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POESIA BARROCA  PORTUGUESA


VIOLANTE MONTESINO
(1602-1693)

 

Sóror Violante do Céu era uma freira dominicana que na vida secular se chamava Violante Montesino. Professou no convento de Nossa Senhora do Rosário da Ordem de S. Domingos em 1630.

Aos 17 anos, celebrizou-se ao compor uma comédia para ser representada durante a visita de Filipe II a Lisboa. Também se dedicou à música como instrumentista, tocando, como consta, harmoniosamente harpa.

Todavia, foi sobretudo na poesia que se distinguiu, sendo hoje reconhecida como um dos expoentes máximos da lírica barroca em Portugal.

Conhecida pelos meios culturais da sua época como Décima Musa e Fénix dos Engenhos Lusitanos , cultivou a vertente conceptista do Barroco, que assentava, essencialmente na construção mental e na elegância da subtileza, exibindo um estilo muito mais intelectualizado do que o admitiria o preconceito sentimentalista feminino. Profundamente entrosada no espírito da Fénix Renascida , exibe nas suas composições uma dialéctica idealista que procura concretizar o impossível, transformar a morte na vida, a tristeza na alegria.

Intelectualizou ainda escolasticamente alguns temas líricos, nos quais revela muitas vezes alguns acentos de sinceridade, como é o caso dos versos que dedica a um incógnito Silvano:

Se apartada do corpo a doce vida, Domina em seu lugar a dura morte, De que nasce tardar-me tanto a morte Se ausente da alma estou, que me dá vida? Não quero sem Silvano já ter vida, Pois tudo sem Silvano é viva morte, Já que se foi Silvano, venha a morte, Perca-se por Silvano a minha vida. Ah! Suspirado ausente, se esta morte Não te obriga querer vir dar-me vida, Como não ma vem dar a mesma morte? Mas se na alma consiste a própria vida, Bem sei que se me tarda tanto a morte, Que é porque sinta a morte de tal vida.  

Bibliografia: Rimas, 1646; Parnaso Lusitano de Divinos e Humanos Versos, 1733; e algumas composições poéticas publicadas na Fénix Renascida.
Fonte: Infopedia

 

A DONA MARIANA DE LUNA                                                

Musas, que no jardim do Rei do dia
Soltando a doce voz, prendeis o vento:
Deidades, que admirando o pensamento
As flores aumentais, que Apolo cria.
Deixai, deixai do Sol a companhia,
Que fazendo invejoso o Firmamento
Uma Lua, que é sol, e que é portento,
Um jardim vos fabrica de harmonia.
E porque não cuideis que tal ventura
Pode pagar tributo à variedade
Pelo que tem de lua a Luz mais pura:
Sabei que por mercê da divindade
Este jardim canoro se assegura
Com o muro imortal da eternidade.

 

AO AMADO AUSENTE                                 

Se apartada do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte,
Se ausente d’alma estou, que me dá vida?
Não quero sem Sylvano já ter vida,
Pois tudo sem Sylvano é viva morte;
Já que se foi Sylvano venha a morte,
Perca-se por Sylvano a minha vida.
Ah, suspirando ausente, se esta morte
Não te obriga a querer vir dar-me vida.
Como não vem dar-me a mesma morte?
Mas se n’alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é porque sinta a morte de tal vida.


SONETO

Que suspensão, que enleio, que cuidado
É este, meu tirano deus Cupido?
Pois tirando-me enfim todo o sentido,
me deixa o sentido duplicado.
Absorta no rigor de um duro fado
Tanto de meus sentidos me divido,
Que tenho só de vida o bem sentido,
E tenho já de morte o mal logrado.
Enlevo-me no dano, que me ofende,
Suspendo-me na causa de meu pranto,
Oh cesse, cesse amor, tão raro encanto,
Que para quem de ti não se defende,
Basta menor rigor, não rigor tanto.

 

Página publicada em agosto de 2010

 

 


 

 

 
 
 
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