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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





 

Para Trina Quiñones

Ilustração de Azalea Quiñones (Venezuela)*

 

 

 

Um menino me disse

- mas estava enganado -

gostar de poesia porque

ele lia tudo rapidinho.

 

Ledo engano: quanto menor

o poema, mais denso

requer pausas, releituras

cruzar os pensamentos.

 

Ler no espaço das palavras

além das formas/idéias

não ler as palavras

mas sua tessitura interna.

 

A poesia é mais de quem lê

do que de quem escreve

- o poema circunscreve

um universo qualquer.

 

Todo poema é hermético

requer um certo desvendar

porque o poeta-ventríloqüo

fala pela boca de outrem.

 

Palavras-coisas, lapidais.

Palavras-pessoas, além

de si mesmas - outras

- palavras homologais

 

mesmo as circunstanciais

cifradas no eu-mesmo

da poesia do circunlóquio

que se liberta e ganha

espaço.

 

Obra da Série Pintura Inmaterial : Camamismo IV” (2003), óleo sobre tela, da exposição Azalea Quiñones. Paz en la Tierra. Collage y Pintura realizada no Museo de Arte Contemporáneo de Caracas Sofía Imber/CELARG , em 2005.
 

Extraído de:  DIAS JUNIOR, Valter Gomes. A poesia de Antonio Miranda e suas intersemioses. João Pessoa, PB: Universidade Federal da Paraíba, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Departamento de Pós-graduação em Letras, 2014.  268 p. Tese de doutorado defendida com Louvor.

 

          A autorreferrencialidade poética, ou seja a metapoesia, manifesta-se já a partir do título, o qual se propõe a debater a maneira de compor poesia e, mormente, interpretá-la. Sobre este poema, Elga Pérez-Laborde declara: “numa linguagem mais coloquial do poema, [Antono Miranda] descreve a poética a partir de um diálogo com uma criança, que envolve uma verdadeira lição de leitura” (2007b, p. 23)*. A coloquialidade é uma característica presente na poesia mirandiana. No entanto, o coloquial deste texto não se materializa em signos verbais destituídos de correção gramatical ou de articulação coesiva ou de coerência textual. Acreditamos que a asserção da autora pauta-se na referência à oralidade cuja presença neste texto é perceptível com a ausência de pontuação. Condição esta bastante propícia à coloquialidade. Os versos polimétricos desse poema harmonizam-se com esse recém-mencionado fator, uma vez que o estilo de linguagem mais o aspecto formal das linhas poéticas não estão presos a padrões estéticos predefinidos.

          O texto cativa o leitor prendendo sua atenção com o processo de ensino-aprendizagem. Esse método é o que condiciona essa presente produção literária ser uma poesia de cunho pedagógico, já que o eu enunciador orienta e elenca os passos a serem seguidos para o poema ser lido e compreendido em sua essência. Tudo isso a partir da discordância de um diálogo com uma criança que expôs gostar de poesia por lê-la rapidinho.  O poeta responde que esse hábito não passa de um ledo engano, porque “quanto menor o poema”, “mais denso”, “requer releituras”, “cruzar os pensamentos”.

 

          A antítese estabelecida entre o tamanho de linhas poéticas e a densidade da significância da mensagem mostra-nos quão diversificada deve ser a leitura de um poema, principalmente porque cada leitor possui a visão individual para argumentar sobre tudo o que lê e aí a ação da semiose ganha mais dinamicidade e, principalmente, campo de interpretação. Cada passo a ser seguido e mais o ato de deter-se à tessitura interna do poema, lendo além de formas e ideias, servem para desenvolver a iconicidade diagramática, especificamente a do tipo endofórico, uma vez que a estrutura dos signos internos no texto está sendo decodificda através de uma orientação sistematizada do eu enunciador.

 

          Essa demonstração de como deve ser lido um poema trata-se também de uma tentativa do eu poético construir um leitor crítico, “a poesia é mais de quem lê”, “do que de quem escreve.” Cada leitor possui a sua maneira pessoal de compreender o texto, interagindo com suas particularidades pelo fato de o poema circunscrever um universo qualquer e necessitar que este seja  depreendido e isso amplia o conhecimento do leitor. Ao ser proferido que “todo poema é hermético”, entendemos o texto não apenas como um objeto fechado, mas como uma estrutura predisposta à abertura, pois o mesmo “requer um certo desvendar”,  a fim de que se possa captar a mensagem do texto e as falas do mesmo: “pela boca de outrem” como “o poeta-ventríloquo”, fornecendo vida e voz ao imaginário. Surgem, então, palavras da maneira que convém ao artista da palavra: “Palavras-coisas, lapidais”, “Palavras-pessoas, além”, “de si mesmas — outras”, “— palavras homologais”, “mesmo as circunstanciais”, “cifradas no eu-mesmo”, “da poesia do circunlóquio”, “que se liberta e ganha”, “espaço”.

         

Observemos que o eu lírico encadeia símbolos que exemplificam o que é proferido por ele mesmo. O penúltimo quarteto é todo constituído com ausência de verbos, o que, consoante Winfred Nöth, já se pode considerar como signo e essa falta é a fim de mostrar a capacidade de o poeta trabalhar a forma e o sentido do vocábulo, construindo novos sentidos para as palavras. Percebemos a dinamicidade da semiose na criação dessa simbolicidade: palavras-coisas que se tornam lapidais, isto é, modeladas e mais, signicamente reconstituídas a fim de construir as particularidades da mensagem póetica. Esse é o motivo por as palavras-pessoas irem além de si mesmas. A elipse do verbo ir no segundo verso dessa estrofe estimula mais o leitor a decodificar quão trabalhado está sendo o signo para que se possa erigir a poesia.

         

Esse mesmo mecanismo elíptico e a intenção de exceder estruturas predeterminadas ocorrem também na seguinte linha “outras (vão além de) palavras homologais”, ou seja, vocábulos cuja funcionalidade não se prenda a validações ou definições. A anáfora materializada no signo palavras demonstra quão dinâmico se porta um mesmo termo. Até as palavras circunstanciais se libertam e ganham espaço. Vejamos que este último signo veio sozinho enquanto verso e estrofe distanciando-se da estância precedente gerando assim o isomorfismo: uma fusão entre conteúdo e forma, isto é, o espaço desejado é observado no próprio texto pelo intérprete. Toda essa explicação, de certa forma, vem a consolidar mais ainda o que profere a voz poética: “a poesia é mais de quem lê”, “do que de quem escreve”.

 

 *PÉREZ-LABORDE, Elga. A poesia sem limites de Antonio Miranda. In: MIRANDA, Antonio. Poesia no Porta-Retratos. Brasília: Thesaurus, 2007.


 

 

 
 
 
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