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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


GILBERTO NABLE 

 

 

Gilberto Tadeu Nable nasceu em Aiuruoca, pequena cidade do sul de Minas, em 1954. Ali passou a infância e parte da adolescência. Formou-se em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais no ano de 1977. Publicou Elegias Urbanas e outros Poemas em 1988, e Menino Abstrato (conros) em 1995, ambas edições do autor em pequenas tiragens. Publicou também  Percurso da Ausência ( 7 Letras, 2006) e O Mago sem Pombos (7 Letras, 2008).

 

“(...) gostei muito do que li. Não apenas pela qualidade, evidente, de seus versos, no rigor construtivo da composição, na elaboração das imagens, mas também por dois fatores algo negligenciados por muitos dos novos poetas: um teor comunicativo aliado à densidade reflexiva; esta, baseada nos fragmentos, fissuras e recosturas da experiência cotidiana; aquele, escapando da gratuidade hedonista que desconsidera o universo do leitor.” Antonio Carlos Secchin

 

Autor recomendado por Renata Pallottini para o nosso Portal de Poesia.


 

De

PERCURSO DA AUSÊNCIA
Rio de Janeiro: 7Letras, 2006.

ISBN 978- 857577-2645

 

IV

 

Homem distante, meu pai.

Entanto gostava de pássaros.

 

Comigo não se importava tanto,

criança sem rima e canto.

 

A mim, tratador de canários,

cabia limpar as gaiolas,

 

soprar as cascas do alpiste,

e pendurá-los, alegres, ao sol.

 

E eram vários, belos, coloridos:

os canário-belgas, os pintassilgos.

 

Solto, o azulão voava rápido,

no próprio relâmpago das asas,

 

e pousava no dedo de meu pai,

como nas mãos de um mágico.

 

E meu peito de menino se acendia,

em pura admiração e espanto.

 

Homem distante, meu pai.

Ternura em cerca de espinhos,

 

como que fechada em armário,

em dez chaves trancada.

 

 

Eles eram muitos cavalos

 

         Para Luiz Ruffato

 

Como se houvesse um contador cruel,

dividindo horas no meu crânio,

e, lá no fundo, atrás das orbitas,

conjugasse as noites e os dias.

 

E de presente me desse o sono calmo,

e, a seu prazer, a incontável insânia;

seu remoer de instantes e entranhas,

o que não se diz, o que se cala.

 

Triste viagem através das coisas,

do armário eviscerado nos sapatos,

nessa calma vegetal da noite.

Os olhos arregalados no escuro,

 

a procurar na vertigem o resto,

o que sobrou do trabalho e dos dias,

gravitando no quarto feito lua,

em torno de mim e de Saturno.

 

Até que as luzes da cidade,

me devolvam ao abandono,

grata lesma insone,

a transitar o corpo pelas ruas,

 

a dar bons-dias e a trotar,

solto cavalo no rebanho.

 

O MAGO SEM POMBOS

De

O MAGO SEM POMBOS
Rio de Janeiro:  7Letras, 2008
ISBN  978- 857 5774878

 

 

VI

 

         Para Antonio Carlos Secchin

 

Tanto faz como tanto fez.

Mas minha alma não se alegra.

Ela se compraz em coisas belas,

e vulgaridades diversas.

 

Os rios correm para o mar.

A vida corre para a morte.

Entre uma e outra coisa — dizem —,

é possível escrever uns versos.

 

Restos de vozes na varanda.

Zumbido de grilos, travesseiros

daquela humilde macela,

tecidos em pesponto e conúbio.

 

Onde mais sou é aonde não vou,

nesse vôo de asas quebradas.

Asas quebradas, palavras partidas:

a velha boca, murcha e triste,

 

anunciando os cadáveres, a queda,

que não é dos céus, mas da escada,

que me conduz ao primeiro andar,

onde a chave procura a porta,

 

e me abre a sala vã de toda sala,

a luz parada sobre a mesa posta,

preparada para a ceia, afinal,

onde se assentam os condenados.

 

Não faço qualquer figura entre eles,

acostumados que estão a própria sorte.

Não ha mesmo lástima ou revolta

a perturbar nosso calmo repasto.

 

Som comum de colher no prato,

amigos sorvendo a ultima sopa,

servida entre quatro paredes,

como se tudo fosse justo e exato.

 

XIX

 

Certas lembranças são sem sentido,

embora se recomponham a cada manha.

Como se faz com os sonhos desfeitos,

e justo assim» fragmento a fragmento.

 

Fosse somente na inconclusa tarde

o neutro olhar sem pensamento,

sem o remoer de tempos findos.

0 que sobrou - cinzas - as levasse o vento.

 

Meu coração não sabe o que perdeu,

e sente tantas coisas — vai e vem,

como se pudesse escolher o mundo.

E pudesse viver na genuína alegria

 

que nunca tive, nunca foi minha.

 

 

 

ANTOLOGIA SELVAGEM: UM BESTIÁRIO DA POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA/ Alexandre Bonafim, Claudio Daniel e Fábio Júlio (org.) - Franca, SP:  Cavalo Azul, 2025.  372 p.  ISBN 978-65-83644-11-4
Exemplar da biblioteca de SALOMÃO SOUSA.

 


Dois cavalos

            Existem dois cavalos, o estético e o político, e
       que o romancista hispano-americano deve montar
  
      
em ambos ao mesmo tempo, ou ainda que talvez
    estes cavalos sejam um só e o mesmo, porque toda
    obra literária fiel a suas premissas e lograda em sua
       realização, em sua expressão, tem um significado
                                                                      social.
                  Carlos Fuentes - Anais do 1º. e 2º Simpó-
            sios de Literatura Comparada. Belo Horizonte,
                                                           UFMG, 1987.

1
Para ser um poeta latino-americano
é preciso saber montar em dois cavalos,
conforme o que nos circos se apregoa:
dois cavalos, mas de uma só vez,
um pé no estribo de um, outro pé,
em pelo, firme, no lombo do outro.

2
Se montado apenas no cavalo estético,
é bem menor o risco de cair da sela.
Um cavalo arriado e que tem rédea,
animal de marcha que gosta de bridão,
penachos, antolhos, loro e barrigueira,
E nem dá coice, rombo ou tropeção.

3
O cavalo político é animal coiceiro,
não aceita arreio, cismo de empinar,
destemperado, refuga e corcoveia.
É um corcel de cabeça empinada,
pelagem, orelha e a crina eriçada,
amigo encantado do galope ligeiro.

4
O poeta latino-americano deve
saber montar nesses dois cavalos,
um bem armado e o outro no pelo,
meio cavalo de Troia, meio unicórnio.
E não pode ficar tão longe do seu povo:
jóquei de clube, mas peão de auditório.

 

*
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Página publicada em março de 2026

Página publicada em agosto de 2009.


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