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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POESIA GOIANA
Coordenação de SALOMÃO SOUSA

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ANTÔNIO GERALDO RAMOS JUBÉ

 

 

Nasceu na cidade de Goiás (GO), em 29 de janeiro de 1927. Fez os estudos em Goiânia, formando-se em Direito pela antiga Faculdade de Direito de Goiás. Licenciou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal, onde foi professor de Literatura. Tornou-se ativo advogado, sendo assessor jurídico do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás. Integrante do grupo literário que atuou em Goiás com o nome de “Os XV”. Em 1948, fazia parte da comissão editorial do jornal Goiás Moço, onde começou sua atividade de crítica literária. Em 1950, manteve conceituado programa literário na rádio Brasil Central. No final da década de 50, integrou a redação do polêmico Jornal Oió, uma das publicações mais significativas do modernismo goiano. Colaborou com os Cadernos de estudos brasileiros, do Centro de Estudos Brasileiros, fundado e dirigido por Gilberto Mendonça Teles.

Darcy França Denófrio lembra que Jubé notabilizou-se pelo livro Síntese da história da literatura em Goiás, sendo “muito mais lembrado por este trabalho do que propriamente por sua poesia. De temperamento introvertido, e não participando dos atuais movimentos literários, tais como congressos,  seminários e outros do gênero, poucos sabem que Jubé escreveu cinco livros de poemas e mais duas plaquetas.” Em carta ao autor, Carlos Drummond de Andrade afirma que ele domina a expressão poética, tanto na forma livre como na acadêmica.

 

Bibliografia: Duas elegias, 1948, folheto com dois sonetos, Ed. do Autor; Cantigas do meu amor, 1950; Últimos poemas, 1950; Iara, 1954, Gráfica da ETFG; Flauta andarilha, 1984, Ed, do Autor; Lila Vilaboense, 1984, Cerne; Antologia poética, 1995, organizada por Darcy França Denófrio.

 

 

BURITI

 

Buriti, buriti da verde várzea.

 

A saudade é paisagem, água quérula.

O céu, redoma azul sobre a planura,

no espaço claro de manhã de pérola.

 

Buriti, buriti ancião, decrépita

testemunha de coisas e mudanças.

Que fizeram contigo? Edifícios

te afogaram, em sombras e lembranças.

 

Foram-se os anos te deixando, apenas,

nos campos invadidos, espectral.

Antes, a água bebida nas raízes,

agora, um pranto podre no canal.

 

Buriti, buriti da verde várzea,

testemunha calada da mudança.

Ainda estás de pé em meio ao tráfego.

Em volta a fúria, a fúria urbana avança.

 

 

AS SEARAS

 

I

 

Arrozal, verde vento, verdes chuvas

plantadas nesta água verdemente.

A esperança cavalga aéreas nuvens,

germina nos segredos da semente.

 

Veranicos dardejam sóis, presente

o dinamismo oculto das saúvas.

Nos cachos do arrozal o dia acende

seu coração de luz sob áureas luvas.

 

Deus vê crescer a planta: ela precisa

de iguais rações de sol e chuva. E o tempo

amadurece o grão na mão da brisa.

 

Agora ei-lo saudoso de sua haste

chino cristal de leite simplesmente.

Dando graças à terra em que o plantaste.

 

II

 

Em fila o milharal ergue cocares

cor de ouro na manhã de papagaio.

E as folhas lanceoladas de guerreiros

armados para a guerra, perfilados.

 

O verde milharal sobe da terra

para o espaço de sol, todo lavado.

Em torno gira a festa buliçosa

das jandaias e dos maracanãs.

 

Rebentam as bonecas promissoras

com seu cabelo ruivo, de entre a palha.

— Doce milho que chega à nossa mesa

envolvido nas palhas da pamonha.

 

III

 

Do canavial as verdes lanças

e o verde mel nos colmos acondicionado.

A doçura do caldo a ferver nas tachas,

depois no alambique, elaborando

a cachaça e a rapadura.

 

De onde vem essa essência doce,

essa seiva nutriz?

 

Do suor do lavrador no eito?

Da mansidão do boi na canga?

Do carro moroso a gemer no eixo?

Da tortura da engrenagem no engenho

gira-girando no sereno da madrugada?

 

Esse gosto de mel de moenda...

 

 

BANDEIRIANA

 

Se terminou tua aventura humana,

teu legado subsiste, onde aprendia

eu, aluno canhestro, a cotidiana

e fraterna lição de poesia.

 

Teu verso brilha como a luz que emana

da grande fonte geratriz do dia,

e me vem, força amável, sobre-humana,

estrela de tua órbita vadia.

 

Estrela que brilhaste a vida inteira,

no céu deixaste luminosa esteira;

meu verso, escuro beco em que definho.

 

Soletro em vão o teu abecedário.

De Pasárgada o longo itinerário

sigo aos tropeços sem achar caminho.

 

 

BAIRRO BOTAFOGO

 

De tardezinha o bairro fica melancólico.

Tem uma poesia doida.

A rua larga descamba pra lá como um rio rubro,

e nuvem de poeira espirala-se no ar...

 

As casinhas, brancas, espiam humildemente

as casa do lado de cá,

numa admiração solene e discreta.

 

Nada agita a paisagem parada,

nem mesmo operários que regressam.

Uma lavadeira sobe a encosta com a trouxa de roupa.

 

Ah, os ignorados dramas da pobreza!...

 

Os buritis estão pálidos,

com preguiça de se mexer.

O rego, desbarrancado, desce importante,

dividindo dois mundos.

  

 

 

JUBÉ, Antonio Geraldo Ramos.   Antologia poética.   Goiânia: Editora da UFG, 1995.  133 p.  (Colecção Vertentes)  13,5x19,5 cm.  Projeto gráfico e capa: Soraia Kalil Guimarães.    Col. Bibl. Antonio Miranda

 

 

TROPICAL

 

I

 

Os olhos voam na paisagem como

abelhas pressurosas. E me dizes

das elaborações profundas no

recesso escuro, folhas e raízes.

 

As árvores ao sol. Ó verde vida

que no selvagem coração te expandes!

Eu sinto a pulsação dos teus secretos

motores trepidando sob as landes.

 

A luz desdobra os seus painéis e tem

caprichos de aquarela. E tem fanfarras

nos troncos com caminhos de formigas

e oficinas bulhentas de cigarras.

 

II

 

A fonte rola gorgolejes de água

no coração da grota, entre folhagens.

As árvores em gestos verdes bolem

cochichos vegetais de folha e pólen.

 

Arde o sol como um deus sensual em chama.

No verão tropical a terra freme.

E a excitação nervosa, breve, logo

há de precipitar-se em aguaceiro.

 

 

 

 

 




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