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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

DONIZETE GALVÃO

 

 

nasceu em Borda da Mata, Minas Gerais, Brasil, em 1955. Publicou Azul navalha ( T.A. Queroz, Editor, 1988), As faces do rio ( Água Viva Editores, 1991),  Do silêncio da pedra (Arte Pau-Brasil, 1996), A carne e o tempo ( Nankin Editorial, 1997), Ruminações (Nankin Editorial, 1999), Mundo mudo ( Nankin Editorial.2003).

 

Tem trabalhos publicados nos principais jornais e revistas do Brasil, entre eles Folha de S. Paulo, Poesia Sempre, Dimensão, Inimigo Rumor e Cult. Publicou também nas revistas Babel (Venezuela), Blanco Móvil (México), Matérika (México), tsé-tsé(Argentina), Anto(Portugal) e Helicóptero (México/USA), entre outras.

 

Seixos/Guijarros é uma seleção de poemas de vários livros  publicada pela Orpheu Digital na coleção Poetas de Orpheu, dirigida por Angela Pieruccini Boff. O poema Fidelidade foi traduzdo por Reynaldo Jiménez para a revista tsé-tsé 7/8.

 

 

 

Seixos

 

Invenção do branco

 

                           “...all this  had to be imagined

                                          as an inevitable knowledge.”

                                                       Wallace Stevens

 

O tanque é o avesso da casa.

A rebarba.

A ferrugem tomando conta da boca.

O tanque é a parenta decaída,

que machuca os olhos das visitas

com suas carnes rachadas.

O tanque é onde se lava o coador

e o pó de café de seguidas manhãs

desenha uma poça de água preta.

Uma arraia-miúda,

ervas e craca e limo,

flora sem -vergonha,

infiltra-se em suas paredes.

À beira do poço,

alguém imaginou copos-de-leite.

Bebendo a umidade,

em verde e branco brotaram.

Reinventados pela distância,

erguem-se vívidos,

mais brancos que o branco,

artifício de vidro.

Recém-nascidos.

Só porque eles existem,

o tanque e seu corpo saloio

foram salvos do esquecimento. 

 

Rumor das águas 

Se o Rumor é também um deus,

nas águas dessas grotas é que ele mora.

 

Nasce, reverbera e estertora.

Rompe estreitos de rocha. Lambe seixos.

Espumas saltam-lhe dos cantos da boca.

 

Da fricção das águas, surge uma ópera.

Glossolalia divina. Protomúsica.

Que soava desde o princípio

antes da entrada do homem na paisagem. 

 

Recomendações 

Ao cavaleiro desencarnado,

com sua égua de gás hélio,

recomendo ouro, prata e chumbo.

No meio do seu caminho,

mero pedregulho transmuta-se

em rocha, penedo, penhasco.

Mínima ponta de agulha fura

sua armadura hiperbovarista.

Nem figos envenenados

sustentam-lhe  a fome.

Tudo o que toca some. Evapora.

Ponha os pés no chão,

para que o minério de ferro

neles grude e forme um casco.

Ninguém vai ouvir falar do seu nome.

Escuta o resumo de sua vida:

um espasmo, um sopro que não soa

além da grade de sua casa. 

 

José 

        “ Ah, Anhangá me fez sonhar

           com a terra que perdi.”

 

            ( Em O Canto do Pajé, de Heitor Villa-Lobos

              e C. Paula Barros)

 

 

Grito espremido.

Seixo perfeito,

com sono no leito do rio.

Dito não dito que roça

um céu de ametista.

Onde o fundo

deste poço de granito?

Onde o infinito,

a luz do sol do Egito?

Tampa de pedra

sobre carnes de  René.

Olhe ainda que cego,

o reino que já  foi teu. 

 

Anel caucasiano 

Olha para o anel de ferro

e mantém acesa a lembrança.

Lembra-te dos dez mil anos

no miolo escuro do rochedo.

Lembra-te, depois, da visitante

e do barulho de suas asas.

Lembra-te da humilhação
de revelar o que era segredo.

Lembra-te de tudo

antes que todos se esqueçam dessa história

e, mero acidente geográfico,

reste apenas a montanha de pedra.
 

As ninfas 

As meninas

florescem em músculos e seios e barrigas lisas,

peles de pêssego

maduras aos olhos da cobiça.

 

As meninas

são miragens de vitrina,

algodão doce de esquina,

infláveis ao vento a paixão.

 

Tão voláteis, tão escorregadias.

Basta um toque.

E não resta nada em nossas mãos.

 

Silêncio

 

De pedra ser.

Da pedra ter
o duro desejo de durar.

Passem as legiões

com seus ossos expostos.

Chorem os velhos

com casacos de naftalina.

A nave branca chega ao porto

e tinge de vinho o azul do mar.

O maciço de rocha,

de costas para a cidade

sete vezes destruída,

celebra o silêncio.

A pedra cala

o que nela dói.

 

 

Os sentidos da pedra

 

Quem diz sim à pedra

e com gestos exatos

aninha suas arestas

no intervalo das costelas?

 

Quem ainda sente nela

o odor da pele humana

e vê o sangue pisado

das escaras nos ombros?

 

Quem não percebe na pedra,

fragmento do cordão umbilical,

o despojo deixado pelos deuses

na luta que inaugura a geografia?

 

Quem diante dessa força bruta,

batida por séculos de vento,

não ouve aquele primeiro sopro

vindo de onde ninguém tocou?

 

 

Parque de ídolos

 

Os deuses e demônios do desejo

fazem do corpo seu campo de provas.

Gargalham quando, como George Dyer,

inventariamos desgraças no espelho.

 

Atiçam vontades fora de propósito

para que se exponham dilacerações.

Criam do vazio mulheres de celulóide

que nos tentam como a Santo Antão.

 

Apontam visões que andam pela rua

para nos humilhar com suas armaduras.

Perdida a aura breve da juventude

o desejo da carne chega à exasperação. 

 

Fidelidade 

María Zambrano alumia as palavras.

Amorosamente, vai abrindo trilhas

que conduzem o aprendiz aos picos,

onde se respira o raro ar da poesia.

 

Ensina-lhe uma lição de fidelidade.

De como buscar o segredo, ossada oculta,

que ganha existência no momento

em que se revela o que antes dormia.

 

Aprende-se com ela a colher do silêncio,

da solidão que vem desde a infância,

palavras que precisam ser escritas.

 

Língua solta não apresenta serventia.

A virtude anula vaidades e paixões:

a voz contida fala mais que gritaria. 

 

Solilóquio de Nina Simone

Habitou-me um deus espesso.

Sangue cor de fígado.

Veneno talhado, macerado e amargoso.

Fez morada em cada célula.

Nos alvéolos, nas entranhas, sob as unhas.

Expande a veia do pescoço.

Sangra pelas gengivas.

Lateja nas têmporas e nos pulsos.

Planta arrancada da terra africana,

deita suas raízes fundas de baobá

e traz gosto de lama à boca.

Tem sabor atávico a relembrar
o lodo de que se originou o homem.

 

Habitou-me um deus exigente,

que me fere e exaspera.

Que espezinha o que eu era.

Que fala o que eu não pensara

e, dizendo-me ao contrário,

faz-me gostar do calvário

que, às cegas, eu criei.

Nomeio que não tem nome:

Raio de Iansã, trovão, ciclone,

Sopro de Orixá, c´est moi

Nina Simone.

 

 

 

[ GALVÃO, Donizete ]  LICCARDO, Antonio.  Os sentidos da pedra. Curitiba: Fundação Cultural, 2000.  Catálogo de exposição de fotografias. Inclui poemas de Donizete Galvão extraídos do livro “Do silêncio da pedra”.  

 

 

GALVÃO, Donizete.  O homem inacabado.  São Paulo: Portal Editora, 2010.  80 p.  14x21 cm.  ISBN 978-855-63550-05-7    “Finalista do Prêmio Portugal Telecfom 2011    Col. A.M.

 

Fachada

 

Logo vai terminar o prazo

para o homem construir sua fachada.

Ele continua em andaimes.

Provisório.

Exibe máscaras cambiantes.

Sua face inconclusa,

sustentada por ferragens,

parece esconder que,

em todos esses anos de obra,

ergueram-se inúteis plataformas

para edificar um escombro.

 

 

Uso

 

O uso dá caráter às coisas

como se o tempo maturasse

em suas moléculas

uma severa arquitetura

 

A virtude do menos

enobrece a casa

com a sua recusa

de adornos sem serventia.

 

O que o homem gasta

em suas mãos

adquire a aura

de suas dores.

 

 

 

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Guijarros

 

Tradução : Lorenzo Pelegrin/Paulo Octaviano Terra

 

Invención del blanco 

              “ ...all this had to be imagined

                          as an inevitable knowledge.”

                                  Wallace Stevens

 

El estanque es el revés de la casa.

El desecho.

La herrumbre aposentándose en el brocal.

El estanque es la parienta decaída,

que hiere los ojos de las visitas

con sus carnes hendidas.

El estanque es donde se lava el colador

y el polvo de café de seguidas mañanas

dibuja un charco de agua negra.

Una menudencia

(hierbas y roña y fango,

hierbajo rastrero)

se infiltra por sus paredes.

Al borde del pozo,

alguien se ha imaginado calas.

Bebiendo la humedad,

en verde y blanco brotaron.

Reinventadas por la distancia,

se yerguen vividas,

más blancas que el blanco,

artificio de cristal.

Recién nacidas.

Sólo porque existen,

el estanque y su cuerpo rústico

se han salvado del olvido. 

 

Rumor de las aguas 

Si el Rumor es también un dios,
en las aguas de las grutas es donde habita.

 

Nace, reverbera y estertórea.

Rompe estrechos de roca. Lame guijarros.

Le saltan espumas de las comisuras de la boca.

 

Del frotar de las aguas, surge una ópera.

Glosolalia divina. Protomúsica.

Que sonaba desde el principio,

antes de la entrada del hombre en el escenario. 

 

Recomendaciones 

Al caballero desencarnado,             

con su yegua de gas helio,

recomiendo oro, plata y plomo.

En medio de su camino,

mero guijarro se transmuta               

en roca, peña, peñasco..

Mínima punta de aguja agujerea       

su armadura hiperbovarista.

Ni higos envenenados

le sostienen el hambre.

Todo lo que toca desaparece. Evapora.

Ponte los pies en el suelo

para que el minero de hierro             

en ellos pegue y forme un casco.

Nadie va a oír hablar de su nombre.

Escucha el resumen de su vida:

un espasmo, un soplo que no suena

más allá de la reja de su casa.  

 

José

 

          “ ¡ Ah, Aña me hizo soñar

                   com la tierra que perdi !”

 

                       ( De O canto do pajé,

                                 de Heitor Villa-Lobos y C. Paula Barros )

 

 

Grito exprimido.

Guijarro perfecto,

soñoliento en el lecho del río.

Dicho no dicho que roza

un cielo de amatista.

¿Dónde el fondo

de este pozo de granito?

¿Dónde el infinito,

la luz del sol de Egipto?

Tapa de piedra

sobre carnes de René.

Mira aunque ciego,

el reino que ya fue tuyo. 

 

Anillo caucasiano 

Mira hacia el anillo de hierro
y mantiene encendido el recuerdo.

Acuérdate de los diez mil años

en el meollo oscuro del peñasco.

Acuérdate, después, de la visitante

y del ruido de sus alas.

Acuérdate de la humillación

de revelar lo que era secreto.

Acuérdate de todo

antes de que todos se olviden de esa historia

y, mero accidente geográfico,

sólo reste la montaña de piedra. 

 

Las ninfas 

Las niñas

florecen en músculos y senos y barrigas lisas,

pieles de melocotón,

maduras a los ojos de la codicia.

 

Las niñas

son ilusiones de vinilo,

algodón dulce de esquina,

inflables al viento de la pasión.

 

Tan volátiles, tan resbaladizas.

Basta un toque.

Y no queda nada en las manos.

 

Silencio 

De piedra ser.

De piedra tener

el duro deseo de durar.

Pasen las legiones

con sus huesos expuestos.

Lloren los ancianos

con chaquetas de naftalina.

La nave blanca llega al puerto

y tiñe de vino el azul del mar.

El macizo de roca,

de espaldas a la ciudad

siete veces destruida,

celebra el silencio.

La piedra calla

lo que a ella duele. 

 

Los sentidos de la piedra 

¿ Quién dice sí a la piedra

y con gestos exactos

cobija sus aristas

en el espacio de las costillas?

 

¿Quién siente en ella

el olor de la piel humana

y ve la sangre aplastada

en las costras de los hombros?

 

¿Quién no percibe en la piedra

fragmentos del cordón umbilical,

el despojo dejado por los dioses

en la luchas que inaugura la geografía?

 

¿Quién, delante de esa fuerza bruta,

golpeada por siglos de viento,

no escucha aquel primer soplo

viniendo de donde nadie llamó?

 

 

Parque de ídolos

 

Los dioses y demonios del deseo

hacen del cuerpo su campo de pruebas.

Carcajean cuando, como George Dyer,

inventariamos desgracias en el espejo.

 

Atizan voluntades fuera de propósito

para que se expongan dilaceraciones.

Crean del vacío mujeres de celuloide

que nos tientan como a San Antonio.

 

Apuntan visiones que andan por las calles,

para humillarnos con sus armaduras.

Perdida el aura breve de la juventud,

el deseo de la carne llega a la exasperación.

 

 

Fidelidad

 

María Zambrano alumbra las palabras.

Amorosamente, va abriendo senderos

que conducen al aprendiz a los picos,

donde se respira el raro aire da la poesía.

 

La enseña una lección de fidelidad.

De cómo buscar el secreto, osamenta oculta,

que gana existencia en el momento

en que se revela lo que antes dormía

 

Se aprende con ella a tomar del silencio,

de la soledad que viene desde la infancia,

palabras que necesitan ser escritas.

 

Lengua suelta no presenta servidumbre.

La virtud anula vanidades y pasiones:

la voz contenida habla más que el bullicio. 

 

Soliloquio de Nina Simone 

Me habitó un dios espeso.

Sangre color de hígado.

Veneno tallado, macerado y amargo.

Hizo su morada e cada célula.

En los alvéolos, en las entrañas, bajo las uñas.

Se expande por la vena del cuello.

Sangra por las encías.

Late en las sienes y en las muñecas.

Planta arrancada de la tierra africana,

acuesta sus raíces hondas de baobá

y trae gusto de barro a la boca.

Tiene el sabor atávico para recordar

el lodo del que se originó el hombre.

 

Me habitó un dios exigente.

Que me hiere y me exaspera.

Que pisotea lo que yo era.

Que habla lo que yo no pensaba

y, diciéndome lo contrario,

me hace gozar del calvario

que a ciegas, yo creé.

Nombro lo que no tiene nombre:

rayo de Iansã, trueno, ciclón,

soplo de Orixá, c´est moi

Nina Simone.

 

 

Fuente: HELICOPTERO, V.3-4, 2000, Eugene, Oregon, EE.UU. (Los editores
son profesores del Depto. de Lenguas Neolatinas, de la Universidad de Oregon.)

 

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TEXT IN ENGLISH

 

 

Nina´s Simonbe Soliloquy

    Translation of Steven White

A thick god inhabited me.
Liver-colored blood.
It made a home in every cell.
Sculpted poison, soaked, brave.
In tooth-sockets, in intestines, underneath the nails.
It distends the vein in my neck.
I bleeds through my gums.
I throbs in my temples anda t my wrists.
A plant torn out of the African earth
it cradles its  deep baobad roots
and brings the taste of clay to my mouth.
Ots atavistic savor recalls
the mud where man was born.

A demanding god inhabited me,
who wounds and exasperates me.
Who scorns what I was.
Who speaks what I did not think
and, telling me the opposite,
makes me enjoy the suffering
I bindly created.
I name the nameless:
Iansã´s ligtning, thunder, cyclone,
breath of an Orixá, c´est moi
Nina Simone.

 

 

  From: HELICOPTERO, V.3-4, 2000, Eugene, Oregon, EE.UU. (The newspapers directors are professsors of the Romance Dept. Languages, University of Oregon.)

 

 

Página publicada em novembro de 2007, ampliada e republicada em novembro de 2008. Ampliada e republicada em fev. 2013.

 



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