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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foto Gabriela Joau, 2007

LUIS ANTONIO CAJAZEIRA RAMOS

 

Nasceu a 12 de agosto de 1956, em Salvador, Bahia. Estudou Estudou Engenharia Elétrica e Agronomia, mas formou-se em Direito e em Educação Física. Não fez poesia a infância e na adolescência. Na primeira metade dos anos 80, passou por uma fase de produção poética, que logo arrefeceu. A partir de 1995  é que se dedicou definitivamente à criação poética.  Lançou Fiat breu pelas Edições Papel em Branco, Salvador, 1996.

Não! Meu verso é cru, direto.” Esperpêntico, sim. Pessimista. Não chega a ser maldito, na tradição de seus conterrâneos Gregório de Matos e  ... Freire, pois não invoca nem maldiz as origens religiosas... (“Num golpe, vai até onde / Deus esconde o rabo abjeto.”  Apenas revela um desconsolo, uma acidez vivencial que deve ser mais bem literária, o que é legítimo na literatura se o autor souber criar com talento, como é o caso de Luis Antonio Cajazeira Ramos: sonetos entre a tradição e a modernidade. Autênticos, enquanto maniqueístas e maneiristas. Por que não?  ANTONIO MIRANDA

 

De
RAMOS, Luís Antonio Cajazeira. Come se
Salvador: Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia, Fundação Cultural, 1999.  116 p. (Coleção Selo Editorial Letras da Bahia, 45)

 

PANTOMIMA

Os melhores cordeiros da fazenda
seguirão para o abate na cidade.
Os carneiros mais fracos do rebanho
serão sumariamente degolados.

O bode velho vai pro sacrifício,
por mais que seu olhar peça clemência.
Nem mesmo as cabritinhas inocentes
terão misericórdia ou esperança.

As carnes assarão ao sol: fogueira.
As peles secarão ao sol: curtume.
As vísceras suarão ao sol: carniça.
Os ossos sumirão ao sol: poeira.

Somente a ovelha negra fica impune,
... enquanto o bom pastor toca sua flauta.

 

FREUDIANO


Entregue ao tédio, tranca-se no quarto.
Transverso ao leito, deita sobre o dorso.
Do corpo quedo, pende solto um braço.
Fixando o teto, vê seu branco fosco.

Volve ao decúbito ventral. Embaixo,
deixa a cabeça pendular no espaço.
Os olhos sacam, com o olhar parado,
que o chão de tacos tem um brilho opaco.

Gira, deitando sobre o lado esquerdo.
Busca as paredes – vê-las como um muro.
O quarto inteiro permanece quieto.

Encolhe as pernas, cruza os braços justo,
encurva as costas, cola o queixo ao peito.
Talvez quisesse o colo, o cálido útero.

 

DESAMPARO

            Tem piedade de mim, minha mãe: por causa
            de meus pecados, não mates teu filho.
 
                                                                       EURÍPEDES

Nasceu. A eternidade-em-nove-meses
trouxe à luz esperança, e me pergunto:
- para que perpetuamos nossas fezes
nas fraldas descartáveis deste mundo?

- por que permanecermos na ilusão
de que viver é bem fundamental?
- onde tenho a cabeça, ó cria, e não
a enforco com o cordão umbilical?

- e pode o poeta ser tão bizantino,
imerso em universos pequeninos,
posto em dúvidas mil existenciais,

e não abrir meus olhos desde o berço,
deixando-me sonhar, chupando o dedo,
... e acordo no momento de ser pai?


RAMOS, Luis Antonio Cajazeira.  Mais que sempre: uma antologia.   Rio de Janeiro: 7Letras, 2007.159 p.  14x21 cm.   ISBN 978-95-7577-351-2     “Orelha” escrita por Antonio Carlos Secchin.   Col. A.M.

 

Mausoléu

 

Minha sala dos ícones sagrados

mantém-se aberta para os visitantes.

O pó dos corpos, trajos e calçados

não toca nas redomas cintilantes.

 

O taumaturgo Deus reluz no centro,

para que todos vejam seu fulgor.

Em cada jarro circundante, dentro,

um venerável ídolo do amor:

 

em um, meus pais, com riso meigo e terno;

em outros, cada amigo acena a mão;

num cálice especial, meu par eterno.

 

Num canto escuro, a poeira toma assento

junto aos cacos de um velho vaso vão,

de onde escapei por pouco há muito tempo.

 

 

 

Let it be

 

A António Carlos Secchin

 

Ao fim da Criação, Deus me criou.

Ou sou fruto do acaso e existo em vão.

Ou não sou nada, o mundo é ilusão.

Ou fui/serei pra sempre, tudo eu sou.

 

O dúvida cruel: ser ou não ser!

Beijar os lábios da cultura, ou kitsch'?

Lavar a roupa suja em casa, ou hippié?

Transpor cada bastilha, ou' laisse^-faire?

 

Enquanto as fadas velam minha sina,

as bruxas me cozinham nas esquinas,

e as musas me fascinam com seu charme,

 

E os astros? Eles ditam minha sorte?

Hum! Certa de perder-me para a morte,

a esfinge nem se ocupa em decifrar-me.

 

RAMOS, Luis Antonio CajazeiraFiat breu.  Salvador: Edições Papel em Branco, 1996.  116 p.  ilus  14X21 cm.  Ilusstrações e capa: Vauluizo Bezerra.   ISBN 85-900248-1-4   “ Luis Antonio Cajazeira Ramos “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

PALAFITA

 

                    A mim, casebre.

 

Eu,

meu corpo,

minha família, meu lar,

meus vizinhos, meus camaradas, meus bairros,
minha cidade, minha província, meu país, meu mundo,

meu terceiro-mundo, minha história, minha cultura,

minha vida toda, meus limites, minhas limitações,

meu universo tão pequeno, meu eu tão pouco,

minhas relações, meus amores frouxos, meus amigos fracos,

meu trabalho, meus bens, meus escravos,

todos e tudo dependurados,

penduricalhos de ciganos,

vendidos a troco de um cigarro,

último, antes da morte

sem testamento.

 

 

 

SONETO METIDO A BESTA

 

A Georgeocohama D. A. Archanjo.

 

Agora eu gosto é de intelectuais

— retóricos, prosaicos ou poéticos.

Os outros homens são banais, sem nexos.

Humanos somos nós, os imortais.

 

Chega de pobre nessa vida besta!

Odeio pobre e o que ele insignifíca.

Pleiteio amores numa vila rica

que a inteligência edificou por festa.

 

A ponte entre a bonança e a tempestade ,

é o sacrifício de mentir verdades,            

até que a morte nos separe... breve.

 

Ah porra, eu fui nascer tão pobre e burro!

que tudo para mim só vai no murro

contra as paredes deste vil casebre.

 

IARARANA – revista de arte, crítica e literatura.  Salvador, Bahia. No.  4 – 2000.  

NUNCA MAIS SEREI EU MESMO 

Cada último poema é o último, pois que
não há mais a dizer depois, pra nunca mais,
que sempre, se me entrego ao verso, é totalmente,
mais nada sobra de mim, vazado, mais que sempre.

Que mistério a poesia, toda em cada verso,
nunca se esgota e esvai, e com seu próprio lastro
está pra sempre inteira, pronta a um novo verso,
E cada novo poema é o novo!  ...Eu sou o reto.

Se me dou por inteiro, o que sobra de mim?
Se me fluo no verso, perco-me de vez,
vez que na alma do verso está só quem o lê.

Sendo assim (que destino, esse meu!), pra me ter
devo ler-me a mim mesmo no verso que fiz.
Eu, que tenho essa imensa poesia a viver.

 

 

ANÁTEMA 

Vogo na ideia vã e vaga do eu,
como se houvesse em mim um ser e um cerne,
uma alma inominada em corpo inerme,
amálgama de fiat lux et breu.

Mimo a mim mesmo com um mimoso engano:
que o mundo existe como fato meu,
que a vida é imagem de ilusório véu,
tecido por mim (fio) o mundo (pano).

Fio que penso e existo e assim sou algo.
Desfio os véus, em busca de meu âmago,
mas desconfio apenas ser imago.

Meu sumo sé o oco totem hamletiano.
Do imane e ameno cenho, emana a senha:
a senda é ser não sendo — ou seja eu sonho.
 

* 

VEJA e LEIA outros poetas da BAHIA em nosso Portal:

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/bahia/bahia.html

 

Página ampliada em novembro de 2021


Página publicada em janeiro de 2012, ampliada e republicada em março de 2013. Ampliada e republicada em fevereiro de 2015


 

 

 
 
 
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