ARNALDO XAVIER – Brasil – Poesia dos Brasis – Paraíba – São Paulo – Poesia Negra - www.antoniomiranda.com.br
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ARNALDO XAVIER

(1948-2004)

 

Poeta e teatrólogo, Arnaldo Xavier nasceu em Campina Grande-PB, em 19 de novembro 1948. Jovem ainda, migrou para São Paulo como inúmeros outros de sua geração. Estreou na poesia aos vinte e cinco anos, na série Violão de Rua, publicada, no início da década de 60, pelo CPC – Centro Popular de Cultura – da UNE. Mais tarde, envereda pelo experimentalismo oriundo da Poesia Concreta e demais correntes vanguardistas e produz uma poesia em diálogo com as artes visuais, numa poética de trânsitos intersemióticos. Radicado em São Paulo, fez parte do “Grupo Pindahyba” que, composto pelos poetas Aristides Klafke, Souza Lopes e Roniwalter Jatobá, era responsável pela editora de mesmo nome. Nos anos 80, participou dos encontros de escritores negros brasileiros e publicou em diversas antologias, inclusive no exterior.

Em seu ensaio-manifesto “Dha lamba à qvizila – a busca de hvma expressão literária negra”, apresentado no I Encontro de Poetas e Ficcionistas Negros Brasileiros, realizado em São Paulo nos dias 6, 7 e 8 de setembro de 1985, e publicado no ano seguinte, Arnaldo Xavier assume uma postura polêmica, inclusive confrontando diretamente três expoentes da geração anterior – Oswaldo de Camargo, Paulo Colina e Abelardo Rodrigues – a fim de renegar a herança modernista a que estariam vinculados. Ao advogar a construção de uma expressão literária genuinamente negra, Xavier ataca o conceito de cultura brasileira, a seu ver comprometido com a absorção de padrões europeus e com o permanente apagamento dos negros e de sua contribuição, no âmbito do processo homogeneizador de configuração da unidade nacional. Após afirmar que a literatura brasileira, “marcada pela índole branca” (apesar de ter em Machado de Assis “seu grande momento”), “vive profunda crise (...) não só de criatividade, mas principalmente de impopularidade”, advoga a “contraposição estética” e a “ traição de todos os sentidos de brasilidade”, a partir do que denomina “Coexistência Crítica a esboçar a busca de uma caminho independente, uma opção ideológica, um projeto político-cultural, baseados numa autonomia do pensamento (XAVIER, 1986, p. 90-95). Renega igualmente o “discurso do autoflagelo” e acrescenta:

“A necessidade de uma manifestação contra-estilística, nascida de um posicionamento político a partir da reflexão de onde emprestamos: A Natureza do conteúdo. A Estrutura Formal. A Compleição Rítmica. A Disposição Repertorial. As nuances da Narrativa. A Delineação de personagens. A construção silogística & A Chave de Ouro do poema.

(...)

O Negro não é feio nem Bonito. O Negro contraria pelo Seu Não-Alinhamento. Pela sua Não-Permissão. O Negro contraria e esta contrariedade é a expressão de incorrespondência às significações adversas manifestadas pelo mundo branco.

(...)

Hum tempo novo exige uma nova linguagem. E que esta Linguagem seja exatamente o sentido )quizilista(, o gesto (xangótico), a sugestão )ebólica(, a careta (quilombística), a escrita )exusíaca( que o corpo do negro aponta de forma própria irreversível.” (XAVIER, 1986, p. 96)

Em seu texto ensaio-manifesto, Arnaldo Xavier vale-se da teorização bakhtiniana a respeito do caráter semiótico da ideologia para destacar que a “multiconografia Negra – inclusive responsável pela mudança de rota da pintura moderna, com correspondentes repercussões na literatura, no teatro e no cinema – não tem ressoado nos textos Negros”. E conclui defendendo “a possibilidade de uma expressão que, ao mesmo tempo que combata o racismo, desencadeie um processo de conscientização que transcenda a frieza naturalista e contemplativa incapaz de se perceber dentro da realidade com seus avanços e recuos.” (XAVIER, 1986, p. 96-7).

Ao comentar a poesia do autor paraibano, Oswaldo de Camargo (1987), destaca que o ponto alto da produção do autor encontra-se nos poemas integrantes da antologia Contramão, que vem a público em 1978, acrescentando que “a sua transição de poemas como ‘São Pálido’ para os de Rosa da recvsa, livro solitário de Arnaldo, não revelou ter o poeta percorrido o caminho de conseguir falar negro-poeticamente com os grafismos e signos até os momentos escolhidos”.

Arnaldo Xavier faleceu prematuramente em 2004.  Fonte: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autores/169-arnaldo-xavier

 

 

CONTRAMÃO POEMAS.  2ª edição.  Aristides Klafe. Arnaldo Xavier. Celso Luiz Marangoni. Lucia Villares. Mauricio Merlini. Tadeu Gonçalves. Ulisses Tavares.  São Paulo, SP: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1978.  91 p. (Coleção PF)      Capa e orientação gráfica: Ulisses Tavares.




 

               EMANUERSEANA OU BAILE DE MARY POROROCA

         — meu pai adentrava na mandchúria
sem mistérios
sem funerais

abraçado
as biraias as quengas as bichas
os delegados os patifes as raparigas
os espigas
os reis os valetes e as damas

         — minha mãe velharezando
uma oração saloba
numa igreja salubre

         — maria pororoca de pernas abertas
ris
ca
das
por uma peixeira de oito polegadas
com o seus seios de cinco quilos
amamenta para sobreviver
todos os quilombos
todas as casas grandes e senzalas da cidade

             — meu pai três meses sem ir em casa
abraçado
as bancas as quengas e os baralhos

             — minha mãe com uma pedra na cabeça
numa procissão

             — maria pororoca de pernas abertas
prepara a tesoura de carne e carnívora
gritando
goza logo bexiga lixa
goza logo gota serena
goza infeliz das costas ocas
goza triste da pancada do sino
goza estoporrado

             — meu pai um câncer noturno o roubou

             — maria pororoca desapareceu nas amarraduras
de caminho se corpos

             — minha mãe continua rezando

 

         GUARDA NOTURNO

         a noite se abre
sobre sua cabeça
como um guarda-chuva ou como
uma rosa preta

         o guarda silva o medo
para subsistir
enquanto os lábios dos cemitérios
como dormitórios
abocanham sono-
lentas pessoas e as sombras
arengam até sangrar

 

         POEMA PARA SACRIFÍCIO DE GARRAS
NOS SUBTERRÂNEOS IGNORADOS
DE UM PAISQUALQUER

         alejandro quando vivo
amava lúcia com luz
lúcia amava alejamdro como tigre

         antes de tigre
luz grávida
e o enfermo pai de luz como rey dor
ordenou em nome do nome
em nome do bolso
em nome da cruz
— a morte do filho de luz

         um dia luz encontra tigre
nos punhais da noite

         e luz
e tigre se amam
até quando mataram Alejandro

         luz foi presa na noite
e foi levada algemada
massacrada
para reconhecer o corpo de tigre
na jaula de um tempo cru

         luz desesperada
debruçada
abraçada ao corpo em sangue
— fale tigre meu amor!
— fale tigre meu amor!

         e diante dos restos mortais de tigre
despiram luz

         e fizeram o que se chama de amor
com luz
diante o cadáver de tigre e os soluços
de luz
que no dia seguinte corto seu pulso

 

         SENTINELAVANÇADA

           as piranhas corroem
unha por unha
as noites

           as piranhas corroem
ossos por osso
as camas

           as piranhas corroem
olho por olho
as esquinas

         até o último gomo da noite

 

         RITMICASTRAÇÃO OU JURUNANDO
AS ESQÉRCIAS DE UM PUEBLO

             os gestos últimos fluem
em veias negras azuis e mamelucas
pelas fuligens das chaminés
pelas mastigações dos arados
e chocalhos pelos olhares em negros
quadros negros
de um povo julgado a imagem e semelhança
de ovelhas e archanjos bêbados
(num bolero aflito)

         os corpos noturnos e copos taciturnos
em barcas e bocas
de um milharal teso onde as espigas
tentam furar todas as estradas possíveis
e impossíveis
(numa rumba sinistra)

         os sabugos esqueléticos os lápis atônicos
e as nervosas sedes das mãos
veiculam num filete de navalha
(numa guarânia macabra)

               o horizonte como sabre afiado
nas vigas das ovelhas se dos archanjos sadios
fecha o seu abraço ríspido
em plantações de camicases
(num alorcado flamenco)

         a camponesa tristeza choca o grão e o esperma
afoito que floresce o açoite
um filho goro e abafado
pelos afagos de sanguessugas
(numa baladagônica)

         a necessidade de comer gerando a necessidade
de mudanças na memória acéfala
de alguns perplexos homens
(na gralha de uma toada)

         as escondidas danças em gemidos molhados
por trás de pilhas de sal e de fogo
e os panos de uma aurora onde a fome parece
um metalgalho rígido é a única
branca arma branca de faminto
a única tática é a última estratégia
de um passo de tango)

 

         PORTA DEMERGÊNCIA

                            armei ilhável antro
(acessos
circos e cercos)

                   armei policiável pedra (atiçados
campos patas e arames)

                      armei caçável ave
(abertgas
grades e estradas)

                                armei plantável vida
(debaixo
de roxos lençóis
boinas e
capacetes)

                            armei insufocável brado
(nunca
eternos campeões de todos os gemidos)

                                      armei aurorável horizonte
(onde
o sol arriará as calças
e se acocorará para cagar por trás
da moite)

                             armei populações civis
(de
olhos bem abertos sobre
a carne dos juízes
momentâneos)

                       armei (em plenas aflições) funerável motivo
de sombra
(em ideias perplexas e sóis calados
enquanto vive a marsada
em agonias últimas)

 

Página publicada em junho de 2018         

              

 

Poesia Negra – Negro na Poesia

 


 

 

 
 
 
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