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A POESIA CONTEMPORÂNEA COMO PROJETO DISCURSIVO - [UMA LEITURA DA POESIA DE LEOPOLDO COMITTI] - ENSAIOS

 

 

 

A POESIA CONTEMPORÂNEA COMO PROJETO DISCURSIVO –

[UMA LEITURA DA POESIA DE LEOPOLDO COMITTI]

DONOVAN-LEAL, J. B. Aldravismo /Reinvenção da arte pelo jornalismo       cultural/ Ensaios. Mariana, MG: Aldrava Letras e Artes, 2018. 268 p.   15 x 22 cm.   ISBN 978-85-5464-004-0   Ex. bibl. Antonio Miranda

 

O PEDIDO

O poeta pede a Deus:
livrai-me do sucesso
e da bela fanfarra
que termina em abscesso
e só deixa nas fotos
um sorriso amarelo.
Que o meu navio alcance
a glória do naufrágio
pois este é o meu arcano:
ser tesouro escondido
no fundo do oceano.

(Lêdo Ivo)

 

 

         É lúcido o poeta contemporâneo. Não é sonhador, nem depende da inspiração. Há um projeto discursivo sendo desenhado nos versos de hoje. Isso não resgata, no entanto, o prestígio do poeta cortesão de outrora. Mas o poeta atual não faz questão disso - sabe, como diz Lêdo Ivo, "ser tesouro escondido / no fundo do oceano".

         Essa lucidez compreende o itinerário da percepção de mundo alcançada graças ao avanço da teoria linguística. Sem ser contraditório, mas sendo paradoxal, trata-se do retomo à narrativa, não nos moldes heróicos da epopeia, mas na sua estruturação discursiva como forma de estruturação dos eventos possíveis.

         O século XX experimentou esse itinerário e, graças à ingenuidade da teoria do signo de Saussure, alavancada que foi pela necessidade de busca do elemento gerador dos conceitos ( antes Saussure tivesse mantido esse termo para designar o que ele chamou de significado - termo restritivo e de valor apenas referencial), herança dos comparatistas, passou a dar atenção ao signo, como elemento de constituição do sistema linguístico e não como único articulador possível da formação de sentido. Essa ingenuidade não tem respaldo na Escola de Praga, pois Trubetzkoy propõe o conceito de significação para dar conta da formação dos sentidos, uma vez que o sistema fonológico, como soma de significantes, não tem autonomia para produzir sigificados - e passam a ser nada além de referências para as significações possíveis, em função, nos contextos de uso. 0 indicativo para a emergência da conotação dá suporte para a proposição da função estética de Mukarovisky e da função poética de Jakobson, das quais extraímos argumentos para defesa de uma poesia para além dos muros das academias ou das escolas literárias, de uma poesia para além dos gostos individuais ou gostos forjados pela crítica - uma poesia do cotidiano, heterogénea, do discurso do sujeito-poeta ou do poeta-sujeito, de todos os temas e todas as formas, que considera o projeto de sujeito por uma poesia em função, marcada por projetos discursivos e não pela coleção de avulsos. Cabe aqui lembrar que esses projetos dão conta tanto de uma investida académica, quanto de uma investida adolescente de proposta amorosa. Nos dois casos aparece a marca da proposição discursiva, há um ato perlocutório em atividade.

Exemplo dessa poesia-projeto, discurso consciente da interdiscursividade e contextualização do cotidiano é a poesia de Leopoldo Comitti. Os sentidos possíveis, não mais impostos (como eram os significados) são resultados e processos ao mesmo tempo.

Resultados da recepção de um discurso que se faz texto e processo de produção de novos sentidos. A função metalinguística da linguagem, no sentido de isto é, produz a percepção do mundo contemporâneo que se retrata na poesia - diz-se daquilo que j á foi dito, sabendo dizer de novo, sabendo-se dizer pela primeira vez, pois cada enunciação é única e singular, e acontecimento do Sujeito que se diz poeta, eu-poeta, único e irremediavelmente único, dado que se faz novo na atualização dos eventos, dos seres, das coisas e das almas dos homens.

A obra do poeta Leopoldo Comitti - Fundo Falso (1997) e Por mares navegados (1999) é mostra dessa consciência de construção de possibilidades.

Fundo Falso é piso sólido e compactado, narrativa da completude de um espetáculo, a visualização da semiótica complexa do teatro - metáfora do espetáculo da vida humana? A lucidez discursiva permite a pretensão da grandiosidade da epopéia, ao abrir a narrativa com uma evocação e, vej am, no mesmo tom da abertura desta provocação.

 

EVOCAÇÃO

 

Torna às naus
trôpego e tropical poeta
atento à luz
de incautos oceanos

 

Deste mar
a franja frouxa, talvez frívola
da fé no verso.

 

Em vão. 

 

Os processos semióticos verbais, não verbais e complexos, espacialmente delimitados e historicamente determinados expostos nessa evocação, conduzem o leitor a um retomo ao grande poema do expansionismo criador do império português em Camões, à revisão feito máquina de hemodiálise por recomposição do sangue português em Pessoa e à recriação do espírito português como língua que fala de hoje, embora esse espírito sej a a voz da desolação, da descrença no verso, da perda da fé, antítese emergente da fé vã a provocar fenómenos editoriais nos magos, bruxos e neurolingtiistas de plantão para atendimentos aos males das almas estafadas pelo cotidiano nesse limiar de milénio. 

A peça, ou o poema, reconstitui a criação, a montagem, a preparação do figurino, do cenário, do texto, dos exercícios, da apresentação do espetáculo e de todos os medos que só o ator experimenta. O ator é de fato o Locutor da voz colocada em sua boca. Mas, isso não é privilégio dos atores. Toda e qualquer enunciação é a atuação de um Sujeito que diz aquilo que se faz autorizado. Essa autorização se dá na institucionalização dos discursos, tomando possível a identificação de vozes anteriores, já ideias cristalizadas, virtudes ou pecados, dogmas ou leis, autorizações ou imposições, expressão de desejos ou ordens, em envelopamentos diversos, em bilhetes, ou poemas ou tratados e teses. Daí, por força d imperialismo científico do mundo contemporâneo, até o poeta apresenta projeto discursivo. Comitti o faz e o realiza. 

Das impressões do público, fechamento do livro, o espetáculo guarda sempre um lugar a ser ocupado por outro. Esse lugar é o discurso que se faz renovado. Um ato perlocutório se produz, pois o que era cena é 

A CADEIRA VAZIA

 

O pé deixou

 

a marca póstuma
posfácio
da
pre
tensão.

 

            E quem de alguma forma participou do episódio se faz modificado por esse ato e sai à procura de um novo discurso. "A cadeira está vazia" e esse Enunciador busca

 

A ROUPA NOVA DO REI

 

No desnudamento

pudico

e acusador

o menino apropria-se

da capa

e ao vesti-la

desveste-se

num reluzir de sedução.

 

            0 fechamento do livro é não só ato perlocutório, mas a percepção de que nesse império das ciências, no qual o discurso da persuasão determina a ética das escrituras, o poeta, meio menino, meio ladrão, lúcido da nova roupagem das narrativas dos eventos do cotidiano, comprometidas com códigos de defesa de consumidores, experimenta-as, para desnudar-se em sedução. A antítese da abertura a enunciar a descrença reaparece, elevando a fé, modalizadora do discurso da sedução, ao posto de ponto a ser atingido. O trajeto percorrido, no entanto, é o científico - a tese é válida à medida que resiste às negações. Ao negar a fé no verso, o poeta vence obstáculos de vazio, caos, acidez, sombras... até concluir o obvio, não mais percebido pelos homens comuns - o que tem valor é a crença.

            Por mares navegados não parte da evocação, do chamado de algum lugar, das naus, mas de invocações aos nomes que relatam os feitos grandiosos dos falantes dessa língua que se constitui como conquista - Camões, Gonçalves Dias, Fernando Pessoa, Sérgio Buarque de Holanda e Plínio Freire Gomes. Novamente a preocupação académica aparece na produção literária. O poeta não se distancia do teórico, do historiador da literatura, do historiador da cultura brasileira.

 

HENEQUIM

(A Plínio Freire Gomes)

 

Estas minas estão bastante infestadas do demónio:
nas freguesias móveis,
como os filhos de Israel no Deserto,

vai,

navegando Mares,

andando Terras,

tratando com gentes,

examinando árvores

e os seus frutos.

Eis que todos constituem

um só povo

e falam

uma só língua.

 

            Do canto aos eventos heróicos do povo dessa língua, povo de viagens e descobertas, restam as justificativas para essas vontades expansionistas. Expansão territorial, conquista dos mares do mundo, derrubada dos grandes medos e monstros e gigantes que impediam a ampliação do mundo, encarregou-se Camões de narrá-las. A uma normatização, uma divulgação, uma crença e uma burocracia, tudo na dependência de doses de sensibilidade para fugir do academicismo.

            Por isso, se os sujeitos que produzem os fazeres poéticos, embora sejam determinados por regras literárias, que são as superestruturas possíveis na poesia contemporânea, podem recusar uma formação acadêmico-científica para a utilização das normas de criação da poesia, para partir em busca, por exemplo, de uma poesia pertencente a todos, sem fronteiras, com a clara noção de que mesmo que essa utilização aconteça presa a normas institucionais, estas não são estáticas, mas amoldáveis, em processo permanente de acomodação às novas demandas, estas, ditadas pelas resistências dos sujeitos discursivos, e imediatamente assumidas pelas instituições e, a partir de então, controladas por essas instituições e transformadas em discursos pedagógicos da literatura, nem sempre nas formas das universidades atuais, mas em regras académicas, cartilhas de procedimentos poéticos, arcádias com súmulas determinadas que funcionam como abertura de portas para a criação literárias, às vezes sem a devida consciências das modificações profundas que provocam nas estruturas institucionais. As academias produzem críticas, sabendo que essas críticas tomam-se motivos para a emergência de novas regras institucionais. Da mesma forma que acontece na literatura e na crítica literária, outras instituições criam seus mecanismos de modificações permanentes das normas vigentes. Uma vez o costume criado, a crítica literária não pode mais recusar as vozes das transgressões, mas continuará a cobrar projetos literários afinados com as tendências, tendo que identificar o surgimento de novidades que poderão se tomar referência para grupos de produções - aos quais a teoria tradicional chama de escola.

            O projeto de Comitti é o da expansão discursiva - o discurso português retomando a rota precisa dos grandes navegadores neste mar bravio chamado mundo revolto de final do segundo milénio. A falta de vida privada cria a necessidade de busca de vida interior e de criação de novas fábulas. O final disso ainda é o discurso vazio que nos abriga e nos desabriga em busca dos brasis embrenhados nas nossas buscas de pátrias e nações e povos.

Essa expansão discursiva - temática, estética e linguística -proposta por Comitti, embora contaminada pela formação teórica do autor, demasiadamente lúcida na forma, compulsoriamente rígida na lógica, marcada pela determinação clara de tempo e espaço e distribuição das vozes enunciativas, é igualmente expressão de liberdade na produção textual, sem as amarras das velhas fórmulas. O mérito é perceber essas fórmulas aplicadas em novas roupagens, atribuindo ao poeta Comitti a caracterização de poeta maduro, possuidor de autonomia discursiva e textual.

 

ESSE PROJETO É DESEMBARQUE

 

Ávido olhar
Palavras caem
no papel do chão
como tijolos inúteis

 

Telhas vivas
sob o céu de sol
sem traços

Resta-nos, entre escombros, ficar olhando, de longe, o mar.

 

Ao concluir para esta mesa de homens sérios que a poesia de hoje requer projetos, aproveito os próprios versos de Comitti para dizer que ela não requer homens sérios, muito menos projetos sérios. Basta ter projetos. Se essa proposição é frouxa, talvez frívola, resta-nos a fé no verso, resta-nos os projetos de sedução. Hido mais é vão.

 

 

Notas:

COMITTI, Leopoldo. Fundo Falso. Mariana: Gráfica Mariana, 1997.

COMITTI, Leopoldo. Por mares navegados. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999-

LÊDO IVO, O aluno relapso. São Paulo: Massao Ohno, 1991

 

 

Página publicada em fevereiro de 2019


 

 

 
 
 
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