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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MARCOS BAGNO

MARCOS BAGNO

Poeta, tradutor e escritor de livros infantis e de estudos linguísticos. Marcos Bagno nasceu em Cataguases (MG), mas sempre viveu fora de seu estado de origem. Depois de ter vivido em Salvador, no Rio de Janeiro, em Brasília e no Recife, transferiu-se em 1994 para a capital de São Paulo, onde viveu até 2002, quando se tornou professor do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (UnB), tendo atuado no Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas até 2009, ano em que se transferiu para o Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução.  Participou do célebre evento Artes e Ofício da Poesia, no MASP, em 1990. Onde registrou:

“É, dúvida não haja, meu tema predileto: a palavra. Basta descobrir uma nova, rara, para desentranhar-lhe um poema.”

Portal do autor: http://www.marcosbagno.com.br/

 

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS    /     TEXTOS EN ESPAÑOL

 

 

De

Marcos Bagno

VAGANAU

São Paulo: Parábola Editorial, 2010.  156 p.  ilus.

9978- 85- 8845692-1

 

Marcos Bagno é uma das melhores e mais brilhantes revelações da poesia brasileira contemporânea. Oximoricamente, consegue ser contundente  e sutil, denso e fluído, compulsivo e comedido. Sem querer estabelecer paralelos, que não cabem, tem aquela verbosidade emotiva do Bruno Tolentino dos melhores momentos, sendo lírico e trágico, moderno e arcaico a um só tempo como a revelar a condição humana, do civilizado ao bestial. Aqui vão os dois primeiros sonetos de uma sequência arrebatadora, onde os adjetivos cabem e nunca excedem. ANTONIO MIRANDA.

 

 

 

       SONETOS DO LABIRINTO

1

 

Eu necessito um homem que me ame,

que me percorra, assim feito um cavalo,

que me espedace ao aço de seu falo

e faça desse amor nosso vexame.

Que não me bata pra que eu não reclame

da dor que não me traz a cada abalo,

que me interrompa quando falo ou calo,

que em seu prazer a minha morte trame.

Que sempre esqueça de que tenho sexo,

que me abandone logo após o gozo,

plantando em mim todo o seu mal viscoso

pra que eu ignore o que é sofrer, perplexo.

         Se é do espelho que virá tal homem

         que minhas mãos então de lá me tomem!

 

2

 

Ouvi batidas à porta de mim

e deparei comigo ao me abrir:

era eu a querer de mim fugir,

do labirinto que sou eu — sem fim...

Meus olhos os meus olhos invadiram,

e o que vi desta visão foi só eu

na sede mansa de encontrar no breu

a porta que meus dedos já abriram...

A porta a ser aberta lá estava,

e quando ia abri-la, deste lado,

do outro já me sinto preparado

neste gesto de mão que a destrava...

         E quem tudo isso agora me contou

         não foi este que sou, mas o que estou!

 

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VAGANAU

 

Poesia, nau, divaga,

devagar e sem timão,

pela vida, mar sem alga,

pelo mar, que é vida em vão.

Leva horizontal adaga

cravada no coração,

aço que lhe aviva a chaga

de não ser nem deus nem chão.

Poesia que naufraga

as frias costas do não,

recife que tudo draga,

praia do se, do senão:

soledade

           solitude

                      solidão

 

Poesia que extravaga

limites do mar geral,

sem astrolábio, sem braga,

sem provar do mundo o sal.

O saber-se (dor que a esmaga)

ancorada ao mais mortal

é certeza que lhe indaga

se viver a vida val.

O presente mal lhe paga,

quer existir outro grau;

para além de quanta ostaga

é que se refez em nau  

vagabunda

             vagamunda

                           vaganau

 

 

DRUMMONDIANA No. 3

 

"Escrita nas ondas

a palavra Encanto

balanfa os naufragos,

embala os suicidas."

            Drummond

 

Dia desses, ao abrir o dicionário,

as palavras saltaram-me aos olhos

e foram escorregando pelo chão de toda a casa.

No temor de que os vizinhos se zangassem

com o estardalhaço alvoroçado que faziam,

                                      [azáfama, darandina,

corri a recolhê-las com uma pinça.

Inútil. Esguias e molengas,

divertiam-se com me ver em pânico

a tentar em vão resgatar o léxico esparramado.

Escancarado sobre a mesa,

o gordo livro gotejava, pálido, afônico,

e os derradeiros verbetes, justamente os advérbios,

calma, pacífica e tranquilamente

soltavam gritinhos de prazer

enquanto deslizavam com paciência pelos pelo móvel

e se ajeitavam como pudessem       

sobre o tapete coalhado de pululantes insetos

                                                        [tipográficos.

A palavra curiosidade desaparecera em minha estante

e fazia, com sua vozinha de criança chata,

borbotões de perguntas a cada volume.

Pelo ar zuniam os sons de aeroplano, jacutinga,

                                               [joaninha e asa;

monocotiledôneas e gimnospermas discutiam com

                                                        [floricultura;

horroroso perdera um de seus ós e mancava triste,

                                      [apoiado em solidário;

ptose e tmese beliscavam a letra i;
maracujá e passiflora trocavam segredos de família,

enquanto centopéia e miriápode faziam suas contas.

Etimologia, depois de ferir semântica com ciúme,

agarrara bisturi e investia contra todas as palavras

                                                        [indefesas,

separando-as, cortando-as decifrando-as

e tentando se lembrar de línguas mortas.

A palavra cor luzia, rebrilhava, acendia e apagava,

cada hora de uma cor.

                            Subitamente,

encanto cresceu

                   cresceu e ficou imensa

                                      imensa para além da casa,

e me mostrou mares cor de raio,

doces de pó de estrela, beijos de girassóis,

sons de tempos pétreos, vozes de perfumes líricos,

ônibus de cabelos diáfanos, planetas de poesia

                                               [embriagados

livros transpirantes, oceanos de pássaros lúgubres,

mapas de homens drásticos, alucinações de

                                               [concreto exausto,

verões de vinhos calidoscópicos, nuvens de mães

                                                        [distantes,

tempestades de horas lentas, flautas de vulcões e céu...

E no seu crescer absoluto, no seu multiplicar-se surdo,

encanto foi absorvendo todas as outras,

engolindo, devorando, lambendo, digerindo

a língua até então só derramada.

Tão maravilhado quedei (posso dizer encantado?)
que me faltaram as palavras (como encontrá-las no
                                                                  [caos?)
e de espanto abri a boca.
                            Por esta porta penetrou-me encanto,
invadiu-me ossos e células, contaminou-me sangue
                                                                  [e nervos
e alojou-se para todo o desde-então
no meu recôndito coração de alma.

(Antes, porém, dobrou-me sobre o papel
e fazendo-me cócegas nos dedos, leves,
obrigou-me ao poema que acabais de ler).

 

 

 

Extraído de:
2011 CALENDÁRIO   poetas     antologia
Jaboatão dos Guararapes, PE: Editora Guararapes EGM, 2010.
Editor: Edson Guedes de Morais

 

/ Caixa de cartão duro com 12 conjuntos de poemas, um para cada mês do ano. Os poetas incluídos pelo mês de seu aniversário. Inclui efígie e um poema de cada poeta, escolhidos entre os clássicos e os contemporâneos do Brasil, e alguns de Portugal. Produção artesanal.

 

 

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TEXTOS EN ESPAÑOL

 

MARCOS BAGNO


De

Marcos Bagno

VAGANAU

São Paulo: Parábola Editorial, 2010.  156 p.  ilus.

9978- 85- 8845692-1

 

 

 

4/ EXTRANJERO

 

                   a Fedefico Polsstri

 

Mi lengua no es ésta

llena dei polvo frío de las mesetas

perdida entre luces oblicuas y cenizas

erguida como las góticas amenazas de una catedral

 

No es mi lengua ésta

en la que la sal, la sangre, la leche y la nada

han perdido su dulce y líquida virilidad;

en la que los árboles, madres por excelencia,

se hacen designar como hombres, sin intimidad

                                                        [con la luna

 

No es mía esta lengua

vertical y exacta, pero carente de playas largas

de los susurros dei vuelo de la mariposa tímida

de la incertidumbre de que toda semilla de flor

no, mi lengua no es ese reloj

 

Es verdad que la quiero, a esta lengua

como uno quiere a la lluvia que lo ahoga

al viento que le dispersa las voluntades

al temblor que le anuncia una voz sin rostro

al padre que les da miedo a sus niños solo con mirarlos

 

La quisiera entranada en mí

para no tener que añorarla

del otro lado dei estrecho río que nos separa

de dónde nos podemos ver y oír sin podernos tocar

pues si el vidrio es translúcido también es duro

 

Ni siquiera cuando juntos decimos

azul mundo agua tristeza

paz gato remedio amigo

ave negro página alma

lo decimos con igual calidad de tono y silencio

 

Que no es mía lo sé, pero iqué más da!

con esta u otra lengua nadie jamás logró

definir los nombres inestables e insistentes

de los contornos yertos de la humana soledad

 

 

 

7/ PARA DECIRTE

 

Para decirte que te quiero

elegiré palabras buenas,

cielo de junio, mi sombrero,

frío de otoño, compañero

que nuestras manos encadena.

 

Para decirte lo que siento

me callaré para que hable

el blanco pájaro de viento

que en nuestra calle vá, contento,

sobrevolando lo improbable.

 

Para decirte lo que pienso

dli cuerpo tuyo, plata y cobre,

abro los labios del silencio

y arrodillado reverencio

la noble seda que te cubre.

 

Para decirte lo que espero

de nuestro encuentro, sorprendido,

pronunciaré tu nombre entero

como oración, voto primero

de un infiel arrepentido.

 

Para decirte lo que veo

en el espejo de tus manos

cuando acarician mi deseo,

confesaré que ya no creo

en los idiomas del humano.

 

Para decirte que te añoro,

te extrano, sí, y otras verdades

de nombres raros y sonoros

cuyos orígenes ignoro,

a lo mejor diré saudades.

 

Para decirte que te quiero

como se debe a una mujer,

no te hablaré con exagero

del hondo azul despeñadero

donde tu amor me hizo caer.

 

 

 

Página publicada em janeiro de 2010; ampliada e republicada em agosto de 2010

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