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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: http://www.tjdft.jus.br/

 

 

ROMEU JOBIM


(1927-2015)

 

 

 

Natural de Rio Branco – AC, o desembargador Romeu Jobim, pioneiro em Brasília, chegou à capital em 1960. Era formado em filosofia e direito, no Rio de Janeiro. Romeu Jobim, antes da magistratura, foi redator da Câmara dos Deputados, tendo ingressado na justiça do DF, por meio de concurso público, em 1976, onde foi juiz e desembargador e Vice-Presidente e Corregedor do TRE-DF. Atuou como titular da 1ª Vara Criminal e como membro titular da 2ª Turma e Câmara Criminal. Cidadão Honorário de Brasília, foi agraciado com muitos títulos, entre eles, as comendas da Ordem do Mérito Judiciário do Distrito Federal e dos Territórios e do Mérito Eleitoral.

Aposentado, o desembargador Romeu Jobim dedicou-se à literatura, sendo reconhecido como uma das vozes de maior credibilidade junto ao meio literário do DF. Todas as suas publicações primavam pelo domínio culto da língua portuguesa, o que transformava a leitura de seus livros em uma viagem de "saber e sabor". Entre as obras de sua autoria destacam-se: "Justiça: Humor Forense", que narra mais de 100 episódios e situações pitorescas vividas no dia-a-dia forense, durante seus mais de 20 anos de magistratura; "Em Tom Menor" e "Pássaros de Meus Bosques" estão reunidos haicais e quadras de sua autoria; "Amanhã Cedo é Primavera"; "Boa Tarde, Excelência!"; "Cantos do Caminho" e "Entre Crônicas e Contos", seu último livro.

O desembargador Romeu Jobim era membro fundador e conselheiro da Associação Nacional de Escritores – ANE; cofundador da Academia Brasiliense de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico do DF. Além dos livros, participou de inúmeras antologias e teve vários trabalhos publicados. Por ter sido sempre aberto a iniciativas de vanguarda, seu nome foi dado à biblioteca-ponto da 710/711 Norte, homenagem do projeto "Paradas Culturais", que montou bibliotecas populares em vários pontos de ônibus do DF.

A Associação Nacional dos Escritores – ANE, em sua homenagem, destacou, nessa quinta-feira, o companheiro exemplar, o escritor machadiano e sua obra de jurista e homem de letras como uma honra a cultura de Brasília e do Brasil.  O desembargador Romeu Barbosa Jobim faleceu aos 88 anos, deixando esposa, três filhas, genros e oito netos.

 

 

HORTA, Anderson BragaDo que é feito o poeta.  Brasília, DF: Thesaurus Editora, 2016.  412 p.  14x21 cm. Arte da capa: Tagore Alegria.  ISBN 978-85-409-0287-9  

  

 

ROMEU JOBIM

E A FUGA PROFÍCUA DOS DIAS

 

Por Anderson Braga Horta

 

Academia Brasiliense de Letras,
em 10 de fevereiro de 2004.

 

On sent à quel point il doit croire
                      À la fuite utile des jours.
VICTOR HUGO

          No dia 17 de novembro de 1903, Brasil e Bolívia assinaram o Tratado de Petrópolis, pelo qual se incorporou o Acre ao nosso país. Resolvia-se, assim, uma questão que persistia já por algumas décadas, se lhe pomos o início nos feitos de João da Cunha Correia, que em 1857, pelo alto Juruá, alcança o Rio Tarauacá, e de Manuel Urbano da Encarnação, que, pelo Rio Acre, chega, quatro anos depois, às imediações do Xapuri, fato considerado como marco inicial da ocupação da área pelos brasileiros. Essa ocupação teve como agentes levas de nordestinos, na maioria provenientes do Ceará, atraídos pelo poderoso ímã das possibilidades econômicas da exploração da borracha. Símbolo dessa ocupação é o cearense José Carvalho, sob cujas ordens os brasileiros, efetivos habitantes da região, expulsaram, em 1899, as autoridades bolivianas que ali instalaram uma aduana. O grande guerreiro da luta acreana, entretanto, seria o gaúcho Plácido de Castro, agrimensor de profissão, mas com experiências militares vividas no Estado natal. Sob seu férreo comando os patrícios rebelados contra a atuação de forças do governo da Bolívia —em terras nominalmente no domínio desta, mas de que eram eles praticamente os únicos exploradores— escorraçam-nas e ocupam a vila de Xapuri, em agosto de 1902. Em fevereiro do ano seguinte se dá a capitulação geral das tropas bolivianas. Deste modo, podemos considerar que a incorporação do atual Estado do Acre ao nosso território se funda em atos de ocupação econômica e em ações de guerra para sustentá-la, nas quais
têm destaque cearenses e gaúchos.

          José Plácido de Castro ficou famoso e próspero — fama devida, naturalmente, ao bem-sucedido comando da Revolução do Acre, e prosperidade resultante da aquisição de seringais, com o produto de seus trabalhos de demarcação. Em 1908, foi visitar a cidade de origem, São Gabriel, no Rio Grande do Sul.      

          À aura romântica da saga acreana, acrescida, decerto, das perspectivas econômicas da exploração seringueira nas terras incorporadas, tudo isso reforçado pelo trato com o herói em pessoa, não resistiram seus primos Armando de Oliveira Jobim, Romeu de Castro Jobim e Jorge de Oliveira Jobim. Quando Plácido de Castro encetou viagem de volta, decidiram acompanhá-lo ao Acre. Embarcaram os quatro e seguiram juntos, de navio, até a sempre maravilhosa cidade do Rio de Janeiro. Jorge resolveu ficar por ali mesmo. Essa decisão se revelou, afinal, de notável importância para a música popular brasileira. Jorge, radicando-se no Rio e lá constituindo família, se tornaria o pai de Antônio Carlos Jobim, o maestro Tom Jobim, grande e querido entre os nossos maiores e mais amados compositores, e de Helena Jobim, escritora.

          Os outros continuaram até o destino que se haviam proposto; para Romeu, porém, a aventura do Acre não teria duração: pouco tempo depois regressaria aos pagos. Dos três primos levados por Plácido de Castro, permaneceu no Acre apenas Armando de Oliveira Jobim. Lá ficou de 1908 até quase o final da década de 40. Em 1912 voltou ao Sul para buscar a noiva gaúcha, Adelina. Foi breve a união, dissolvida pela morte da esposa; breve e sem prole. Algum tempo depois, casa-se Armando com Francisca Barbosa, acreana descendente de cearenses, e com ela tem vários filhos, entre os quais Romeu Barbosa Jobim. Deste modo, assim como ocorrera com a conquista do Acre, uniram-se o Ceará e o Rio Grande do Sul para o nascimento do poeta, ficcionista e jurista que hoje ingressa na Academia Brasiliense de Letras.

          Armando foi proprietário de seringais em terras do Acre e da Bolívia, compradas de Genesco de Castro, irmão de Plácido. Entre Campo Esperança, então município de Rio Branco, no Brasil, e Ilimâni, na Bolívia, passou o menino Romeu os primeiros anos de sua existência. Em Rio Branco e em Manaus fez os primeiros estudos. Pensava então formar-se em Agronomia. É dessa época (1942) a publicação de seu primeiro poema, no jornal A Tarde, da capital amazonense. Dos seus 15 anos guardou, vindo a publicá-los no recente Cantos do Caminho, três sonetos impecáveis — como, de resto, os que se seguiriam até o início da década de 50, quando se deu um hiato, que duraria cerca de trinta anos, em sua produção poética. Vêem-se já com nitidez, nessas primícias de robusta feitura parnasiana, algumas qualidades que assinalarão o homem e o escritor ao longo da vida: a imaginação fértil, mas controlada, o rigoroso contorno do pensamento, o amor à língua mãe aliado ao domínio de suas estruturas, o estilo meticulosamente cuidado, a perseverança e a constância. Daquele menino de 15 anos leio "Árvore Morta", datado de Manaus, 11.5.1942:

 

 

ÁRVORE MORTA

 

Já não balanças, ao sabor do vento,
enchendo-nos de efêmera alegria,
nem és a confidente do tormento
humano, ou da ventura fugidia.

Já não te expandes para o firmamento
nem ouço, à tua fronde, a melodia
de alígero cantor que busca alento;
o lavrador em ti não vê magia...

Jaz, na campina, teu corpo estirado,
qual enorme gigante que deitasse,
após renhida luta, fatigado.

Mas berço, esquife, casa ou lenha pura
(em teu lugar já outra árvore nasce),
embora morta, o teu valor perdura.

 

 

          Em 1947, após boa experiência como redator, revisor e colaborador literário de O Acre e A Folha do Acre, trocou o jovem a portentosa natureza amazônica pela exuberante paisagem —telúrica e humana— da Cidade Maravilhosa, onde cursa o Clássico no Instituto La-Fayette, a Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil, e a Faculdade de Direito do Distrito Federal (atualmente integrante da Universidade do Rio de Janeiro).

          Em 1956, casa-se com Ruth de Souza Silveira, professora e advogada, que se revelaria também escritora — tem participação em antologias de contos e de crônicas e lançou em 2002 um livro de histórias curtas, O Noivo.

          Em 1960, tendo passado em concurso para Redator da Câmara dos Deputados (concurso que também fiz e que me deu ocasião de conhecê-lo e, daí por sempre, cultivar sua amizade), veio para Brasília, onde prosseguiu sua brilhante carreira no magistério, na advocacia e depois na magistratura, como Juiz de Direito e, afinal, Desembargador.

          Em Brasília o casamento frutifica, vindo as gêmeas Adriana e Cristiana, depois Rosana, mais tarde os genros Ignácio, Cefas e Marcos e, por enquanto, os netos Luciana, Pedro Henrique, Juliana, Patrícia, Maria Ruth, Eduardo, Luísa e Lucas.

          Em Brasília volta a frutificar também a literatura. Reencontra-se Jobim com Almeida Fischer, a quem conhecera no Rio e que o convida para integrar a primeira coletânea de contos do novo Distrito Federal, Contistas de Brasília, editada em 1965 por Francisco Scartezini (D. Bosco). Participou com o belo "Morituri". E vieram outras antologias: Conto Candango, de Salomão Sousa (Coordenada, 1980); Horas Vagas, de Joanyr de Oliveira (1981); Planalto em Poesia e Contos Correntes, de Napoleão Valadares (Thesaurus, 1987 e 1988); Cronistas de Brasília, de Aglaia Souza (André Quicé, 1995); Caliandra — Poesia em Brasília (André Quicé, 1995); Poesia de Brasília, de Joanyr de Oliveira (Sette Letras, Rio, 1980).

          A vida frutuosa de Romeu Jobim merecia enfoques e aprofundamentos que não cabem nesta oração. Se estivesse a traçar-lhe a biografia, precisaria deter-me, por exemplo, em aspectos de sua fecunda vivência do magistério e de sua brilhante trajetória no campo jurídico. Mas não disporei do tempo necessário para tanto; e como seu ingresso nesta Academia se deve, antes de mais nada, à atuação literária, sobre esta concentrarei o foco da atenção.

          Só em 1990, tendo no currículo colaborações na imprensa e participação nalgumas das antologias há pouco mencionadas, aparece o escritor em livro individual — e não é de poesia, como talvez fosse de esperar, mas prosa, e da melhor qualidade. Boa Tarde, Excelência! reúne crônicas de sabor contístico, ambiguidade assinalada pelo autor mesmo, que se pergunta, e ao leitor: "crônicas ou contos?", para, de modo indireto, decidir-se afinal pela primeira hipótese. Comentando o livro, em página que intitulei "Um Cronista de Alta Linhagem", publicada pouco depois do lançamento e incluída em meu recente Sob o Signo da Poesia — Literatura em Brasília, assim me manifestei sobre a questão:

          Na ficha catalográfica .... está lançado "Crônica brasileira"; e no texto de "Afetação" (p. 91), em clara auto-referência, fala o escritor em "cronista". Crônicas sim, não tenho dúvida, e creio que o Autor também não; de todo modo, crônicas, no geral, escritas com a pena do ficcionista nato e, sempre, em linguagem pura e sóbrio estilo. Crônica, mesmo, só não será, talvez, a última peça, "História de Outros Tempos", apesar de seu óbvio endereço a um determinado período histórico, por sinal negro, cuja lembrança nos faz temer o que possa haver de verdade na asserção de que a História se repete... São, os textos de Boa Tarde, Excelência!, anedotas, isto é, relatos sucintos de fatos jocosos ou simplesmente interessantes (grato, Mestre Aurélio), contadas com a precisão, o minucioso conduzir ao desfecho incisivo, sem quê não teriam graça; neles, a última frase é decisiva — o condimento, o detalhe significativo, o coroamento formal, como uma chave de soneto (não fôra o cronista igualmente poeta...).

          Para não se dizer que me detive nessa questão, efetivamente menor, de classificação da obra, e pedindo vênia a esta ilustre assembleia, repito palavras, igualmente constantes do pequeno artigo, relativas ao que é substancial no livro, ao que o valoriza como afirmação de humanidade e literariedade em feliz comunhão:  

Romeu Jobim é escritor meticuloso e profundamente humano. São-lhe fartos os dons da observação e da generosidade — que, porém, não lhe tolhe as farpas da ironia. Psicólogo, o que lhe interessa, muita vez, transcendendo o anedótico, é a natureza humana, os meandros e refolhos da alma. Linguagem muito bem cuidada, sem preciosismo; humour; sutileza; o gosto de se dirigir ao leitor, tudo —estas qualidades e as anteriormente arroladas— a sugerir sua catalogação na restrita família machadiana.

          Três anos depois dessa estreia é que vem a poesia, por então nas formas mínimas da quadrinha e do haicai. Refiro-me ao volume, também materialmente pequeno, intitulado Em Tom Menor. Foi-me dado o privilégio de apresentar o livrinho —o diminutivo, aqui, mais que a função de apontador da pequenez física, tem um valor hipocorístico— e o fiz numa orelha, minúscula, como convinha. Nela, assinalando a vocação das sutilezas e das meias-tintas do haicai, e o voltar-se para o afetivo, o brejeiro ou o epigramático da popular quadrinha, registro a segurança de mestre com que o poeta, numa e noutra forma, dá vazão ao seu lirismo de maneira mais ou menos direta, mais ou menos contida.

          Leiamos algumas dessas curtas mas fulgurantes composições. Primeiro, uma quadra filosófica:

 

                                   Era uma vez um menino,
                         muito aflito, em seu caminho.
                         Corria atrás do futuro,
                         corria atrás de um velhinho.

 

          Três outras, de puro lirismo:

 

                                   Era noite e, distraída,
                         olhaste o céu. Egoístas,
                         as estrelas se apagaram
                         para ver-te, sem ser vistas.

 

                                   Tuas mãos, enquanto falas,
                         são inquietas andorinhas
                         que, a seguir, quando te calas,
                         pousam, dóceis, entre as minhas.

                         Vai, vento ligeiro. Voa
                         por sobre florestas e águas.
                         Mas leva, nas tuas asas,
                         para longe, as minhas mágoas.


          Estas são humorísticas, sem deixar de ser filosóficas:


                                   Esta vida é qual moenda
                         que, impiedosa, nos tritura.
                         Mói por fora, mói por dentro...
                         Que tremenda rapadura!

                         Olho no espelho e descubro,
                         com espanto e com desgosto,
                         que me lograram na estrada:
                         este não era o meu rosto.

 

          Dos haicais, mais intelectualizados, colho estes exemplos:


                                   Numa poça dágua,
                         a menina pobre espia
                         seu rosto no céu.

                         Do pântano impuro
                         irrompe a vitória-régia.
                         Transubstanciação.


          Este foi merecidamente premiado:

 

                                   À beira do rio,
                         um bando de borboletas
                         e um menino voam.

 

          Do verso final deste, belíssimo, tirou o título a bela oração de posse de nosso novo acadêmico nas altas funções de Desembargador de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios:

 

                                   Uma rosa esplende,
                         em sua manhã de glória.
                         No efêmero, o eterno.

 

          Encerrando a amostragem:

 

                              Achei meu menino,
                         há tanto tempo perdido.
                         Sorriu-me, ao espelh
o.

 

          O próximo livro de Jobim vai ser de contos: Amanhã Cedo É Primavera. O contista confirma as virtudes estilísticas do cronista, confirmação que já se anunciava, aliás, nas antologias de contos de que participou.

          No texto que escrevi para essa edição (de 2001), reafirmo ver em Romeu Jobim um escritor de estirpe machadiana, tanto pela invariável correção e elegância do texto quanto pelo penetrante enfoque psicológico, temperado com uma dose de humor e ironia. Assim se encerra minha apreciação, destacando qualidades que à releitura me surgem ainda mais vívidas:

          Ficcionista urbano, em ambas as acepções da palavra, conta-nos também, mercê de sua origem acreana, histórias de ambientação amazônica, de forte sabor selvático e fantástico.

          A combinação dos dois tons, mais a perícia do narrador, a que não falta o dom e a vivência da poesia, dão a este livro, além de alta qualidade literária, uma grande força de sedução.

          Finalmente, em 2003, reúne o poeta suas produções, desde os sonetos dos 15 anos até os recentes poemas de reflexão sobre o tempo e a vida, mais os líricos cantares dedicados aos netos. A poesia de Romeu é gravemente lírica, e no advérbio quero colocar a riqueza formal de que se serve e, sobretudo, a profundidade do sentimento, bem como o meditar sobre questões cruciais da humanidade. Os Cantos dizem-nos da fidelidade do autor à língua e à forma, penhor de uma fidelidade maior — à poesia, ao espírito e ao amor. Espelham, juntamente com a prosa de ficção, a atividade imaculada do homem público e o cultivo da grande árvore familiar, testemunhando que Romeu Jobim tem feito o melhor possível do seu dia e dos talentos que lhe foram confiados.

          Há de alguém reparar que, até certo ponto, estou aqui a repetir e consolidar coisas que disse em diversas ocasiões acerca do escritor que temos a honra de receber em nossa Academia. Não por isso me haveriam de imputar falta de imaginação, que de imaginação não se trata. São registros de fatos. As virtudes de Jobim, criou-as ele mesmo, eu tão-só ao relato.

          Mais do que relatá-las, impõe-se exibi-las, em sua expressão original. Para não estender esta oração além dos limites protocolares, lerei três de seus Cantos, convocando quem ainda o não tenha feito a perlustrar-lhes o resto do Caminho.

          O primeiro é :

 

 

                    ONTEM, NA PRAÇA

 

                 Um poeta falou de flores,
                 mas era proibido.       

                 Aí,
                 para que não vingasse o mau exemplo,
                 proibiu-se também a poesia.

                 Aliás,
                 moveu-se uma guerra
                 contra essas extravagâncias.

                 Não ficou pedra sobre pedra.

                 Mas as flores renasceram
                 do ventre da terra
                 e a poesia explodiu
                 do coração dos homens.

                 Ontem, na praça, um novo poeta
                 exercitava seu canto.
                 Era filho de um carrasco
                 e tinha uma rosa na mão.

 

 

                    Os outros são estes cânticos de esperança, penúltimas páginas de seu livro (anote-se, no segundo, o duplo sentido de "carpir"):

 

                                      
 
                        PÉGASO CANSADO

 

                         Coração, ginete árdego
                         de cavalgadas mil,
                         era esporear-te e sôfrego
                         a paragens e mundos
                         longínquos me levares.

                         Nunca, indormido pégaso,
                         um vôo me negaste.            

                         Estouvado centauro,
                         cansei-te. E hoje não voas

                         nem corres.

 

                                          Mas refaze-te
                         e acorda, companheiro
                         de aventuras!

                                          Com tua
                         ajuda é que ainda espero
                         chegar àquela estrela!                 

                         Eia, vamos, desperta!

 

 

                                  TEMPO SERÁ

 

                              Quando a noite passar,
                              com seus medos e horrores,
                              e o dia enfim chegar,
                              pelos campos tratores,
                              tempo será de plantar
                              e também de colher.
                              Tempo será de cantar
                              e não mais de carpir.
                              A alma leve, louçã,
                              tempo será de sorrir,
                              nunca mais de sofrer.
                              Tempo será de viver.
                              Tempo será de manhã!

 

                                       Tempo será de plantar,
                                       tempo será de cantar.
                                       A alma leve, louçã,
                                       tempo será de sorrir,
                                       tempo será de viver,
                                       tempo será de manhã!

 

 

          Ouvimos, e atentamente a apreciamos, a bela peça oratória com que há pouco nos encantou, e em que, após palavras amáveis a este seu amigo e ao ilustre poeta e prosador que preside esta Academia, homenageia o patrono de sua cadeira, o grande Tomás Antônio Gonzaga, e seu fundador, o inesquecível Domingos Carvalho da Silva. Mais do que as minhas palavras, esse magnífico exemplo de sua prosa e a breve amostra que pudemos trazer de sua poesia comprovam o acerto de sua eleição acadêmica.

          Concluindo, damos as boas-vindas a Romeu Barbosa Jobim, cujo ingresso confirma e abrilhanta as melhores tradições desta Casa.

 

 

 

 

Extraído de:
TROVAS.
  [Seleção de Edson Guedes de Morais]  Jaboatão dos Guararapes, PE: Editora Guararapes EGM, 2013.  3 v.  14x9,5 cm.  edição artesanal, tiragem limitada, circulação restrita. Col. bibl. A. Miranda

 

 

Página publicada em julho de 2016; ampliada em novembro de 2016


 

 

 
 
 
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