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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





POR UM AMOR INTEGRAL

 

 

Poema de Antonio Miranda
Ilus. José Campos Biscardi

 

 

Sentir-se no limite

(toda a vida na mão)

e dar um passo mais

transcender

 

com um gesto mover o universo

com uma palavra

qualquer

dar novo curso à história.

 

Porque o símbolo torna cúmplice a todos os homens

a palavra os nivela.

 

Saber que o amanhã não existe

que ontem é ilusão

e no entanto

estar aí no mundo

ser o próprio tempo

fazer com que todas as coisas existam

até mesmo as impossíveis.

 

O homem ama todas as coisas

individualiza-as

projeta-se nelas

e em amar se recupera.

 

O amor é um caso impossível

uma equação sem resultado

o equilíbrio insustentável
e o homem ama!

 

Porque o amor não ocupa espaço

o amor não tem limite

está além do tempo.

 

O amor não ama em particular

mas no geral

porque o amor está além do tempo

mesmo que se manifeste em seu tempo.

 

Porque o amor que se ama

é um mínimo múltiplo comum de todas as coisas

um horizonte contínuo

e um vir-a-ser perene.

 

Poder amar pelo amor mesmo

sem esperar do amor mais que o amar.

 

Saber que o amor que se materializa

é um deixar de ser

um superar

e ainda assim, arriscar-se!

 

Amar, simplesmente.

 

Amar até mesmo sem possibilidades

ir além do gesto

e o momento,

perguntar sem esperar resposta.

 

Amar a todo o universo

em um ser particular

mensurável e condicionado,

projetar-se neste ser

contaminar-se com ele

perder-se nele tão completamente,

tão profundamente,

que toda razão seja impossível

todo juízo insustentável!

 

Extraído do livro TU PAÍS ESTÁ FELIZ. Parte deste poema transformou-se em música na montagem do espetáculo (1971).

ATENÇÃO: depois de ler o poema...  

» veja o VIDEO deste poema en no espectáculo Tu País está Feliz (versão 2006);

 


» ouça a canção composta por Xulio Formoso

 

“E para fortalecer mais esses opostos, partamos agora para a Canção 2, intitulada “Por um amor integral”*, intitulada POR UM AMOR INTEGRAL, pois, mesmo se verificando uma proposta libertária, esse poema lança uma solução através do amor para os anseios do eu poético.”  “(...) serve para contextualizar o caráter eclético que o poeta fornece ao livro Tu país está feliz (1971).” “Falar sobre amor é abrir sempre um espaço para o extravazamento das emoções as quais são exploradas com uma linguagem intensa e rica de significação. O poema equilibra sentimentos que vão de um sentido pequeno a um maior. Ele procura definir metaforicamente o que seja amar e a beleza das estruturas estilísticas e da polissemia das palavras intensificam a mensagem pretendida, cujo conteúdo é bastante propício para opor-se às amarguras e às insensibilidades geradas pela Ditadura Militar. É importante que percebamos que as noções de amor construídas não são frutos de uma fugacidade ou de um escapismo romântico, todavia de um anelo de liberdade, pois para vivenciar o amor é preciso que as emoções estejam livres para partilha e comunhão dos ideais.

          Elga Pérez-Laborde, analisando este mesmo poema, declara que o “antídoto [de Antonio Miranda] contra os males do mundo não está em nenhuma droga, está na palavra, no amor supremos, na poesia. Portanto a palavra é altamente significativa e a linguagem ilumina-se ao ponto de que deixa de ser signo para converter-se em substância”, (222b, p. 11) isto é, “o poeta move-se do puro ao impuro. Também está no amor de carne e osso, na sensualidade, ricos tesouro da vida (Idem, ibidem). A poesia assim é erigida, pautando-se nos dizer de Edgar Allan Poe, como a criação rítmica da beleza. Há como a poesia atingir um ápice tão encantador sem debater sore o amor? A autora conclui sobre essa temática nesta poeta: “o amor supremo, aquele de todas as coisas, nos contagia de vida e de idealismo” (Idem, p. 10). Ainda, para a crítica, “o poeta nos dá uma dimensão superior do mundo quando exclama: O amor não ama em particular/ mas no geral/ porque o amor está além do objeto/ mesmo quando se manifesta no objeto”, (PÉREZ-LABORDE, 2204b, p. 10-1. (Os grifos são da autora)) ou seja, é entendido que existe “uma projeção suprema que em San Juan de la Cruz encontramos dirigida ao amor místico, em Antonio Miranda se dirige à condição humana e sua redenção ao amor autêntico, aquele que permite reivindica a vida”. (Idem, p. 11).  Isso o poeta reclama através do amor pelo fato de ele acreditar nesse sentimento como salvação.

          A primeira estrofe é uma quadra iniciada por um verso constituído de palavras com apenas vogais de som cerrado gerando assim uma assonância, uma iconicidade  imagética do fechamento de um sentimento que sibila pela liberdade. O fonema fricativo /s/ do verbo reflexivo “sentir-se” sugere iconicamente a tentativa de esvaziamento de um desejo que é contido pelo bloqueio da assonância da vogal /i/. Ocorre um deslocamento, de uma vedação a uma abertura a partir da segunda linha, por causa da abertura vocálica do fonema /a/ em: “toda a vida na mão), e dar um passo mais”. Consoante com a terminologia de Samuel R. Levin, em seu livro Estruturas Linguísticas em Poesia (1975), afirmamos que se desenvolveu um acoplamento por equivalentes em oposição** devido à abertura e ao fechamento sonoros.

          É importante salientarmos que essa associação entre som e sentido contextualiza a seguinte asserção de Alfredo Bosi (2000, p. 49): “o som em si e o pensamento em si transcendem a língua”. Isso, de certa forma, estimulou o presente crítica a entender que “a poesia vive em estado de fronteira”, (Idem, ibidem) porque “no poema, força-se o signo para o reino do som” (Idem, ibidem) e quando se atinge essa intenção a iconicidade imagética peirceana leva-nos à captação de espaços tão intersignos que somente o gênero literário da poesia para manifestar um mecanismo de tanto apuro.

          Faz-se mister percebermos quão sutil é a argumentação no texto mirandiano. Vejamos que o verso parentético relaciona-se semanticamente à linha precedente uma vez que ambos são, novamente segundo Levin, equivalentes semânticos posicionais entre si. As sentenças “Sentir-se no limite” e ter “a vida toda mão” aproximam-se pelo viés de similaridade contextual. É visível a noção de tentativa de controle entre elas. Implicam-se nelas suas qualidades sígnicas, já que esta categoria é comuníssima entre as formas de associação. O efeito metonímico nesse último verso émuito significativo — uma parte (mão) que detém um todo (vida). Podemos entender como uma pessoa contida em outra. É a ideia de contiguidade da metonímia que emerge figurativamente. Muitas passagens deste poema retratam comportamentos de uma pessoa em busca do amor, por exemplo, os versos da segunda estrofe. Somente amando uma determinada causa  faria “um gesto mover o universo”. Da mesma forma que alguém motivado pelo amor teria fé que “uma palavra qualquer daria novo curso à História”.  Essa crença de que um situação pequena pode agigantar-se para uma condição melhor é veiculada pelo mais pleno dos sentimentos humanos: o amor.

          Para o eu poético, quem ama constrói o seu próprio tempo, não há marcações cronológicas que o determinem, como ontem, hoje ou amanhã. Elas deixam de existir para dar lugar ao desejo próprio. O que passa a existir é a vontade de tornar real  que se ama até o impossível. Esse sentimento designa toda a simbolicidade do poema. Cada palavra emana a anima do eu enunciador até chegarmos a cada sentença sígnica, ou seja, dicissignos, como “o homem ama todas coisas”, “individualiza-as”, “projeta-se nelas”, “e em amar se recupera”. O amor leva-nos à compreensão de toda ação e de todo sentimento presentes nesse texto. Embora essa volição abstrata seja paradoxal, como “o amor é [...[ o equilíbrio insustentável”, o homem continua amando.

          Essa temática trabalhada por tantos poetas e prosadores poderia deixar de ser poetizada por Antonio Miranda, porque, segundo Elga Pérez-Laborde, “seu percurso recorre os caminhos de sempre da poesia, mas com reflexão inesperada e a profundidade de quem viveu descontaminado, sem estereótipos”. (2004b, p. 10) isto é, de quem olhou para tudo e enxergou arte, literatura, acima de tudo poesia. Postura essa de quem “não ama em particular”, ”mas no geral”, “porque o amor está além do objeto”, “mesmo quando se manifesta no objeto”, “porque o amor está além do tempo”, “ainda que se manifeste em seu tempo”.  Os acoplamentos semânticos por oposição desses versos organizam-se em frases sígnicas, ou seja, em dicissignos.  Isso leva o leitor a entender que um sentimento é também gerador de proposições, isto é, são unidades mínimas que exprimem ideias.

          Além desse universo argumentativo, é necessário percebermos que o mesmo tema que desenvolve discurso, é impulsionador de belas iconicidades metafóricas: “o amor é um mínimo múltiplo comum de todas as coisas”, “um horizonte contínuo”, “e um vir-a-ser perene”.  Dessa forma, o poeta vai construindo o texto na acepção de que o signo seja dinâmico no ser e no vivenciar. Como mais um exemplo dessa proposta, o surgimento de gradações crescentes como “o amor é um deixar de ser”, “um superar”, “e ainda assim, arriscar-se!”.  Essas ações relacionam-se metaforicamente com outras posturas: deixar de ser é a capacidade de doar-se incondicionalmente, superar significa que o amor vai além dos obstáculos e arriscar-se é acreditar nesse sentimento como condição máxima à felicidade e à liberdade. Por isso, o eu poético propõe: “amor mesmo sem possibilidades, “ir além do gesto”, “e do momento”, isto é, captar aquilo que o sentimento é capaz de despertar.

          Tudo isso simplesmente é amar. Indagamos: é possível intensificar mais ainda essas vivências? O poeta externa em seu texto que elas podem avançar, isto é, oximoricamente se pode “amar a todo o universo”, “em um ser particular”.  Os comentários harmonizam-se em função de um ser. Isso tudo já é suficiente? Para o eu poético não, pois, através do encadeamento gradativamente crescente de um assíndeto, que é uma figura de sintaxe, e da figura da hipérbole é preciso “projetar-se nesse ser”, “contaminar-se com ele”, “perder-se nele tão completamente”, “tão profundamente”, “que toda a razão seja impossível”, !todo o juízo insustentável!”.  Questionamos novamente: é possível idealizar tanto? Ou até vivenciar? Sugerimos uma possível pergunta-resposta: diante da complexidade da Ditadura Militar em que esse texto foi escrito, não é necessário que o ideal vá além do real?

          Acreditamos que a tentativa de perder-se seja abdutivamente a capacidade de achar-se para que indutivamente o ser humano possa visualizar a feliz liberdade e dedutivamente provar que pode conquistá-la.  Isso é devido ao fato de o verbo perder-se ter vindo acompanhado da contração “nele” e esse conjunto é convencionalmente utilizado na concepção de encontrar. Agora, nem sempre os caminhos para chegar a essa condição são suportáveis e, mormente, encontrados. Antonio Miranda, após erigir um hino de louvor ao amor (condição tão necessária a todas as gerações e épocas), edifica a elegia da dor proporcionada por não se deparar com esse amor. E essa condição de ser, de existir, de afirmar-se, também de negar-se e de reinventar é postura encontrada em muitos dos poemas/antipoemas de Antonio Miranda.

 

*poema originalmente escrito em espanhol, parte do espetáculo  musical “Tu país está feliz” representado neste Portal em versões em português, em ESPAÑOL, e musical... (fazer links...

** Cf. Samuel R. Levin, Estruturas Linguística em Poesia, São Paulo: Cultrix, 1975m o, 33-38. Segundo o autor, acoplamento corresponde a palavras que se aproxima entre si pela similaridade ou pela oposição semântica entre seus termos.

 

Extraído de:
DIAS JÚNIOR, Valter Gomes. A poesia de Antonio Miranda e suas intersemioses.  João Pessoa, PB: Universidade Federal da Paraíba, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes; Departamento de Pós-graduação em Letras, 2014.  Tese de doutorado, orientação de Zelia Bora. (p. 164-1

 

 


 

 

 
 
 
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