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BOCAGE

 

 

 

Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage (Setúbal, 15 de Setembro de 1765 — Lisboa, 21 de Dezembro de 1805) foi um poeta português e, possivelmente, o maior representante do arcadismo lusitano. Embora ícone deste movimento literário, é uma figura inserida num período de transição do estilo clássico para o estilo romântico que terá forte presença na literatura portuguesa do século XIX.

 

 

Autorretrato

 

Magro, de olhos azuis, carão moreno,

Bem servido de pés, meão na altura,

Triste de facha, o mesmo de figura,

Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,

Mais propenso ao furor do que à ternura;

Bebendo em níveas mãos, por taça escura,

De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades

(Digo, de moças mil) num só memento,

E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage, em quem luz algum talento;

Saíram dele mesmo estas verdades,

Num dia em que se achou cagando ao vento.

 

 

MEU SER EVAPOREI NA LIDA INSANA

                                                                          

Meu ser evaporei na lida insana

Do tropel de paixões que me arrastava;

Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava

Em mim quase imortal a essência humana.

 

De que inúmeros sóis a mente ufana

A existência falaz me não doirava!

Mas eis sucumbe a natureza escrava

Ao mal que a vida em origem dana.

 

Prazere, sócios meus, e meus tiranos!

Esta alma, que sedenta em si não coube,

No abismo vos sumiu dos desenganos.

 

Deus, ó Deus! Quando a morte a luz me roube,

Ganhe um momento o que perderam anos,

Saiba morrer o que viver não soube.

 

 

JÁ BOCAGE NÃO SOU! . . . À COVA ESCURA

                                                                                             

Já Bacage não sou!. . . Á cova escura

Meu estro vai parar desfeito em vento. . .

Eu aos Céus ultraje! O meu tormento

Leve me torne sempre a terra dura.

 

Conheço agora já quão vã figura

Em prosa e verso fez meu louco intento:

Musa! . . . Tivera algum merecimento

Se um raio da razão seguisse pura!

 

Eu me arrependo; a língua quase fria

Brade em alto pregão à mocidade,

Que atrás do som fantástico corria:

 

Outro Aretino fui . . . A santidade

Manchei! . . . Oh! Se me creste, gente ímpia,

Rasga meus versos, crê na eternidade!

 

 

SONETO  IX

                                                                                    

Arreitada donzela em fofo leito

Deixando erguer a virginal camisa,

Sobre as roliças coxas se divisa

Entre sombras sutis pachocho estreito:

 

De louro pêlo um círculo imperfeito

Os papudos beicinhos lhe matiza;

E a branda crica, nacarada e lisa,

Em pingos verte alvo licor desfeito:

 

A voraz porra as guelras encrespando

Arruma a focinheira e entre gemidos

A moça treme, os olhos requebrando:

 

Como é ainda boçal perde os sentidos;

Porém vai com tal ânsia trabalhando,

Que os homens é que vêm a ser fodidos.

 

 

DOS TÓRRIDOS SERTÕES, PEJADOS D’OURO

                                                                                    

Dos tórridos sertões, pejados d’ouro,

Saiu um sabichão d’escassa fama,

Que os livros preza, os cartapácios ama,

Que das línguas repartem o tesouro:

 

Arranha o persiano, arranha o mouro,

Sabe que Deus em turco Alá se chama;

Que no grego alfabeto o G é gama,

Que taurus em latim quer dizer touro:

 

Par papaguear saiu do mato:

Abocanha talentos, que não goza;

É mono, e prega unhadas como gato:

 

É nada em verso, quase nada em prosa:

Não conheces, leitor, neste retrato

o guapo charlatão Tomé Barbosa?

 

 

CAMÕES, GRANDE CAMÕES, QUÃO SEMELHANTE

                                                                                    

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa nos fez perdendo o Tejo

Arrostar c’o sacrílego gigante:

 

Como tu, junto ao Ganges sussurrante

Da penúria cruel no horror me vejo;

Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,

Também carpindo estou, saudoso amante:

 

Ludibrio, como tu, da sorte dura

Meu fim demando ao Céu, pela certeza

De que só terei paz na sepultura:

 

Modelo meu tu és... Mas, ó tristeza!. . .

Se te imito nos trances da ventura,

Não te imito nos dons da natureza.

 


PAIXÃO POR BOCAGE E UM OLHAR SEMPITERNO

resenha, por Antonio Miranda

 

BRAGA, Fernando.  Elmano, o injustiçado cantor de Inês. (Um olhar sobre a
            controvertida figura do poeta português Manuel Maria de Barbosa du  
            Bocage).
2ª ed.  Caldas Nova, Goiás: 2010.  115 p. 

 

         Os seis tomos das obras completas de Bocage vieram de Portugal na bagagem do pai José Ernani dos Santos, que aportou em São Luís do Maranhão, edição de “MDCCCLIII”, revestidos em couro,  e Fernando Braga lia-os a intervalos desde a infância. Recebeu-os de presente quando saiu pelo mundo para formar sua própria carreira e a relação com a obra avivou-se numa construção pessoal de leituras e releituras até firmar-se num estudo que apareceu à época do 5º Centenário do Descobrimento do Brasil, em 2000. Agora reaparece numa 2ª edição, do autor, em Caldas Novas, paraíso das águas quentes de Goiás. Pretendeu dar forma “a um condensado para leitura mais breve e o entendimento mais objetivo de quem possa interessar-se pela obra do poeta” com falsa modéstia (nem tinha razão para tal...) “se para tanto não me acudirem , como deviam, o engenho e arte”.

         Tudo a ver com a figura entre real e legendária de Inês de Castro, a infortunada dama degolada em 1357, em ação da monarquia portuguesa,  para “evitar que a influência de Castela não se tornasse preponderante no reino”, por ser a apaixonada do Príncipe Dom Pedro. Tornou-se rainha depois de morta como vingança quando o príncipe chegou ao trono.  Todo mundo sabe que Inês se transformou no tema de historiadores, prosadores e vates da língua portuguesa como a tragédia de um rei e de um reino! Bocage não foi exceção.

         “Elmano, o injustiçado cantor de Inês” refere-se ao nome arcádico de Elmano Sadino, sendo Elmano o anagrama de Manuel, e Sadino, o adjetivo referente ao rio Sado que banha a cidade de Setúbal, onde o poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage nasceu, nos informa  Fernando Braga, que se dispôs a estudar os aspectos socioeconômicos da vida setecentista em que o poeta viveu. Propôs-se também a “converter para a ortografia atual, os castiços termos da grafia semântica incompreensível, por vezes, e uma sintaxe moldada no estilo clássico, o que motivaria, se as mantivessem, despropositar a clareza do perceptível”.

         O livro de Fernando Braga é, pois, uma peça chave para os leitores do grande poeta que, além da fama de blasfemo, pornográfico e satírico, foi sobretudo religioso e lírico, nessa questão dos eus do ente poético que fazem a história dos gênios.

         Não poderíamos encerrar uma resenha breve de agradecimento ao autor pelo envio do livro, sem recorrer a um dos poemas de Bocage (como Elmno Sadino) dedicado justamente a Inês:

 

Da triste, bela Inês, inda os clamores
Andas eco chorosa, repetindo;
Inda aos piedosos céus andas pedindo
Justiça contra os ímpios matadores;

Ouve-se ainda na Fonte dos Amores
De quando em quando as Náiade carpindo,
E o Mondego, no caso refletindo,
Rompe irada a barreira, alaga as flores:

Inda alto hinos o universo entoa
A Pedro, que da morte formosura
Convosco, Amores, ao sepulcro voa:

Milagre da beleza, e da ternura!
Abre, desce, olha, geme, abraça e croa
A malfada Inês na sepultura.
 

 

3 CARTÕES ILUSTADOS COM SONETOS DE BOCAGE:

Editora: ARCA DOCE - Praça do Bocage –Setúbal, Portugal 

 

Aquela, que na esfera luminosa
precedendo a manhã, qual astro brilha;
Mãe dos Amores, das espumas filha,
Que o mar na concha azul passeia airosa,

Apenas viu sorrir Nise formosa,
A quem dos corações o deus se humilha;
Do cinto desatando a áurea presilha,
No regaço lho pôs, leda, e mimosa.

Não te é (lhe diz) bem sei, não te é preciso;
Para atrair vontades à ternura
Basta-te um gesto, basta-te um sorriso;

Mas deves possuí-lo ó Ninfa pura.
Como trofeu, que dê ao Mundo aviso
De que Vénus te cede em formosura
.

 

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Pode o tosco pincel, que mal sustento,
Pintar ousado divinal belleza?
Oh! Quanto fôra temerária empreza!
Pagára içaria sorte o louco intento.

Não pinta humana penna um tal portento,
Milagre da sublime Natureza;
Tens mais alto pintor, que não despreza
Pintar-te ... a mão, que fez o firmamento:

Tanto não posso, ó d'entre as bellas bella;
E baixará dos céus fiel soccorro
P'ra traçar-te a paixão, que me flagella?

Deliro, amável Jonia; em vão discorro;
Confunde-me a afflicção que me atropella,
Mal sei balbuciar que por ti morro.

 

Vista geral de Setúbal em 1688 do livro “Viagens de Cosme de Médicis, por España y Portugal 1688-1669”. Editado e anotado por Angel Sanchez Rivero. Desenho de Pierre Baldi. Estampa Li.  Formato 53 x 20, em duas pranchas, Fototipia Hause y Manet, Madrid. 

 

Afflicto coração, que o teu tormento,
Que os teus desejos tácito devoras,
E ao doce objecto, às perfeições que adoras
Só te vás explicar c'o pensamento:

Infeliz coração, recobra alento,
Sécca as inúteis lágrimas, que choras;
Tu cevas o teu mal, porque demoras
Os vôos ao ditoso atrevimento.

Inflamma surdos ais, que o medo esfria;
Um bem tão suspirado, e tão subido,
Como se ha-de ganhar sem ousadia?

Ao vencedor afoute-se o vencido;
Longe o respeito, longe a cobardia;
Morres de fraco? Morre de atrevido.

 

Setúbal (S t. Hubes) do livro Scenary of Portugal & Spain
por G. Vivian, Esg re on, Stone, 1839.  — Litografia Colorida
 Formato 26 x 39

 

  Página ampliada e republicada em outubro de 2018

 

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