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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

CARLOS CUNHA

 

Extraído de:

MODERNA POESIA BAHIANA. Antologia. Apresentação de Walmir Ayala. Rio de Janeiro:  Tempo Brasileiro, 1967.  176 p. (Coleção Tempoesia, 7)  Ex. bibl. Antonio Miranda. Inclui os poetas Antonio Brasileiro, Carlos Anísio Melhor, Carlos Cunha, Carlos Falck, Fernando Batinga de Mendonça, Fernando Batinga de Mendonça, Florisvaldo Mattos, Helena Parente Cunha, Humberto Fialho Guedes, Ildázio Tavares, José Carlos Capinan, José de  Oliveira Falcón, María da Conceição Paranhos, Moniz Bandeira, Myrian Fraga e Walter Queiroz.

 

 

 

Canto do Natal no Perímetro Urbano

 

há mecanismo no espaço físico das ruas. 

ruas estreitas apertando 

casas e cones:

ruas largas aceitando 

esquinas e deltas; 

ruas que se eu penso 

são becos, burgos, rampas. 

todas repletas de criaturas mecânicas 

que dormem o sono depressa 

da aceitação sem hino, 

que amam com uma ternura 

dúbia e morta.

cheias de criaturas chamadas práticas 

que choram uma vez por ano

que perdoam uma vez por ano 

que são solidárias uma vez por ano. 

as vitrines são bailarinas feéricas 

bonecos que expelem fogo pela boca 

ursos que falam com um gramofone no peito 

papai-noel sem mais a obesidade secular. 

estão cheias de criaturas metódicas 

que pensam que jesus cristo é romano 

que leram a bíblia para duvidar 

que informam que o anjo gabriel 

é vesgo e coxo.

as igrejas são santos de celulóide 

sinos automáticos

cérebros eletrônicos medindo o fervor 

dos salmos e a carência dos deuses.  

o recém-nascido 

é ensaiado nas televisões 

o recém-nascido 

tem um olho azul de vidro

o recém-nascido

tem o cabelo partido ao meio. 

as ruas estão cheias 

dos que não perdoam uma vez por ano 

dos que não são solidários uma vez por ano 

dos que não choram uma vez por ano. 

o canto do galo já não tem sete ecos 

a estrela que guia já não tem sete cores 

o rei que indaga que indaga 

já não tem sete servos. 

os reis magos são todos 

do perímetro urbano, 

os bichos que adoram 

são bichos domésticos, 

os pastores são todos 

do perímetro urbano.

 

 

As Casas

(a Ildázio Tavares)

 

a saudade atravessou a rua 

com minhas pernas, 

minha fome, minha raiva, 

minha saudade, 

meu violino e minha reconciliação 

e entrou nas casas 7-17-12-36. 

o lado mais saudoso 

ouvindo um desamor na carne, 

chorando uma traição nos ossos, 

tão sufocado, tão comovido. 

olhou a casa 6.

 

 

Epitáfio para um Homem Comum

 

foi o sentimento do sêmen 

depois a armadura do feto. 

circulou como criança 

amando a chuva; 

circulou como homem 

elaborando espantalhos. 

não mais que a contração 

não menos que a evasão. 

arcanjo, aurora e pássaro, 

seu coração impediu; 

astúcia, sargaço e cáften 

seu coração procurou. 

inaugurou um parque 

inaugurou um pântano. 

foi simples se fez patético 

foi gênio se fez comum.

 

 

 

Breve Comunicado do Poeta Burguês

 

"Dele faremos um padre

Ou então um presidente!"

Gérard de Nerval

 

não posso mais meu pai ser rei 

dei o meu condado

de elmos e faunos

meus moinhos e minhas moendas 

meus corcéis e os meus caprinos 

e os palanquins do reinado. 

console os meus parentes 

chore minha partilha 

console os meus irmãos. 

vou criar barba para ser profeta 

usar bandarilhas para ser toureiro 

falar francês para ser poeta. 

não posso mais meu pai ser rei.

 

 

Somos

 

somos apenas para dizer palavras 

e entregamos o nosso corpo nas ruas 

depois repousamos os músculos. 

não somos puros porque 

despidos depois de amar 

não permanecemos. 

nos perdemos na busca de símbolos: 

só as casas têm números 

só os homens têm nomes. 

queimadas as pálpebras nas cinzas do sono 

não sabemos que a madrugada se faz 

nas estrelas que gotejam sangue. 

morremos e não percebemos as semelhanças 

que há no peixe e no pássaro 

no musgo e no vento. 

possuímos um silêncio para os mortos 

e um tumulto para o que amamos. 

guardamos cores na lembrança 

e envelhecemos antes de sair da infância. 

refletimos o nosso medo e solidão 

nos muros, nos bichos, nas flores, 

sem sabermos que os mortos são fotogênicos 

sem acharmos a serenidade 

que faz este mar azul.

 

 

Tempo de Criança 

 

não te darei um filho, amada, 

para que não sofras 

do ventre a contração e o grito 

na paz da orla pubescente.

se tu queres um tempo de criança 

em teu alento,

em teus seios, teu pudor, teu canto, 

deixa que eu permaneça 

renascido de ti mesma 

numa nudez que me perdure 

no menino que eu não quero morto.

 

 

Epístola para o Filho que se Faz na Madrugada

 

o teu corpo será cálido 

porque se faz na crisálida 

do meu silêncio que não amadurece o grito; 

porque se faz no claustro 

do flanco sem o mistério 

do meu olhar onírico e torturado. 

o teu corpo não vai sofrer 

as lâminas primitivas 

de um signo ríspido 

surdo como o recinto das pedras, 

porque se faz num tempo 

suavemente indormido 

em que a madrugada 

estiliza na seiva o riso, 

e liquefaz para meu corpo 

seu despojamento lírico. 

o teu corpo nunca estará 

frio e absorto 

porque se teu hálito 

se incorpora ao meu medo, 

a madrugada plasma em tua carne 

um canto para o degredo. 

o teu corpo nunca estará 

vazio e morto, 

porque se faz no tempo 

em que em mim já não reponho 

este lirismo em que me fiz 

para humanizar teu peito. 

o teu corpo será cálido 

porque se faz na crisálida 

do meu silêncio que não amadurece o grito.

 

 

Página publicada em junho de 2016


 

 

 
 
 
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