“NÃO VI, NÃO SEI, NÃO FIZ.”
Ilustração de FERNANDO LOPES
Canto 47
CAIXA DOIS E METÁSTASE
Poema de Antonio Miranda
Porque sempre foi assim,
não tem por que ser sempre assim.
Acuado pela crise *
o presidente Lula orquestrou
a tese do Caixa Dois
como um vício republicano
— a compra de votos —
trocando o efeito pela causa:
um determinismo político
execrável mas justificável.
Instado a pronunciar-se
depois da queda de ministros e assessores
e de aliados envolvidos com os escândalos,
declarou-se surpreso e traído;
afirmou que cortaria da própria carne
se preciso fosse
como a oferecer outro dedo ao sacrifício
— mas não apontou culpados.
Quando a crise arrefeceu
saturada e alastrada pelos partidos
da base aliada e entre adversários,
pelas empresas estatais e fundos de pensão
no escambo e escambau,
numa trama tentacular e cancerosa
o presidente ofereceu cargos
e liberou verbas aos políticos
e admitiu que houve erros
mas nunca-jamais corrupção
em seu governo
(dizendo ser essa a prática dos anteriores)
logo aplaudido pelos acusados
e ameaçados de cassação de mandatos.
Mas a crise se alastra
subterrânea e sub-reptícia
e os cadáveres saem dos arquivos
para as manchetes dos jornais
na metástase do poder corrompido,
nos estertores de um sistema político
falido.
[Ainda sonho com o parlamentarismo
com partidos estáveis, fidelidade partidária,
com uma nova Constituinte,
com uma verdadeira reforma política!!!]
* Crise que levou ao julgamento do “Mensalão” tempos depois...
Texto do livro Terra Brasilis, 2006.
Depois veio o Petrolão....
O presente poema, em que livro, etc foi originalmente publicado:
CAIXA DOIS E METÁSTESE
(Terra Brasilis, 2018);
(Gambiarras – Poemas do Barão de Pindaré Júnior-
satíricos e maldizentes, 2016); também em : Poemas do Barão: http://www.antoniomiranda.com.br/poemas_barao/brao_poemas.html)
(MIRANDA, Antonio. Memória ativa (prosa e poesia) 2004-2006.)
Brasília, DF: poexilio, 2020. 133 p. ilus. col. ISBN 979 861-3834853 9
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