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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BRUNO SEABRA

 

Poeta lírico, romancista e folhetinista, cultivava o humorismo em seus versos e prosa. Em 1859, o romance Dr. Pancrácio foi publicado no jornal Marmota Fluminense, dirigido por Paula Brito. Sob o pseudônimo de Aristóteles de Sousa publicou, em 1868, Memórias de um pobre diabo. Escreveu também As cinzas de um livro (1859), Flores e frutas (1862), O alforje da boa razão (1870), e Paulo (1861).

 

 

Flores e frutos. Poesias por Bruno Seabra,
 Garnier editor, 1862.

 

Texto-Fonte:

Crítica Literária de Machado de Assis,

Rio de Janeiro: W. M. Jackson, 1938.

Publicado originalmente no Diário do Rio de Janeiro, 30/06/1862.

 

 

          Li há muito tempo um livrinho de versos que tinha por título  Divã, e que estava assinado por Augusto Soromenho. O título do livro era o mesmo de uma coleção de poesias de um poeta turco, creio eu. Achei-lhe graça, facilidade, e sobretudo novidades tais, que tornavam os versos de Soromenho de uma beleza única no meio de todos os gêneros.
          O livro que o Sr. Bruno Seabra acaba de publicar sob o título de  Flores e Frutos veio mostrar-me que o genro e as qualidades do Soromenho podiam aparecer nestas regiões com a mesma riqueza de graça, facilidade de rima e virgindades de ideias. Abrangendo mais espaço do que a brochura do Divã, os versos do Sr. Dr. B. Seabra respondem a diversos ecos do coração ou do espírito do poeta. A esta vantagem do Sr. B. Seabra junte-se a de haver no poeta brasileiro certos toques garretianos mais pronunciados do que no poeta portuense. Demais, o livrinho de Soromenho era um desenfado; o livro do Sr. B. Seabra é um ensaio, uma prova mais séria para admissão no lar das musas.

          A própria divisão do livro do Sr. B. Seabra exprime o maior espaço que a sua inspiração abrange. Na primeira estão compreendidas as impressões frescas da mocidade e as comoções ingênuas e cândidas do coração do poeta. A sua musa vaga pela margem dos ribeiros e pelos vergéis onde absorve a santa e vivificante aura do amor. A ingenuidade dos afetos está traduzida na simplicidade da expressão. É a poesia loura de que fala um crítico eminente. Essa, quando verdadeira e simples, é rara e inestimável. Poucos a têm simples e verdadeira; e os que à força de torturarem a imaginação querem alcançar e produzir aquilo que só da espontaneidade do coração e da natureza do poeta pode nascer, apenas conseguem arrebicar a inspiração sem outro resultado. É o caso do pintor antigo que buscava enriquecer a sua estátua de Vênus não podendo imprimir-lhe o cunho da beleza e da graça.Esta qualidade, quaisquer que sejam as reservas que a crítica possa fazer, é um motivo pelo qual saúdo com entusiasmo o livro do Sr. B. Seabra.

          A poesia  Na Aldeia, a primeira da primeira parte, parece destinada a dar a ideia resumida do sentimento que inspira a Aninhas. Veja o leitor esta estrofe:

Olha! que paz se agasalha
Nesta casinha de palha,
À sombra deste pomar!
Olha! vê! que amenidade!
Abre a flor da mocidade
Na soleira deste lar!

E esta outra:

Que valem vaidosos fastos,
Quando os corações vão gastos
De afetos, de amor, de fé?
A ventura verdadeira
Vive à sombra hospitaleira
Da casinha de sapé.

          Entremos na segunda parte. Cala-se o coração do poeta. A primeira poesia, Nós e vós, recomenda logo ao leitor as demais Lucrécias. Teresa, Moreninha, A filha do mestre Anselmo, Ignez, são composições de notável merecimento. Tereza e Moreninha, principalmente. Sinto não poder transcrevê-las aqui. O poeta assiste à saída de Tereza e seu noivo da igreja onde se foram casar:

Olhem como vem pimpona!
É uma senhora dona,
Reparem como ela vem...

          Depois de notar a mudança que o casamento havia operado na volúvel Tereza, diz-lhe o poeta:

Adeus, senhora Tereza!
Salve o pobre na pobreza,
Que isso não lhe fica bem.
Soberba com seu marido,
Soberba com seu vestido,
Deixe-se de soberbias,
Lembre-se daqueles dias
À sombra dos cafezais...
Descora... não tenha medo!
Vá tranquila, que o segredo
Da minha boca... jamais...        

          Tenho míngua de espaço. Citarei apenas esta primeira estrofe da Moreninha, como amostra de graça e facilidade:

— Moreninha, dá-me um beijo?
— E o que me dá, meu senhor?
— Este cravo...
— Ora, esse cravo!
De que me serve uma flor?
Há tantas flores nos campos!
Hei de agora, meu senhor,
Dar-lhe um beijo por um cravo?
É barato; guarde a flor    

          As  Cinzas de um livro, com que o poeta pôs fecho ao livro, revela as qualidades de forma de todos os versos, mas não  me merece a menção das páginas antecedentes: Cinzas de um livro é o contraste de Aninhas; Aninhas me agradam mais, pelo sentimento que inspiram e pelas impressões que deixam no espírito de quem as lê.

          Reservas à parte, as Flores e Frutos do Sr. B. Seabra revelam um talento que se não deve perder e que o poeta deve às musas pátrias. Não dá animações quem precisa de animações, com títulos menos  legítimos, é verdade; mas tudo quanto um moço pode dar a outro, eu lhe darei, apertando-lhe sincera e cordialmente a mão As Cinzas de um livro, com que o poeta pôs fecho ao livro, revela as qualidades de forma de todos os versos, mas não  me merece a menção das páginas antecedentes: Cinzas de um livro é o contraste de Aninhas; Aninhas me agradam mais, pelo sentimento que inspiram e pelas impressões que deixam no espírito de quem as lê.

          Reservas à parte, as Flores e Frutos do Sr. B. Seabra revelam um talento que se não deve perder e que o poeta deve às musas pátrias. Não dá animações quem precisa de animações, com títulos menos  legítimos, é verdade; mas tudo quanto um moço pode dar a outro, eu lhe darei, apertando-lhe sincera e cordialmente a mão.

 

 

MORENINHA

 

— Moreninha, dás-me um beijo.

— E o que me dá, meu senhor?

— Este cravo...

— Ora, esse cravo!

De que me serve uma flor? 

Há tantas flores nos campos! 

Hei de agora, meu senhor,

Dar-lhe um beijo por um cravo?

É barato; guarde a flor.

 

— Dá-me o beijo, moreninha,

Dou-te um corte de cambraia.

— Por um beijo tanto pano!

Compro de graça uma saia!

Olhe que perde na troca,

Como eu perdera com a flor;

Tanto pano por um beijo...

Sai-lhe caro, meu senhor.

— Anda cá... ouve um segredo...

— Ai, pois quer fiar-se em mim?

Deus o livre; eu falo muito,

Toda mulher é assim...

 

E um segredo... ora um segredo...

Pelos modos que lhe vejo

Quer o meu beijo de graça,

Um segredo por um beijo?!

— Quero dizer-te aos ouvidos

Que tu és uma rainha...

Acha, pois? e o que tem isso?

Quer ser rei, por vida minha?

 

— Quem dera que tu quisesses...

— Não duvide, que o farei;

Meu senhor, case com ela,

A rainha o fará rei...

Casar-me?... ainda sou tão moço...

— Como é criança esta ovelha!

Pois eu pra beijar crianças,

Adeusinho, já sou velha.

 

AÇUCENA

Era uma branca açucena.
Deu-me alguém a branca flor;
Donzela que teve pena
Das queixas de meu amor,

Foi uma gentil morena
Pediu-me a branca açucena.

—Eu vivo, gentil morena,
Do perfume desta flor;
Deu-me alguém esta açucena
Como um talismã de amor.
Vai ela e disse: — Tem pena!
Oh dá-me a branca açucena!

Nos seios desta açucena
Minh´alma adormece em flor;
Oh deixe-a dormir, tem pena,
Neste regaço de amor!
—Troquemos , disse a morena,
Um beijo pela açucena?!
Fui eu beijei a morena
Dos rubros lábios na flor.
E dei-lhe a branca açucena,
O meu talismã de amor!
Ai nem de mim tive pena,
E nem daquela açucena!

Ai minha branca açucena,
Ai minha mimosa flor!
Cortei o fio sem pena,
Do sono de nosso amor!
Ai caprichosa morena!
Ai minha branca açucena!

Foi nos seios da morena
Abrasou-se a branca flor...
Aquela branca açucena,
Aquela prenda de amor!
Seios de fogo, sem pena,
Queimaram minha açucena!

—O que é de minha açucena,
Que é da minha branca flor?
Agora quem terá pena
Deste amor órfã de amor?
Dá-me a minha flor, morena,
Aquela branca açucena!

E vai responde a morena:
—Aquela mimosa flor?
Aquela branca açucena?
Aquela prenda de amor?
E a desdenhosa, sem pena,
Deu-me as cinzas da açucena!

Ninguém escute a morena,
Ninguém lhe ceda uma flor.
Que ela pede uma açucena
Para matar um amor
E... rir-se depois, sem pena,
De quem chora uma açucena!

 

                    (Flores e Frutos, 1862)

 

Cartão postal:  BILHETE POSTAL.  M. OROSCO & C. Rua da Quitanda, 38. Rio de Janeiro. Provavelmente impresso em 1905.

                   NÓS E VÓS

                   Amo-vos a todos vós,
                   Raparigas, por que nós
                   Dos quinze aos vinte solteiros.
                   Borboletas dos rosaes,
                   Somos todos bandoleiros,
                   Como foram nossos paes
                   Depois de nossos avós.

                   Amae-me, pois, todas vós,
                   Porque, afinal como nós
                   Dos quinze aos vinte solteiras,
                   Lindas flores do rosaes,
                   Sois tão boas bandoleiras,
                   Como foram vossos paes,
                   Depois de vossos avós.

                   Agora... casando nós,
                   Bem como casando vós:
                   —Adeus vida de solteiros,
                   Borboletas e rosaes!
                   E nunca mais bandoleiros!—
                   E Deus vos guarde dos paes
                   Que inda o são depois de avós...

                                      BRUNO SEABRA

 

Página publicada em junho de 2015; AMPLIADA em abril de 2017.

 

 

 
 
 
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