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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Fonte: www.iccacultural.com.br

 

 

SALGADO MARANHÃO

 

 

(José Salgado Santos) Letrista. Poeta. [Nasceu em Caxias, no Maranhão, em 1954] Ainda adolescente, mudou-se com os irmãos e a mãe para Teresina.Escreveu artigos para um jornal local e conheceu Torquato Neto, que o incentivou a ir para o Rio de Janeiro, o que fez no ano de 1972. Estudou Comunicação na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Terapeuta corporal, foi professor de tai chi chuan e mestre em shiatsu.

Inicialmente, teve seu nome vinculado em publicações como "Ebulição da escrivatura -Treze poetas impossíveis" (Ed. Civilização Brasileira, 1978, RJ), coletânea que reuniu diversos poetas, como Sergio Natureza (assinando Sérgio Varela), Antônio Carlos Miguel (sob o pseudônimo de Antônio Caos), Éle Semog, Mário Atayde, Tetê Catalão, entre outros.

Publicou poemas e artigos na revista "Encontro com a Civilização Brasileira" (1978). Nos anos seguintes, publicou: "Aboio" (cordel/ Ed. Corisco -Teresina - 1984), "Punhos da serpente" (poesia/ Ed. Achiamé, RJ, 1989), "Palávora" (poesia - Ed. Sette Letras, RJ, 1995), "O beijo da fera" (poesia - Ed. Sette Letras, RJ, 1996) e "Mural de ventos" (poesia - Ed. José Olympio, RJ, 1998).

Em 1998, ganhou o prêmio "Ribeiro Couto", da União Brasileira dos Escritores (UBE), com o livro "O beijo da fera". No ano seguinte, com o livro "Mural de ventos", foi o vencedor do "Prêmio Jabuti", da Câmara Brasileira do Livro, dividido com Haroldo de Campos e Geraldo Mello Mourão. Colaborou em várias publicações com artigos e poemas, como a revista "Música do Planeta Terra".

Sobre ele, declarou seu conterrâneo Ferreira Gullar: "Salgado é um dos mais brilhantes poetas de sua geração e possui um trabalho de linguagem muito especial".

Fonte:  www.dicionariompb.com.br

 

 

 

 

Convém ouvir com cuidado:
"O mal sofre de insônia",
quem diz é José Salgado.

 

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS  -  TEXTOS EN ESPAÑOL

 

 

De
 Salgado Maranhão
A COR DA PALAVRA
Rio de Janeiro: Imago; Fundação Biblioteca Nacional, 2009.  424 p
ISBN 978-85-312-1056-3


"Salgado Maranhão é um dos mais brilhantes poetas de sua geração e possui um trabalho de linguagem muito pessoal. "Sinergia" é a palavra que define sua poesia. Uma poesia de palavra, muito embora não ignore o real, pois o traduz em fonemas e aliterações. Que não hesita em ir além da lógica do discurso (ou do enlace com o plausível) se o resultado é o impacto vocabular e o inusitado da fala." 
FERREIRA GULLAR

DELÍRICA III


Há um rasgo de arco-íris
entre meu cais
                   e a tua íris,
uma voragem de lâminas
e cetins.

Tramas tua química de azuis
em dorso esplêndido
rosnas a febre líquida
a inundar teus lábios ocultos.

O instinto fez-se mar revolto
e as convulsões de sangue e cio
acordam cavalos em teu haras.

Urge que o fogo avance os limites
urge que o tempo em temporal
desate a trama das águas.


DESAMANHECER

          Para Andréia Paola

Agora,
na cidade da tua ausência
outro dia
              desamanhece. E súplice

um grito escorre na paisagem.

Todos os lugares
são feitos do teu antes.

Da janela,
a noite chega
com as mãos vazias. E
tudo ao fim se esvai
em volta
como um tecido de ventos.

Só meu coração insiste
em erigir teu nome...

para além do esquecimento.

 

X. NADIRES

A sanha que aquece a raiz dos úmeros
enseja ao coração um disparate,
ao desvelar o que é de flor em fero,
ao se tornar fiel ao que lhe mate.
 São forças que nos raptam a um sem número
de vezes e vieses e desates,
felizes perdedores desse embate;
nem no sonho que enlaça nossa íris
nessa teia de nadas e nadires
em que tudo se rende ao mesmo jogo.
Vem da palavra a sagração dos ritos:
esta relíquia de silêncio e gritos.

 

 

 

PUNHOS DA SERPENTE

Rio de Janeiro: Achiamé, 1989

(seleção de poemas do livro)

 

 

                        LAMBIDAS

 

                   as orquídeas que você

                   guardou em  mim

                   viraram pasto de colibris,

viraram línguas enamoradas,

hospedaria de estrelas,

as lambidas que você deixou em mim,

marcaram mais que as dentadas,

beijinhos após o lanche

trepadas com chantilly.

o que há de grandioso

em tudo isso

é o que não se desgasta

com o tempo,

nem com a erosão da dor,

nem mesmo com o pulso aberto

em goles de tinta viva.

o que há de valioso

nisso tudo,

só se inflam e ferve

com a vida exposta

em plataformas de beleza e fogo,

com a boca triunfando em gargalhadas.

 

 

BROTO DE BAMBU

 

algum canto secreto me arrasta pra dentro de ti. viola

os meus direitos de pessoa física independente. logo

eu que nem quero o coração assim cavalo bravo, potro

remoendo as rédeas.  mas você nem fica aflita

e finta em mim na certeza de já ter

visto o fim do combate.  seu amor é coisa fina, é

cerâmica do Xingu, porcelana da China, broto de

bambu.  quanto aos seus olhos, são os da serpente

quando tem fome.

 

 

SENTENÇA

 

faz muito tempo que eu venho

nos currais deste comício,

dando mingau de farinha

pra mesma dor que me alinha

ao lamaçal do hospício.

e quem me cansa as canelas

é que me rouba a cadeira,

eu sou quem pula a traseira

e ainda paga a passagem,

eu sou um número ímpar

só pra sobrar na contagem.

 

por outro lado, em meu corpo,

há uma parte que insiste,

feito um caju que apodrece

mas a castanha resiste,

eu tenho os olhos na espreita

e os bolsos cheios de pedras,

eu sou quem não se conforma

com a sentença ou desfeita,

eu sou quem bagunça a norma,

eu sou quem morre e não deita.

 

 

OS COMPANHEIROS

 

deixa eu fazer um parêntese,

pode alguém querer

tomar um cafezinho

enquanto eu conto uma piada:

 

falaram que os companheiros

comiam do mesmo grude,

lambiam a caçarola

cheirando o sexo de esmola,

tremiam no mesmo frio

da mesma noite assassina,

gemiam no mesmo açoite

da mesma nau da chacina,

falaram que um companheiro

esfaqueou o amigo do peito

e foi lavar as mãos

no botequim da esquina.

mas não vamos entrar em detalhes

de crimes passionais,

eu cá por dentro de mim

já trago uma dor tão grande

que nem cabe nos jornais,

e tenho plena certeza

que na casa dos amigos

os fuzis após o lanche

esperam a hora do arroto.

 

 

 

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HISTORINHAS DO BRASIL PARA PRINCIPIANTES

chegaram de canhões e caravelas chamando tupis de índios.
no primeiro dia brindaram ao redor  da cruz, não conheciam
a terra, mas já eram donos. Mais tarde voltaram procurando
pedras, abrindo ruas,  fundaram as capitanias das sífilis hereditárias.

 

DESLIMETES 10
(táxi blues)

eu sou o que mataram
e não morreu,
o que dança sobre os cactos
e a pedra bruta
         — eu sou a luta.

O que há sido entregue aos urubus,
e de blues
         em
         blues
endominga as quartas-feiras
         — eu sou a luz
sob a sujeira.

(noite que adentra a noite e encerra
os séculos,
farrapos das minhas etnias,
artérias inundadas de arquétipos)

eu sou ferro, eu sou a forra.

E fogo milenar desta caldeira
elevo meu imenso pau de ébano
obelisco às estrelas.

eh tempo em deslimite e desenlace!
eh tempo de látex e onipotência!

leito de terra negra
sob a água branca,
seu a lança
a arca do destino sobre os búzios.

e de blues a urublues
ouça a moenda
dos novos senhores de escravos
com suas fezes de ouro
com seus corações de escarro.

eh tempo em deslimite e desenlace!
eh tempo de látex e onipotência!

eu sou a luz em seu rito de sombras
— esse intocável brilho

          ---------------------------------------------------------------------------

De

SOL SANGÜÍNEO

Rio de Janeiro: Imago, 2002
14x21 cm ISBN 85-312-0828-9

“ Orelha” do livro: Adriano Espínola.
“ Salgado Maranhão Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

Numa dicção arraigadamente pessoal, Salgado Maranhão, em Sol Sangüíneo, atinge o (até agora) ponto máximo de sua obra, num conjunto coeso de poemas, em que a inteligência especulativa e a celebração da corporalidade do mundo se expressam com grande rigor metafórico”.  ANTONIO CARLOS SECCHIN

 

 

DO ARBÍTRIO

 

Das estrias que a mão

esculpe

         só o que brilha

sobrevive.

 

Nômade a manhã

despe o sol

                   à flor

da carne,

 

         múltipla,

à vertigem da linguagem.

 

Não há comportas

nem caminhos

 

não há saaras

nem vienas

 

em tudo há rinhas

e arestas

de flores

         e esquifes.

 

Em tudo entalha-se

ao revés

         coisas que se mostram

e não se dão,

 

que só no verso vêem-se,

no peeling pelo avesso.

 

(Delitos que em seu exílio

transbordam de rubro

                            a lira

resenham através do júbilo,

rasuram através da ira.)

 

Sopra revanche de ritmos

no íntimo viés do não dito,

 

sopra o arbítrio dos dias.

 

 

DO RAIO

 

Nem o acre sabor das uvas

nos aplaca.  Nem a chuva

 

nos olhos incendiados

devolve o que é vivido.

 

O magma que nos evapora

tange o rascunho das horas

 

sob um raio de suspense.

Nem o que é nosso nos pertence.

 

 

PERSONA

 

(...) e o que de nós transmigra

para o que não é palavra

e forma,

o que é informe

e ter sido

sob o solstício e o vento

sem legenda.

E no entanto lume

no verbo encarnado

sob a cesura que se esgarça

ao indefinível.

E no entanto é nome,

persona,

hologramas no vácuo

que são sem o Ser.

 

 

MARANHÃO, SalgadoA pelagem da tigra.  Rio de Janeiro: Booklink, 2009.  80 p.    13x20,5 cm..  Desenho da capa: Franzx Mare. “Orelha” escrita por Astrid Cabral. 

 

 

Pré-logos

 

O amor editou suas garras

em meu delírio:

                       móbile/

                                  meteoro

a blefar

seu fogo rasante.

 

De algum rugir indomável

(submerso como o pulsar

das pedras) sinto

 

o vórtice

do seu brilho

                    na jugular.

 

Por isso grito

para que as palavras

me reconheçam.

 

Assombros, raios, névoa,

alastram-me

         esta ambígua paisagem

         dos olhos.

 

Tudo que rege

a grafia sísmica presente

no que dista

ou impalpável

como o esquecimento.

 

 

II.

 

Trata-se de fogo

indiferente

          à combustão: caldeira

que se nutre

do que percute.

 

Um carpir rente ao nada,

um certo aqui/

alhures.

 

Ante o silêncio

          que espreita

e a febre

que desacata os limites;

um reino se declara.

 

E o que busca

esse deus-erê

ao revés do que exorta, ó raio

que se desgarra

a sujar de luz a vida?



Outros poemas de Salgado Maranhão podem ser lidos em:

http://www.google.com.br/search?q=%22Salgado+Maranh%C3%A3o%22&hl=pt-BR&start=0&sa=N  

 

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS  -  TEXTOS EN ESPAÑOL

 

 

ANTOLOGÍA DE POESÍA BRASILEÑA, edición de Jaime B. Rosa. Organización Floriano Martins y José Geraldo Neres.  Muestra gráfica y portada Hélio Rôla. Edición bilingüe  Português - Español.   Valencia, España: Huerga & Fierro editores, 2006.  247 p   13,5x21,5 cm.   Poetas: Lucila Nogueira, Glauco Mattoso, Adriano Espínola, Beth Brait Alvim, Contador Borges, Donizete Galvão, Floriano Martins, Nicolas Behr, Jorge Lúcio de Campos, Vera Lúcia de Oliveira, Rubens Zárate, Ademir Demarchi, Ademir Assunção, Leontino Filho, Marco Lucchesi, Weydson Barros Leal, António Moura, Maria Esther Maciel, Rodrigo Garcia Lopes, José Geraldo Neres, Viviane de Santana Paulo, Alberto Pucheu, Fabrício Carpinejar, Salgado Maranhão, Sérgio Cohn, Rodrigo Petronio, Konrad Zeller, Pedro Cesarino, Mariana lanelli. Traductores: Adalberto Arrunátegui, Alfonso Pena, Aníbal Cristobo, António Alfeca, Benjamin Valdivia, Carlos Osório, Eduardo Langagne, Floriano Martins, Gladis Basagoitia Dazza, Luciana di Leone, Margarito Cuéllar, Marta Spagnuolo, Paulo Octaviano Terra, Reynaldo Jiménez e Tomás Saraví. Ex. bibl. Antonio Miranda. 

 

 

DAS COISAS

 

As coisas órfãs de luz

assaltam nossos azuis

 

dispersos. As peças vivas

- lavas de sombra à deriva -

 

zoam na humana paisagem

rente à linha de montagem

 

do desejo. (Ou cintilando

que o poder das coisas lança?)

 

Tralha que nos cerra os cílios,

vida, loja de utensílios,

 

víveres. Onde outros rumos

aos que no tecido ousem

 

roer o fio de prumo

dos que de coisas se cosem?

 

 

DE LAS COSAS

 

Las cosas huérfanas de luz

asaltan nuestros azules

 

dispersos. Las piezas vivas

—lavas de sombra a la deriva—

 

zumbanen el humano paisaje

junto a la cadena de montaje

 

del deseo. (¿O centellear

que el— poder de las cosas lanza?)

 

malla que nos cierra las pestañas,

vida, tienda de utensílios,

 

víveres. ¿Dónde otros rumbos

a los que en el tejido osen

 

roer el hilo de plomo,

de los que de cosas se cosen?

 

                    [Trad. António Alfeca]

 

 

FERO

 

Tento esculpir a litania

dos pássaros

e as palavras mordem

a inocência. Aferram-se

ao que é de pedra

e perda.

 

(Canto ao coração e tudo é víscera,

como na savana.)

 

Restolhos de espera

e crimes;

insights de insânia

e súplica; volúpias insolúveis

acossam-me a página

em branco       

qual bandido bárbaro

ou mar revolto

a rasgar a calha

do poema.

 

Nada me resgata.

Não sei se sou quem morre

ou quem mata.

 

 

 

FEROZ

 

Intento esculpir la letanía

de los pájaros

y las palabras muerden

la inocencia. Se aferran

a Io que es de piedra

y perdida.

 

(Canto al corazón y todo es víscera

como en la sabana.)

 

 

Rastrojos de espera

y crímenes;

ínsights de locura

y súplica; voluptuosidades insolubles

me acosan en la página

en blanco

como bandido bárbaro

o mar revuelto

para romper el canal
del poema.

Nada me rescata.

No sé si soy quien muere

o quien mata.

 

 

O AÇOUGUE NUTRIZ

 

Dancei num matadouro, como se o sangue de todos

os animais que à minha volta pendiam

degolados fosse o meu.

                                                 Luiz MIGUEL NAVA

 

Assisto aos bois dependurados nos varais.

Assisto à solidão vermelha (aos pedaços) na

vitrine. O berro que (ainda!) respinga na pedra

lisa. E o espectro de anjos tatuados de sevícias.

Alastra-se a gula transeunte ante o rumor da

oficina de sangue nutriz. Esse sangue que em

nada se nos apieda (ou o instante em que a

faca sublima nossa porção coiote), recende em

nós as fibras da podridão impávida. Como se,

no íntimo, o açougue se despisse a esgarçar os

autos, por onde esguicha nossa santidade.

 

 

EL TAJO NUTRICIO

 

Bailé en un matadero, cual sí la sangre de todos

los animales que a mi regreso pendían

degollados fuese la mía.

 

Luiz MIGUEL NAVA

 

Asisto a los bueyes colgados en las varillas.

Asisto a la soledad bermeja (a los retazos) en la

vitrina. El berreo que (¡aún!) respinga en la piedra

lisa. Y el espectro de ángeles tatuados de sevicias.

Arrástrase la gula transeúnte ante el rumor de la

oficina de sangre nutricia. Esa sangre que en

nada se apiada de nosotros (o el instante en que la

cuchilla sublima nuestra parte coyote), aroma en

nosotros las fibras de la podredumbre impávida. Como si,

en lo íntimo, el matadero se evidenciara al tajar los

conductos, por donde chorrea nuestra santidad.

 

 

 

 

 

 

Página publicada em fevereiro de 2008

Ampliada e republicada em março de 2008
Ampliada e republicada em julho de 2010

 

Metadados: Poesia Negra; Negro na Poesia; Poesia social

 


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