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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RESGATE DE CRISTO

Poema de Antonio Miranda
De “Tu país está feliz” (1971)

 

Jesus Cristo estava louco.
Crucificaram-no sete vezes
despiram-no
voltaram a vesti-lo
e mistificaram.

Jesus Cristo estava louco.

Encarceraram-no
Castraram-no
Cuspiram-lhe.

Subiu montanhas
atravessou desertos
corações
fez milagres
revoluções

inventou a bomba atômica!

Jesus Cristo estava louco.
Transformava água em vinho
e jamais vinho em água.

Batizou gente
fez proclamações marxistas
e inaugurou o parto sem dor.
Jesus Cristo estava louco de remate
vendendo terrenos no céu
cinturões de castidade
L.S.D.,
vieram então os profetas
os santos papas
os críticos de arte
e o reabilitaram.

Construíram igrejas
escreveram a Bíblia
a crônica escandalosa dos césares.

O cristianismo
feito imperialismo
ecumênico
alucinou o nosso querido Nietzsche.

Responsabilizemos o Cristo
pelas minissaias
pelas cabelereiras
pela pílulas anticoncepcionais.

Afinal, Jesus Cristo estava louco
completamente louco.

 

 

» Vea el VIDEO digital con la escena correspondiente a este poema  de la obra TU PAÍS ESTÁ FELIZ, con los actores del grupo de teatro RAJATABLA, de Caracas, Venezuela.

 

GOMES JÚNIOR, Walter Dias.  A poesia de Antonio Miranda e suas intersemioses.  João Pessoa, PB: Universidade Federal da Paraíba, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes; Departamento de Pós-graduação em Letras, 2014.  Tese de doutorado, orientação de Zelia Bora. (p. 184-186)

“Assim, o antipoeta resgata Cristo, como vemos no verso sob grifos “Resgate de Cristo”. A proposta era humanizá-lo, liberá-lo de sua institucionalização enquanto religião. E se a intenção é essa, significa dizer que o Rei dos Judeus seria apresentado também com suas imperfeições e defeitos próprios de qualquer ser humano. Daí cada legissigno presente neste verso “Jesus Cristo estava louco”, proporcionar uma satírica sentença sígnica. Isso é bastante evidenciado no texto devido a essa linha anaforicamente repetir-se, convidando-nos cada vez mais à dessacralização da imagem de Jesus. Que argumentos são levantados a fim de chegarmos a essa dedução?


          Quando o eu poético encadeia uma sequência de ações verbais sem integrá-las por conectivo, gerando a figura do assíndeto: “Subiu montanhas, “atravessou desertos”, “corações”, “fez milagres”, “revoluções”, “inventou a bomba atômica!”.  Estes signos verbais reportam-se, por um processo de coesão textual anafórica, ao sujeito agente Jesus Cristo. Seus comportamentos antitéticos, chegando ao absurdo com a ideia da bomba, justificam as ações coletivas incididas agressivamente sobre a pessoa dele e que se materializam estilisticamente sob a forma gradativa do assíndeto: “Encarceraram-no”, “Castraram-no”, “ Cuspiram-lhe”. Tudo isso foi em consequência da loucura exteriorizada e incompreendida.  Questionamos: Mesmo sendo depreendida, essa violência não teria sido executada? As incongruências humanas precisam de motivo para ocorrer? A que ponte vai a maldade humana? A ênfase na dor física é uma forma de levar o agredido ao esgotamento completo. Há uma isotopia dessa saturação que perpassa todo o poema.


          Uma delas obviamente é a tentativa de apresentar um Cristo e um Cristianismo destituídos de suas “santidades”, porque este utilizava aquele como objeto de mercado: “Jesus Cristo estava louco de remate”, “vendendo terrenos no céu”, “cinturões de castidade”, “L.S.D.”. Estes signos harmonizando-se com as ações opostas geram o caráter de absurdo sugerido por essa estrofe. Especificamente, eles põem em evidência a loucura observada. Estes versos contrastam com “Transformava água em vinho” “e jamais vinho em água”, “Batizou gente”, “fez proclamações marxistas”, “e inaugurou o parto sem dor.” A voz poética intertextualiza a passagem das Bodas de Caná, na Galileia, como esta registrada no Evangelho de São João 2:1-11, onde ocorre a conversão da água em vinho. Embora não existam verídicos registros de que Cristo tenha batizado pessoas e criado o parto sem dor, são atitudes boníssimas próprias de quem humaniza enxergando a necessidade de outrem. O “fazer proclamações marxistas” desenvolve, através da iconicidade metafórica, a imagem revolucionária e destemida de um Cristo assaz social, voltado para as categorias sociológicas menores, uma vez que o marxismo prega a existência de uma sociedade sem classe.


          E assim, Cristo pleno de contrapontos vai se apresentando e fazendo a diferença no pensar e no agir. Para reestruturá-lo, o que precisa?  “Vieram então os profetas”, “os santos papas”, “os críticos de arte”, “e o reabilitaram.” Mas, conseguiram? Pelo o que se expõe, no texto, não; porque as antíteses, ou consoante a terminologia de Samuel Levin — os acoplamentos por equivalentes semânticos em oposição, voltaram a manifestar-se: “escreveram a Bíblia”, “a crônica escandalosa dos césares”.  Devido a isso, o estado de loucura de quem sempre é visto como autenticamente perfeito retorna a emergir de forma mais acintosa: “Responsabilizemos o Cristo”, “pelas minissaias”, “pelas cabeleiras”, “pelas pílulas anticoncepcionais.”, isto é, ele é detentor de todo e qualquer tipo de culpa. Essa estrofe, em vez de ter sido concluída pelo signo do ponto final, poderia, abdutivamente, ser encerrada por reticências: “Afinal, Jesus Cristo estava louco”, “completamente louco”. Todo estado de insanidade não tem seus absurdos findados nunca. Essa ausência de fim ajuda a construir toda a simbolicidade do poema, as palavras, as sentenças, as estrofes são bem organizadas ao ponto de a dinamicidade sígnica da poesia mirandiana cativar o leitor com riqueza e a diversidade da arguição poética.”


 

 

 
 
 
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