RICARDO ALCÂNTARA
Ricardo César Alcântara Weyne;
Poeta, escritor e publicitário.
Nació en Ceará, Nordeste de Brasil, em 1957. Ha publicado, entre otros libros: A colméia e seus idiomas (1986), Abre as asas sobre nós (1987) e Você faz isso melhor que ninguém (1993).
TEXTO EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
Um Blues em Puerto Ordaz
Um solo de sax empresta um elegância brutal
à solidão de um estrangeiro em trânsito.
É suave sofrer ao som de um blues.
A noite é esse lago sem margem,
mina de onde vem todo o azul.
O bar da esquina. O sax na calçada.
Melancolia néon. A mulher que passa e não me olha.
Toda beleza é uma impiedade:
Que são minhas virtudes, Senhor,
diante de tão belas pernas?
As estrelas se movem sobre Puerto Ordaz
como dados mágicos de um jogador sutil.
ALCÂNTARA, Ricardo. Você faz isso melhor do que ninguém. Ilustrado por Mario Sanders. São Paulo: Massao Ohno / R. Gadelha editores, 1992. s.p. Capa: BP Arquitetura. Foto do autor: Raquel Gadelha. Arte final: Hilson Rocha. Impressão: Palas Athena. Formato 15x15 cm.
Acomodar o corpo
aos espaços de sempre.
“Chegamos” — dito
após alguns dias
longe de casa.
Abro os braços.
Vejo se aqui
ainda me cabe.
*
Amor por tabela.
Garantias
a vida não dá.
Disse algo assim
e contou nos dedos
os dias
que faltavam.
*
O olhar
de quem
se ama
já tem
o mapa
da cama.
Extraído de
O SACO – 4º. CADERN0 – No. 4 – SETEMBRO – 1976. p. 4
Revista mensal de cultura. Fortaleza, CE: OPÇÃO Editora Promoções e Publicidade Ltda.
OFICINA ABSTRATA
Essa pedra de silêncio diluída
na nudez serena das escadas
Esse medo antigo adormecido
na voz oculta a cada instante
O íntimo martírio concentrado
no momento amargo de renúncia
A esperança esparsa clareando
o tédio interno dos sentidos
LUA DE BOLSO
Penduro o fraque
no cabide invisível
das constelações.
Busco a lua de bolso
mas, melancólica,
ela vaga na antiga
cidade do interior.
Íris é o arco da noite
que tem flores
mas ninguém pode ver.
DESERTO VERMELHO
No deserto vermelho
dormem todos os mortos
A verdadeira manhã
, no deserto vermelho
No deserto vermelho
o fogo geral do fogo
a ausência do muro
no deserto vermelho
JARDIM EXTERMINADO
A infância fragmentada nas distâncias
na essência desse medo e na memória.
Restou a cinza do ocaso envolvendo
o perfil noturno da paisagem. As horas
passam largas no jardim exterminado.
Restou, entre trilhos, na distância
impenetrável, o sol partido em
ecos de fogo embotando o caminho.
PÃO & CIRCO
As veias da cidade
jorram milhares
de milímetros cúbicos
de história no mar. Na
calçada, a ingênua
procissão dos velocípedes.
CAVALOS AFLITOS
O eterno sigilo da conquista
dos brilhantes cosmos deserdados
habita cada pânico infantil
dos homens estranhos que vagam
com seus casacos vermelhos
na madrugada das vinganças
como cavalos aflitos na chuva
e levam guardados no bolso
sempre suas flores rejeitadas
e fotos de antigos incidentes.
TEXTOS EN ESPAÑOL
Traducciones de Noé Pardo H.
Un blues en Puerto Ordaz
Un solo de sax da una elegancia brutal
a la soledad de un extranjero em tránsito.
Es fácil sufrir al son de un blues.
La noche es ese lago sin orilla,
mina de donde viene todo el azul.
El bar de la esquina. El sax em la calzada.
Melancolía de neón. La mujer que pasa y no me mira.
Toda belleza es una impiedad:
¿Cuáles son mis virtudes, señor,
delante de tan bellas piernas?
Las estrellas se mueven sobre Puerto Ordaz
como dados mágicos de um jugador sutil.
Literatura
Hay iempo en que el desierto
avanza sobre los halos de la noche
y amanece en mi puerta.
Fiel como uma sombra,
voy a ejercer la geometria
del delito. Toco ausências
y todo lo que esta mano toca
se puebla de intenciones.
Página publicada em novembro de 2008
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