teremos junto ao ângulo reto do triângulo inferior, e portanto, mais a "oriente" do meio da página, o nome de “César" lido em variações diversas, mas todas, partindo de uma leitura invertida do nome, isto é ao contrário, ou da direita para a esquerda. Já :no triângulo retângulo superior, junto ao ângulo reto deste, temos as mesmas variações com o nome de "César" só que agora na ordem natural de nossa leitura, da esquerda para a direita. Numa analogia dos dois “césares” sugeridos no poema - o César, imperador de Roma; o César, vice-rei do Brasil no inicio do século XVIII - estão aí dispostos como se o poema fosse uma reprodução geométrica do globo, veja lá, Roma no alto à direita; Salvador, em baixo à esquerda. Por outro lado, o fato dos nomes serem lidos em direções opostas, pode ser interpreta­do também como uma sutil "alfinetada" no despropósito da comparação entre o "imperador de Roma" e o "conde de Sabugosa". Observe­mos ainda, que dominando a região central do poema, podemos ler radicais latinos relacionados com a idéia de órbita, como "ortuni". Como um verdadeiro labirinto, esse poema tem cada letra colocada em um lugar específico, conhecendo a disposição do poema como sendo for­mado pelos dois referidos triângulos, a ausência de qualquer letra, pode facilmente ser suprida, ou seja, é um poema que basta uma parte para que se possa recompô-lo integralmente, um controle estocástico dos mais efetivos. Um poema muito próximo, pois, do que ocorre com a geometria fractal, no qual, seguindo uma equação repetitiva, constrói-­se uma seqüência de variações sobre o mesmo tema, a diferença está, evidentemente no geometrismo absoluto do poema.

Ana Hatherly comentando sobre a poesia barroca portuguesa observa que ela tem experimentos muito próximos das vanguardas poéticas:

'"'Na segunda metade do século XX, os poetas Concreto-­experimentalistas contribuíram para o ressurgimento de alguns as­pectos mais criativos da poesia barroca, destacando-se a versatilida­de lingüística, a criatividade imagística, o culto do ludismo e a visualidade do texto."

(HATHERLY, Ana. "A Poesia Barroca Portuguesa" em: Revista do Centro de Estudos

No artigo acima citado, podemos observar alguns poemas cuja criatividade imagistico-visual foi das mais notáveis, como o poema "Pirâmide Solene" de D.Francisco Manuel de MeIo ou o "Anagrama Poético" de Luis Nunes Tinoco que rivalizam em visualidade com o de Anastacyo Aires de Penhafiel.

Desse modo, esperamos ter tocado de forma simples, mas acre­ditamos, conveniente e segura no assunto de buscar demonstrar que as chamadas poesia moderna, de vanguarda e o barroco, têm obras que podem ser estudadas pelo aspecto estocástico com que essas obras po­dem ser conjugadas e que em diferentes espaços culturais e épocas houve momentos em que o poeta trabalhou sua obra sob um ponto de vista matemático, diverso da simples contagem silábica na busca de um melro dito excelente, mas muitas vezes, com o perdão da rima. insuficiente.

Jayro Luna

 

Extraído de LUNA, Jayro.  Caderno de Anotações. Belo Horizonte/São Paulo: Signos/Editora Oporetuno, 2005. p. 77-80.


 


Voltar à página de Poesia Visual Voltar ao topo da página

 

 

 
 
 
Home Poetas de A a Z Indique este site Sobre A. Miranda Contato
counter create hit
Envie mensagem a webmaster@antoniomiranda.com.br sobre este site da Web.
Copyright © 2004 Antonio Miranda
 
Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Home Contato Página de música Click aqui para pesquisar