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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POESIA GOIANA
Coordenação de SALOMÃO SOUSA

 

GERALDO DIAS DA CRUZ


Nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, a 3 de maio de 1929.  Reside em Goiânia, Goiás. Poeta, administrador de empresas de formação. Autor de vários livros de poesia.

 

CRUZ, Geraldo Dias daOs horizontes abertos.  São Paulo: Scortecci, 2018.   199 p.  ISBN 978-85-366-5486-7   Ex.bibl. Antonio Miranda

 

         CANTO PLENO

I

O canto pleno vai além, muito além das veredas do jardim,
encontra a manhã aberta, e o campo com suas flores,
sorrindo, acorda o vento que leva o meu pensamento
para a tremenda claridade do dia.

Levanto-me, e só agora descubro que caminho rumo ao horizonte,

de onde espero encontrar uma fragrância rubra

escondida no interior de uma flor que desponta

e ninguém sabe onde ela se encontra.

Tudo bem, ergo os olhos para o céu, cantando

com o coração na mão até desaparecer

por trás das árvores que brilham no escuro.

Seus ramos de ouro se espalham como sombras.

Sentado ao fundo duma sombra, deito-me na relva,

sempre verde, e acendo a estrela do meu sonho.

 

II

Nem tudo se acha perdido. Eu vim ao mundo para escutar
o canto dos pássaros, e o meu coração fica em chama.
As horas de espera queimam e os dedos ficam enlouquecidos
depois que carrego o meu corpo para fora do sonho.
E tudo que sai da minha boca encanta, e fica cantando,
colhendo flores da inocência no jardim da minha vida —
doce canto, doce porque não faz mal a ninguém.
Esqueço os desejos na tarde iluminada que anda coberta
de imagens, de sons, de palavras e de memórias.
As alegrias alimentam os meus sentidos, e a luz na boca
faz raiar o canto, que fica rodeado de passos alucinados
pelas pedras que iluminam os caminhos,

caminhos que fazem o tempo, e eu não conheço nenhum igual.
Meus olhos brilham, e a minha boca fala em música,
e nos sopros das alvoradas eles são inspirados
e vestem o meu coração com a beleza intangível.

 

III

                Cada visão, cada lembrança do rio que corre,

com dois barcos puxando redes cheias de peixes,

inundados de luz, radiando luz.

Assim, ao anoitecer eu inclino a minha cabeça,

fico pensando, mas não falo.

Afundo-me num mar de segredos e soluço,

estou me preparando para sofrer,

alguma coisa se põe a sangrar dentro de mim.

Procuro a minha infância e não a vejo,

as lágrimas rolam em meu rosto e não encontro consolo.

A luz é triste, e nas folhas mortas eu vou pisando,

e a saudade só vive me enganando.

Deixo o meu olhar em silêncio, quero uma alma tão clara

como a luz do sol que clareia as minhas palavras.

Eu sei que a noite chega, muda e calma,

o canto fica a arder dentro de mim e a andar no ar,

e o amor, em meu ser, como um jardim floresce

e me leva a juntar as mãos, levantar os olhos,

ante os aromas se multiplicando e o rumor das gotas de orvalho.

As árvores, os pássaros, todos estão dormindo,

e o meu coração não dorme, só sonha e canta.

 

IV

O sol de verão me revela o mistério do esplendor,

seu rosto brilha e é da cor de ouro.

Belo em harmonia, ele é como o mel em brasa.

Tudo que existe perto dele em fogo se inflama,

e as palavras do canto ficam iluminadas;

elas, cheias de amor, acendem as flores dos jardins.

O sol olha a minha sombra e me ensina que a vida é bela.

Meu espírito pensa e meu coração canta

enquanto o tempo derrama eternidade.

Falo de pedras que crepitam, de águas que brilham,

vou falando, pensando e interrogando.

Desejo ver de perto o sol comendo todas as imagens,

todo o sal, todas as sombras e toda a neve.

Deixo o meu ser rolar nas nuvens do céu,

com meu coração olhando as vagas solidões... 

 

V
Agora tudo é som, tudo é beleza, olhos serenos
e eterno semblante, calmo e nobre,
Aqui só escuto o canto de alumbramento
de manhã, de sol e de jardim de afeições,
Minha cabeça é uma árvore brilhante
que produz ramos e folhagens radiosos.
Tenho um bosque cheio de cantos
que iluminam meu ser como mãos que se abrem
no espelho da minha memória,
Suave loucura, alguém canta ao meu ouvido
um canto tão puro como uma flor viçosa,
que abre a porta da ternura e do desejo,
mas, de vez em quando, compõe sua canção na paisagem,
Fico com os olhos escancarados para a vida
e deixo o canto florir num mundo de aromas e de orvalho.


CRUZ, Geraldo Dias daFontes do vento.  São Paulo: Scortecci, 2017. 15x22 cm.   ISBN           978-85-366-5068-5   Ex. bibl. Antonio Miranda

 

        PLENO DE ALEGRIA

        VI

        As palavras acenam ao vento.
        Suas hastes são finas e verdes,
        as árvores que eu vejo dão frutos
        e pássaros que abrem as asas
        cantam nas alturas ao fim do dia
        e pousam como as folhas na terra.

        O tempo é outro tempo de recordar.
        Estou viajando nesse rio longo
        onde as águas correm e brilham.
        Eu me comovo, vejo aqui o meu barco,
        que olha o tempo e envelhece,
        mas continua voando e sonhando.

 

        VIII

        O caminho me convida a ouvir o vento.
        Nele descubro pedras em lamento
        e uma ilusão que aprisiona as sombras.
        Venho da vida e trago um canto
        com asas e luz que desfilam nos olhos
        e sobre a imensidão do meu rosto.

        E assim caminho com a leveza da lira
        entre os meus dedos a brilhar.
        Sou todo este ser que finalmente
        de mim mesmo se encanta, só sei
        agora é olhar o rio de minha infância,
        ao longe um barco me esperando.

 

        SOLITÁRIO

        I

        E calo
        porque calado
        é estar comigo,
        é ser o que sou:
        eu em mim
         preso a uma dor
        e as lágrimas
        correndo na face.

        Gestos longes...
        Que desconforto
        ficar assim
        com o pensamento
        tão morto,
        longe do sono,
        muito longe
        de tudo.

       

        V

        A luz em vertigem anda perdida.
        — Ai das flores no ar da manhã
        ofuscando os meus olhos! —
        Folhas secas em silêncio caem
        sobre os caminhos em noites de luar.
        Eu sei que da morte nunca me privarei.

        A vida acaba e os sonhos também.
        Quantas vezes terei falado
        que tudo nasce, vive e morre,
        e eu sozinho aqui à noite, sem sono,
        pensando que na vida estou tão só
        e na morte ficarei ainda mais só.

 

CRUZ, Geraldo Dias da.   Os cavalos e outros poemas.  São Paulo: Scortecci, 2016.  110 p.   ISBN 978-85-366-4539-1 

 

III

Armadas das franjas

que urdem a fúria,

                              o cio,

na hora da luta.

Cantos, murmúrio, risos,

entre as flores e a bruma.

O rio solitário

contorna as montanhas azul

cavalos sabem da luz,
das garras como espinhos.

 

Os gritos, os brados,
caem sob os olhos.
No vazio indecifrável
os cavalos ardem
com o arrepio de horror,
com os punhais de ouro
e a carne despedaçada.

 

 

X

 

Alados cavalos
a caminho das águas
nas pradarias;
mais armadas
em gáudio franzem,
com rugir de sedas,
torrente branda,
perdidas miragens.

 

 

Os cavalos,

abrindo os olhos para:

o dia e a noite,

a água e o fogo,

a lua e o sol,

a vida e a morte.

Os sons comovem tanto

que o sol queima com seu fogo derradeiro

as narinas, as orelhas,

e os olhos que ficam cegos.

 

 

XI 

 

Cavalos aureolados dormem,
luz mortiça sobre a relva.
O mar, as ondas ferem as pedras
e se atiram aos barcos errantes.
Os montes, os vales, as planícies,
ancas, espadas, espumas.

 

O fogoso cavalo,
quando sacudiremos

                                 a glória?
Nas linhas do horizonte,
há um aroma da noite

                                   vadiando.

 

— Hipocampo! —

Asas que iluminam a enseada.

 

De
Geraldo Dias da Cruz
PROCLAMA AOS INCAUTOS
Capa e ilustrações de Fernando Thomenn da Silva. 
São Paulo: Editora do Escritor, 1981.  69 p.  ilus. col. 
(Coleção do Poeta, Volume 26) 
“Menção honrosa no “Concurso Bolsa Hugo Ramos de Carvalho”
– 1979 Goiânia – Goiás.   Autografado.  Col. A.M. (EA)

 


AGUA DOCE

 

Onde o rio se oculta

dos algoritmos mais frios,

não é fábula, o seu riso,

nem as flores que o seduzem,

pendentes dos galhos arfantes.

Onde, por dar frutos aos peixes,
estas árvores ardilosas,

mantêm o rio cativo,    

veem-se frisos de escamas

na superfície do rio.

Onde se mostra indiferente,

escondendo o seu sorriso,

o rio está mais vivo,

no Jogo destes equívocos.

Há um cheiro, próprio ao desejo,

um inclinar de outros galhos,

sussurros que são de amantes,

onde o rio se esconde,

voltando-se sobre as curvas

ondulações de seu leito.

Onde o olho avaro,

que o quer preso em barragens,

deixa escapar esse rio,
a vida é um brinquedo,

de correr atrás das árvores.

Onde o rio sobe as águas,

lança-se além dos barrancos

procurando fêmeas ocultas,

as que não viram e desejam

conhecer o rio amante.

 

 

A PAREDE E O TEMPO

 

O barracão, pensei,

que fosse eterno.

Que, antes dele,

o tempo não contava,

quando, menino, olhei

dentro do mundo,

a vida, querendo ver,

como aos destinos.            

Ver o que me levaria

aos quatro pontos do horizonte,

como se fossem os quatro cantos do barraco,

o que partia

em tantos raios

a minha estrela,

que amarrava em forte nó

minha garganta.

Além do barracão,

pensei,

era o trabalho,

que às cinco da manhã

me flagelava,

que um resto ds almoço

me engulia,

outra vez me devolvendo,

ao fim da tarde.

Nestas horas mais frágeis,

acabando o dia,

quando o corpo, como o sol,

se recolhia,

ao barracão voltavam os nossos sonhos

o meu, o dela, dos manos, de Totonho.

 

 

 

 

CRUZ, Geraldo Dias da.  Armas do tempo.  Cuiabá: Edições UFMT, 1975.   s.p.  (Coleção: Poetas  do  Mato Grosso. Série: Hoje)   Editoração: Laboratório de Pesquiss Visuais. Efeitos gráficos: Wlademir Dias Pino.  Col. A.M.


 

 

CRUZ, Geraldo Dias da.  Olhos, peixes, navegantes.  São Paulo: Editora do Escritor, 1983.   73 p. 14x21 cm.   Capa de Fernaqndo Thommem Dias.  Col. A.M. 

VOLTA AO CHÃO PERDIDO

Aí, de mim

— caio em quebranto —

se já não tenho o tempo

e busco Minas,

se esquecido do meu jugo

busco Minas,

os olhos longos quebrantados,

despolidos,

perdendo-se, outra vez,

nos perfis das montanhas.

 

II

 

Ai, de mim

se a face deste medo,

viajando em meu corpo,

torna a noite mais escura

mais profundo o meu desterro.

Ai, de mim

se as garras de ferro,

que trouxe lá de Minas,

desfazem-se no pó,

nas ferrugens de meu corpo,

perdem-se levadas pelo sopro

do medo que me trava

e vai doendo.

 

III

 

Ai, de mim

em caule caindo

em voo sem asas

uma chama sem ar,

se de Minas distante

não chega o eco.

Onde sustentar,

senão em Minas,

o compasso deste canto

que destoa?

Onde pendurar,

senão em Minas,

as legendas esgarçadas

dos meus sonhos?

 

IV

 

Ai, de mim

se no cansaço de escrever

o enigma de Minas,

procuro em mim mesmo

a têmpera do ferro

o agudo de seus cumes

e só encontro o parco e o consumido

o frio como a seda

o escrito apagado

de tudo o que se foi.

 

 

 

Página publicada em setembro de 2011; ampliada em março de 2013. Ampliada em junho de 2017. Ampliada em outubro de 2018.

 


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