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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

ÁPIO CAMPOS

(1927-2011)

Ápio Campos nasceu em Belém, em 1927. Formou-se em Teologia pela UFPA, em 1949. No ano seguinte, aos 23 anos de idade, foi ordenado sacerdote.

Também era poeta e ocupava a cadeira de número 30 da Academia Paraense de Letras (APL). Publicou os livros: Marítimas(poemas), em 1955;  Aquele padre velhinho (ficção),  1956; Cítaras em surdina (poemas), 1957; Rosa super rivos (poemas em latim), 1958; Olhos dentro da noite (contos), 1959; Canto agônico (poemas), 1960; Catecismo eleitoral cristão (doutrina social católica), 1960; Hora do ângelus (crônicas radiofônicas transmitidas pela Rádio Clube do Pará), 1962; A Batina no banco dos réus (ensaio), 1963; Pastoral das Sombras (poemas), 1965; Fandango (contos), 1967; Problemas de educação e desenvolvimento na Amazônia (ensaios), 1968; Renascer pela água e pelo espírito (exposição sobre o batismo), 1970; Crise ou falência da educação cristã? (ensaio), 1971; O Verbo e o texto (estudos lingüísticos e literários), 1979; Transpoema (poemas), 1979; Universidade: Linguagem e desenvolvimento (ensaios), 1980; Árvore do Tempo (poemas), 1980; Universidade: Pesquisa e pós-graduação (ensaio), 1981; Trevos e travos (trovas), 1982. Fonte:  http://portal.ufpa.br

 

CAMPOS, Ápio.  Sangue nas pedrasBelém, PA: Universidade Federal do Pará, 1983.  339 p. 15x21 cm.    ISBN 85-247-0001-7  Capa: Francisco Cavalcante.   Ex. Biblioteca Nacional de Brasília, doação da família de Francisco Vasconcelos.

 

        RIO SUBTERRÂNEO

 Um rio subterrâneo escorre
por baixo de minha pele

de estrelas líquidas nasce
um vento solar o impele

flui, atravessa desertos
bebem-no sedentas bocas

de criaturas insidiosas
com caras infernais, loucas

suas águas turvas, profundas
nenhum olhar p ode vê-las

adivinho certas horas
os fragmentos das estrelas

traz detritos de mim mesmo
velhas raízes ancestrais

barcos que ao vento afundaram
outros que não quero mais

percorre com tal silêncio
o subsolo da epiderme

que lembra o tronco roído
por infatigável verme

nos altos jardins suspensos
flores-sorrisos florescem

mas meus olhos assustados
à entranha dório não descem

sei que nunca vem à tona
toda a sua vasta imundície

mas o rio sustém e irriga
o que medra à superfície

sou embarcação conduzida
por encapuçado piloto

ou casa sem alicerces
construída sobre esgotos

no rio flutuam salsugens
paixões desejos venenos

seres escuros que expô-los
à luz do sol não queremos

nesse rio tempestuoso
alguma vezes mergulho

saio coberto de lama
com um pouco menos de orgulho

inútil tentar dele-lo
desviá-lo ou  alimpar

o lodo que ele transporta
só deposita no mar

o volume inconcebível
desse rio subterrâneo

desde o início de minha vida
faz dilatar-se o oceano

ele tem também suas fases
marés baixas, marés altas

às vezes quero estar puro
sua cheia me alaga e encharca

                   outras vezes desço tonto
atrás das águas no lodo

Soçobro, sorvo, me embebo
degusto prazeres torvos

Será o oceano infinito
ou dilui toda sujeira?

ou o rio defende seu visco
quer eu queira quer não queira?

esse mar incandescente
como explosões do Vesúvio

transbordará sobre o mundo
betuminoso dilúvio?

ou há-de chegar um dia
nos frágeis destinos humanos

em que secarão nas fontes
nossos rios subterrâneos?

 

         APOTEGMA

O Saber e o Poder não se cosem
aliam-se por vezes
e acabam se estranhando quase sempre
o Poder pode tudo
mas não pode saber
sobretudo não saber poder
mas sabe a infinitude do saber
o Poder pode agredir o saber
e até tortura-lo e mata-lo
quando se zanga com ele
o Saber sabe apenas mas não pode
geralmente nem se defender
Sócrates era o Saber — a cicuta o Poder
Galileu era o Saber — a Inquisição o Poder
se estão juntos Saber e Poder
(o que acontece raramente)
foi o Poder que chamou o Saber
e não o Saber que procurou o Poder
e quando a verdade do Saber
desmascara a mentira do Poder
esta o chama infiel
e o alija
para o outro lado do Rio
e o Saber vai embora
levando consigo
a única fórmula
que poderia
preservar o Poder
da morte e da destruição
e o Poder fica
vazio da Verdade
com a ilusão de que sabe
e por isso pensa
que saiu vitorioso.
O Poder nem desconfia
do que perdeu saber.

 

          ENTREATO

Neste breve tempo entre mim e a morte
desejo tecer eu próprio minha sorte

meu destino é a mortalha que teço e me cobre
quando do que sonhei nada mais sobre

entre mim e a morte só eu e tu
ficarás vestida e eu um homem nu

quando tu te fores a morte chegará
e com pena da vida me cobrirá

neste breve tempo entre mim e a morte
não sei se esta espera tão fria suporte

aspirei teus lábios desejei teu corpo
do que vale a vida para um homem morto?

entre mim e a morte o tempo é ligeiro
nem o amor me segue como companheiro

de mim para a morte vai escorrendo o tempo
da ampulheta não posso deter o espavento

eu nado no tempo e a morte é na margem
além vejo oásis ou vejo miragem?

entre mim e a morte o tempo é medonho
escrevo um poema ou apenas sonho?

 

Página publicada em abril de 2017

 

                  

 

                  


 
 
 
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