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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 

AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT

(1906-1965)

 

 

Nasceu e viveu grande parte de sua vida no Rio de Janeiro, tendo iniciado seus estudos na Suíça e vivido um período em São Paulo, no auge do Modernismo sem, no entanto, deixar-se entusiasmar muito pelos manifestos e vanguardismos. Foi, em certo sentido, um pragmático, um homem de negócios de grande sucesso e político de notoriedade. Um paradoxo, considerando seu espírito mais sentimental e religioso, seu sentimento lírico e misterioso, de excelência e profundidade. Obras: Canto do Brasileiro (1928), Cantos do Liberto A. F. S. (1929), Pássaro Cego (1930), Desaparição da Amada (1931), Mar Desconhecido (1942), Fonte Invisível (1949) e Caminho do Frio (1964), além de suas Poesias Completas de 1956.

 

 

(Página publicada com motivo do Centenário do nascimento do poeta.)

 

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL

TEXTS IN ENGLISH

 

 

De
AMOR, CANTO SEGUNDO.
Poemas de Augusto Frederico Schmidt, Cassiano Ricardo,
João Cabral de Melo Neto, Dante Milano, Jorge de Lima, Lêdo Ivo, Mário Quintana,
Murilo Mendes, Paulo Mendes Campos e Péricles Eugênio da Silva Ramos;
desenhos de Augusto Rodrigues
.
 Rio de Janeiro: Alumbramento, 1976.
18x26cm, caixa e capa solta contendo 7 cadernos; tipos de caixa Garamond;
 impressão serigráfica da capa em papel Ingres Cover Fabriano
e texto e ilustrações em papel Ingres-Fabriano.

 

 

VEJO A AURORA SURGIR


Vejo a aurora surgir nesses teus olhos
Ainda há pouco tão tristes e sombrios.
Vejo as primeiras luzes matutinas
Nascendo, aos poucos, nos teus grandes olhos!

 

Vejo a deusa triunfal chegar serena,

Vejo o seu corpo nu, radioso e claro,

Vir crescendo em beleza e suavidade

Nas longínquas paragens dos teus olhos.

 

E estendo as minhas mãos tristes e pobres

Para tocar a imagem misteriosa

Desse dia que vem, em ti, raiando;

 

E sinto as minhas mãos, ó doce amada,

Molhadas pelo orvalho que roreja

Do teu olhar de estranhas claridades!

 

 

 

ESTRELA MORTA

 

Morta a Estrela que um dia, solitária,

Nasceu em céu sem termo.

Morta a Estrela que floriu nos meus olhos.

Morta a Estrela que olhei na noite erma.

Morta a Estrela que dançou diante dos nossos olhos,

A Estrela que descendo acendeu este amor

Morta a Estrela que foi para o meu coração,

Como a neve para os ninhos

Como o pecado para os santos

Como a ausência de Deus para os condenados.

 

                               (Canto da Noite, 1934)

 

 

 

POEMA (ERA UM GRANDE PÁSSARO…)

 

Era um grande pássaro. As asas estavam em cruz, abertas para os céus.

A morte, súbita, o teria precipitado nas areias molhadas.

Estaria de viagem, em demanda de outros céus mais frios!

Era um grande pássaro, que a morte asperamente dominara.

Era um grande e escuro pássaro, que o gelado e repentino vento sufocara.

Chovia na hora em que o contemplei.

Era alguma coisa de trágico,

Tão escuro, e tão misterioso, naquele ermo.

Era alguma coisa de trágico. As asas, que os azuis queimaram,

Pareciam uma cruz aberta no úmido areal.

O grande bico aberto guardava um grito perdido e terrível.

 

                               (Estrela Solitária, 1940)

 

A PARTIDA*

 

Quero morrer de noite —
         As janelas abertas,
Os olhos a fitar a noite infinda.

Quero morrer de noite —
         Irei me separando aos poucos,
Me desligando devagar.
A luz das velas moldará meu rosto lívido.

Quero morrer de noite —
         As janelas abertas,
Tuas mãos chegarão água aos meus lábios
E meus olhos beberão a luz triste dos teus olhos,
Os que virão, os que ainda não conheço,
         Estarão em silêncio,
         Os olhos postos em mim.

Quero morrer de noite —
         As janelas abertas,
Os olhos a fitar noite infinda.
         Aos poucos me verei pequenino de novo, muito pequenino.
O berço se embalará na sombra de uma sala
E na noite, medrosa, uma velha coserá um enorme boneco.
Uma luz vermelha iluminará o dormitório
E passos ressoarão quebrando o silêncio.

Depois na tarde fria um chapéu rolará numa estrada...

Quero morrer esta noite —
         As janelas abertas.
Minha alma sairá para longe de tudo, para bem longe de tudo.

E quando todos souberem que já não estou mais
E que nunca mais voltarei,
Haverá um segundo, nos que estão
E nos que virão, de compreensão absoluta.

                   (De Navio Perdido)

 

A AUSENTE*

Os que se vão, vão depressa,
Ontem, ainda, sorria na espreguiçadeira.
Ontem dizia adeus, ainda, da janela.
Ontem vestia, ainda, o vestido tão leve cor-de-rosa.

Os que se vão, vão depressa.
Seus olhos grandes e pretos há pouco brilhavam.
Sua voz doce e firme faz pouco ainda falava,
Suas mãos morenas tinham gestos de bênçãos.
No entanto hoje, na festa, ela não estava.
Nem um vestígio dela, sequer,
Decerto sua lembrança nem chegou, como os convidados —
Alguns, quase todos, indiferentes e desconhecidos.

Os que se vão, vão depressa.
Mais depressa que o s pássaros que passam no céu,
Mais depressa que o próprio tempo,
Mais depressa que a bondade dos homens,
Mais depressa que os trens correndo nas noites escuras,
Mais depressa que a estrela fugitiva
Que mal faz um traço no céu.
Os que se vão, vão depressa.
Só no coração do poeta, que é diferente dos outros corações,
Só no coração sempre ferido do poeta
É que não vão depressa os que se vão>

Ontem ainda sorria na espreguiçadeira,
E o seu coração era grande e infeliz.
Hoje, na festa ela não estava, nem a sua lembrança.
Vão depressa, tão depressa os que se vão...

                   (De Pássaro Cego)


LUCIANA*

As raparigas que dançavam,
Luciana, a pálida, todas
Como frutos apodrecerão
Porque só há um destino
Com muitos caminhos, embora.

Depois outras raparigas é que dançarão.
Luciana passará com o seu sorriso triste,
Suas mãos brancas repousarão —
Porque só há um destino
Com muitos caminhos, embora.

Cada um conhece o seu destino:
Luciana, a pálida, e as outras também,
Todas as raparigas que dançavam —
Cada um traz seu destino no rosto,
No rosto de Luciana e das outras também.

Em breve, todas as figuras mudarão:
Serão outras, tudo terá passado —
Os homens e as mulheres, o salão,
Os móveis — nem lembrança sequer restará.
Luciana terá desaparecido como a poeira da estrada>
Como a poeira, o tempo dispersará a fisionomia de Luciana:
E — atentai bem — Luciana não se repetirá.
Ninguém se repete no tempo. Cada um é diferente.
Cada um existe uma vez só e não é substituído.
Contemplai bem, pois, Luciana, que não se repete.

                  (De Pássaro Cego)

 

 

SONETO AO ADORMECIDO*

Como não te sorrir, ó adormecido,
E como não chorar sobre nós mesmos!
Como não se alegrar ao contemplar-te,
E não entristecer em nós pensando?

Como não perceber que a vida impura
Se conservou de ti distante e ausente
E em nós vingou seus ásperos desejos,
Seus caprichos terríveis e suas mágoas?

Como não te sorrir, morto e inocente
Cansado de brincar, se está liberto
Do destino de ter nosso destino?

Como não alegrar com a tua sorte,
Se nunca hás de chorar sobre ti mesmo,
Sobre a tua inocência e os teus brinquedos?

                   (De Mar Desconhecido)


*No julgamento de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, que organizaram a extraordinária “Antologia das antologias: 101 poetas brasileiros “revisitados””  Prefácio de Alfredo Bosi (São Paulo: Musa Editora, 1995.  ISBN 85-85653-05-1, estes são os poemas do autor que mais foram incluídos em antologias anteriores, com o cuidado de cotejo dos textos para uma versão definitiva.  Recomendamos a obra, hoje acessível em bibliotecas.

 

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Augusto Frederico Schmidt

De
Augusto Frederico Schmidt
BABILÔNIA
Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959
104 p.




XXX


São enviadas do Mal que me perseguem
E me oferecem prendas e folguedos
Dançam comigo, levam-me sorrindo
Para os abismos louros e sedosos.

Essas mulheres que me telefonam,
Meu sono interrompendo em horas mortas,
E batem na calada à minha porta
Um abrigo em meu leito procurando;

Todo esse arfar de perfumados
Corpos vem da fonte do mal,
E tenta me envolver em sortilégio

Caio em pecado, mas a aurora nasce
E limpa de minha alma a escura mancha
De ter faltado a Deus, que a mim não falta.


LXIV

 

Saudades do passado já distante
O procuravam, vinham visitá-lo
Trazidas pelas águas da memória,
De sítios quietos do país natal.

Ouvia marulhar as ondas mansas,
E sentia o perfume das roseiras
E jasmineiros dos jardins destruídos
Da ilha em que vivera a juventude.

Sentia arfar de Simoneta o peito,
De volta dos passeios pelas praias,
De bicicleta. E o rosto ardente

E úmido do seu primeiro amor
Tentava tocar com as mãos e os lábios,
Mas sentia envolvê-lo poeira e cinza.

 

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Uma das mais belas homenagens da Poesia Brasileira prestadas ao poeta latino VIRGÍLIO, segundo Nogueira Moutinho:

 

Uma das mais belas homenagens da Poesia Brasileira prestadas ao poeta latino VIRGÍLIO, segundo Nogueira Moutinho

 

SONETO A VIRGÍLIO

 

Nesta hora em que o mundo em desespero

Busca os fundos e ásperos abismos,

Como é suave consolo às almas tristes

Ouvir a tua voz humana e eterna!

 

Poeta de alma tão pura e olhar tão doce,

Cantor das almas simples e saudáveis,

Pai de Enéías, o herói piedoso e esquivo,

E dessa Dido, cujo drama ainda

 

Aos nossos corações tanto enternece.

Cristão antes de Cristo, a quem sentiste

Nas entranhas de um tempo inatingido.

 

Poeta e cantor da Paz, alma sensível,

Dá-nos do teu Amor as claras lágrimas

Para conforto de tão duras penas.

 

 

Extraído de: VIRGÍLIO.  Bucólicas.  Trad. de Péricles Eugênio da Silva Ramos.  São Paulo: Melhoramentos; Brasília: Editora da UnB, 1982.   169 p.  ilus.

 

 

De
SCHMIDT, Augusto Frederico.
Fonte invisível. Poesia.
Capa de Santa Rosa. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1949.  236 p.

 

 

SEBASTIÃO

O coração rolava sobe as lajes,.
A cabeça peluda morava na tarde,
Caía sobre a noite,
Brilhava com um soluço!
Quem falará do pássaro Sebastião
Sem estremecer?
Das suas mãos escuras,
Maceradas pelas tarefas anônimas
Do seu olhar gordo, úmido.

Quem falará do prisioneiro Sebastião,
Da sua fidelidade,
Dos seus soluços —
O ramo de flores humildes
Nas mãos anônimas,
Nas mãos maceradas pelos trabalhos,
Pelas humilhações
E pelas tristezas?


O LÍRIO

Meditavas na morte,
Ou descansavas,
Do mundo, de suas penas
E cuidados?
Eras um lírio,
Um lírio pleno,
Sobre os velhos túmulos.

Eras um lírio,
Esguio e puro.,
A descansar da vida
E seus enganos,
Eras um lírio
Debruçado sobre a escura morte.

 

 

 

 

SCHMIDT, Augusto Frederico.  Sonetos. Rio de Janeiro: Rio Gráfica e Editora, 1965.  304 p.  ilus.  16,5x23,5 cm.  Ilustrações fora de texto: Hedda Salles, Anna Bella, Laszlo Meitner (autor da capa) e no texto por Alma Bella e Gian.  “ Augusto Frederico Schmidt “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

 

 

 

Ilustre e altiva raça lusitana,

Criadora e tenaz, modesta e sóbria,

Sempre disposta estás a olhar de frente

O destino, por mais amargo e duro!

 

Raça oriunda de Luso, esse pastor

Filho de Baco e rei da última Tule,

Raça contida em terra tão pequena,

E que no incerto mar mundos colheste.

 

A contemplar o Atlântico deserto,

Vives sempre a rever, verdes caminhos,

Por onde os teus varões se assinalaram.

 

Povo de poetas e de marinheiros,

Que nos legaste o nosso Deus eterno

E a nobre e rude língua em que falamos.

 

 *

 

Depois de longa viagem, de repente

O porto, as tristes luzes a distância.

Depois do mar, tão íntimo, de novo

A terra, o mundo, as ambições mesquinhas.

 

Depois dos ares puros do mar alto,

O desconsolo de voltar a terra,

Cheia de perigosos e traiçoeiros

Enganos e ilusões; de novo o mundo!

 

Ah! por que não fiquei na sepultura

De frias e fundas águas solitárias

Pelas luzes do céu, tão-só, velado?

 

Ah! por que não deixei meu ser mesquinho

Descer à pátria nunca descoberta

No coração do oceano impenetrável?

 

 

 

SCHMIDT, Augusto FredericoHomenagem Augusto Frederico Schmidt.  Org. Adalberto Queiroz.   Goiânia, GO: Caminhos;  ACIEG; UBE-GO, 2015.  s.p. 10x15 cm.   “1ª Noite Cultural ACIEG 21-05-2015”.  “ Augusto Frederico Schmidt “  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

SONETO

 

QUERO SENTIR O GRANDE MAR, VIOLENTO E PURO.

Quero sentir o mar noturno e enorme.  

Quero sentir o silêncio, o áspero silêncio do mar!

Quero sentir o mar! Quero viver o mar!

 

Quero receber em mim o grande e escuro mar!

Não o mar-caminho, mas o mar-destino,  

O mar, fim de todas as coisas,    

O mar, túmulo fechado para o tempo.

 

Quero o mar! O mar primitivo e antigo,

O mar virgem, despovoado de imagens e de lendas,

O mar sem náufragos e sem história.

 

Quero o mar, o mar purificado e eterno,

Q mar das horas iniciais, o mar primeiro,

Espelho do Espírito de Deus, rude e terrível!

 

                                       (Sonetos, 1965)

 

 

 

 

 

 

TEXTOS EN ESPAÑOL

 

Traducciones de Anderson Braga Horta, Dámaso Alonso y Ángel Crespo.

 

 

 

ESTRELLA MUERTA

 

Trad. de Anderson Braga Horta

 

Muerta la Estrella que un día, solitaria,

Nació en el cielo sin término.

Muerta la Estrella que floreció en mis ojos.

Muerta la Estrella que miré en noche yerma.

Muerta la Estrella que danzó ante nuestros ojos,

La Estrella que bajando encendió este amor.

Muerta la Estrella que fue para mi corazón

Como la nieve para los nidos

Como el pecado para los santos

Como la ausencia de Dios para los condenados.

 

                               (Canto da Noite, 1934)

 

 

POEMA (ERA UN GRAN PÁJARO)

 

Trad. de Anderson Braga Horta

 

 

Era un gran pájaro. Sus alas estaban en cruz, abiertas hacia los cielos.

La muerte, súbita, lo habría precipitado a las arenas mojadas.

¡Estaba de viaje, procurando cielos más fríos!

Era un gran pájaro, que la muerte ásperamente había dominado.

Era un grande y oscuro pájaro, que el helado y repentino viento había sofocado.

Llovía cuando lo contemplé.

Era una cosa trágica,

Tan oscuro y tan misterioso, en aquel yermo.

Era una cosa trágica. Las alas, que los azules habían quemado,

Parecían una cruz abierta en el húmedo arenal.

Su gran pico abierto guardaba un grito perdido y terrible.

 

                                (Estrela Solitária, 1940)

 

 

 

EL ÁRBOL

 

Trad. de Dámaso Alonso  y  Ángel Crespo

 

 

El alba: en su seno,

Marchito, apagado,

no cantaban pájaros.

Sobre el cuerpo frío

Sí extendió la nieve

Sábana de muertos.

 

Los ruidos primeros,

Roncos, sofocados,

Quebrar no podían

El silencio enorme,

Que subía lento

De muerte presente,

De muerte palpable,

Como un fruto antiguo.

 

Y no era la tristeza,

Sino un pasmo inquieto

Que todo invadía.

No cantaban pájaros.

Mas, maduro, alegre,

Cubierto de flores,

Feliz al halago

De los libres vientos,

Solamente el árbol

No participaba

En la fúnebre hora,

Y brincaba loco

Desgreñado y bello,

De rocío húmedo,

Cubierto de flores.

 

 

 

LA TRISTEZA DE LA TARDE

 

Trad. de Dámaso Alonso  y  Ángel Crespo

 

 

La tristeza de la tarde es leve y alta.

Viene de la ciudad y sube al aire igual que una humareda.

La tristeza de la tarde envuelve los árboles delicados,

Envuelve jardines crepusculares.

La tristeza de la tarde viene de las agonías diarias,

De los niñitos enfermos, de los amantes infelices, de las lágrimas de los pobres.

 

La tristeza de la tarde viene de las grandes partidas,

De los sollozos de adiós, para los viajes y para las incomprensiones.

Miro la tristeza de la tarde caminar por el espacio.

Invadirá los cuartos de los que van a morir, se arrojará de bruces sobre las cunas,

E iluminará el alma de todos los poetas.

 

 

 

GÉNESIS

 

Trad. de Dámaso Alonso  y  Ángel Crespo

 

 

La oigo, ciega, avanzar por el mundo secreto

En que reina y domina sin clemencia.

La oigo mover, llegar, entre plantas y flores

Y fríos animales — formas raras.

 

Las voces que en las aguas se extendían,

Contenidas están y apagadas: silencio

Que la lámina fría de su cuerpo divide,

Verde, terrible, desolado, estéril.

 

El vacío mirar que devora el abismo

Distingue allá en la faz líquida de lo oscuro

La luz aun n engendrada todavía..

 

Ella es la esencia de la vida, la indiferente

De cuyo seno brotarán amargos frutos

Condenados al amor, al sueño y a la muerte.

 

 

 

RETRATO

 

Trad. de Dámaso Alonso  y  Ángel Crespo

 

 

Recordaba un pájaro del mar.

La mirada era aguda,

Un mirar lleno de misterio

De las oscuras distancias.

Un mirar frío y brumoso,

En el que posaba la poesía

De las regiones crueles.

Un mirar grave, serio, atento

A los violentos impulsos.

 

Recordaba un pájaro del mar.

Los cabellos olían a las flores,

Y plantas sumergidas.

Los cabellos desgreñados

Reflejaban el verde sombrío

De las líquidas planicies.

 

Recordaba un pájaro del mar.

Los labios cerrados

Eran túmulos en que dormían

Secretos que no se libertarían nunca.

 

La soledad había moldeado su rostro,

Un rostro en que la sonrisa

Estaba ausente o muerta.

Parecía hecha para durar tanto

Cuanto las aguas amargas

Nacidas para nunca marchitarse.

 

Parecía un pájaro del mar.

Se desprendía de su naturaleza

Una ardentía salvaje.

Nada pedía y no quería nada

Sino el silencio y la libertad.

 

 

 

MOMENTO

 

Trad. de Dámaso Alonso  y  Ángel Crespo

 

 

Deseo de no ser héroe ni poeta,

Deseo de no ser sino feliz y en calma.

Deseo de las voluptuosidades castas y sin sombra

De los fines de almuerzo en las casas burguesas.

 

Deseo manso de los cántaros de agua fresca,

De las flores eternas en los vasos verdes.

Deseo de los hijos que crecen vivos y sorprendentes,

Deseo de vestidos de lino azul de la esposa amada.

 

¡Oh! no las tentaculares embestidas hacia lo alto

y el tedio de las ciudades sacrificadas.

Deseo de integración en los cotidiano,

 

Deseo de pasar en silencio, sin brillo,

Y desaparecer en Dios — con poco sufrimiento

Y con la ternura de los que la vida no maltrató.

 

 

 

LA PARTIDA

 

Trad. de Dámaso Alonso  y  Ángel Crespo

 

 

Quiero morir de noche.

        Las ventanas abiertas,

Los ojos contemplando la noche grande.

 

Quiero morir de noche.

        Iré separándome poco a poco.

Desligándome muy despacio.

La luz de las velas moldeará mi rostro lívido.

 

Quiero morir de noche.

      Las ventanas abiertas —

Tus manos pondrán agua en mis labios

Y mis ojos beberán la luz tristes de tus ojos.

Los que vendrán, los aún no conozco,

      Estarán en silencio

      Puestos en mi los ojos.

 

Quiero morir de noche.

      Las ventanas abiertas —

Los ojos contemplando la noche enorme.

 

Poco a poco me veré pequeño de nuevo, muy pequeñito.

La cuna se mecerá en la sombra de una sala.

Y en la noche, medrosa, una vieja coserá un gran muñeco.

Una luz roja iluminará el dormitorio.

Y los pasos resonarán quebrando el silencio.

Después, en la tarde fría, un sombrero rodará por una calle.

 

Quiero morir de noche.

     Las ventanas abiertas —

Mi alma saldrá para muy lejos, para muy lejos del todo.

 

Y cuando todos sepan que ya no estoy

Y que nunca más volveré,

Habrá un segundo, en los que están

Y en los que han de venir, de total comprensión.

 

 

 

Extraídos de la REVISTA DE CULTURA BRASILEÑA. Número 13, Tomo IV, Junio 1965. Editada por la Embajada de Brasil en Madrid, España.


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