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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



O FIM  COMO PRINCÍPIO

 

Poema de Antonio Miranda

 

Ilus. de José Campos Biscardi

 

 

No Princípio          

era a Metafísica

e a ela volveremos

como Anti-Matéria

aqui na Terra

como no Céu.

 

Entretanto

rezamos

versículos

e comeremos

e cagaremos

montículos

que logo serão

montanhas

de terra sobre

terra.

 

Nós, degredados

degradados

filhos da terra

— maçã, matéria

malsã —, nós

despossuídos

postergados

aos Sete Círculos

do Inferno

eterno

—recapitulemos:

antes do Juízo

terrenal porque

mortal.

 

Afinal, vamos

em busca do Prejuízo

pré do pré do pré

e pontificaremos

— escrituras,

constituições

partituras

em marcha-a-ré

em procissões

em canto

em profissões de fé

e desencanto.

 

Após,

apenas

pó.

 

Haja alívio, sortilégio

haja paz neste vale

de promessas inválidas

como crisálidas jamais

libertárias.

 

Neste mundo

—vasto mundo

fim-do-mundo

imundo, no fundo

do poço.

 

Nós, infames

filhos de Eva

filhos-da-Égua

primeva

— vexames!!! —

exilados

condenados

a este

mundo

vil

maravilhoso!

 

 

 

m a r a v i l h o s o

a r a v i l h o s

r a v i l h o

a v i l h

 

v i l

 

h l i v a

o h l i v a r

s o h l i v a r a

o s o h l i v a r e m

 

 

             Extraído de PERVERSOS. Brasília: Thesaurus, 2003

 

 

 

Antonio Miranda (2003, p. 88-90, através do poema O FIM COMO PRINCÍPIO, explora bem a natureza oximórica, conflituosa, que incide sob um eu, mas, neste texto, este eu estabelece um equilíbrio entre ele e esse meio ao enxergar o mundo como maravilhoso e vil. Passemos à leitura destas linhas poéticas a fim de haurirmos a maneira sagaz, agressiva, esperpêntica, enfim, mirandiana, que essa ideia é trabalhada: [Na tese, aparece o poema precedente].

 

O título, do ponto de vista semântico é oximórico, porem se partíssemos de uma visão doxológica, há toda uma discussão que fundamentaria este contexto. Aliás, é possível estabelecer, a partir da primeira estrofe, um contraponto entre episteme x doxa, isto é respectivamente, a ciência do conhecimento em oposição com o universo divino. Observemos que na primeira estrofe há uma sutil ironia que nos encaminha à percepção mencionada: viemos do nada e retornaremos como antimatéria, ou seja, estamos destituídos de sobrevivência. Trata-se de uma maneira agnóstica de buscar a criação. Os contrapontos manifestam-se também na estrutura formal, porque enquanto a primeira instância do lado esquerdo define uma ideia a segunda do direito opõe-se-lhe. Isso é perceptível pelo fato de essa estrofe ser iniciada pela conjunção coordenativa adversativa “entretanto”. Teríamos, então, o isomorfismo, já que  contestação tanto é conteudística quanto formal. Além disso, é importante assinalarmos a natureza da animaverbivocovisualidade neste ir e vir das estrofes. Uma dinamicidade formal dos signosdo princípio ao fim. Isso também rompe com o estilo arquitetural verbal e simétrico da poesia tradicional; fazendo com que a antipoesia, através da forma, torne-se presente.

 

Adentrando nas particularidades da mensagem, vemos que a postura irreverente, debochada, com vocabulário usado e a constante intenção em romper conceitos e estruturas assinalam duramente os traços constitutivos da antipoesia.  A linguagem caleidoscópica, ou fractal, assaz caraceterística do estilo mirandiano perpassa todo o texto. O poeta joga com os signos simbólicos, isto é, com as palavras, com as ideias, com as proposições sígnicas que Peirce as nomeou dicissignos, construindo assim contradições, estabelecendo contestações,enfim, erigindo todo um contexto esperpenticamente inquietante e deformante. Percebamos a única décima deste antipoema, que já no início do texto, absorve esses vieses recém-mencionados. Através da figura sintática do polissíndeto, elencam-se ações coletivas que apresentam uma percepção deformante da condição humana: “rezamos versículos”, “e comeremos”, “e cagaremos”. “montículos”, “que logo serão”, “montanhas”, “de terra sobre”, “terra”. Verifiquemos quão pessimista se apresenta a visão do eu poético sobre a existência.

 

Há um deslocamento antitético de uma situação diminutiva, materializada em “montículos”, para uma aumentativa como “montanhas”. Edifica-se uma hipérbole a fim de chegar à condição redutora do nada: “terra sobre terra”. Na terceira estrofe, mantendo o perfil de oposição estabelecido entre as estrofes do lado esquerdo e direito, a voz poética coletiva, que são por iconicidade metafórica “filhos da terra”, reconhece-se condenada, postergada aos Sete Círculos do Inferno eterno, opõe-se a essa sentença do desaparecimento entregando-se, ironicamente, ou melhor, esperpenticamente, à oração antes que o “Juízo terrenal ou mortal” chegue. O poeta constrói o neologismo “terrenal” não apenas para rimar com o substantivo “mortal”, todavia para mostrar a capacidade inovadora que não pode desprender-se das linhas poéticas modernas.

 

A voz poética utiliza palavras, isto é legissignos, que evoca toda uma isotopia de religiosidade, como “degredados”, “versículos”, “pontificaremos”, “livros sagrados”, “escrituras”, “procissões”, “canto”, “profissões de fé”, “promessas”, “filhos de Eva”. Contudo, entendemos que esse universo é ironicamente referenciado a fim de ser afrontado, como se registra em: “pontificaremos”, “em livros sagrados”, “que descumpriremos”, “escrituras”, “constituições”, “partituras”, “em marcha-a-ré”, “em procissões”, “em canto”, “em profissões de fé”, “e desencanto”. Ergue-se um verdadeiro protesto contra normas, mais especificamente contra um mundo reducionista e controlador da liberdade humana. Desse confronto, segundo a voz poética, fica apenas a paz e o pó da caminhada, não o da decomposição. Espera-se que, deste mundo vil, permaneça seu lado maravilhoso, porque se a voz coletiva enunciadora, que na antepenúltima estrofe é identificada, por iconicidade metafórica, como ”filhos de Eva”, “filhos-da-Égua primeva”, está exilada e condenada a um mundo vil, que possa extrair-lhe, então, seu lado maravilhoso. Daí a a separação da vileza, que circunvizinha a natureza humana e é posta como uma forte característica do mundo, do estado maravilhoso. Temos um signo verbal transmutado em outro ou aproximando-nos da terminologia peirceana, temos legissigno convertido em outro. Não obstante se estabeleça uma oposição entre estes vocábulos, enxergar o mundo como vil e maravilhoso é uma maneira de avizinharmo-nos de suas distorções a fim de transformá-las.

 

In: DIAS JUNIOR, Valter Gomes. A poesia de Antonio Miranda e suas intersemioses. João Pessoa, PB: Universidade Federal da Paraíba, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Departamento de Pós-graduação em Letras, 2014.  268 p. Tese de doutorado defendida com Louvor.

 

 

 




 

 

 
 
 
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