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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

FRANCISCO MARCELO  CABRAL

 

(1930-2014)

 

 

 Cataguases, Minas Gerais, 1930.

 

Obra poética:  O Centauro (1949); Inexílio (1979); Baile de Câmara (1992); Poema em Três Cantos (2000); Pedra de Sal (2003); Livro dos Poemas (antologia, 2003) e Cidade Interior (2007.

 

“O livro é grande. Sincero o digo, olha: até do “Poema da Identidade” estou gostando... Não é engraçado? Poesia é coisa-causa, difícil e fácil; é uma espécie de contágio.” Guimarães Rosa, 1954.

 

“Rigoroso, inventivo, impecável.” José Lino Grünewald, 1993

 

“Se toda viagem é a bus de um regresso — primordialmente um regresso à infância —, Francisco Marcelo Cabral, como não poderia deixar de ser, assim regressa, sem cessar, à sua ítaca-mundominias.” André Seffrin 

 

 

De
CAMPO MARCADO
Rio de Janeiro: Bookink, 2010.
100 p.  ISBN  978-85-7729-096-3



Água-forte

Sigo trilhas do nenhum-destino.
Pegadas folhas avisam houve alguém.
O sol o chão cobre de ouro e ocre.
Escorrego na lama de caulim,
esmago musgos e besouros.
Flechas de chuva nuvêm
lavarbrunir as pedras
onde lagaros pregiásperos
verdormitam
no horizontempo
a que perdidoporto voo
cativo pelas penas, bico adentro
da aguarosa da luz que tardescai

 

 

Romance em setembro

 

Ao todo são sete portas

E ao todo sete sacadas

Sete navalhas e aortas

Sete mortes despejadas

— às sete — em sete calçadas

Sete paixões funerárias

E sete os amores findos

E sete fundos abismos

Ou sete camas de terra

Sete saias de ouro e couro

Sete rosas-rosa a pino

Sete repiques de sino

E sete luas de luto

Sete coroas de cardos

Sete tardes de domingo

Sete jornais matutinos

Sete ais sete suspiros

Sete noites mal dormidas

Sete mulheres baldias.

 

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INSTABILIDADE

 

Pêndulo indeterminado,

inextinguível e liberto,

vacilo entre o duplo fim.

Anseio por horizontes

do começado caminho:

vejo a luz e quero ir.

Que me rouba o ser estável?

 

Abro os olhos, nada vejo,

sinto a ausência do meu corpo,

rubro poente de mim.

As idas de longe acenam.

Ai, me perco nas veredas,

Quero as vindas, dai-me as vindas.

Quê me perturba a beleza?

 

Oh, não cantará as musas

o que a si próprio se oculta

nas dobras do não-dizer.

Minhas vestes já rasgadas

minhas mãos desencarnadas

minha presença ocultaram.

Quê me liberta o inefável?

 

Anjo de asas caídas,

os olhos não volverei

para contemplar os despojos.

Meu vôo cortei bem rente.

Não satisfeito, amputei-me

e apenas amanheci.

Quê me detém na pureza?

 

 

SONETINO

 

Não eu, que a tenho em pedaços

e apenas procuro recompô-la

como a um arlequim desfeito, exposto

a só se perder, malbaratado.

 

Eu não! Outros que a vão buscar, úmidos

do próprio suor reminerado.

A mim me cabe mais: a vida é um

Respirar esperançado.

 

Sou o pássaro e me lanço

a toda a liberdade, o olho contra o sol

e contra o vento as penas, como

 

quem se afasta só sem mais ruído

que um ligeiro adejar de asa acesa

e vai, lá em Minas, repousar.

 

 

PEDRA

 

 

Escrevemos

Porque sabemos

que vamos morrer.

 

Escrevemos

porque não sabemos

por quê.

 

 

DOCA

 

Para Alberto da Costa e Silva

 

Necessário dar ao poema

endereço e compromisso

e não deixar à solta

— nave de papel e tinta

que a água do tempo dissolve.

 

A uma inspeção de minúcias

deve ser submetido

para que em cada atracagem

uma laboriosa estiva

libere a apreciada carga.

 

Necessário armar o poema

com rigorosa treliça:

que não pareça destroços

de naufrágios reunidos.

 

O poeta habite o poema

ou dele se distancie

que o que segue transportado

no convés e nos porões

como o ar em nossos foles

se esvazia e se repõe.

 

Se não lhe dá uma rota

ao poema, largado à sorte

das coisas que só flutuam

sem a nitidez das naus,

o poeta voga à matroca,

e o poema atraca no caos.

 

 

CIDADE INTERIOR

 

É onde à noite os medos

convocam as fantasias das sombras

cortam as luzes das ruas

e ao fraco luar se tropeça

em cães ressoando

e mal se ouve a suave respiração dos sonhos

as pisadas no tambor dos pesadelos

e os silvos remordidos do gozo

(e onde mortos rumorejam pelas grotas)

uma cidade para sempre estacionada

no poema

          - falsa e inesquecível.

 

 

VITAMORS

 

Para Ascendino Leite

 

 

O passado mal se equilibra, nos derruídos blocos

desunidos

da extinta harmonia.

O futuro demole todo o cristal

e dura como o barro — a perspectiva do pó.

Sonhos, amores, juventude

— o presente é o tempo que morre em você.

 

 

            A CARNE DA PALAVRA

 

Há no teu nome tanto

de animal e alvorada, tanta vida,

que o amo também.

 

Pronunciá-lo é gozar,

sentir tua presença,

palpável cristal.

 

És insondável, és,

embora em superfície toda brilhe

tua estrela, tua fonte.

 

Tens derramado em tuas letras

um sangue algum, que te define e forma

e se comunica e vem

ou sou eu quem o extrai

e do aparente friúme da palavra

reacende a chama essencial.

 

Pode muito Eros:

de seu reino de asas cortadas

nunca escaparás.

 

Que a palavra em ti

pertence-me, e eu condeno-te a sofrer

a límpida maldade

do verso que te despe.

Confia, pois vai nisto, bem que rude,

um amargo travo de amor.

 

 

AI DE NÓS

 

Oh, um carvalho crescendo é tão sério

(e vem o lenhador com seu machado e fere-o).

 

A carne é mesmo triste? Um barco é triste?

Que nos cabe de tudo quando existe?

 

Eu em trânsito estou, vida é viagem

E não deflagrei auroras nem miragens.

 

Aquele que chegou, a terra quere-o

(ai de nós, se não fosse o mistério).

 

 

 

POEMAS INÉDITOS

 

POEMA

 

A palavra nasce de onde  morre

breve fulguração  da  fala

na voz e na  página.

 

Necessário atá-la a outra  palavra

igualmente  fugaz

— corrente de brilhos longos e curtos

nave passando  iluminada.  

 

O silêncio  gera a palavra e  consome

sua espessa matriz

No universo sem som e sem tempo

haver   a  palavra é inútil

 rede para a luz e o  vento.

 

O visgo e o ferrão da palavra

impõem cuidados  ao  toque:

faca  afiada , 

empunhada pela lâmina.

 

A agulha  da palavra  crava

na mão e na boca que arrisca 

 comunhão  impossível

do visível

e do imaginado.

 

 

 

HORA NENHUMA

 

Pelas frestas do soalho coa-se  a  luz

— crinas  oblíquas do cavalo dos ventos

Tremem as  velas e as roupas  finas

aos  sopros e assovios  dessa luz  sem sombra

que tanto medo me dá

A mãe  sussurra não olhes o piso nem as telhas

nas paredes nuas  o sono nos aguarda

entre  as  manchas de mofo e seus desenhos

de  limo verde.

Aqui mora a noite

Seu cheiro de roupa guardada

Suas lãs descoradas e ásperas

Como peles selvagens mal curtidas

Essas  coisas velhas  rescendem a calor suado

Debaixo da cama arfa  um cachorro cego

E um jarro de miosótis tinge com sua morte azul a penumbra e o silêncio.

O medo não  abre os olhos do menino

Que apenas pressente  o universo no quarto

E embarca  no bote de espumas

Sabendo  tudo em volta  irreal.

O sono se abate sobre o peito

como um par de asas sem  ave

uma rajada de brisa adocicada e morna

uma persiana que desce nos fios.

A mãe já não diz mais nada que se ouça

apenas nela vibra o sopro  que ressoa

na delicada respiração do menino

—fonte e sinal da vida  que prossegue.

 

 

AINDA MAIS

 

Escrevo a língua do meu avô

e tenho a sua cara

 no espelho fugidio onde   busco

as marcas  do que   sou.

 

Vejo o rio passar

Os peixes das palavras   boquejam   espuma e  água suja

no sulcado  perau     dos versos

 o poema flui arrastando em sua calda

a mudez dos afogados e os  gritos

dos pescadores de areia.

 

Um passo atrás,   que eu  possa ver

essa procissão  que se arrasta

desde muito antes do ano  de  mil

novecentos e trinta, quando eu mesmo

 vazei  num jato de   sangue e soro

e gritei  pela primeira vez:  eu

— e  não,  e nunca na verdade, fui ouvido.

 

Um passo atrás

que o sol está secando as chuvas do poente

um  corpo  vai-se  atirar na direção do naufrágio

 e a  chama de uma vela

será enviada  a procurá-lo

 

Escrevo a  língua do meu avô

sem   sua permissão,

por isso  apenas  busco seduzir

os fantasmas que me visitam

por isso venho até o rio

para olhá-lo nos olhos

e   numa  canção inaudível

berçar  os seres  amáveis   que o habitam

e  se coçam  nas facas dos peixes  

 

Vejo o rio passar  e  mal me vejo

 enquanto envelheço  à sua beira

A luz e o silêncio em mim   sabem a vida

e enquanto respiro

tudo o que não entendo faz sentido

 

 

 

 

 

Página publicada em janeiro, republicada em agosto de 2008; páina ampliada e republicada em outrubro de 2010.



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