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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

EMANUEL MEDEIROS VIEIRA

 

nasceu em Florianópolis, SC, em 31 de março de 1945. Residiu em Brasília durante 32 anos. Atualmente, reside em Salvador.

 

Formou-se em Direito pela Universidade  Federal do Rio Grande do Sul (1969). Fundou cineclubes, grêmios literários, vendeu livros, militou ativamente na política estudantil, exerceu o magistério e o jornalismo, além de redigir discursos parlamentares.

 

 

 

EMIGRADOS

                     

Emigrados:

seremos sempre,

emigrados.

                                           

Em busca de outro mar,
da última ilha,

seguindo os pássaros,

atrás do último  pássaro.

 

De um mar a outro,

de uma ilha à outra ilha,

e, então, dormiremos,

uma noite sucedendo-se à outra.

 

 

HOMEM DIANTE DO MAR

    

Homem diante do mar

(instância interrogativa).

Precária caravela.

E finita: a vida

 

Trapiche:

o homem só contempla

(desembarcado).

 

No estatuto da memória:

ele se interroga, nunca mais a ação.

 

No porto: a rapariga rosada estendeu um lenço.

Limo: foram-se a juventude, o trapiche, a rapariga, o lenço.

 

(Mátria: sou apenas um homem diante do mar.)

 

Desterro: instante convertido em sempre.

 

O homem desembarcado só pode viver de memória: diante do mar.

 

 

EXÍLIO*

    

Um Atlântico nesta separação:

batido coração segue as ondas de maio.

Desterros além da anistia,

para lá dos poderes.

Velas ao vento,

não bastam os selos,

a escrita crispada.

Queria os sinais da tua pele,

vacinas, umidades, penugens,

pêlos perdidos no mapa do corpo,

o olhar suplicante, soluços.

 

Jornadas:

missas de sétimo-dia,

retratos arcaicos.

Outro exílio:

sem batidas na boca da noite, armas, fardas, medos,

clandestinidades.

 

Sol neste retorno:

casa, guarda-chuva no porão, caneca de barro,

álbuns, abraço agregador,

cheiro de pão, gosto de café,

o amanhã junta os dois nós da memória,

um menino e o seu outro: estou melhor feito vinho velho.

 

 

*Poema premiado no Concurso Nacional de Poesias, cujo tema foi “O Mundo do Trabalho”, promovido pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paraná.

       

 

MADONA

  

Senhora das horas inconclusas

Senhora do torto parto

                 do porto inalcançável   

Madona da ânsia infinita

                    vã peregrinação    

Senhora  do desassossego

Conceda-me o bálsamo do olvido

                       passagem silenciosa

                       travessia sem medo

Senhora do inútil tempo – que continua queimando

Senhora da veloz juventude

Madona de todas as velhices

Outorga-me o estatuto da ausência.

 

 

ASTROLÁBIO*

            Para Lucas, meu filho                                          

                                        

          A bússola e o astrolábio:

          velas ao vento. 

          Existe outro Bojador nestes mapas interiores?

          Os navegadores estão no exílio:

          há faróis neste degredo?

          Findou a aventura no mundo.

 

          Singrando-me, cumpro-me.

          Além de mim, além da vida:

          do pó que serei.

                                        

  *Poema premiado em concurso nacional  promovido  pela FUNARTE.

 

 

 

 

FERREIRA, Sônia.  Chuva de poesias, cores e notas no Brasil Central da história através da arte.  2a. edição revista e melhorada.  Goiânia: Kelps, 2007.  294 p.  ilus. col.  (antologia de poemas de autores do CECULCO â Centro de Cultura da Regiã do Centro-Oeste)  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

 

HOMEM DIANTE DO MAR

 

 

Homem diante do mar
(instãncia interrogativa).
Precária caravela.
E finita: a vida.

 

Trapiche:

o homem são contempla
(desembarcado).

 

No estatuto da memória:

ele se interroga, nunca mais a ação.

 

No porto: a rapariga rosada estendeu o lenço.
Limo: foram-se a juventude, trapiche, rapariga,

lenço.

 

(Mã¡tria: sou apenas um homem diante do mar.)

 

Desterro? O instante se converteu em sempre.
(Ex-navegadores vivem vidas virtuais.)

 

O homem desembarcado são pode viver de memória: diante do mar.

 

 

 

 

CALIANDRA: POESIA EM BRASÍLIA. Antologia com 35 poetas residentes em Brasília, volume primoroso de André Quicé Editor, 1995.  224 p. ilus. Inclui biografias e retratos (desenhos) dos 35 poetas.  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

MORTOS DE DOMINGO

 

Estamos

famélicos de infinito

enquanto os mortos espreitam nesta sala de jantar

com seus bigodes de ouro

               relógios de algibeira

               labirínticos sorrisos

 

E os mortos te chamam neste álgido domingo

sem procisões
       regatas

       uvas de janeiro
       pão feito em casa
       fogão de lenha

 

Consumida está esta pretérita paixão

(Ah, como te espreitam teus mortos nesta sala de jantar)

chama que se apaga

peregrinas entre estes astuciosos defuntos

em alamedas floridas

pensando nas noites deste mundo.

 

Março de 1994

 

 

Poema premiado no I Concurso Nacional de Poesia Edições de Minas — Cartão Poético Alegoria, 1994.

 

 

 

 

ARGILA

 

Não

da promissão

a terra onde foi edificada a casa
mas argila mole
simulacros de: cimento

                      ferro

                      cal

os pregos, sim, certeiros

 

Famélicos operários escorregavam no lodo inicial
Não, não era fundação
mas areia movediça

 

Tudo arremedo
começou mal

(Satanás detrás dos pântanos)
a construção

 

Os seres daí emergidos

— como que ludibriados por cúpidos corretores —
chegaram à terra: rotos

                             deformados
A espera de exorcista nunca vindo

 

Por sua vez,

conceberam outros (também): Disformes

                                             Desvalidos

Impotentes para conjugar o verbo esconjurar

 

E assim sucessivamente: Quebrados,

                                     Danados

 

Vinham ao mundo
(forasteiros de si mesmos)
parindo casas no lodo.

 

                                         Brasília, julho de 1993

 

 

 

 

 

ESTATUTO

 

Esse estatuto de miséria não é o nosso,

apesar de não colhermos flores

no começo das manhãs orvalhadas.

Não, não é nosso

esse miserável pacto de

bocas secas

rostos esfomeados.

(Não, não era teu intuito cair na retórica indignada.)

Tudo igual

(sempre)

nas ruas de março do teu território Brasil.

 

Aspiravas o sereno verso,
mas estilhaços do real róem teus pleitos.
Almejavas ilhas calmas:
sobrou a (exasperante?) realidade.
Peregrinas pelas referidas manhãs orvalhadas
(3o verso quebrado),
que não te integram
como herói grego,

mas te despedaçam e fragmentam
como personagens de simulacros.

 

A máscara na cara

representa o fazedor de maus poemas,
abafados na queixa.

 

Não, nenhuma solar manhã salta desta página para

                                                 restaurá-la.

Como anti-Ulisses

(burocrata de antigas dores)

sobrará (a ti e às máscaras) apenas o lamento

                                                         repetitivo:

"Esse estatuto de miséria..."

                                  Brasília, abril de 1994

 

 

 

 

DEUS E SEU LABIRINTO

 

O sonho te espreita cedo,

mal rompe a aurora.

O tempo transparece no rosto,

sulcos, crateras

(a jornada dos dias).

 

A manhã e seus morangos,
A mãe e seus silêncios,
O tocador de realejo.
Ah, o vento destes espaços abertos,
a noite e seus mortos
(na parede da sala de jantar).

 

A tarde e sua preguiça,

Novamente a noite e seus sortilégios,

Eu e meus presságios,

A criança congelada no tempo.

Deus e seu labirinto.

O tempo e suas escamas.

De Deus, eu queria o Abraço.

A palavra essencial escapa nessas

fendas

tiroteios

soluços

memórias.

Como areia na ampulheta,
o rosto de Deus não se desvela.

                 

                      Brasília, julho de 1994.

 

 

 

 

POEMA

 

O poema resiste à pedra

no tempo

(além)

Singra a eternidade

 

Porque recusa a morte
Seu estatuto não é comércio
(sorriso pueril, punhos de renda)

Ele sonha com o sagrado

Seu rito não é ordenação burguesa

Mas sede de fundação.

 

Brasília, janeiro de 1995

 

 

 

PÁSSARO-MENINO

 

Vale o pássaro
(mesmo ferido)

ao encalço da penúltima gaivota

está o ex-menino no trapiche, não,

não é mais criança,

homem desembarcado

contemplando o cais,

pássaro velho

exilado das asas amadas,

anjo excomungado de qualquer deus

ficou na pedra o rosto antigo,

ele agora é só granito

na face do ancião.

 

                     Brasília, março de 1994

 

VIEIRA, Emanuel Medeiros.  Sete Planos de Asas.

Florianópolis: Edições SANFONA, 1989 [folha  dobrada em quatro páginas]   São  14 folhetos em uma caixa de plástico)  Tiragem 200 exemplares.  
Ex. bibl. Antonio Miranda

 

1

PLANO PILOTO

 

Grandes espaços, místicos, seitas
Como os outros, um dia verei um disco-voador
não só políticos
prefeitos em busca de verbas
caravanas de vereadores
levas de reinvidicantes
tecnocratas engomadinhos (tão presunçosos)
gravatas de todas as cores
Alguém se atira da Torre de TV
(um setor oficioso de suicídios?)
Rifas inter-ministeriais,
bolos para aniversariantes do dia,
{agiotas a 25 por cento, tráficos de influência,
libertinagem, esbórnias,
mergulhos na piscina corrupta
Ah, Plano Piloto que alguém chamou de “Plano Pilatus”
Assim pensam os do Sul:
“os ditadores, os perversos
e os ladrões acabaram com a cidade”
Acabaram?
Niemeyer anda plácido pelos ermos geométricos,
linhas claras, serenas que pairam sobre o espaço,
arquitetando a felicidade azul para todos

 

 

2
PLANO CERRADO

Candangos
Quem fez Brasília?
Agora eles lavam as piscinas dos grã-finos
no sul dos Lagos
Por que as pessoas correm tanto
nestas pistas largas?
Estão ansiosas, raivosas, irascíveis?
Mas a lua cheia está bela, tão vermelha e tão vasta,
o céu estrelado
e como criança folhetinesca deste nome
e todas as estrela
Ênio Aristeu Simon Nenen Alfredo
Luiz Henrique Carlinhos Thiago Cida
Uma longa e longa ditadura
É fim de tarde, um vermelhão no céu,
saem as conduções funcionais,
os estacionamentos esvaziados,
os ônibus dos Ministérios se perfilam
um pequeno funcionário  do MEC come uma melancia
cartões da Loto, talão do jogo do bicho,
Diário Oficial, Boletins Administrativos que revelam
ascensões funcionai, vantagens horizontais,
licenças para gestantes, aposentadorias,
perda de Funções
e no bolso sum queijo de Minas e um lenço bordado
As cidades satélites voltam a ter seus filhos
Também os danados da terra brasileira esperam
leite e mel
Terra da promissão, terra da separação
Uma grande fazenda iluminada?

 

 

5

EIXOS CORTADOS

Alguém berra
Tancredo morreu Tancredo morreu Tancredo morreu
um menino solta pipas
e carros chapas-brancas, do Diretor Geral,
do Diretor Adjunto,
da mulher do Procurador no salão de beleza,
na Feira e no Colégio
dois namorados rolam na grama (tão verde) da
SOS 114
e esta cigarra anuncia a primavera
picham paredes não só pedindo a Greve Geral
a reposição salarial, o fim do arrocho,
também: “Eu te amo, Lucas, volta pra mim”
Ninguém sabe se o Lucas voltou
Num branco muro alguém reinvidica o final da tristeza
e outro proclama
“Quem fez 64 não faz 69”.

 

*

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Página publicada em outubro de 2021

 

 

 

VEJA e LEIA outros poeta de BRASÍLIA em nosso Portal:

 

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Página ampliada em janeiro de 2021

 

 

 

Página ampliada e republicada em dezembro de 2019

 

 

 
 
 
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