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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TEREZA DUZAI

 

 

Tereza Du'Zai (Itajaí, 1971). Poeta e contista, vencedora do prêmio UFES de Poesia de 2015.

 

 

 

 

Condor

 

A noite se encheu de estrelas mortas,

estrelas de sombra,

filhas, netas, bisnetas de meus antepassados;

esposas de Deus, amantes de Maria,

penetradas e lambidas.

Invejei-as,

clamei pelo sêmen divino.

Desnudei-me, santifiquei-me.

Um minuto de silêncio, um sussurro débil,

e renasci como um poema oculto no ventre de uma casa vazia,
                                               presa à sombra de um verso nu.

Um dia, talvez, Deus haverá de me comer.

 

 

 

Fatal

 

Eis meus mortos, acoados sob o mármore frio,

ocultos em suas cavernas púrpuras.

Inúteis.

Sem esperanças, sem milagres,

sem lágrimas ou dores.

Fulminados, aniquilados,

vestidos para a eternidade.

Vencidos.

Não mais o sol os aquecerá, não mais a chuva os banhará, nenhuma honra os envaidecerá, nenhuma glória os ressuscitará.

Suas sentenças foram cumpridas.

O amor não os salvou.

 

 

 

Mármore

 

Navego em barcos brancos,

reconstituindo-me glóbulo a glóbulo,

a buscar proteção sob asas libertinas,

tornando-me uma visão fantasmagórica apavorante,

brutal como a morte,

cinza como o mármore;

sem beijo, sem língua, sem sexo.

Uma prostituta, uma santa, uma cruz.

 

 

 

Persistência

 

O desamor permanece neste lugar,

como sempre fora.

Tudo aqui é falso, das luzes à escuridão

que ultraja espíritos revolucionários

tornando-os obscuras perversões,

convertendo desertos sombrios em jardins efêmeros.

Mas nem a vaidade que esvazia o homem,

esmorecendo sua dignidade,

nem a ambição espectral e surda

que gorjeia antes e depois do alvorecer

abrandarão o rigor do tempo.

 

 

 

Maldade

 

A maldade dança rua afora

rodopia cada vez mais malvada,

coberta com seu manto rubro,

transbordante de alegria;

escarra à minha porta,

beija a boca da vizinha,

faz-lhe filhos deformados

e rodopia, rodopia invencível,

entre cacos de agonia.

Apenas seus pés choram

o sangue ciclo da menina morta: Esperança.

Morta entre um riso e um grito de bom dia.

 

 

 

Sombras

 

Viver entre sombras,

apaixonar-se, endoidecer por sombras,

comemorar o retorno de sombras idas,

desprender-se da própria sombra

pelo prazer de entrar noutras sombras;

retornar sóbria,

exaurir-se ao relento,

serenar-se,

sombrear-se,

renascer sobra.

 

 

 

Asfixia

 

Antes da canção veio a necessidade de gritar,

mas o grito era órfão de pai e de mãe,

e a poeta não tinha irmãos,

por isso compôs interjeições,

grunhiu até o anoitecer,

até a garganta sangrar,

assustou o cachorro, o gato, as aves do terreiro;

virou fera

e desapareceu realidade adentro.

 

 

 

Colisão

 

Eu quero um beijo morto, um beijo em decomposição;

não de saliva, mas de espuma,

não puro, mas pútrido.

Não espero língua, nem braços, nem pernas entrelaçadas.

E que não haja suores, tremores ou sussurros,

e que não haja zelo ou pudores.

Eu quero beijar sem esperanças.

Eu quero um beijo morto.

 

 

 

Breve biografia: Tereza Du'Zai (Itajaí, 1971). Poeta e contista, vencedora do prêmio UFES de Poesia de 2015.

 

 

NOVOS POEMAS ENVIADOS POR
TERESA DU´ZAI

 

 

SOUVENIR

 

É preciso instruir os servidores do altar,

A se comportarem dignamente,

Tanto nos gestos quanto nas posições;

Assim orienta a velha tradição.

Jamais o deixe esperando,

Não se distraia enquanto o serve,

Nem ouse tentar fugir.

Não o abandone de modo algum!

Mantenha sua postura durante todos os rituais – sincronia e simetria, sempre!

Esteja preparado física e espiritualmente para ser um anjo, um santo na alcova celestial.

Não esqueça de benzer-se com água benta

E clamar pela proteção do altíssimo.

É aconselhável o jejum de pelo menos um dia antes de apresentar-se para os rituais sagrados.

Será bom chegar com 15 minutos de antecedência;

Ofereça-se para aromatizar o ambiente, isso o excitará ainda mais;

Permita que ele o ajude a livrar-se de suas calças compridas, de seus sapatos fechados, de sua camisa social;

Auxiliando-o no preparo da Celebração.

Participe do ritual de entrada com devoção: olhos fechados, mãos postas, pernas ligeiramente abertas;

Sempre dócil, limite-se a responder apenas: amém, amém, amém...

Movimente-se segundo a vontade de seu protetor,

Até que ele grite: Aleluia!

No momento da aspersão, faça o sinal da cruz ao ser aspergido.

Glória, glória, aleluia!

Glória, glória, aleluia!

Agora você deve manter-se de frente para o ambão;

Gloria tibi Domine.

Creio em Deus Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra.

E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo.

Segure seu cálice com delicadeza, abaixo do “nó” com a mão direita.

Direcione-o a ele com uma vênia média.

Quando ele realizar a Epíclese, toque sua sineta ajoelhando-se;

No momento da elevação, adore o Divino em silêncio;

Receba em sua boca o pão sagrado da boca do seu senhor;

Faça o sinal da cruz durante a bênção final.

Eis o Mistério da Fé.

Dominus vobiscum.

Lembre-se: você foi abençoado pela orgia sagrada.

Dê graças ao Senhor, pois ele é bom;

O Seu amor dura para sempre.

...

 

De pernas abertas

 

Como um tumor outrora revestido por delicada capa brilhante,

Você avança com seus tentáculos vermelhos.

Como você se sente, senhora B.?

Santa Senhora B.

Sempre tão orgulhosa com suas toalhas de prato bordadas,

E uma cidade para defendê-la.

Bonitinha, enfeitadinha,

Anedota de bajuladores.

Esposa, mãe, filha, tia,

Prostituta conjugal.

Sem rumo em sua própria casa,

Você aguarda a volta de seu potro;

Amordaçada num casamento de aparências,

Privada do privilégio de ser a protagonista de sua própria mentira.

A culpa é sua, Senhora B.

Você é culpada por essa casa, esses móveis, essas cortinas, essas refeições;

Você é culpada por esses vizinhos, essas visitas, o egoísmo de seus filhos.

Você decidiu permanecer,

Permitiu que a adestrassem: ele e os outros.

Primeiro um carro para ele, depois para você – um modelo inferior, um carrinho “de mulher”,

Você é culpada, Senhora B.

Por todas as traições sofridas,

Não se faça de vítima, você as mereceu,

Você as merece. Você é falsa e conivente, Senhora B.

Não o julgue pelos filhos concebidos em leitos alheios;

E não finja tê-lo perdoado, pois você jamais se perdoou,

Sobretudo, não finja amar esses filhos gerados noutros ventres,

Isso pode ser perigoso para eles, e para você, Senhora B.

Saiba: ódio e amor são sentimentos antagônicos.

Essas moças, a quem você chama “vagabundas”,

São tão vagabundas quanto você, Senhora B.

 

 

 

Página publicada em fevereiro de 2018; AMPLIADA em setembro de 2018


 

 

 
 
 
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