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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 


 

MARANHÃO SOBRINHO

 

(1879-1915)

 

 

Fundador com Antonio Lobo, I. Xavier de Carvalho e Corrêa de Araújo, entre outros, do movimento de renovação literária denominado Os Novos Atenienses, que em fins do século XIX e início do século XX sacudiu o meio intelectual de São Luís com idéias e conceitos vanguardistas, Maranhão Sobrinho foi o mais singular poeta de sua geração.

Boêmio, por vezes até mesmo desbragadamente ébrio, José Américo Augusto Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho* nasceu em Barra do Corda, interior do Estado, em 25 de dezembro de 1879, e morreu ainda jovem, em Manaus, no mesmo dia em que completava 36 anos. Nesse breve espaço de tempo, encarnou como poucos a figura trágica do poeta dominado por suas angústias existenciais - viveu rápido e intensamente: suas dores, reais ou imaginadas, lançaram-no na sôfrega busca pelo prazer e no caminho da autodestruição.

Mas se ele era essa espécie de romântico trágico na vida pessoal, sua poesia está em outro patamar. Simbolista ortodoxo, foi um visionário capaz de construir imagens perturbadoras em versos admiravelmente bem urdidos, sensualmente mórbidos, onde por trás de cada palavra flutua, não muito distante, a imensa sombra de um amargo pessimismo com o mundo e com as pessoas.

Sem dispor de recursos financeiros, publicou seus trabalhos com grande dificuldade. Foram ao todo três livros editados de modo bastante precário, com circulação restrita à província. Além disso, apenas colaborações esparsas, ainda que numerosas, em revistas e jornais de São Luís. Muito embora sua obra ainda não tenha sido objeto de um estudo mais aprofundado, a crítica nela destaca uma bem assimilada influência de Baudelaire e Verlaine, considerando-o ao mesmo tempo um dos luminares do movimento simbolista no Brasil - quase no mesmo nível ocupado por Cruz e Souza e Alfonsus Guimaraes, expoentes máximos da escola.

De qualquer sorte, coube a Maranhão Sobrinho ser um poeta representativo do período de transição da literatura maranhense - teve o talento amplamente reconhecido, tanto pelo público quanto por seus pares, foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras, mas sofreu estilisticamente na difícil tarefa de buscar uma síntese convincente entre o Romantismo ainda em voga, o Parnasianismo e o Simbolismo. Reflexos dessa luta estéril são visíveis em seus poemas. Houvesse vivido mais alguns anos, talvez sua obra conseguisse escapar dessa

armadilha literária, atingindo novas e inesperadas dimensões.

Ainda assim, figura em destaque no Panteon dos poetas maranhenses de todos os tempos.

 

 

Faleceu em Manaus, em 25-12-1882. Patrono da cadeira no. 7, da Academia Amazonense de Letras,.

 

*NR - ou apenas de Albuquerque, como preferem outros biógrafos.

Fonte: www.patrimonioslz.com.br

 

Obra poética: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908);Estatuetas (1909); Vitórias-Régias (1911).

 

 

                   SOROR TERESA

 

                   ... E um dia as monjas foram dar com ela

                   morta, da cor de um sonho de noivado,

                   no silêncio cristão da estreita cela,

                   lábios nos lábios de um Crucificado...

 

                   somente a luz de uma piedosa vela

                   ungia, como um óleo derramado,

                   o aposento tristíssimo de aquela

                   que morrera num sonho, sem pecado...

 

                   Todo o mosteiro encheu-se de tristeza,

                   e ninguém soube de que dor escrava

                   morrera a divinal soror Teresa...

 

                   Não creio que, de amor, a morte venha,

                   mas, sei que a vida da soror boiava

                   dentro dos olhos do Senhor da Penha...

 

                                               Papéis Velhos... Roídos  pela Traça do Símbolo, 1908

 

 

TELA DO NORTE

 

                   No estirão, percutindo os chifres, a boiada

                   monótona desliza; ondulando, a poeira,

                   em fulvas espirais, cobre toda a chapada

                   em cujos poentes o sol põe uns tons de fogueira.

 

                   Baba de sede e muge a leva; triturada

                   sob as patas dos bois a relva toda cheira! 

                   Boiando, corta o ar a mórbida toada

                   do guia que, de pé, palmilha à cabeceira...

 

                   Nos flancos da boiada, aos recurvos galões

                   as éguas, vão tocando a reses fugitivas

                   o vaqueiros, com o sol nas pontas dos ferrões...

 

                   E, do gado o tropel, com as asas derreadas

                   quase riscando o chão, que o sol calcina, esquivas,

                   arrancam coleando as emas assustadas...

 

                                        Estatuetas, 1909

 

 

MÁRTIR

 

Das cinco chagas de pesar, que exangue,

Trago no triste coração magoado,

Descem rosários de rubi de sangue

Como do corpo do Crucificado...

 

Pende-me a fronte sobre o peito, langue,

De infinitas Traições alanceado...

E, na noite da Mágoa, expiro exangue

Na Cruz de Pedra da Paixão pregado...

 

Subi, de joelhos, expirando, o adusto

Desfiladeiro enorme do Calvário...

Sob o madeiro da Saudade, a custo!

 

Sem consumar meus sonhos adorados,

Oiço, no meio do Martírio vário,

O chocalhar sacrílego dos Dados...

 

 

INTERLUNAR

                                                                 

Entre nuvens cruéis de púrpura e gerânio,

rubro como, de sangue, um hoplita messênio

o sol, vencido, desce o planalto de urânio

do ocaso, na mudez de um recolhido essênio...

 

Veloz como um corcel, voando num mito hircânio,

tremente, esvai-se a luz no leve oxigênio

da tarde, que me evoca os olhos de Estefânio

Mallarmé, sob a unção da tristeza e do gênio!

 

O ônix das sombras cresce ao trágico declínio

do dia que, a lembrar piratas do mar Jônio,

põe, no ocaso, clarões vermelhos de assassínio...

 

Vem a noite e, lembrando os Montes do Infortúnio,

vara o estranho solar da Morte e do Demônio

Com as torres medievais as sombra do Interlúnio...

 

 

 

RAMOS, Clovis. Minha terra tem palmeiras... (Trovadores maranhenses) Estudo e antologia. Rio de Janeiro: Editora Pongetti, 1970.71 p. Ex. bibl. Antonio MirandA

 

 

Prega, prega, carpinteiro
as tábuas do meu caixão!
Pac... Pac... abre coveiro
a minha cova no chão !

 

Cosei, cosei, mãos piedosas
a minha branca mortalha!
Almas, cobri-me de rosas
a cova que dor me valha!

 

Braços, braços do cruzeiro
velai meu pálido Outono!
Mãos piedosas de sineiro
nos sinos cantai meu sono!

 

Andorinhas, andorinhas
cantai-me um triste saltário!
Rezai por mim criancinhas
às cruzes do cemitério!

 

Primaveras azuis, de oiro
enchei de luz minha cova!
Deus! eu quero um anjo loiro
que me leve à Vida-Nova!

 

 

 

MELLO, Anisio.  Lira amazônica - Antologia. Vol. I       São Paulo: Edição Correio do Norte, 1970.   286 p.    Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

 

C R O M O

 

Alegre como o sol, entre lianas
em Flôr, do rio a se embeber na linha,
do verde para-sol das igaranas
debaixo, ri-se a nítida casinha. . .

 

De um lado, no canteiro, que maganas
rosas de sangue! A tarde se avizinha
e não lhes ganha a cor!  Como as japanas
enrediças rescendem de tardinha!

 

Do lado do poente, que se perde,
a roça, à terra fresca transcalando,
estende do arrozal o manto verde. . .

 

Enquanto, à beira dágua azul e de ouro,
há roupas brancas, em estendal, manchando
O verde de cetim do coradouro. . .

 

 

 

M A T I N A L

 

Manhã de sol.   A verde ramaria
palpita de asas, como a luz, douradas
(assim tuas tranças são também, Maria),
e há papoulas abertas nas estradas. . .

 

Ao ver-nos braço a braço, que ironia
chove das verdes frondes enfeitadas!
"Bonito!" diz bem-te-vi.   "Bom dia!"
os pintassilgos cantam. Que risadas!

 

Se os olhos para o azul levanto. — "Aquele
é poeta!" escuto.   "Como está radiante"!
dizem contigo os sabiás.   "Ai dele!"

 

E têm razão os sabiás, Maria!

porque no mundo não há mulher constante,

e tu podes me esquecer um dia. . .

 

 

 

T  E R R A    D O    C  O  R A Ç Ã O

 

De pé, fitando o espaço azul, fitando
as nuvens sobre a nua penedia,
que o mar desbasta, furioso ou brando,
sinto, n'alma, uma doce nostalgia. . .

 

E, vendo as asas se embebendo, em bando,
na luz do ocaso, onde adormece o dia,
de outras asas num céu mais outro e
vêm-se saudades e uma dôr sombria. . .

 

E, enquanto o mar — o desolado monge —

soluça as suas orações piedosas,

minha vai, em flôr, para bem longe. . .

 

Desabrochando, à dor, que lhe dá asas,

ouvir gemer as rôlas suspirosas

da minha aldeia no beiral das casas. . .

 

 

 

C O R A Ç Õ E S

 

Ó corações que, ao sol, pelas estradas,

passais, a rir, felizes e serenos!

nos lábios abafai vossas risadas,

ou, em respeito aos outros, ride menos. . .

 

Mal sabeis que a alegria, de doiradas
asas, dura um momento com seus trenos,
vivendo a vida azul das alvoradas
nos espaços de luz e aromas plenos. . .

 

        O que nesta manhã, é luz e aquece
        e acorda do seu sono a alma sombria,
        à tarde como as cinzas arrefece. . .

 

        Que é condição da eterna natureza,
        por uma simples hora de alegria,
        cobrar anos perdidos de tristeza. . .

 

 

 

       S A U D A D E

 

Saudade.   O sol a se esconder.   O gado
descendo a serra longe entre mugidos
tristes.   A voz do córrego anilado
enchendo a tarde branca de gemidos.

 

Saudade!   Eu pequenino.   O olhar sagrado
de minha irmã contando a meus ouvidos
a história de algum Rei Mouro encantado
à voz das rolas dos sertões perdidos. . .

 

O velho alpendre à mansa claridade
do luar como em sonhos, despontando
entre as saudosas árvores. Saudade.

 

A mãe da lua as queixas desfiando
a minha mãe branquinha de piedade,
diante do altar do Bom Jesus rezando. . .

 

 

 

P?gina publicada em outubro de 2019; página ampliada em novembro de 2020

 

 


 

 

 
 
 
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