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ALEX BRASIL

 

O poeta, publicitário e membro da Academia Maranhense de Letras, é autor de duas dezenas de livros de poesia, contos, etc.

 

 

Ci "Fi "Lização

 

A igreja está morta,

e os vermes se multiplicam sobre seu cadáver.

Deus está sendo cuspido no Oriente Médio,

na Índia, no Irã,

na boca do Papa,

nas Américas humilhadas por caciques de quepe e fuzil.

Está surgindo uma nova era de gerações sem causa,

sem destino,

acorrentadas e tangidas

por capitalistas tiranos;

por falsos profetas...

Está surgindo a era

em que morrerão as baleias e os humanos,

e serão poucos, muito poucos o verde e os poetas.

 

 

(Idade do Ouro Negro,1980)

 

 

 

Boiada

 

Por que ficamos calados

Passivos

Submissos,

cabisbaixos,

fingindo que amanhã vai melhorar?

Acreditando nas estatísticas furadas,

nos iludindo com discursos mentirosos

com propagandas inventadas? –

Eu, "porque não quero a violência",

assim digo, mentindo a mim mesmo,

porque meus motivos são outros,

que escondo a todo preço.

Você "porque o sangue não compensa",

assim, diz, sujando a consciência em segredo,

pois seu verdadeiro motivo é o medo...

Os nordestinos, porque culpam a chuva,

onde depositam todas suas esperanças,

dizem, enquanto escondem os rostos

em procissão, enterrando suas crianças.

Do Oiapoque ao Chuí,

cada brasileiro tem sua desculpa

para suportar a podridão

em que a pátria se afoga.

Fingimos que há uma bandeira,

uma causa,

que nos une na inanição,

no martírio,

na dor,

na humilhação

na vergonha,

no pavor...

E, como boiadas nordestinadas,

nos deixamos tanger,

chicoteados por tiranos

nos levando a lugar nenhum,

nos alimentando de enganos,

enquanto definhamos, morrendo um a um...

............................................

(Inferno Verde,1983)

 

 

ogrito silencioso

 

Há uma agonia na sombra do poder.

Há uma sombra querendo gritar sem poder.

Existe um submundo,

uma subvida,

um extrato do extrato-viver

na sombra do poder.

São rostos assustados,

corpos alquebrados,

mentes tímidas com medo dos próprios passos

sem caminhos próprios a trilhar.

Passamos por eles e não vemos.

Se nos falam, esquecemos.

Se gritam, não ouvimos.

Estão sempre em busca da luz,

mas nunca alcançam o sol.

Eles são apenas uma massa disforme,

uma mancha além dos nossos muros,

algo inaudível, brumoso;

aquilo que chamamos povo,

que apenas sofre, sofre e sofre

e não ouvimos o seu grito silencioso.

 

(Brasil, Não Chore Mais, 1985)

 


Razões do Coração

Meu coração de Adão,
caído diante da serpente.
Meu coração de rei Davi,
por Bate-Seba batendo cegamente,
surrealista como o de Salvador Dali.
Meu coração de Orfeu,
no inferno por Eurídice.
Meu coração de Prometeu,
irmão dos fracos, maldito filho de Zeus.
Meu coração de Camille Claudel,
morrendo enlouquecido de amor
na mesma dor de Julieta e Romeu.
Meu coração de Madame Bovary,
amante, sem juízo,
selvagem como o de Peri,
egoísta como o de Narciso...
Ah, esse coração sem razão,
cheio de suas razões,
suicida feito zangão,
escravo de todas as tentações.
Ah, esse coração de Dom Quixote,
desvairado e insensato,
que vive na morte, que justifica todos os atos...
Ah, aonde me levas, coração –

Esteta

Escrevo com fúria:
pedem moderação.
Escrevo sem mesura:
pedem contenção.
Escrevo alucinadamente,
rimando desmetrificadamente uma curva
com uma reta,
o caos da chuva
com a retidão da seta
o zero com o infinito,
o silêncio com o grito...
E me repreende o esteta,
que mais é menos
na arte do poético,
que o grande é pequeno
na lucidez do simétrico.
Enquanto isso a vida berra,
a ferida sangra,
o mundo é uma guerra
girando em corda-bamba;
o coração é um paradoxo,
em louca arritmia,
e o mundo não tem nexo,
assim como a minha poesia.
(p.57)

Computador

As cidades estão no computador:
a praça central,
a igreja e a Bíblia,
a delegacia,
o hospital,
o supermercado,
o jornal ...
Estão no computador:
a mulher dos nossos sonhos,
o imposto de renda,
a informação,
a arte,
as bibliotecas,
os museus,
a ciência
a guerra e a paz,
as estrelas e o átomo...
O mundo, enfim,
está no computador.
e o homem, feito de coração e dor
aquele que não se pode processar,
fora do computador,
onde conjugará o verbo amar? (p. 59)


Labirinto

...................................................
E assim, não sei se vivo
ou se adormeço,
se me acho ou se me perco,
se me completo ou se me parto
em tantos outros pedaços:
quando em ti me procuro, sinto,
que, quanto mais te acho,
mais me faço labirinto. (p. 41)

Lucidez

Não consigo ver o mundo
através do ópio
ou de qualquer vício.
Não sou passageiro da ilusão
ou de qualquer artifício.
Não consigo fugir na insensatez,
nas miragens, falsas felicidades,
em qualquer embriaguez
que me proteja da realidade.
Todas as fugas,
embora quisesse,
eu nem tentei,
de tão preso que estou
às garras do real absoluto,
feito de vermes e dentes, devorando flores;
de vida e morte em eterna luta
sobre a face do mundo.
Minha sensibilidade
em carne viva
em nervos expostos,
em neurônios ardentes
não repousa na quimera,
nas utopias, filosofias ou religiões.
Deus me fez poeta da antítese,
da vida fogo-e-gelo, sem igualdade;
fez-me prisioneiro das paixões
que não cabem no computador,
a retina fixa na realidade
em eterna ebulição de ódio e amor,
os olhos em torturante fixidez
a ver o mundo em noite e clarão
esvaindo-me o coração
na mais terrível, inescapável lucidez.
(pp. 49 e 51)

Homem-aranha

A aranha
faz a sua teia
e nela não se emaranha.
O homem,
na teia que faz,
na vida que tece
em tantos caminhos que traça,
de si mesmo esquece,
em si mesmo se embaraça.
Que coisa estranha:
embora sendo instinto
não se perde a aranha
no seu labirinto,
e o homem, tão racional,
nos caminhos que sonha
torna-se em si presa fatal:
nos próprios sonhos se emaranha
(p.53)


Margens de São Luís

 

Em tuas margens

há uma flora

que mais se multiplica

quando uma criança chora

pedindo outra palafita

que a morte não demora

para almas raquíticas

com sarampo e catapora.

Cresce em tua periferia

uma cancerígena miséria

antipoesia, anti-humana,

por entre o mangue, por sobre a lama.

Floresce em tuas margens

homens desvalidos,

infâncias sem pastagens,

úteros poluídos...

E mesmo assim, São Luís,

o menino vadio, no olho da rua,

teima em ser feliz diante da realidade crua,

que o condena à própria sorte –

esfomeado de vida

só engole a morte nas tuas margens, São Luís,

cemitério de crianças apodrecidas.

(Meninos de São Luís/1992)

 

 

Página preparada por Zenilton de Jesus Gayoso Miranda. Alguns textos do poeta foram extraídos de matéria publicada no Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante. Página publicada em outubro de 2008.




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